49 — Nada quebra a moldura da noite

Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens
enquanto a alma, no puro sopro da madrugada,
se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê
o que os outros viajantes, ao passarem
pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo
é único, não se confunde com nenhum outro.

Al Berto

 Lua… 

…me perdi do tempo assim que aterrissei meu corpo na janela, para onde fui assim que ouvi um trovão ressoar pelos cantos da casa-corpo-alma. Fechei meus olhos. Respirei fundo e vesti a pele com um punhado de sensações novas e antigas — devidamente misturadas… enquanto a memória ‘folheava’ as páginas do livro do velho Helder… “agora sei que devo saber, só. As letras da chuva loucas nas costas”… e a alma imediatamente se enredou por esse diálogo silencioso contigo…

Chuva e janelas são algumas das minhas paixões mais antigas. Tenho para mim que eu era a única menina da escola a ficar feliz com a temporada das águas. Apelidei maio de o “mês das trovoadas”… e novembro de o ‘mês dos desaforos‘… Ninguém entendia a minha paixão por nuvens escuras-cheias e pelo breu que imprenava as ruas. Eu sentia a alma trôpega… Quando estava em casa, fugia para o quintal. Fechava os olhos e com os braços bem abertos, aguardava que as primeiras gotas prateadas molhassem o meu rosto.

Gosto imenso de apreciar as nuvens se avolumando por cima da cidade. A escuridão a moldar os cenários urbanos. As pessoas em desespero, em busca de abrigo. O medo latente nos músculos e nervos. E eu na contramão de tudo isso.

Admiro a maneira como a euforia cessa e uma calmaria natural-imensa se apodera de tudo, inclusive da minha anatomia. Não sinto medo ou pavor… apenas uma vontade de fechar os olhos e trazer a tona a língua dos lençóis. Uma cama virada a sul, onde as gaivotas arrulham durante seus vôos de ocasião.

Os sons do trovão são para mim uma espécie de diálogo secreto entre a realidade e o meu imaginário — esse barco de papel abandonado à corrente.

Hoje não choveu, mas houve um trovão no azul… não sei dizer-te se foram as nuvens ou se fui eu. Às vezes, eu trovejo por dentro e pouco depois vem a chuva.

Au revoir

Agosto [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A
e eu terei companhia nessa aventura diária:
Mariana Gouveia – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins
Darlene Regina – Mãe Literatura – Alê Helga – Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

15 comentários em “49 — Nada quebra a moldura da noite

  1. Báh! Quanto mais leio suas cartas, mais eu espero que, de repente, ao chegar aqui, me surpreenda sendo eu o seu correspondente. Sim, estou me oferecendo discaradamente. hehehehe

    Obrigada, mais uma vez, pela sensação de preenchimento.

    Beijos meus.

  2. UMA MISSIVA PARA MIM… a primeria Catarina-Lu.
    Gente, não acredito e falando em chuva, janelas, trovões.
    Falando em mim. Amei. Vai ter resposta, viu?

    Bacio.

  3. Que delícia de carta-missiva.
    Um diálogo comigo ou com qualquer outra pessoa.
    Você anda me convertendo em outras entidades: hoje eu sou A.

    Bacio

  4. Muito moço, certa vez escrevi: “quero morrer naturalmente, fulminado por um raio” – tal o fascínio que tinha pelo poder dos raios e trovôes. Estes, são quase reconfortantes, justamente porque é o quase silencioso raio que mata. As pessoas urbanas, ainda que vivam nas cidades dos para-raios, sentem uma espécie de medo instintivo dos primeiros homens.

  5. Lunna,

    Que delícia ler-te menina.
    Vim lá do seu antigo sótão e agora, como já disseram por aqui, ou A ou seria ‘lua nova?

    Um beijo de fa (nao tenho o till, rs).
    Lola

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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