* Através de um continente imaginário

* verso de Laura Riding

Cara Laura,

Reler é uma das minhas formas de eclipse… É um verbo-ritual que pratico com certa frequência e eu nunca sei qual livro voltará para as minhas mãos. Na maioria das vezes acontece ao descê-los das prateleiras para tirar o pó. Afundo o olhar-corpo-alma-memória em algum exemplar que salta para dentro dos meus olhos e me esqueço do mundo-vida e dos afazeres todos…

Foi o que eu fiz nesse dia de trovoadas… re-li de um fôlego só, um livro-seu que me impressionou no momento da primeira leitura… num desses ontens que eu coleciono dentro.

Alguns livros vão e vem, mas há os que ficam e atravessam oceanos dentro de uma velha mochila… Foi o que aconteceu com o seu ‘mindscapes’ que ganhei em meu décimo segundo aniversário. Foi um pedido meu, que foi atendido graças ao livreiro da minha infância, que providenciou o exemplar, que se tornou presença constante durante a minha segunda década de vida. Devorei-consumi em meus intervalos… aquele tempo alquebrado que eu nunca sei como aproveitar.

Há poetas que escrevem com a alma… outros, com a pele. Alguns são emoções a transbordar. Eu diria que você escreve com o pensamento. Seus poemas são deslocamentos de ar…

A re-leitura entre goles-e-soluços do velho exemplar… me fez perceber que ainda não havia lido a sua poesia em meu novo idioma de vida… E lá fui eu procurar traduções. Para a minha surpresa, encontrei várias páginas dedicadas a você. Optei por ler-te na pessoa de Rodrigo Garcia Lopes — um ensaísta paranaense —, a quem encontrei primeiro na voz de Whitman — tradutor de ‘Folhas da Relva’… um dos primeiros livros que comprei nas livrarias da Paulicéia; e Sylvia Plath. Agora leio-te nessa voz dupla-multipla.

Gostei imenso do que li. Foi como descobrir outra poeta-mulher — com outro nome, talvez. Não seria surpresa. Você sempre foi múltipla e gostava de saltar de nome em nome: Laura Riding, Laura Jackson, Laura (Riding) Gottschalk… metamorfoseando. E, ao saltar de um verso para o outro, parece que a ouço dizer: só lhe resta olhar bem. E eu obedeço e avanço para o verso seguinte

Respirar palavras vivas/ endereçar vivacidade/ nos olhos que lêem”.

COMO NASCE UM POEMA
Para James F. Mathias

A necessidade nos acossa como acusação de impotência:
Você pode ou não falar mais alto,
Provar que está presente?
O que você precisa encontrar para dizer,
Para passar o saber que você existe
À revelia dos crentes ou descrentes
Da nossa espécie em cada um,
Você pode chegar junto ao chegar perto deles
E deixar o assunto de aceitação
Suspenso entre sua oferta
E seu destino com eles no tempo.
(Isto se chama “prosa”!)
Ou você pode convidar ouvintes,
Sem esperar por eles ─
Fazendo do que você acha para dizer
Um testemunho de si, se ausente de ouvintes.
(Assim o poema se constrói:
Para ser entregue numa distância curta.
Mesmo sem plateia, fala.)

A realidade num poema é inextensível.
Abrange a vontade de falar mais alto,
Mas, se presume incluir
A vontade visitante de ouvir o que é dito,
Finge ser uma
Presença além da sua mesma.

O que mais pode ser feito?
Não falamos mais um com o outro?
Pomos palavras no ar e no papel
Que viajam entre nós como se o real,
Sob a proteção do tempo,
Com nem tudo perdido entre uma e outra,
Estas, aquelas e suas outras,
Ou perdidas de uma vez?

Não fosse isto um poema
Eu falaria sobre o falar,
Escreveria sobre o falar (e sobre o escrever),
Que se guardaria para o outro, outros,
Se construiria para todo mundo,
Ou para ninguém, contendo em si sua força viajante,
Sem precisar de uma graça de tempo para resgatá-Io
De uma perda total.
 
Ou eu falaria, escreveria, assim,
Esforçando-me para construir, quero dizer,
Algo ligando nossos entendimentos
Numa realidade de palavras, de eus, de outros,
Mais dizível, mais penetrável, habitável, aberta.

Nesse novembro [entre outras coisas] vamos de #blogvember…
Aventuram-se em linhas diárias: Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega,
Suzana Martins e Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

5 comentários em “* Através de um continente imaginário

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