144 anos de Edward Hopper

Meu caro Edward,

Escrevo-te da minha janela porque parece certo e lúdico que o local seja este, onde chegam outras tantas, que eu espio como se fosse uma de suas telas. Tenho preferência pelo cair da tarde, quando as luzes artificiais começam a iluminar os espaços e são como faróis na noite escura.
Faz algum tempo que considero as janelas que espio, uma espécie de recorte de seu olhar. Eu não saberia dizer-te se antes de pousar o olhar em suas pinturas, eu tinha consciência desses retratos urbanos. Não me lembro quando aconteceu de eu me interessar por esses palcos…
Ma eu me lembro que era uma menina — com nove-dez anos — a viajar lugares, a entrar e sair de museus-galerias e outros ambientes vários quando me deparei com Eleven AM presa a parede do Grand Palais, que exibia na ocasião, outras 163 telas suas, dentre elas a mais conhecida: Nighthawks, que representa o estilo de vida enlatado dos Estados Unidos com qualquer coisa de perfeição.
Foi um misto de fascínio e encantamento o que eu senti. Fiquei parada diante da tela, presa a cada um dos detalhes que você pincelou. Não sei dizer quanto tempo se passou. Sei apenas que me senti convidada a sala de uma mulher que fazia o mesmo que eu: olhava para fora… do corpo e da pele.
Depois desse primeiro encontro, o vi em vários lugares. O seu estilo de observar a realidade e moldá-la através de seu traço, preservando pequenos detalhes que nos convida a conhecer os personagens que somos, deixou as telas e migrou — como fazem os pássaros — para outras… O encontrei no cinema. Muitos diretores encontraram no seu fascínio pelo elemento urbano, a resposta para certas cenas. Foi em A vitrine que o percebi com mais intensidade. Mas o vi em seriados contemporâneos e telenovelas.
Certa vez, ao passar por uma banca de jornal, lá estava você, na capa de uma revista. A sua figura saltou aos meus olhos. Mas, eu não sei porque razão, o pensava inglês, tanto quanto o poeta Eliot que nasceu nos Estados Unidos e foi se aconchegar na ilha britânica.
Ao ler a reportagem a seu respeito, alguém ousava interpretá-lo: “Hopper sempre sabe onde está a câmera“. A frase inteira me incomodou e, enquanto percorria calçadas, com a revista aberta e o olhar atento ao que era caminho-leitura-pessoas, eu a repetia como se fosse um eco.
Você sabia para onde olhar e isso é algo raro. A maioria de nós, olha e não vê. Somos todos orientados por uma espécie de cegueira que nos permite enxergar apenas o que queremos ver. Por isso, Eliot nos ironizou em seus versos: passaremos mil vezes pelo mesmo lugar até dar por ele. Algo que pode muito bem, nunca acontecer…
Quando me coloquei no lugar da sua personagem — uma mulher nua — a observei atentamente num primeiro momento. Depois me coupei do cenário e da janela. Olhei para dentro, como faço ao alcançar a fachada do prédio da frente até encontrar algo que me atraía. Gosto imenso de observar os elementos todos: as cortinas que tremulam ao vento, a posição da mobília. Por último, procuro por pessoas e a maneira como se movimentam por seus espaços-mundos-iluminados pelo sol ou pela luz das lâmpadas…
O que me agrada nesta tua tela, meu caro Hopper, é a nudez da personagem. É como eu me sinto diante da sua pintura. Transponho universos e troco de lugar com ela, por uma fração de segundos. Ocupar o lugar do outro não é tarefa fácil, mas eu aprendi isso com você. No começo relutava em deixar a minha matéria e repetir as linhas de Kafka, metamorfoseando em outra, um inseto que muitos acreditam ser uma barata.
A sua tela, meu caro, posicionou-me diante de mim e me obrigou a reconhecer-me, como se fosse um espelho onde procuro por vida-e-morte… traços meus que herdei de tantos outros.
É meu caro, você completaria 140 anos nesta sexta-feira de outono quente, se estivesse vivo. É certo dizer que estaria cansado. É como eu tenho me sentido nos últimos dias. Olhar lá para fora nunca foi tão difícil. Ainda bem que ao espiar a sua tela, o olhar se volta para dentro do abismo que sou e, como da primeira vez, permaneço imóvel por uma fração de segundos.
Por tudo isso, comemoro a sua existência e celebro a eternidade que abraçou ao pincelar os teus espaços, tornando-os meus.

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Um comentário em “144 anos de Edward Hopper

  1. Não sei por que, mas quando Hopper me vem à cabeça eu penso em solidão. É onde ele sempre me alcança.
    Lembro-me de uma das visitas que fiz para minha terapia e na sala da terapeuta havia dois quadros: um de Kandinsky e outro de Hopper. Kandinsky era movimento em minha cabeça, me dava movimentos.
    Hopper sempre me fez quieta. Por isso, ignorei a parede azul topázio e ficava sempre de costas para ela.
    Hoje, enfrentei ela aqui.
    grazie!

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