6 on 6  |  A… gosto da persona que escreve enquanto passeia calçadas!

6 on 6

Eu demorei a compreender o ritmo dos meus passos e a necessidade de movimento por calçadas. Sentir o lugar. Admirar a paisagem. Aprender os caminhos. Eu saia para as ruas e dificilmente repetia o traçado. Ou virava uma esquina antes ou uma depois. Seguia em linha reta e, de repente, a bússola do meu corpo me orientava em outra direção. Me perdi infinitas vezes e fui obrigada a me orientar através de estranhos, que reposicionava o meu passo.

Hoje eu não tenho a mesma disposição de antes… talvez por conhecer o lugar e saber ser impossível me perder por aqui. Tenho a sensação que todas as ruas do bairro me devolvem ao mesmo lugar.

1 – No mês passado… tivemos um dia de neblina. Eu vivia em solavancos .Recuperava-me de uma forte crise de sinusite e oscilava entre dormir-acordar num mesmo minuto. Os olhos pesados e irritadiços, respiração irregular, corpo exausto. Fui para a varanda e me deparei com a cena esbranquiçada que me fez pensar em Mário de Andrade que em um de seus versos comparou a sua Paulicéia com Londres. Deu vontade de ir lá para fora e percorrer calçadas por entre nuvens…

2 – Caminhava pelas ruas com casas dos dois lados… conferindo se as coisas ainda estavam nos seus devidos lugares. Tudo muda muito rápido por aqui. Num dia há uma casa baixa ou um sobrado e, no dia seguinte, há um tapume cinza com o nome da demolidora responsável por ter varrido o imóvel da paisagem. Algumas semanas depois somos avisados do novo empreendimento maravilhoso que irá subir até os céus.
E ao passar por essa casa, me deparei com a Primavera em pleno agosto-outro. Fotografei para exibir a estação fora de lugar e a beleza disso…

3 – Amanheceu chovendo e a ida ao mercado foi cancelada! Gosto imenso de enfiar os pés em meias de algodão e andar cômodos; ir até a prateleira buscar livros de poesias, preparar xícaras de chá e afundar o corpo no sofá. Aproveito para rever os passos da semana, os lugares e pensar geografias…

4 – Se tem uma coisa que eu gosto imenso de fazer é caldo. E se acordo com o dia propício as reinações: faço uma lista de ingredientes e levo os meus passos para as ruas. Se for dia de feira: melhor. Ouvir a cantoria dos feirantes que tentam nos convencer a comprar em suas barracas coloridas e bem organizadas. Tenho especial apreço pelas que vendem frutas: são as mais coloridas, mas frequento mesmo as de legumes e verduras. Compro cenoura com rama, vagem, ervilha, batatas, réstias de cebola e alho vermelho, tomates holandeses. Ao voltar para casa, sirvo o vinho e vou aos trabalhos..

5 – Ao caminhar calçadas, às vezes, olho para cima… algo que está cada vez mais frequente. Espio a copa das árvores com seus desenhos de galhos, folhas e flores… o ceu com seus desenhos de nuvens e as silhuetas dos prédios com suas formas equivocadas no meio do caminho do olhar.

6 – Ao percorrer calçadas, num caminhar juntos com as mãos, os pés e o corpo todo encaixado num laço-no, encontro folhas que a estação derruba e que o vento espalha. Algumas eu recolho e levo comigo. Outras eu deixo para o vento. Nos últimos tempos dei para fotografá-las… o que é uma forma de guardá-las…

Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Roseli Pedroso – Suzana Martins

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “6 on 6  |  A… gosto da persona que escreve enquanto passeia calçadas!

  1. Amei suas fotografias, mas fiquei especialmente encantada pela primavera florida. Já havia visto ela em outros momentos que me enviou. Acho que já é minha a foto…

  2. Devorei o texto e tudo na feira. No passeio pelas ruas me perdi entre nuvens, flores, folhaspassos,

  3. A moça que recolhe e fotografa folhas é a mesma que une outro tipo de folhas através de fitas. As obras naturais e as forjadas em palavras têm a mesma natureza e origem – a força da vida a acontecer.

  4. Amei suas fotografias e relatos. Infelizmente não levo jeito pro 06 on 06, sempre esqueço um dia ou me atrapalho nas fotos… Mas adoro espiar os teus posts.

    Beijos!

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