O interesse do leitor

No último encontro do Clube de Escrita da Scenarium… uma pergunta feita por Isabel — uma das alunas — ficou comigo, viajando pelas linhas de meu corpo. Gosto imenso quando acontece. Meu pensamento navega por inúmeras direções ao longo de um dia. Enquanto costuro os muitos pedidos feitos nas últimas semanas, preparo textos e faço uma receita de bolo, volto ao assunto e vou dissolvendo-o em pequenos goles de tudo e nada.

Como saber se o assunto-tema sobre o qual escrevo será interessante para o leitor?

Que pergunta mais estranha! — foi minha primeira reação após a aula. Acredito que a maioria dos novos escritores pensam a respeito. Os que escrevem há mais tempo, devem ter se questionado a respeito; mas com o passar das linhas, a pergunta virou fumaça no ar.

Eu não havia pensado nesse tema até aqui porque escrevo por escrever somente, como afirmo a quem quer que me interrogue a respeito… desde a infância.

E ao olhar para os meus textos todos: ensaios, artigos, romances, contos, algumas crônicas, nenhuma poesia e dezenas de missivas — encontro uma possível resposta para essa pergunta?

Tudo depende do ponto de vista porque a bússola que eu carrego no meio do peito, aponta diretamente para mim. Eu sou o Norte da minha escrita. Tudo passa por mim, ainda que não seja coisa minha… em algum momento a simbiose precisa ocorrer.

As histórias de outras pessoas e os lugares. Eu habito e sou habitada. Eu pertenço a tudo isso. Sabe quantos vezes eu morri?

Mário de Andrade tem uma frase que eu adoro: outras estão mirradinhas, coitadas! Ele falava a respeito de suas ideias e na maneira como tudo mudava de ontem para hoje e deixavam de ser uma coisa para ser outra e outra e outra.

A pessoa que escrevia morria e nascia outra no lugar. Me fez pensar em um dia de inverno, no interior de Londres. Eu vi uma árvore seca e pensei estar morta. Ela vivia o seu inverno — não o seu fim, apenas um intermezzo ou hiato, como preferir.

Entendi a mim mesma e tantos versos lidos ao longo da minha trajetória através daquela árvore.

E o que tudo isso pode interessar a quem me lê? Não faço ideia e não vou gastar um minuto do meu dia a pensar nisso. Prefiro ler Helder. Escrever a Suzana, Mariana ou para mim.

Tem tanta coisa a meu respeito que preciso contar-me. Eu sinto necessidade de narrar-me em linhas. Não sou uma pessoa de falas e ao ter que falar, parece mentira, coisa sem peso ou valor. Me junto ao coro das tagarelas e é tudo tão frágil-fraco. Me lembra aqueles jantares gregos em que os pratos são atirados contra o chão… eu sou a pessoa que recolhe os cacos.

Eu prefiro a quietude de uma frase bem pontuada, escrita depois de um pesado gole de café-chá.

Hoje, talvez eu faça pão e me lembro do espanto de Mariana ao ver a minha massa dobrar de tamanho em um dia frio. Era agosto. Ela lançava o seu Cadeados Abertos e eu, o meu Septum.

Quando o escrevi, cumpri uma rotina de escrever dentro das quintas-feiras, esse dia que desde a infância é para se fazer bolo. Escolha a receita. Minha mãe dizia que se tiver que conversar a respeito de alguma coisa, faça isso, na companhia de uma generosa fatia de bolo. Eu achava graça. Mas mantive a nossa tradição.

E o que isso importa a quem me lê? Eu sigo sem saber e sem me importar. Eu escrevo e penso que é como aquela garrafa que se atira ao mar. Talvez alguém a encontre e sinta alguma coisa, ao ler. Seria beleza? Penso que sim porque eu sei o que me faz ler um texto. Ele precisa falar comigo, atiçar labaredas. Aquecer alguma coisa lá dentro. Um texto chato não me faz ouvir o carrilhão da minha infância ressoar pelos cantos do meu corpo.

Ah, eu já falei disso tantas vezes. O som do carrilhão. Um móvel desarticulado que pulsava as horas cheias. E que som gigantesco tinha aquele bicho indócil. Ele era Chronos e me desafiava. Não conseguia dormir por causa dele, nas primeiras horas da noite-primeira. A casa inteira cantava com ele.

Uma vez, eu fiquei lá, parada diante dele — enfrentando-o. Eu tinha o tamanho de uma criança de cinco anos. Quer dizer, eu era um pouco menor que isso. Mas encarei o bicho. Toda corajosa… até ele cantar a primeira hora do dia seguinte.

Tapei os ouvidos e me encolhi. Disse ao mio nonno que fiquei do tamanho de uma noz. E ele riu. Depois me contou uma história a respeito do tempo. Até hoje me arrepia a narrativa que ouço dentro, lado a lado, ao som daquele bichano.

Ele parou de badalar porque o tempo é assim. Ele acaba e nos também. Somos finitos. Basta uma fração de segundos para deixarmos de ser o que somos.

E o que importa é a beleza de tudo isso. E quando falo em beleza, não me refiro às coisas comuns que se limitam a ser bonitas e feias. Falo daquela tela presa a parede que impede o passo e me obriga a ficar um pouco mais.

Chuva de homens, de Magritte. Ou o Abapuru de Tarsila. O homem amarelo de Anita. A fotografia da vidraça quebrada no pós guerra, um registro feito por Annie Leibovitz. Um conto escrito por Mia ou um verso de Cecília, Rupi, Kátia, Rosana e tantas outras. A colcha de retalhos de Mariana. As andanças de tantos de nós. Os (in)versos de Suzana. Os contos de Margarida ou as Ruas de Obdulio…

O que faz um texto interessante para os outros é a pausa, o silêncio e o elo impossível de se romper. Eu gosto de pensar que folheio velhos álbuns de retratos e vou reconhecendo o lugar, as pessoas e a mim mesma.

A leitora que eu sou, agradece.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana. Editora de livros artesanais. Autora de romances. Degustadora de café. Uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “O interesse do leitor

  1. Isso me lembrou de quando estava dedicando alguns livros na frente de alguém importante pra mim. Por óbvio que dedicatórias são direcionadas ao futuro dono do livro, mas nada escrevo que não possa ser lido por qualquer um. E assim fui escrevendo e colocando os livros numa pilha… enquanto a pessoa ia lendo e dando notas do tipo “ameeeii” ou “nada a ver esta daqui”. Eu apenas levantei a cabeça, disse que quem comprou ia entender o que eu escrevi e segui com meu ofício de autora. Rs… Tudo isso pra dizer que gostei quando você certa vez disse: o que a gente escreve deve ser bom primeiramente pra gente. Alguns vão gostar outros não… escrever somente sobre temas da moda pode ser muito perigoso.

  2. Cara mia! Se eu tivesse uma resposta à pergunta lançada pela querida Isabel, seria algo assim: talvez quem me lê se interesse pelo brilho que eu conseguir derramar no texto a partir de tudo aquilo que me acende por dentro e por fora…seria isso uma transmissão? O brilho-de-alguém-que-passou-para-mim-que-passei-pra-mais-alguém? Se acontecer, que beleza! Se não…continuarei escrevendo! Belíssima e inspiradora postagem, cara Lunna! Grazie mille!

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