A volta dos manicômios

Faz alguns anos que me causa incômodo o tema… em 2019, o atual governo havia liberado a compra de aparelhos de eletrochoque para o SUS e a internação de crianças e adolescentes em hospitais psiquiátricos, acendendo o receio de que seria inevitável a volta dos manicômios, estruturas que ficaram conhecidas como depósitos de pessoas.

Mas a última notícia caiu feito uma bomba, o Governo anulou — com sua conhecida caneta Bic — todos os avanços conquistados no tratamento da Saúde Mental nos últimos anos, liberando investimentos no velho modelo psiquiátrico que ainda não foi de todo superado. Quem é da área sabe que o esquema segue em funcionamento em muitos cantos do país, clandestinamente ou disfarçados de clínicas antiestresse.

A notícia me fez voltar os olhos para a literatura, que aborda o tema de tempos em tempos. A Scenarium lançou o livro-história escrito por Mariana Gouveia — corredores, codinome: loucura — em que a personagem da trama é uma menina que grita contra os abusos cometidos pelo padrasto e acaba apontada como louca.

Uma história comum que, infelizmente, se repete aqui e ali. A maioria de nós, se não conhece alguém nessa situação, ouviu relatos a respeito.

Desacreditada e rotulada, a própria mãe leva a personagem para um manicômio e não foi necessário exame que apontasse um problema de saúde mental na menina. A Diretora do lugar era irmã do abusador e facilitou todo o processo, trancando-a naquele lugar e submetendo-a aos conhecidos rituais de torturas, oferecidos nesses cenários de horror.

Pessoas eram arrastadas e trancadas, independentemente de seu quadro clínico, em sua maioria: mulheres que fugiam as regras da família — os tais valores, pelos quais pessoas de bem gostam de gritar e enaltecer; ou que eram fardo para os maridos que queriam outras esposas, mais jovens e bonitas.

Esquecidos… eram submetidos a tratamentos diferenciados: novos abusos. No Brasil, o uso da terapia de eletrochoque era bastante comum, além de medicamentos em fase de testes, que faziam desses “pacientes” meros ratos de laboratório.

A literatura buscou suas referências nesses “castelos de horror”. Mariana não foi a única a retratar essas “instituições” financiadas pelo governo ditatorial dos militares, que usavam a loucura como justificativa para certos comportamentos.

Lima Barreto escreveu diário do hospício, narrando suas “aventuras” por um manicômio, para onde foi levado pela polícia para “tratar do alcoolismo”. No diário relata como foi viver em um hospício e em Cemitério dos vivos utiliza-se da ficção para relatar a sua experiência com a loucura.

O que Mariana fez, foi semelhante… experimentou a sensação da loucura. Maria —personagem principal da trama — recorre a esse argumento, na tentativa de preservar a sua sanidade. Mas após tantos abusos, começa a questionar a própria lucidez e passa a acreditar que enlouqueceu de fato.

O romance é baseado em fatos que foram confidenciados a autora e não é possível não se sentir incomodado com a narrativa… independentemente de você conhecer ou não a realidade dos hospícios brasileiros.

Em São Paulo, um incêndio destruiu a memória do Juquery — uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil, situado em Franco da Rocha — ao atingir o prédio administrativo. As únicas vítimas foram os próprios residentes do local. Todos os documentos e relatórios foram perdidos, impossibilitando saber o verdadeiro número de pessoas que por ali passaram, estima-se que mais de 18 mil pessoas foram confinadas ali, longe dos olhos da sociedade paulista que não queria conviver com os “seus loucos”.

Os últimos pacientes do local, que fechou suas portas de maneira definitiva em 2021 vivem atualmente em RT — residências terapêuticas — casas nas quais vivem em sistema familiar com outras pessoas em sofrimento psíquico, com o apoio de profissionais, mas isso pode mudar a qualquer momento. O atual governo não acredita nesse tipo de tratamento e parece preferir as antigas masmorras de confinamento.

Holocausto brasileiro, escrito pela jornalista Daniela Arbex é outro livro que resgata a história de 60 mil mortos em um hospício mineiro, conhecido por Colônia, situado em Barbacena. Epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas e meninas que engravidaram antes do casamento engrossavam o número de pacientes. A maioria não tinha tinham doença mental comprovada.

No hospício, perdiam seus nomes e suas roupas. Viviam nus, comiam ratos, bebiam água de esgoto, dormiam ao relento e eram espancados. Nas noites geladas, cobertos por trapos, morriam de frio, pela fome ou por doenças. Em alguns períodos, morriam 16 pessoas por dia nesse manicômio.

Os cadáveres, com a conivência de médicos e do Estado, eram vendidos para Faculdades de medicina e quando não havia compradores, os corpos eram banhados em ácido no pátio, diante dos internos.

A literatura ao narrar essas histórias, ocorridas entre os muros desses cenários de filme de horror, tenta evitar que essas atrocidades voltem a acontecer. Mas o atual Governo se mostra empenhado em repetir essa realidade…

Através da Portaria 596 revogou programas que visava reintegrar pessoas com problemas de saúde mental à sociedade. E através do Ministério da Cidadania abriu Edital para investimento em hospitais psiquiátricos, dando aval para trazer de volta todo o horror representado por essas instituições, que não tinha pessoal especializado no trato diário com pacientes e não se preocupava em relatar se essas pessoas, de fato, deveriam ser apartadas do convívio social.

Antigamente, os registros nesses hospitais eram “de uma violência enorme”. “Identificavam as pessoas como ‘ignorado preto um’, ‘ignorado preto dois’. Havia uma completa violação da dignidade dessas pessoas.

A quem interessa repetir esse horror e trancar pessoas por uma vida inteira em condições sub-humanas? Conhecendo a realidade brasileiro, me faz acreditar que há muitos interesses envolvidos…

Será que alguém se atreveria a listá-los?

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

4 comentários em “A volta dos manicômios

  1. Bem pior que o lado obscuro e desconhecido da chamada doença mental, é esse lado louco, negro, violento e terrífico de alguns que se dizem sãos. Que relato incrivel e arrepiante.
    Não posso nem quero acreditar que a história se repita no Brasil com a assinatura dessa portaria.

  2. Republicou isso em O Outro Ladoe comentado:
    Texto necessário para esses tempos sombrios:

    “A quem interessa repetir esse horror e trancar pessoas por uma vida inteira em condições sub-humanas? Conhecendo a realidade brasileiro, me faz acreditar que há muitos interesses envolvidos…

    Será que alguém se atreveria a listá-los?”

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