Guardo-te na caixa dos segredos como se joia fosse… espio-te com lupas microscópicas

* Mariana Gouveia (o lado de dentro)

Ele tinha belos olhos castanhos, agudos… os cabelos dourados de sol e o mais belo dos sorrisos. A., era um menino quieto, de poucas falas e, gentil… como poucos meninos sabem ser.

Nos encontramos em sala de aula… dividimos a mesma mesa e trocamos olhares enviesados-rápidos seguido por um cumprimento silencioso — quase mudo. Eu gostava de espiar a sua caligrafia arredondada e ele se divertia a observar a minha dificuldade de canhota, obrigada a escrever à direita. Para ele era tão fácil o movimento, enquanto para mim era quase impossível. A raiva amarrava os músculos e nervos tornando o movimento ainda mais complicado…

Certa vez A., — num gesto de menino — trouxe em mãos… uma margarida branca-miúda… a mais bela das flores. Tinha colhido em um jardim a caminho da escola. Não disse palavra… apenas realizou o delicado gesto: entregando a Primavera em minhas mãos de menina. Sorri todas as emoções conhecidas até aquele instante e creio que algumas desconhecidas também.

Nos tornamos amigos-cumplices… dividíamos o lanche, o olhar, o sorriso e a vida mínima. Ele gostava de escrever versos. Sabia rimar toda e qualquer palavra e eu achava divertido as invencionices que ele fazia. Mas eu preferia as frases inteiras, demoradas…

Éramos os únicos da turma de doze crianças a saber ler e escrever… os demais se limitavam ao monótono jogo de riscos e rabiscos.

Descobri através dele que gostava mais de meninos que meninas.

Elas eram barulhentas e brigavam por qualquer coisa ou motivo. Viravam a cara uma para as outras sem motivo aparente. Pouco depois faziam juras de amizades eternas, trocavam abraços e tagarelavam incansáveis. Elas não gostavam de sujar as preciosas roupas e sapatos. E adoravam bonecas — objeto que eu sempre detestei.

Os meninos eram arteiros, audaciosos… viviam com as roupas sujas, a pele rasgada e os sorrisos era imensos. Escalavam árvores-muros… tinham brinquedos mais divertidos e combinavam artimanhas singulares. Vez ou outra exibiam olhares furiosos. Faziam caretas engraçadas e cerravam os punhos… prontos para uma troca de socos. Eles eram ágeis-inquietos e aventureiros natos…  com certeza eu gostava mais deles.

A., me dava a mão no caminho de casa e dizia que eu era a menina mais legal do mundo… eu corava e convivia com um sem-fim de pontadas na boca do estômago. O coração disparava. Os olhos arregalavam-se e as comichões se multiplicavam na pele, espalhando pelas veias, nervos e músculos.

Certa vez, ao me deixar no portão de casa e acenar… foi ágil em se soltar da mão de sua mãe e voltar correndo para deixar em meu rosto um beijo morno. Paralisei no portão, com os olhos voltados para dentro, arregalados para o lado de fora…

Eu me alegrava facilmente em sua presença — o corpo todo era uma festa — mas, quando ele ia embora, deixava em mim uma estranha sensação de fim-do-mundo.

Ele se mudou no verão seguinte. Foi um dia triste. Nos despedimos com abraços. Ele perguntou a C., se eu poderia ir com ele. A resposta era óbvia. Ele prometeu escrever… mas não o fez. Não soube mais do menino da rua de baixo, com olhar caramelado.

Anos mais tarde, pensei tê-lo visto no Campus de Coimbra. Fiquei a observar o gajo em busca de certezas. Uma parte de mim… queria que fosse ele e imaginou o reencontro. Outra parte de mim… preferia as coisas nos seus devidos lugares.

Nesse novembro [entre outras coisas] vamos de #blogvember…
Aventuram-se em linhas diárias: Mariana Gouveia, Obdulio Nuñes Ortega,
Suzana Martins e Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

12 comentários em “Guardo-te na caixa dos segredos como se joia fosse… espio-te com lupas microscópicas

  1. Amores que nascem assim… são como as plantas que a gente nem vê despontar. E que são lindos e muito gostosos.

    Abrs

  2. Gosto de te ler e pensar em mim enquanto o faço; de imaginar como seria você escrevendo as minhas lembranças. As conversas para isso acontecer seriam incríveis e haja café. Quando penso na minha infância, juventude, é tudo tão comum.

    Você parece tão Jane Austen. rs
    Como você me diz: gosto imenso disso

    Bacio.

  3. Ah… essas sensações… Quem dera revivê-las…. Pergunto-me o motivo pelo qual elas se perdem tanto no tempo…

    beijos

  4. Ah Lunna, essa sua história me fez lembrar do meu primeiro amor e foi na pré-escola. Um garoto sardento de cabelos cor de fogo, Peter… No ano seguinte, voltou com seus pais para a Holanda. Fiquei por um bom tempo tristonha mas a vida segue e as lembranças ganham cores especiais. Belo texto!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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