Ninguém sabe nada dos mundos que habita….

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.

T.S.Eliot

Eu não sou o tipo de pessoa que se preocupa com a idade. Cheguei aos Quarenta anos, no ano passado, alcançando finalmente a idade que eu sempre desejei ter. E a pergunta que me fazem é: o que mudou? Eu não esperava grandes mudanças. Eu queria poder dizer em voz alta a idade e ver como soava. É agradável. São 4 décadas inteiras… e confesso que desde a manhã seguinte ao dia vinte e nove de novembro, penso em como será dizer: meio século de vida. Uau…

Eu me lembro que ao dizer a minha idade, quando questionada a esse respeito, colhia um olhar incrédulo. Nunca tive a idade aferida pelo documento. Aos dezoito, precisei apresentá-lo para assistir a um filme. Confesso que me aborreci. Levou dezoito anos para chegar lá e poucas horas para ser questionada. Alguém comentou se tratar de um elogio. Mas eu considerei uma afronta.

No segundo dia de trabalho — após anos de estudos, estágios, publicações — um paciente ocupou o seu lugar na poltrona à minha frente e depois de observar-me atentamente por alguns minutos, atirou a pergunta: você não é jovem demais para ser psicanalista? Respirei fundo e sorri, como costumo fazer nas horas mais estranhas.

Eu não posso dizer que me acostumei em ser considerada nova demais para algumas coisas e velha para outras. Para os inquisidores de plantão, nunca teremos a idade certa. Ou estamos atrasados ou adiantados. Talvez por isso, tenha encontrado outros silogismos para me ocupar: idade, peso, altura, tipo de roupa, a cor dos meus cabelos e outros itens não estão na minha lista…

As minhas somas são outras… e eu as faço em silêncio: Quantos lugares visitei? Estive em inúmeras cidades. Algumas foram para sempre, outras para nunca mais. Quantas pessoas coleciono? Poucas, nunca fui de multidões. Quantos livros eu li? Bem menos do que gostaria. Quantos eu re-li? Uma dúzia e meia… talvez mais. Quantas xícaras eu tive? (…)

Opa… está é uma pergunta delicada que me obriga a percorrer cidades, momentos, pessoas, livros. E eu precisaria me sentar à mesa — como fazia na infância, dentro de uma manhã de sábado para traçar um diálogo sobre tudo isso.

Na minha infância eu tinha uma daquelas canequinhas de ágata… que era levada à mesa, com leite caramelado — o meu favorito — assim que eu passava pela porta da cozinha. Eu escalava a cadeira para me sentar. Nas primeiras vezes, recebia ajuda. Depois eu percebi que conseguia sozinha e considerei um grande feito. Houve alguns pequenos acidentes, como me apoiar na toalha… Mas nada que ocasionasse em algo terrível. Foram pequenos sustos que até hoje provocam risos.

Eu gostava de sentir os meus pés no ar, a balançar. Adorava a sensação de liberdade que esse movimento me proporcionava. E entre as mãos: a caneca. Adorava lamber os bigodinhos brancos que o leite ‘pintava’.

Desde pequena que me demoro a despertar pelas manhãs por acreditar que elas pertencem aos pássaros e não a mim. Foram muitas as vezes em que acordei em meio a um gole mais quente de leite na língua… marca que me acompanhava pelo resto do dia.

Alguns anos depois… ganhei uma caneca de louça, toda colorida e um pouco maior. Minhas mãos estavam mais firmes e não causariam um possível acidente — precauções maternais. Foi a prova definitiva de que eu havia crescido. Tinha dez anos… uma década inteira de vida e algumas pessoas diziam que eu era uma mocinha, enquanto outras faziam questão de afirmar que eu ainda era uma menina…

Anos mais tarde, eu e mio babo saímos para caminhar no final da tarde pelas ruas cheias de subidas e poucas descidas da nossa cidade. Era um hábito comum… engatar as mãos para passeios sem compromissos — em silêncio para melhor apreciar a paisagem.

No meio do passo, nos deparamos com a vitrine de uma lojinha cheia de “badulaques”. Uma novidade a nos chamar. Entramos e depois de nos divertirmos com o som do sino preso à porta, passeamos entre prateleiras — feito turistas — e nos deparamos com uma prateleira tomada por canecas de diferentes estilos-tamanhos-cores.

