velhos hábitos

setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. imaginar o desenho de palavras, a sensação de frases. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encapar os cadernos, com folhas de jornal e plástico transparente. etiquetá-los com o meu nome, do professor e a referida disciplina.
livro novo de poesias. era o nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton…
sentava-me na cama à noite e a leitura acontecia. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. domingo. noite. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário, por escrever somente, sem compromisso ou projeto de publicação, como fiz com reticências e septum.  escrever como quem dialoga com a pessoa de dentro. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas. como antes. escolhi um lugar. a mesa da cozinha. pensei o tempo. memórias. silêncios. barulhos. estranhezas. tudo fervilhando como a água na chaleira. xícara de chá. pequenos goles. e a velha sensação na pele. liquefazer-se. escrevi por escrever somente. vogais e consoantes engatadas umas as outras. frases inteiras. um comboio a percorrer trilhos.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. a aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo…
escrever um diário será uma aventura paralela à (re)escrita de Alice. que também  tem um diário de bordo. um caderno. vermelho. que estava guardado no fundo do baú a viver seu estado de espera.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Um comentário em “velhos hábitos

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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