6 on 6 | Meus livros…

É por isso que dou tanto valor à pequena frase ‘não sei’. É pequena, mas voa com asas poderosas. Expande nossa vida para incluir espaços que estão dentro de nós, bem como vastidões exteriores em que a nossa minúscula Terra pende suspensa.

— Wislawa Szymborska —

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Eu cresci em uma casa com livros… enciclopédias, livros jurídicos e uma vasta coleção literária que passeava por diversos temas: de religião à psicologia e da ficção a não ficção. Eu gostava de observar a ordem dada aos livros nas prateleiras, em cima dos móveis. De ver as anotações feitas em folhas avulsas e compreender o ritmo das marcações nas páginas. Em meu quarto… eu tinha pouco mais de meia dúzia de livros, empilhados e mantidos em pé com a ajuda de um apoiador — comprado em uma feira de artesanato.

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1 — não sou amante de estantes, mas tenho a minha feita de caixas de feira, onde livros se acumulam após serem lidos e deixados ali a espera de nova leitura. A maioria dos livros não ficam quietos-imóveis por muito tempo e os que não saem de lá, em algum momento acabo por dar outro destino a eles… não coleciono livros, eu coleciono leituras.

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2 — até por ser assim que os prefiro em pilhas, ao lado da cama, sobre a mesa de trabalho… sempre ao alcance das mãos. E gosto imenso quando a pilha se forma porque eu os li no decorrer dos dias. Mas tenho um pilha de livros não-lidos também, que me olha e provoca…

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3 — e há os livros favoritos… esse de Campos foi o primeiro que eu comprei em São Paulo, em 2002 — poucos dias após a minha chegada. Estava a transitar pelo Centro velho paulistano e suas ruas antigas, cheias de pessoas apressadas, quando esbarrei numa livraria. Eu tomei um susto porque não combinava com o lugar… disputava espaço com lojas de roupas, calçados de crédito, bancos, perfumarias, doces e as famosas lojas de 1,99 que à época era uma febre.  Entrei… e poucos passos depois encontrei Álvaro de Campos — que até hoje passeia comigo por essa Pauliceia insana.

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4 — e tem aqueles livros que ganham novas versões de tempos em tempos e que eu compro porque preciso ler e descobrir detalhes diferentes na tradução, ralhar com mudanças que a leitora que eu sou, considerar equivocada…

dsc_00145 — e há esse livro, que fica guardado dentro de uma caixa… para que eu me lembre que livros não precisam ser best-sellers e podem ser poucos-únicos. Dois ou três, quatro ou cinco — e, feitos um a um… com palavras-papel-linha e agulha.

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6 — e os livros que são meus em todos os sentidos… pelo tato-fato-aroma-estado. Mas não pertencem apenas a mim, são de outros olhos-bocas-mãos-braços-pernas-pés. Vez ou outra mandam notícias. Dizem como foi sair de mim e ir habitar outra casa-corpo-olhos. Contam-me notícias estranhas. Nem sempre os reconheço. É um bocadito estranho, mas ainda sim, o crédito está escrito na capa: lunna guedes.

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Participaram
Bells| Fernanda Akemi | Maria VitóriaMariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega  

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6 on 6 | minhas noites

Doze horas /  Pelos caminhos da rua /  Preso em síntese lunar / A sussurrar encantos lunares /  Dissolvem-se os assoalhos da memória /  E suas relações claras /  Divisões e precisões, /  Todo poste que passo /  Bate como um tambor fatalista, /  E pelos espaços do escuro / A meia-noite chacoalha a memória /  Como um louco chacoalha um gerânio morto.

— T.S.Eliot
Tradução  de Adriano Scandolara

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1 — Gosto imenso da noite… principalmente nas primeiras horas, quando a cidade começa a se transformar num grande borrão de tinta no canto da mesa. As sombras igualam as formas… eu preparo uma xícara de chá e espero…

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2 — Passa das seis… a noite se esparrama pelos cantos da casa-pele-alma-cidade e me faz relembrar os aromas antigos… gosto imenso desse cair de pano. Ingredientes escolhidos-lavados-descascados-picados. Panela no fogo. Mesa posta e os sabores se deixam provar…

os caminhos que se apresentam a nós

3 — Passa das nove… há sempre um ângulo novo-diferente-inédito… de luz. Janelas acesas. Portas fechadas. Ruas vazias… há algo de catedral no ar… o silêncio se observa em meio a qualquer coisa de som… os passos, a respiração, o cuore dentro do peito e a imaginação, que é como o tic tac de um carrilhão nervoso, que emerge de meu passado.

dsc_0061-14 — Quase meia noite... metade-pedaço. A noite faz com que a vida fique em suspenso… o tempo não passa, mas as horas avançam rapidamente dentro do sono-sonho de alguns ou dentro dos vazios de outros. Eu viro as minhas páginas…

dsc_00665 — Quase duas… me apetece sempre ficar-estar… verbos facilmente conjugados dentro das noites, que nessa época do ano, começam a acontecer um bocadito mais cedo. As paredes do lugar vão esmaecendo gradativamente e o corpo começa a ter a função de casa para a alma. Função de aconchego modo on

DSC_01816 — Quatro e dez… o melhor da noite é o verbo que eu conjugo na minha própria pele: anoitecer… entre livros, cadernos, chopin, uma xícara de café e todos as terríveis formas de silêncios que eu bebo em pequenos goles…

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Participaram também

 Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega 
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