Foi a primeira vez que escolhi a minha própria xícara. O mio babo achou graça da minha empolgação e em sorrisos, enquanto caminhávamos pelas calçadas, de volta para casa, disse com seu vozeirão — certas coisas fazem a gente perceber que os filhos crescem mais rápido do que nós somos capazes de acompanhar…

O formato das xícaras é algo que chama a minha atenção nos cafés que visito… Ao visitar o Mirante 9 de Julho… esbarrei numa xícara de ágata — adquirida com uma bebida, um latte muito bem preparado… por R$25.

Já tive muitas xícaras… umas se quebraram, outras eu perdi em meio a mudança. De algumas eu me desfiz porque o tempo delas em minhas mãos passaram. Não sou uma colecionadora. Não gosto de objetos amontoados, a juntar pó. Gosto de sentir o objeto em mãos… sabê-lo em uso… a trocar energia comigo. 

Azuis, pretas… com desenhos, riscos… diferentes tamanhos. Umas são apenas para tomar o cappuccino… outras para o chá, outras para as canetas, lápis…  Mas o leite caramelizado com canela não mais. O sabor e a sensação do calor entre as mãos permanecem em minhas vilas… é algo que pertence a minha infância e lá permanece: intocável.

Lembro-me que eu e Marco, certa tarde de junho, saímos para um passeio pela Liberdade. Entramos e saímos de inúmeras lojas e vimos todos os tipos de apetrechos para a cozinha. E, de repente, em uma daquelas prateleiras, uma xícara preta com escritos em vermelho. Compramos duas… a prova definitiva de que abandonei um projeto de vida — um apartamento, um cachorro e uma prateleira de livros — para abraçar outro… 

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “Ninguém sabe nada dos mundos que habita….

  1. tão familiar e tão bonito

    leio e torno a ler, eu e a minha avó partilhávamos o gosto pelo café e tínhamos cada uma xícara.

    como gosto dos teus escritos, Lunna

    um abraço

  2. Eu sou completamente apaixonada por xícaras, você sabe. Tento mais de duas dúzias delas. Ainda tenho na memória a xícara de minha infância. De ágata, verde musgo com florzinha vermelha.
    Caminhei pelo seu texto como se fosse meu. Adoro quando suas histórias se completam nas minhas.
    É como se eu tivesse na janela te espiando… e eu estava.
    Amo tu!

  3. Adorei esse post, foi um viajar agradável pelo tempo, eu não me lembro de ter xícaras. Mas tinha copos americanos, não sei se você conhece. Tomava leite com café neles. E sempre ouvia um explodir no chão.

    Gr bj

  4. Adoro poder visitar essas suas memórias… É como se a alma fosse convidada a dar um passeio confortável e aconchegante. E eu fiquei aqui revirando minhas lembranças tentando encontrar uma história minha para se juntar a sua.
    E me lembrei que na escola a gente usava canecas de plástico. Serviam leite achocolatado. A merendeira enxia uma xícara com outra e nem sempre reparava na criança na fila, então os mais espertos repetiam.

    Sabe que eu nunca mais tomei leite achocolatado tão gostoso?

    Bisous!

  5. Lunna, gostei de lembrar dos “bigodinhos” hoje quase inexistentes devido a grande quantidade de produtos químicos (“conservantes”) no café, no leite e no açúcar. Nosso bigodinho fica diferente ou transparente.
    Adorei esse post,
    🙂
    bacio,
    Manoel

  6. Que texto, heim? Adorei.
    Até pensei, queria ter escrito isso, sério mesmo.
    Tão bom quanto a gente tem nossas próprias medidas, não é?
    A sociedade fica ditando regras disso e daquilo e a gente nem se dá conta que vai se rendendo e pronto, de repente, somos outra pessoa e nem nos reconhecemos no espelho.
    Assustador. Que bom que existem textos, pessoas que nos inspiram. Quem me acordou para isso foi Virginia Woolf. Li Orlando e tirei uma cortina dos olhos. Foi maravilhoso.

    bj

  7. Nossa Lunna, que delícia de texto.
    Esse trecho aqui me pegou menina:

    “…nunca teremos a idade certa. Ou estamos atrasados ou adiantados.”

    Eu tenho 68 e estou na fase de me permitir todas as doideras e justifico que sou velha o bastante para isso.

    beijinho

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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