Nem sempre a lápis  | Noite em branco

Marguerite Duras refletiu que o escritor é
uma contradição absurda, pois escrever
é também não falar. É se calar
”.

Ela despertou sem a consciência de tempo-espaço. Tudo que desejava ao acomodar a cabeça em seu travesseiro, era fechar os olhos e se entregar aos prazeres de uma noite inteira de sono. Mas a mente não obedeceu a ordem — permaneceu ativa.

O corpo exausto… virava de um lado para o outro — incontáveis vezes —, sem encontrar posição-conforto. Nem a pílula engolida minutos depois —no intuito de ausentar-se por oito horas… da realidade e embarcar no mundo — maravilhoso — do sono profundo… fez efeito.

O sono que não veio… era como um canto de letra desconhecida. E lá estava ela… sentada na cama, com os olhos escancarados a revisar as muitas anotações mentais, feitas durante os trajetos do dia.

E, de maneira mecânica, quase inconsciente, começou a passar a limpo frases inteiras…

Havia dias em que ela escrevia nas paredes do quarto ou do próprio corpo e no ar. A sua vida era um combinado de coisas que ficaram pelo caminho. A família. Os amigos. A faculdade. O trabalho. O ensaio. O livro e o texto que não se deixava escrever porque ao sentar-se diante do ecrã: tudo de dissolvia. Os barulhos cessavam. Restava apenas o silêncio que se espalhava em sua pele, feito um angioedema.

Ela começava milhares de coisas… Todos os dias acordava para algo novo que se precipitava em sua anatomia. Não lhe faltavam idéias. Algo disparava para ir se juntar, ao final de mais um dia, a uma pilha de coisas inacabadas.

Era uma acumuladora de inícios! Na mesa, os textos — com começo, nunca um fim —, se acumulavam, em pilhas… O seu pretérito imperfeito. Ao conferir as horas — quase três —, desistiu de dormir. Macambuzia, encaixou os pés no chinelo e arrastou-se até a sala. Decidiu tentar mais uma vez.

A luz do ecrã em seus olhos… soou como um sol a invadir uma falsa manhã. Alongou o pescoço em breves voltas e o seu mundo de dentro girou junto. Respirou fundo. Entrelaçou os dedos das mãos até estalarem. Fechou os olhos e fez sua prece secreta; desejando para si a genialidade de Woolf. O discurso perfeito de Kafka. Queria ser Patti Smith. Austen. Allende. Plath…

Posicionou as mãos no teclado, olhou para o branco da página do Word… E nada aconteceu. Tentou de novo e de novo e de novo. O cursor seguia piscando incansável, pedindo por palavras. E nada…

Lembrou-se do primeiro do texto… Escrito em sala de aula. Uma simples redação. Míseras vinte linhas. Ultrapassou o limite na primeira tentativa. Esticou o olhar até a professora, sentada em sua mesa. Arrancou a folha, atraindo o olhar daquela mulher severa. Tinha certeza de que ela não gostava de crianças e o ofício não era uma escolha — imposição, calculou. Amassou a folha entre as mãos, tentando evitar os ruídos. Tentou de novo e de novo e de novo.

Toda vez que a ponta do lápis tocava as linhas para conta-las… — vinte e uma-duas-três-quatro-cinco — lamentava-se. Procurava pelo olhar da professora, tão soberana em sua condição — distante de tudo, a pensar no professor de história, tão tímido. Tinha certeza de que saberia despertá-lo.

Vinte linhas… ouvia, um eco incansável. Diminuiu o tamanho da letra, apertando-as nas linhas. Não adiantou. Arrancou outra e outra e mais outra… amassando-as. Tremia por dentro, angustiada. Todas as outras crianças sofriam ao contrário. Sobravam linhas em suas folhas pautadas. Pensou em recolher as sobras e somá-las. Seria um excelente truque, que a professora certamente não aprovaria.

Apavorou-se ao perceber que a mulher estava de pé,  passando — com seu salto a estalar no piso cinza escuro —, pelas mesas dos alunos, recolhendo as redações finalizadas. Tentou apressar-se, escrevendo meia dúzia de linhas sem entusiasmo ou emoção, apenas obrigação a cumprir. Mas a narrativa foi interrompida com um gesto grosseiro e definitivo.

Texto publicado no Coletivo — Nem sempre a lápis
Clube do livro Scenarium 8 Ano 2021

Escreveram-se os autores:
Lunna Guedes, Mariana Gouveia,
Manoel Gonçalves (Manogon) e Obdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana. Editora de livros artesanais. Autora de romances. Degustadora de café. Uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Um comentário em “Nem sempre a lápis  | Noite em branco

  1. Parece que estímulo não lhe faltou, né, Lunna! Rs…
    Fico pensando o quanto a falta de entusiasmo de alguns professores em ensinar, atrapalha a caminhada de muita gente criativa na escola…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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