44 – Questões há na realidade, que nunca devem ser respondidas

Marco,

Soube há pouco que o inverno chegou cedo; eu estava acordada na hora anunciada. Perdi o sono dentro da madrugada e vim para a sala ler o meu septum porque depois de folhear reticências nos últimos dias de outono, dentro desse mês que é seu-meu-nosso, precisava revisitar-me em outras datas-estações.

E ao virar a página, encontrei uma folha escrita por mim que tinha você como destino. Estava fora de lugar de deve ser um desses caprichos do destino, que parece se divertir com o espanto que provoca na matéria rarefeita que sou. Dizia ali “não pensei em absolutamente nada no dia de hoje. Deixei o dia correr sem qualquer outra lembrança de nós dois. Fui sorvendo os nossos movimentos pelas calçadas do bairro, numa lentidão típica de quem sabe que não vai a lugar algum. De mãos dadas com você, fomos a nossa padaria, ocupamos o nosso lugar, brincamos com a galera que nos atende e pedimos o de sempre. É impressionante como nos repetimos. Voltamos para casa com um saquinho de pão e a certeza de que nos falta algo e sorrimos os dois ao dizer em voz alta: um cachorro. Somos uma família, temos uma casa, mas não temos um filhote para acompanhar essa parceria que sabemos… irá longe“.

Recordei a chegada do nosso Patrick, ainda menino, tão pequenino… eu tentei avisar que ele não iria dormir sozinho na cama que você providenciou para ele. Você não me ouviu. O colocou lá e pouco depois, ele começou a chorar-uivar sua solidão. Fui buscá-lo, acomodando-o nos meus espaços, onde cresceu.

Não foi o único presente que ganhei de você em todos esses anos… mas foi o melhor. O nosso amigo de quatro patas com quem se engalfinhava na grama. A sua mãe adorava vê-lo… “duas crianças” dizia, satisfeita em vê-lo feliz de novo.

O nosso amigo nos deixou, a sua mãe não está mais por aqui e muita coisa mudou a nossa volta. Mudamos de casa-apartamento. Eu fui e voltei de muitos lugares-cidades-países. Escrevi o meu romance e inventamos a Scenarium que era para ser apenas coisa minha-mínima. E ganhamos uma cachorrinha, a que nomeei Jane dog… que te elegeu o humano favorito dela. Alguém com quem compartilhar o carinho que tenho por ti.

Nossa história tem vários capítulos… começou em dois mil e dois, no ano seguinte o amigo virou amante e depois de tantas voltas ao redor do sol e de nós mesmos, seguimos sendo o que somos: amigos e amantes de silêncios e diálogos, olhares e gestos.

Sigo amando unir as minhas mãos as tuas e sair por aí… somando outonos! Amo-te

Tua,

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

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