04 Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz

Cara Suzana,

Acordei no sofá da sala… com o corpo todo torto. Dormi com um livro em mãos, como tanto gosto. Sensação de que a história continua no sono-sonho — personagem-persona.

Preparei uma xícara de chá e enquanto esperava pela fervura da água e pelo meu despertar. Eu sou uma pessoa lenta ao abrir os olhos. Sinto tudo ao meu redor, através das minhas digitais. Ando descalça, com os pés enfiados em meias brancas a dar pelo chão…

E hoje eu me distrai com a realidade lá de fora… uma algazarra humana acontecia do outro lado da rua. A alegria pautada pelo vício. Um bando de homens em revoadas vazias. Corpos macambuzios e mãos a atirar garrafas atiradas contra o muro-poste, provocando os cães da vizinhaça alta. O silêncio voltou a fazer parte da paisagem depois que a esquina seguinte os devorou.

Tão insensato quanto o meu gesto na tarde de ontem: retomei a leitura de O Sol em sagutarius. Um desafio: escrever um Thriller. E foi o que eu fiz… um capítulo por dia, durante o mês de novembro. E desde que fechei o ciclo de deitar fora do corpo a história… ensaiei retornos. As desculpas enfileiraran-se em minha matéria-humana. Foi ficando para depois: o último item na lista de coisas por fazer.

Ontem aconteceu! Abri a pasta e li cada um dos textos-capítulos. Gostei da história maluca que inventei. É o que permite esse tipo de narrativa. Mas eu não nego que seja necessário se manter atenta a realidade, que anda ardilosa. Nem o mais criativo dos seres tem talento para inventar certos fatos.

Para a trama, escolhi Milena como personagem principal. Ela me fascinou quando a conheci. Tinha força nos gestos e uma violência imensa no corpo. Eu me lembro de vê-la explodir na mesa ao lado, no café entre esquinas. Não fosse isso, seria apenas mais uma pessoa a habitar o mesmo espaço que eu. Ela estava cansada e respirava com dificuldade. Parecia recém-saída de um côma. Colocou de pé e esbrabejou com os olhos cheios e o corpo vazio: eu estou viva, bem aqui. Olha para mim.

Eu e todas as pessoas no café olhamos! Mas não enxerguei nos olhos dela o que era palavra nos lábios. Ela foi embora e no minuto seguinte, comecei a desenhar a personagem que surge como luz nas trevas de Alexandra e vai embora, sem deixar rastro. Gosto imenso quando realidade e ficção são quase uma coisa única…

Mas se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos de escrita, é que nenhum personagem é: “apenas isso”. Milena é uma criatura que se equilibra entre vida e morte. Durante os dias é uma jovem responsável e talentosa, admirada por todos e considerada a herdeira natural da Dra Mariana Olivetto, com quem trabalha. Mas, durante a noite é o inverso. Uma figura que vive nas próprias sombras.

O primeiro capítulo, sem título… se resume a Cecília. Não foi uma homenagem a poeta, que tanto gosto de ler. Mas, ao pensar na última cena em que a Mulher em ruínas, é obrigada a se despedir da filha, pensei em Solombra e fui buscar o livro na prateleira. Estou considerando usar os versos desses poemas… como títulos para cada um dos capítulos. Tudo experimental, como de costume…

A minha trama e a poesia de Cecília tem em comum o fato de estarem envoltas por uma silenciosa atmosfera de mistério. A sombra, o tempo, a memória e a solidão são os elementos em cena. Um outro sol descendo horizontes marinhos — verso do primeiro poema — seria perfeito: um caminho para Milena.

Au revoir

Setembro [entre tantas coisas] é o mês de Missivas de Primavera
e eu terei companhia nessa aventura semanal
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

6 comentários em “04 Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz

  1. Ah, eu leio a sua missiva e preciso imediatamente de um café. Misturar o aroma das tuas palavras ao perfume do café recém saído da máquina é um aconchego para esta tarde fria.

    Já quero saber mais sobre Milena e dos títulos que serão desenhados em capítulos dispostos a nos envolver. A mistura de vidas, a dualidade da existência e a história a despertar a minha curiosidade. Ser leitora das tuas histórias é encontrar teus personagens em cada esquina a atravessar a cidade.

    Ah… A tua missiva aquece o meu dia!

    bacio

  2. Lunna, sua missiva já despertou a curiosidade da leitora que vos escreve. Muito interessante acompanhar o desenvolver dos personagens. Vou permanecer aqui no beiral da janela, aguardando os próximos capítulos.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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