26 | s e g u n d a (última)

Neste estado não mundano em que me movimento
Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.
Allen Ginsberg

Dia quente. Segunda feira. Impossível dizer que o inverno se foi. O calendário diz que é primavera, desde o dia vinte e três. E a moça do tempo disse que a transição aconteceria por volta das dez e pouco (horário de Brasília) da noite… Eu estava ocupada com as páginas de uma história que se escreve-e-reescreve há alguns dias-semanas-meses…

Ainda é setembro… quase outubro — falta pouco. O ano ainda não acabou, mas pelo ritmo — alguém deu corda no mundo — não deve demorar.

Impossível não se espantar com a voracidade dos dias-horas e ainda há quem reclame da morosidade de Agosto, que passou por mim como se fosse um concorde, rumo a Paris.

Alongo os músculos. Coloco a água para ferver. Dou passos pequenos pelos cômodos ainda escuros. Escuto o som agudo da chaleira a gritar — desesperada — na cozinha. Corro para evitar o pior… Água quente na xícara e vamos ao tempo de espera — meu momento favorito.

Escolho um poema de Ginsberg para esse dia-momento — fico ou Parto, com constante alegria / Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados / Santa prece para o conhecimento ou puro fato. (…)

Lista de coisas a fazer-cumprir na mente: organizar as horas desse dia-semana, um mês novo para experienciar realidades outras. Organizar-me. Começar a ler outro livro antes que o mês acabe e a pilha aumente. Organizar-me. Ler e responder os e-mails pendentes, antes que tudo se acumulem. Organizar-me. Tramar os dias seguintes. Organizar-me. Ler os textos que se enfiaram na minha caixa de correspondência. Organizar-me. Flertar com olhares que se oferecem aos meus textos. Organizar-me.

Há tanto por fazer… mas tudo que eu quero é ficar aqui, no canto, a gozar da preguiça que chega e a ouvir o som das pás dos ventiladores em seus movimentos circulares. Mas eu preciso (eu sei) colocar as coisas em ordem, devolver os livros as prateleiras…

Organizar-me.

Deixei todas as coisas à deriva nos últimos dias. São os meus processos. Preciso esvaziar-me do ontem para alcançar o hoje-amanhã. Encher o peito de ar. Fechar os olhos e sentir-me dentro. Consciente de que tudo que era para dar certo: deu… e tudo que era para falhar: falhou.

Eu gosto desse equilíbrio… de saber que irei errar-acertar muitas vezes — ainda. Existe qualquer coisa de acalento nisso. Gosto imenso de ter certeza de que irei sorrir-chorar… amar-odiar… ser feliz-triste. É vida… e pulsa… pulsa… pulsa.

E eu gosto de como tudo acontece, mas até para isso acontecer é necessário: organizar-me! — Difícil é me convencer disso no momento. Há dias em que o meu corpo não reage. Os movimentos não acontecem e sinto aquela vontade de ficar debaixo das cobertas. Por isso que eu amo dias frios.

Dois mil e vinte e dois não está sendo fácil… os movimentos humanos estão tensos. Os ânimos acirrados. Verbos conjugados de maneira equivocada… pela esquerda-direita. Por todos nós. As notícias me incomodam. O som da televisão me aborrece. É sempre o mesmo ontem. Quando foi que todo mundo começou a se odiar? Uma moça foi agredida por dizer que não votaria no atual presidente. O homem-agressor misturou política-preconceito-ódio e partiu para o ataque. Armado…

E eu não sei o que sinto… Espio a prateleira e me lembro de Crime e Castigo — que não irie ler novamente. Fiódor passou anos de sua vida numa cadeira russa e presenciou o pior do ser humano. Eu vivo numa falsa-democracia, onde tudo é excesso, não importa o lado.

