51 — Tentei escrever-te, sem sucesso…

Cara Luciana,

Há dias, desde que li um texto seu, tento escreve-te. Fiz alguns ensaios, mas confesso que o humor não estava em alta. Os assuntos incomodavam o estômago que pediu xícaras de chá de hortelã — sem efeito. Apelei para o sal de fruta e a magnésia. A realidade anda intragável. As notícias… tento não dar atenção a elas, mas não importa o caminho, chegam até mim.

Quis sair e escrever no ar… um recurso que utilizo quando nada se orienta em linhas. Gosto imenso de sentir os passos — acostumados a contramão. Passeei pelas ruas com nome de pássaros… mãos enfiadas nos bolsos da calças e tudo passando por mim, num precipitar natural de emoções.

E comecei a escrever-te quando me deparei com alguns artistas de rua-circenses a equilibrar-se num farol com seus apetrechos de vida e morte. Tudo tão frágil. Um homem em seu carro importado abaixou o vidro e ofereceu o que lhe restava de moedas. Sentiu-se feliz por contribuir com sua esmola dada aos mendigos de sempre. O pobre homem foi embora e deixou para trás as próprias misérias. Deve ser mais um desses que acredita que artista mama nas tetas do governo!

Curioso como em uma cidade como São Paulo… a Arte é tudo e nada. De um lado um lindo teatro e suas filas de última hora. Todos querem assistir ao espetáculo bem produzido e anunciado nos intervalos da programação e elevado a condição de grande produção. Com que dinheiro essa gente imagina que se paga tudo isso?

Dois passos adiante, minha cara e esbarro em outro teatro… em ruínas. Foi sucesso nos anos outros. Faz tempo que está fechado. Afogou-se em dividas… enquanto muitos artistas passam o chapéu, implorando por espaço-palco para si e sua Arte.

E as pessoas com seus rótulos do que é ou não Arte se apressam pelos degraus do Municipal — que sobreviveu ao seu pior século — para assistir o balé da cidade, a ópera… estufam o peito satisfeitos por dizer em voz alta para todos ouvirem: “isso é arte”.

Que régua usam para tais medições?

Lembro-me dos gritos contrários a presença de certos nomes periféricos. O lugar estava lotado. Faltou espaço. O Teatro sentiu-se pequeno, mas envaidecido por ser palco para contrários. A Arte é manifesto, é contrário e é grito. Mas, às vezes, é silêncio. Nunca é o que acreditamos que ela seja. E começou sendo uma maneira de divertir os deuses, na Antiga Grécia. Lembra-se? Os humanos — meros mortais — deveriam provocar o riso…

A arte é uma manifestação do homem e cada um que faça o seu gesto, no seu palco de ilusões. É preciso distrair-se da realidade, cada vez mais triste e indigesta — repleta de túmulos.

Recorremos a todo e qualquer artifício para isso… a Poesia, a Música, as pinturas, gravuras. Há arte nas ruas, esquinas, casas e bares, seja através de um projeto gradioso-pequenino ou de um simples improviso. Que faça rir ou chorar. Que nos mostre o que não queremos ver. Que exiba o nosso pior ou melhor. O horror ou a beleza das coisas impossiveis, impensáveis.

Mas não cabe a nenhum de nós esse lugar de dizer: isso não é Arte.

Se incomoda ou perturba, comove ou apenas fez rir — é Arte… e cumpre o papel de nos iludir através das distrações que nos faz lembrar da nossa condição humana.

Parece simples, mas ao olhar para o alto e ver um efício com seus tantos andares, janelas lado a lado e tantas formas de vida, eu enxergo tantos mundos, tantas possibilidades e qualquer coisa de Arte.
A janela da esquerda é triste… sem cor, cortinas e tudo é silêncio naquele recorte. Do lado é diferente… colorida e o vento tumultua os tecidos-papéis. Uma garota sorridente acena a alguém que veio ao seu encontro.

E eu sigo com o meu passo… recolhendo retalhos para quem sabe um dia, formar uma colcha.
Guardo tudo em mim e quando aqui sento para escrever e conversar através das minhas linhas, a memória despeja tudo e acena.

Não perco meu tempo com referências cruzadas… isso é, aquilo não é. Meu olhar tem outras medições: gosto ou não gosto. É simples. Nem tudo foi feito para mim. Não sou a única forma de vida no universo. Algumas coisas me tocam, outras não. Umas me atropelam, marcam. Outras vão embora — como as pessoas. Existe muita gente no mundo precisando se distrair. Se não serve para mim é provável que irá servir para o outro e outro e mais outro…

Em tempo, a casa no final dessa rua — a que eu fotografia num domingo de manhã — foi ao chão… mais uma que se foi e em breve subirá outro prédio no lugar. Restou a fotografia feita… talvez alguém diga que não é Arte. Mas para mim é… porque Arte é memória que não se apaga dos meus olhos.

E eu que pretendia escrever-te… acabei mesmo por dialogar com as minhas paredes, onde um reboco foi jogado ontem e a qualquer momento virá uma camada de tinta. A mobília voltou. A primeira a chegar foi a velha poltrona. O forro estava gasto e preciso trocar. Mudaram a cor. Pedi mostarda e veio um marrom sem graça. Não vou reclamar porque tenho livros para ler e missivas a escrever. Vou agora preparar café a moda antiga e esperar a sua xícara. Você vem? Diga quando. Aviso que estou a esperar desde ontem… esse meu tempo-lugar.

Abraços

Agosto [entre tantas coisas] é o mês do B.E.B.A
e eu terei companhia nessa aventura diária:
Mariana Gouveia – Obdúlio Nunes Ortega – Suzana Martins
Darlene Regina – Mãe Literatura – Alê Helga – Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

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Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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