Loucas noites / Wild Nights

Fui a prateleira há pouco e busquei os livros de Emily… uma decisão tomada ao despertar: ler Emily Dickinson nessa manhã de inverno-domingo. Tenho alguns livros da poeta-mulher, que em seu tempo foi considerada inadequada-imprópria-fora-do-comum.

Hoje, muito se fala de Emily e dos motivos que a fez reclusa… da paixão pela cunhada, que morava na casa a frente e uma das poucas pessoas a quem confiava a sua escrita e aceitava “remendos”. Em vida, apenas meia-dúzia de poemas foram publicados em um jornal — causou alvoroço na família. Uma coisa era escrever… outra era ser publicada. Pior, ser lida… Não voltou a se repetir, mas a escrita continuou ao longo dos seus anos de vida. Escrevia dentro da noite, após finalizada a rotina naquela casa. Emily não se casou e muitos acreditam que a mulher se vestia de branco por causa de uma doença-rara para aqueles dias e facilmente tratável nos dias atuais.

Much Madness is divinest Sense —
To a discerning Eye —
Much Sense —
the starkest Madness —

As lendas ao redor da poeta ajudaram a atravessar os anos, permitindo que fosse redescoberta. Publicada sem cortes ou “cirurgias”… Emily foi considerada modernista. Nascida em uma Cidade conservadora dos Estados Unidos — Amherst — começou a escrever a partir de 1850… totalizando pouco mais de mil e quinhentos poemas, que foram encontrados após sua morte — ocorrida em 1886 —, por sua irmã Lavínia.

A primeira vez em que li Emily foi no ano de 1986 — cem anos após a sua morte. O pequeno livro deixado na mesa da cozinha atraiu a minha atenção. Capa antiga-escura-dura. O formato era diferente dos demais e as páginas tinham um amarelecido diferente. Na primeira página havia uma dedicatória — tratava-se de um presente.

E lá estava a poesia que cobriu a minha pele com arrepios:


I´m nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?

Passei a existir dentro desses poderosos versos. Foi como olhar no espelho pela primeira vez e dar por mim. Tomei para mim a sua voz, o seu sopro, as suas medidas. Nenhuma abelha foi a mesma depois disso. As cores se redefiniram. Tudo que eu sabia até aquele instante — pouco ou nada — tornou-se rarefeito. Um único e poderoso verso…

Eu Me apaixonei pela poeta…e fui devorando cada um de seus poemas deitados naquelas páginas. De uns gostei mais que outros. Meu inglês ainda não permitia grandes leituras. Havia a tradução ao lado, mas eu queria ler o original. Não queria um idioma entre nós ou quaisquer outra coisa. Recorri ao dicionário e me dediquei mais as aulas de inglês — que até aquele momento eram feitas com descaso. Passamos a ter um dia para o idioma-novo naquela casa. Durante horas inteiras, migrávamos para alguma cidadezinha do interior do Londres.

This is my letter to the World
That never wrote to Me
The simple News that Nature told —
With tender Majesty

No Brasil há algumas traduções de Emily Dickinson e eu li várias… a que menos me incomoda é a seleção feita por Isa Mara Lando, intitulada Loucas Noites. Ela foi feliz na escolha do título do livro, usou um verso da poeta estadunidense:

Wild nights, wild nights — !
Were I with thee
Wild Nights — should be
Our luxury!

Isa Mara Lando respeitou o ritmo da poesia de Emily e tentou não inserir rimas ao traduzir, nem escapar da força do verso. Foi feliz e o resultado é agradável para o leitor… Mas há perdas entre um verso ou outro. Nas últimas páginas, ela exibe algumas explicações e nos conta como foi o processo de tradução — é uma leitura interessante: uma espécie de mapa.

O inglês de Emily Dickinson é antigo e algumas palavras não se adequam a outro idioma — sendo necessário investigar possibilidades. Foi o que Isa diz ter feito… Mas alguns sentidos foram muito além da poesia deixada por Emily e isso é comum acontecer em traduções, principalmente quando se trata de poesias.

Alguma coisa sempre se perde.
É um jogo… de palavras.

Look back on Time, with kindly eyes —
He doubtless did his best —
How softly sinks the trebling sun
In Human Nature´s West —

Loucas Noites / Wild Nights
55 poemas / poems
Edição Bilingue
Disal Editora

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “Loucas noites / Wild Nights

  1. Quando li Emily Dickinson pela primeira vez era adolescente (uma cortesia de um dos irmãos Campos). Imaginei uma senhora vitoriana descrevendo a si mesma em outra vida. Invertida. Do outro lado do espelho. Acho, acredito, que só uma senhora vitoriana seria capaz de tal proeza. Evidente que não todas, só as as distraídas pelo trágico apelo de se reconhecerem sós

  2. Eu ‘reconheci” Emily através de você. Das poucas coisas lidas antes, as suas palavras me levaram até ela com mais intensidade.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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