Dia de ir as compras

Não gosto de ir ao supermercado para fazer compras — principalmente aos sábados, porque parece ser o dia favorito de pessoas estranhas — ávidas por cuidar da vida alheia ao fazer suas compras… sem listas e no menor tempo possível. As filas são quilométricas e a impaciência impera nos movimentos das figuras que empurram seus carrinhos pelos corredores.

O pior é quando agem como se o meu carrinho fosse uma extensão do carrinho delas. Outro dia… tentava decidir entre fusille ou penne… calculando mentalmente qual ficaria melhor com um molho de iogurte e ervas. Decidida a questão peguei a minha conhecida caixinha-azul — de penne — e a coloquei no carrinho.

Uma dessas senhoras — personagem de algum filme de terror dos anos oitenta — emergiu do nada, bem na minha frente, com uma embalagem — mesmo tipo e marca. Não se iluda. Não se tratava de gentileza ou bondade que regia o ato daquela criatura aparentemente dócil que disparou como se fosse a mais experiente das criaturas: essa é mais barata e a qualidade é a mesma. E como se fossemos velhas amigas, ela simplesmente colocou o pacote dentro do meu carrinho, devolvendo a minha caixinha à prateleira. 

Assisti impávida à cena surreal de teatro amador. Boquiaberta… olhei para todos os lados à procura de uma testemunha daquele gesto. Por um instante, achei que estava em uma crônica escrita por Roseli Pedroso. Um pouco atônita — agradeci — e disse preferir a minha caixinha “mais cara”.

Bastou para a tal senhora se transformar. Ela dobrou de tamanho. Completamente alterada, passou a vociferar em alto som, competindo com a voz enjoada que anunciava as ofertas nas caixas de som espalhadas no teto. Com o dedo em riste, disse dúzias de impropérios e finalizou com um: ingrata.

Eu soube como se sentem as vítimas de um assalto, com as mãos espalmadas no ar. E a mulher com uma arma pronta para o disparo, em mãos, apontada para mim.

Peguei o meu carrinho com a tal embalagem abrasileirada de macarrão e fugi pelos corredores — certificando-me de que não era perseguida pela psicopata das massas.

E, depois de pegar os ingredientes que faltavam em minha lista mental de compras, voltei ao corredor das massas — tomando o devido cuidado de verificar se a mulher não estava a espreitar-me. Agilmente, devolvi o tal pacote-azul-nacional, peguei a minha estimada caixinha e corri para o caixa, certificando-me de não estar sendo vigiada. Sabe como são os stalkers?

E eis que ao chegar ao caixa… avistei a tal mulher-senhora-figura-dos-infernos na outra fila. Dessa vez ela discutia com um rapaz sobre suas opções — erradas — de compra. Ele havia escolhido a marca errada de sabão em pó.

Eu me encolhi atrás da geladeira de refrigerantes… providencialmente colocada ao lado dos caixas para que as pessoas — sem listas — lembrem-se de itens que não pretendiam comprar. A mulher atrás de mim divertia-se horrores com a cena, porque ela não era uma das vítimas daquela psicopata. Tive o meu dia de Meg Ryan, a fugir de Tom Hanks em you´ve got mail… filme de 1999.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana Aneli Claudia Leonardi Darlene Regina
Mariana Gouveia Obdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “Dia de ir as compras

  1. Ah, que delícia de texto. Eu ser que não deve ter sido um momento agradável, mas rendeu um texto muito divertido. Eu também ri horrores aqui ao te imaginar fugindo da mulher pelos corredores.

    bisous

  2. Adorei a situação inusitada, detalhe que est tipo de coisa costuma ocorrer mais em cidades do interior, mas enfim, nunca sabemos onde se encontra a próxima julgadora de comida alheia!

  3. Tem algumas senhoras que vão ao mercado apenas para cuidar das compras alheias. Aqui em minha cidade tem várias que são solitárias e vão bem cedo ao mercado para tomar o café da manhã, servido por eles. E enquanto comem pedacinhos de bolo e tomam uma chavena de café, tagarelam.

  4. Lunna, que aventura cara mia!! E até eu, participei dessa comédia pastelão? Hilário! Poderia ser personagem de Almodóvar também. Mas, fala sério: personagens assim, são engraçados somente na ficção. Já na realidade…

  5. Eu ri horrores da cena e fiquei imaginando o seu olhar pasmo com a situação.
    Gente, essas senhoras são realmente figuras inusitadas, custo a crer que sejam reais, pior que são.
    Ao menos rendeu um texto muito gostoso

  6. Assim como a Lua comecei a rir por aqui, no começo da manhã, com o sol a raiar.
    Foi muito bom ler-te agora nesse seu dia de compras, digamos, inusitado.

  7. Ah, que delícia de texto. Eu sei que não deve ter sido nada agradável, mas rendeu um texto muito divertido. E eu também ri horrores aqui ao te imaginar fugindo da mulher pelos corredores.

  8. Supermercado se tornou filme de terror – Entre preços abusivos e pessoas malucas, o jeito é se esquivar e tentar sair de lá com a sanidade intacta.

    Beijos!

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