6 on 6 | monocromático

Nas férias de verão, a gente se sentava na sala com a nonna para virar as páginas dos álbum de fotografias — ritual comum em nossos fins de tarde alaranjados. Era a maneira de saber quem havia nos deixado-crescido-chegado. Ela colava uma a uma as fotografias em um velho álbum, que parecia um livro de história… da nossa família.
Certa vez — ao virar das páginas — caíram algumas fotografias, em tom de sépia. Foram feitas em um Stúdio. Eu as espalhei por cima da mesa e achei engraçado… pareciam personagens a encenar uma vida-inventada.
A nonna preferiu não colar no álbum… me encantou, no entanto, o tom de envelhecimento no papel que suavizou as cores — permitindo outros tantos detalhes que as cores apagam-abafam-misturam.

E eu aproveitei a lembrança e o tema… para fazer meu próprio álbum nesse dia seis:

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1 — para começar… uma xícara de café as nove, na varanda para celebrar um novo dia e o silêncio desses dias fechados dentro.

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2 — a melhor das companhias nessa fase de #ficaracasa. Ela tem preservado a minha sanidade já que precisa caminhar. Seguimos as duas pelas ruas do bairro e depois fazemos uma farra gostosa na hora de lavar as patinhas… afagos e biscoitos.

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3 — essa casinha encolhida entre prédios há tempos chama a minha atenção. Gosto de sua pequenez ante a imensidão dos arranha-céus. De sua janela e do quintal com flores, sem frutos. Nunca vi via alma por ali. Parece abandonada… mas alguém varre seus recortes de cimento até a porta-de-entrada (sempre fechada).

img_20200405_1539104 — minha família nada tradicional… na frente de um templo sagrado para mim: uma livraria…

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5 — sai para caminhar antes da pandemia… era nossa primeira semana em novo bairro e fui surpreendida por essa casa ainda estar no mesmo lugar. Um pouco mais velha e pela primeira vez, com a janela aberta…

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6 — gosto imenso desse espaço aberto para o céu-sol-lua e não fui a única.

 



Ale HelgaDarlene ReginaLucas Buchinger
Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega


beda

6 on 6 | bonappetito

O que me agrada na cozinha são as relações que traçamos a medida que dispomos os ingredientes. Não importa se eu cozinho para um-dois-três ou mais. O instante em que defino o que farei… é o melhor dos momentos. Penso os pratos-talheres-corpos-taças… a mesa. As panelas que irei usar e os ingredientes — que gosto de escolher com calma. Primeiro… através do tato e depois do aroma.

 

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1 — na cozinha… tudo é ingrediente! Das pessoas que compartilham do lugar à mobília… o que se acomoda dentro dos armários e o que se oferece as mãos — xícara-talher…

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2 — se eu disser tomate em voz alta… uma série de referências virá à mente. Eu penso em faca afiada, tábua… cebola-alho-azeite-salsinha-pimentão e nos diferentes tipos de massa. Penne. Fusilli. Capellini. Bavete… além dos tipos de molhos.

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3 — Mas e se eu disser Sopa? — meu prato favorito. Regresso… mala pronta e a casa fechada. Uma sensação estranha na pele — por dentro — de nunca mais. Partir sempre foi algo estranho… ver pela última vez o lugar onde se vive-cresce. Chegar também me inunda — desde a infância — com curiosas sensações. Me desoriente. Demoro a me acostumar com as cores do lugar. A compreender as texturas e o lugar dos pés. A primeira noite na casa da nonna tinha caldo de massa, servido dentro do pão.

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4 — Mas e seu eu disser trigo?  Quantas possibilidades-cenários-lugares? Ontem-hoje-amanhã.  Uma vasilha azul na infância… ovos a resvalar com cuidado na borda. Casca trincadas. Gema e clara se misturam ao leite e manteiga, açúcar e um punhado de sal. Uma colher de pau em movimentos lentos-circulares. A mesa de madeira de ontem… uma bola de massa sendo sovada-aberta-recheada, repetindo os movimentos da nonna.

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5 — A cozinha é esse lugar para pensar-estar-combinar ingredientes, pessoas e diálogos… e se encontro pão amanhecido… fatio e douro no manteiga com alho. Cubro com queijo e levo ao forno para gratinar. Depois pergunto despretensiosamente: è servito? 

