[ Chá de hortelã ]

Dizem que o tempo ameniza
Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade

Emily Dickinson

Fui à prateleira e voltei de lá com um livro de poesias — o outro, o mesmo de Jorge Luis Borges. Coisa bastante comum por aqui porque como eu escrevi num desses ontens que eu coleciono em minha amalgama: a poesia me ensinou a ler

E enquanto derramava o chá de hortelã na minha xícara… uma antiga pergunta ressoou por dentro: como se lê poesia? Respirei fundo e engoli um pesado gole de chá, enquanto observava o espaço a minha volta, tateando as paredes do corpo, no escuro. Eu gosto de investigar-me… é um dos meus passatempos favoritos e as descobertas são intrigantes: uma peça nova para o quebra-cabeças que sou.

Voltei ao primeiro livro, com suas páginas e versos em idioma outro. Senti o cheiro do papel antigo e o som da página em movimento. Não perguntei a ninguém como ler. Apenas recorri a um dicionário, porque não tinha vocabulário suficiente naqueles dias.

Eu não tinha um manual de instruções sobre como proceder, tampouco a orientação de uma pessoa. Segui os meus instintos. Poesia é ritmo. São como músicas. E eu tinha uma lista — pequena — com as minhas favoritas, que o meu autismo musical me fazia ouvir repetidas vezes. Tinha predileção por Elton John, Chopin e Mozart. E como eu sou do tempo dos discos e fitas… dependia de outras pessoas para ter fitas k7 com as músicas que eu mais gostava.

Gostei de ler poesias desde a primeira vez. Eu buscava pelo ritmo dos versos que despejavam em minha anatomia… uma melancolia úmida-única.

Entendi ao ler Emily Dickinson que a morte era traiçoeira e agia na calada de nosso fôlego. Morri duas ou três vezes durante a leitura… enquanto um arrepio cobria a minha a pele. Cecília também falava da morte em seus versos.

De verso em verso, de livro em livro… percebi que certos versos não ecoavam em mim, não deixavam rastro — nada. Enquanto outros, raspavam suavemente em minha derme e soavam como um esbarrar apressado pelas ruas da cidade, sempre em movimento.

Poemas tem sonoridade peculiares… dizem-nos ou perdem-se na imensidão do ar — como certos gêneros musicais. A ópera — disseram-me — é um caso de amor ou ódio. E, no meu caro, foi amor a primeira vista. Senti uma emoção única ao ouvir Puccini. Aos nove anos, eu me apaixonei por Bach… que replicou em mim aquela sensação primeira.

Foi importante para eu compreender o que busco ao ler. Quero sentir aquele conforto-desconfortável e alcançar a melancolia-úmida-única: um contentar-se descontente. Um degustar precioso de um pesado gole de chá. A sensação primeira… olhar e enxergar, provar um aroma novo, passar por uma rua, dobrar uma esquina…

Mas, nem todos sabem o que buscam ao ler um verso. É mais fácil ler uma história inteira. Um romance é uma coisa pronta-definitiva. Um conto é leitura rápida, sem fôlego. Mas a poesia é mais exigente. Não é história alheia… é ler-se — confrontar-se. Nos faz íntimo das palavras. É lâmina afiada que corta enquanto há carne; nos expõe e nos faz encarar as nossas emoções.

Ler poesia é ler-se… em algum momento a pele goza do arrepio sagrado da primeira vez e eu terei minha porção de tudo e nada (de novo). Amém.

Agora eu vou buscar preparar mais uma xícara de chá e buscar um livro de poesias na prateleira — Wislawa certamente será uma excelente companhia.

Agosto [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A
e eu terei companhia nessa aventura diária:
Mariana Gouveia – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins
Darlene Regina – Mãe Literatura – Alê Helga – Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

17 comentários em “[ Chá de hortelã ]

  1. Lendo Lunna, pela voz de Catarina, e os comentários, também estou tomando uma infusão de ervas que inebria, ouço Chico César ao violão dedilhar “estado de poesia”. Encontros assim é oração genuína, estado de graça, porque “Ler poesia é ler-se… em algum momento a pele goza do arrepio sagrado da primeira vez e eu terei minha porção de tudo e nada (de novo). Amém.”

  2. Confesso que quando comecei a ler seu texto e vi a foto pensei ser uma resenha sobre chá ou mesmo uma receita rs achei maravilhoso seu texto e conhecer um pouco de você através dele…sucesso e parabéns pela inspiração

  3. Oi, tudo bem? Acredito que ler poesia é tal como fotografar. Quando registramos algo estamos mostrando ao mundo nossa percepção sobre. O que sentimos, o que passamos pela vida, o ser humano que nos tornamos, tudo isso influencia como vemos o mundo. Ler uma poesia e enxergar nela as entrelinhas que o autor quis transmitir, sentir com nossa alma. Beijos, Érika =^.^=

  4. Oie tudo bem? Amo poesia, as vezes tento escrever, acho incrivel quem tem esse dom da palavra, é magico sentir essa palavras que vem do coração. Sucesso, parabens pelo post. Beijos

  5. Que texto cheio de sentimento! Gosto de textos assim, que transbordam o que o autor estava sentindo no momento em que escreveu, porque são esses textos que nos fazem refletir e pensar sobre nós mesmos em relação ao que está escrito. Parabéns! E que a poesia sempre esteja presente na sua vida e te faça sentir como da primeira vez.

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

  6. Gosto quando você escreve a respeito das leituras que faz. Eu não era de ler poesias, aprendi aqui, lendo seus posts e versos. Sei que não escreve versos, mas tem tanta poesia nas tuas coisas, nos teus livros. Tudo parece oração para mim. Sei que não junta as mãos e sei que não tem essa coisa de Deus como eu.
    Sua crença é outra, é mais forte, eu acho e me arrepio inteira pensando nisso.

    Sou tão feliz por te ler Catariina-Lunna

    bisou

  7. Li seu texto com uma xícara de chá de menta. Aqui, hoje o calor bateu recordes e o céu está todo cinzento pela fumaça…. foi um refúgio seu lugar.
    Grazie por isso!

    1. Pensei em você há pouco. A lua está linda. As nuvens ficaram na tarde de ontem. A chuva se foi e está seco. Quase trinta graus. E nem sinal de brisa… acho que eu vou fazer uma bolo…

      1. essas coisas de mapas se cruzando, galáxias refazendo ciclos, fornos assando bolos, lua imensa no céu…
        ah, e eu também estava pensando em você agora a pouco… também…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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