Nem sempre a lápis  |  Igual e diferente de fato

Considerei por muito tempo que algumas coisas da minha infância eram definitivas. Eu estava errada! — mas levei uma vida inteira para admitir o erro. Eu tinha poucos anos quando enfrentei a palavra “diário”… que desfilava com seu dourado traço, na capa de um caderno vermelho. Perdi o ar, a paz e a capacidade de escrever. Foram dias inteiros de horror — traduzidos em silêncio. Não conseguia organizar um único pensamento-frase. O mundo a minha volta emudeceu severamente. Escondi o maldito caderno no fundo de uma gaveta qualquer, soterrando-o… para não mais encarar aquela palavra.

A tentativa não deu certo. Às vezes, antes de adormecer o ouvia o murmurar — como um fantasma que passou a residir na minha gaveta — aprisionado por mim… E o que me aborrecia? — o tom de obrigatoriedade que a palavra impunha a minha figura-miúda. Pensava que escrever todos os dias… não era para mim. Eu havia definido que escreveria dentro das manhãs sagradas de sábado… e só.

Durante a semana acumulava palavras-frases para despejá-las nas folhas soltas que eu espalhava por cima da mesa da cozinha. Era uma escrita sem peso-leve-solta que acontecia ao sabor do vento… Eu tinha um ritual de escrita: xícara de leite quente, a mesa da cozinha, as primeiras horas da manhã, uma música a ressoar incansável a sua melodia.

Eu defendia com todas as minhas forças… a escrita livre, de amarras — por considerar um insulto aprisioná-las, como era costume na escola. Durante as aulas, cumpriam pena — injusta-inde-vida —, nos cadernos grampeados ou presos por arames grosseiros, com suas disciplinas bem definidas: gramática, matemática, história, ciências…

Foi no fim de uma tarde de setembro, com a nova estação se precipitando em mim, que eu decidi encarar o tal caderno e sua palavra sombria.

Fui até a gaveta e o arranquei de lá.
Eu poderia riscar, cobrir a palavra maldita…

Mas optei por enfrenta-la… a deixei lá com todo o seu simbolismo-significado. Do lado de dentro… na primeira página, escrevi um título apenas meu. Uma única e sonora palavra.

— Reticenza —

Estabeleceu-se a partir daquele momento… a minha escrita na terceira pessoa do singular — numa espécie de exercício natural. Parte do que sou hoje, começou a surgir ali… saboreando inconscientemente a loucura de Dionísio. Inventei muita coisa… porque o imaginário deixava a realidade mais aguda, interessante. Eu gostava imenso da criatura que eu era… nem tanto da persona vista pelos outros. Diziam-me triste e muda… motivo de preocupação em parte dos adultos que conviviam comigo.

— Abre aspas —

Ela pouco fala, não se mistura e prefere ficar nos cantos, afastada de tudo-todos. Não seria o caso de procurar ajuda profissional? Ela deve ter algum problema. Talvez um psiquiatra possa ajudar-medicar-tratar…

— Fecha aspas —

Em minha pequena porção de mundo-vida — longe daqueles seres habituados aos comportamentos  tão iguais — eu me derramava em seguidas linhas… um corpo-laboratório. Escrevia e riscava… mais riscava que escrevia. Frases imperfeitas, com palavras em excesso. Ralhava com a minha incapacidade de pontuar perfeitamente o que eu sentia-pensava. Com o passar dos dias, percebi que encantava-me o som do papel arrancado-rasgado e amassado.

Divertia-me com as rugas que ficavam no papel… depois que eu me arrependia do gesto. Alisava-o na inútil tentativa de devolvê-lo a condição anterior. Os meus cadernos vermelhos já não existem mais… ateei fogo naquelas páginas-primeiras. Não me arrependo! — muitas coisas perdem o sentido quando entregues ao dia seguinte. E, o que eu escrevi naqueles dias, ecoam em minha memória, onde têm o seu devido valor, peso e medida — permanecendo intactas… Pertencem a mim e a ninguém mais. Estão aprisionados no lugar certo, são os meus fantasmas de estimação e, vez ou outra me assombram!

Texto publicado no Coletivo — Nem sempre a lápis
Clube do livro Scenarium 8 Ano 2021

Escreveram-se os autores:
Lunna Guedes, Mariana Gouveia,
Manoel Gonçalves (Manogon) e Obdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana. Editora de livros artesanais. Autora de romances. Degustadora de café. Uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

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