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6 — E se faz sol… preparo um café e sirvo com uma fatia de bolo de fubá. Mas se chove lá fora… combino trigo, leite, ovos, açúcar com baunilha, fermento e frito colheradas da massa. Breve, rápido como um bom poema de Sylvia Plath… leitura desse dia seis…

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Alê HelgaDarlene Regina — Obdulio Nunes Ortega
Isabelle BrumMariana Gouveia


 

 

6 on 6 | cores

Eu não tenho apreço pelas cores… primárias-secundárias ou terciárias. Gosto imenso da ausência de luz. Dos borrões que misturam todas as formas e nos obrigam aos outros sentidos. Ocasionalmente eu fecho os olhos para ver dentro — escutar as batidas do cuore. Sentir através do tato — são outras formas de ver. Mas não nego, tampouco recuso a beleza dos tons.

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1 — sinto falta das venezianas pelas manhãs. Aquele movimento de deixar entrar as cores, os sons, os aromas e a luz da manhã. Eu gostava imenso de fechar os olhos e sentir o lugar na pele, por dentro. Quando passo por certas paisagens paulistanas, como essa (viaduto conselheiro furtado) repito o velho ritual… e o click da câmera do celular se transforma em veneziana.

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2 — São Paulo ficou conhecida como cidade cinza, selva de pedra… e eu me lembro da primeira vez em que estive aqui. Me assustei com as formas. Não era um grande borrão a céu aberto. O que eu vi foi uma grande confusão de cores.

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3 — As melhores cores ficam dentro… da cozinha, ao alcance das mãos…

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4 — E quando misturo as cores… combino ontens. Tudo que eu trago dentro se esparrama pela mesa e as mãos moldam futuros que serão levados à mesa numa espécie de daqui a pouco.

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5 — A cor de um bolo de cenoura com cobertura de chocolate pressupõe cor-sabor… uma brecha no tempo, um fim de tarde e as coisas do mundo-vida deixadas para depois.

76 — ah, nós dois… mistura de cores-aromas-temperaturas!

 


Ale HelgaDarlene Regina —  Lucas Buchinger
Mariana Gouveia — Obdulio Nunes Ortega


6 on 6 | Os lugares por onde andei…

Janeiro sempre me convida a andar e sometimes me surpreende com seus múltiplos cenários e espaços inusitados.
Baudelaire disse “as cidades mudam mais depressa que a alma dos mortais“… e sempre que saio às ruas, levo comigo essa frase na pele… para manter o olhar atento-disciplinado e para que nada me escape…

01 - casa

01 — gosto de ficar a casa, com os pés enfiados em meias e o corpo refugiado em pijamas de flanela, os olhos preso as páginas de livros e os lábios umedecidos por beijos e goles de chá-café…

“a rua ia gritando e eu ensurdecia”.

 

02 - entre esquinas

02 — sair para andar ruas e encontrar amigos que apreciam diálogos e cafés… em janeiro é uma delícia andar as calçadas largas da Paulista no final da tarde e passar em uma Starbucks para encontrar e ser encontrada…

“as persianas abrigam certas luxúrias”

 

03 - meu bairro favorito

03 — Domingo pela manhã e você sai para andar as ruas do bairro… entra no metrô e muda de bairro e enquanto caminha, de repente, esbarra no outono, como se a cidade quisesse manter-se fiel as falas de seus transeuntes “em São Paulo, a gente vive as quatro estações do ano dentro de uma mesma hora“…

“Farejando em cada canto os acasos da rima
Tropeçando em palavras como nas calçadas”

 

04 - masp

04 — O Masp é esse lugar sagrado para o meu corpo-memória-alma… gosto imenso de andar seu espaços, galgar seus degraus, observar suas formas e me misturar ao que suas paredes exibem. Em tempos contemporâneos em que a Arte esbarra na ignorância de cada um, que tenta pontuar o que é ou não é Arte a partir de seus umbigos… as exposições no Masp é um pouco de ar puro nesse cenário poluído.

“em cidades e campos, telhados e trigos
Exercito sozinho essa absurda esgrima”

 

05 - dia de chuva

05 —  Faz tempo que o caminhar me permite higienizar a mente… calar a voz e arrumar a bagunça da casa-corpo. Esvaziar gavetas-caixas… ler antigos textos e passar a limpo lembranças. Jogo muita coisa fora e me deixo tocar por tudo que a cidade oferece… porque escrevo enquanto ando porque vou na mesma direção que o grafite no papel.

“paisagem feita de um sem-número de vidas” 

 

dsc_022506 —  Não importa quantos espaços eu percorra e eu sei que me perco… saio uma e volto outra. Chegar é sempre um verbo bom de se conjugar, tanto quanto voltar. Há festa do cão, do homem-menino e da minha alma, que sabe que casa e corpo são uma mesma matéria…

“deem à cidade um pouco do vosso amor à paisagem”

 


Também foram por aí…

Darlene Regina Isabelle BrumLucas Buchinger
Mariana GouveiaObdulio Nunes Ortega