Na semana que passou surgiram fotos de livros vermelhos nas redes sociais. Não sei quem começou. Mas a minha tela ficou cheia. Confesso que eu ri… extremistas não gostam de livros. Não interessa a cor deles. O fato de ser livro, basta! E ser de esquerda não nos faz vermelho-sangue, cuore a pulsar. Nos faz humanos… Conscientes de que existem diferenças e desigualdades e é preciso fazer algo nesse sentido. Os outros querem apenas manter as coisas onde estão… mão de obra barata, lucros astronômicos. Por isso uma fatia de gente ainda aposta no nome que aí está: é a certeza do lucro e da impunidade, afinal, corrupção é moeda preciosa, contanto que esteja no bolso certo.

Ah, maldito sejam os Fariseus!…

E cá estou eu, me afastando do meu Norte… Foco, minha cara.
Não me misturar é difícil. Tento me preservar dessa falta de modos social. Nem sempre consigo. Ainda mais quando não entendo certas falas machistas-preconceituosas que insistem em reverberar. Como é difícil engolir certos desaforos. Às vezes, tenho vontade de chacoalhar o ser humano a minha frente, para ver se acorda, se olha e vê, se sua pressão sobe-desce. — se reage! Me certificar que há sangue em suas veias.

Me concentro em respirar… ainda que o ar esteja pesado-envenenado. E insisto em dizer em voz alta a quantidade de afazeres acumulados. Repito: organizar-me. Ler meus livros… planejar novos ‘cadernos artesanais’ e providenciar ingredientes para a hora do almoço.

Coloco Patti Smith no toca-discos… palavra antiga que repito com gosto. Lembro que a Scenarium abriu as portas para a poesia nos últimos dias — apenas dois dessa vez e, há manuscritos em minha caixa de entrada, aguardando leitura.

No ano passado… pouco ou nada me seduziu. Sou uma escritora-editora-Leitora… exigente-difícil… que gosta de, ao ler, sentir aquele aconchego da infância — ‘encostar a cabeça no peito e ouvir a marcha do cuore‘ — tum tum… tum tum…

| escrito ao som de dancing barefoot |

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

5 comentários em “26 | s e g u n d a (última)

  1. Olá!

    Mesmo com tantos afazeres, às vezes tudo que precisamos é um tempinho na nossa própria companhia. Tomar um café, um chá, ler aquele livro que chega a lhe observar da estante de tanto que necessita ser lido, se ausentar um pouco do mundo, se permitir fechar os olhos para discussões que muitas vezes acabam sendo banais por política. Eu amo ter esse tempinho. Os afazeres talvez cobrem depois, mas pelo menos me sinto renovada.

    Bacio

  2. Também me impressiono com a velocidade q o tempo passa no decorrer dos anos. Daqui há 3 meses já é 2023. Nossa, que estranho isso.

    Mas eu Adorei seu texto, como sempre.
    A primavera começou bem estranha… dizem que é o efeito la ninha, pois eu acho que o efeito humano msmo.

    Beijos

  3. Segunda-feira é sempre muito difícil pra mim também, ainda mais se estiver frio ou com chuva, apesar de ultimamente qualquer dia estar sendo cansativo pra mim rsrs

  4. Normalmente eu já gosto (imenso, como você diz) de seus textos, mas esse acabou de entrar para os favoritos. Me identifiquei/gostei de tantos pontos mencionados! O espanto com a velocidade com que os dias estão passando, seria melhor dizer: voando. A menção a se organizar e planejar (algo que eu, preciso fazer, mas não me saio nada bem). A tal da crise não facilita. Tanta gente em situação precária… e parece tudo tão difícil de mudar.

    Enfim, esse texto falou diretamente comigo hoje.

  5. Oi,Lunna! Como vai? É, 2022 está quase indo embora, e de fato foi um ano de tensos acontecimentos! Quando escreveu, setembro estava ao pé de chegar, hoje, ao pé de ir-se… A mim foi um mês magnífico (confesso que não esperava tanto!). Te agradeço pelo texto de cunho tão poético e ativo!

    Que venha outubro, novembro, e dezembro…

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