40 — Para o caso de chover na tua rua

Cara mia,

Nos falamos há pouco e depois da despedida em meio a risos escamoteáveis provocados por nossas maldades-recentes, preparei uma xícara de chá e fui para a varanda apreciar a paisagem noturna-urbana que tanto gosto.

Naveguei até o seu quintal… ouvi passos e latidos, apreciei os vôos e o ir e vir das farfallas. Caminhamos lado a lado pela tua paisagem… e fui escrevendo na imensidão do ar, como tanto gosto, enquanto você apontava suas direções favoritas.

Somos duas observadoras de pássaros e tudo que guardamos vira narrativa em algum momento. Quando? Ah, isso quem decide não somos nós… ou somos? 

A minha escrita começa por dentro — nas paredes do corpo, esse calabouço de onde nem sempre é possível escapar. É um lugar perturbador… onde impera o caos, o barulho e os assuntos todos, variados e contraditórios — alguns recentes. A maioria, no entanto, é coisa antiga.

Eu gosto imenso deste refúgio… onde passo algumas horas todos os dias. Tem uma poltrona-velha-gasta-de-couro no canto — com os moldes do meu corpo — ao lado de uma luminária que pede reparos e uma pilha de livros que se altera de acordo com as estações do ano.

Ali o tempo é outro… começo um escrito na primeira hora — com os sons da noite e ao finalizá-lo… é manhã e os pássaros cantam nas árvores da alameda.

Há uma obra no prédio, com seus sons de metais… por um instante eterno, sou atraída pelas faíscas douradas do ferro sendo cortado, até que dentro de mim tudo se orienta e cala.

E ficamos apenas nós duas novamente… a tua imagem eternizada entre árvores, cães, pássaros e eu a disparar o botão da câmera. Apenas um clique… e essa missiva se escreve. Houve ensaios-outros… escritos inacabados — é um hábito antigo… abandonar a folha onde escrevo, dentro dos livros, cadernos, em gavetas ou no bloco de notas do celular.

E ao retornar a eles, às vezes, ocorre o espanto… percebi faz algum tempo que gosto de minha escrita, aprecio o meu traço e as frases que forjo-construo-edifico. Quando me ouço em voz alta, sinto qualquer coisa de satisfação, como se fosse o instante em que antecede uma xícara de café. Trago pesado aquele aroma peculiar de água borbulhante e erva macerada entre os fios das mãos.

Claro que se trata de uma condição de momento — uma espécie de tempestade a exibir  raios e trovões —, porque há inúmeros sintomas em minha amálgama, que me fazem ir do céu ao inferno em minutos e, ao contrário disso também…

O que orienta o meu corpo-alma é a necessidade de contar histórias-incidentes… narrar certas conversas que me assombram desde o exato instante que atracam em minha matéria.

Não sou o tipo de pessoa que se deixa tocar por tudo e todos. Sou excêntrica-exigente e não me contento com qualquer coisa. Gosto dos exageros, excessos. Da fúria que se percebe na superfície da pele… do ódio nos olhos e do sorriso nervoso.

Percebi que um tipo específico de pessoa-personagem se repete à minha volta… observo-os e me impressiona como ações-emoções-falas-gestos se oferecem em reprises, como um filme. E me espanta e incomoda como consigo encaixá-los todos numa única peça, como aquelas bonecas russas — as matrioshkas.

Sylvia anotou em seu velho caderno ‘depois que algo acontece com você e chega a hora de registrar isso, você dramatiza exageradamente ou minimiza o ocorrido, exagera nas partes erradas e ignora as importantes. De todo modo, escreve exatamente do jeito que queria.

Melhor tradução… impossível.

Gosto imenso dessa força motriz, desse elo com coisas minhas-outras-inventadas-reais que me leva por aí e me deixa à deriva, longe de tudo, perto de nada. Quando regresso, transbordo e a escrita avança sem cuidado, atravessa espaços — a minha própria matéria — e chega a destinos improváveis, como você… que não existiria em minha realidade, não fosse a escrita, que traça mapas no meu corpo e aponta cardeais, o meu favorito desde sempre é o Norte, que tem outros nomes tantos a depende do dia, do mês, da estação do ano, da fase da lua e do meu humor.

Ah, minha cara, eu preciso de uma xícara de café e enquanto degusto desse líquido, visitarei os teus quintais para um dedo de prosa acerca de seus escritos, agora que lhe falei dos meus.

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “40 — Para o caso de chover na tua rua

  1. Vim aqui depois de mergulhar em Try e vagar pelo quintal. Já é noite aqui. Estou em um passado que você já viveu e meu corçaão aquecido pelo seu olhar.
    Amo tu imenso! ❤

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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