BEDA | O desafio dos trinta e um dias…

WhatsApp Image 2017-08-31 at 23.45.13

Trinta e um textos escritos em trinta e um dias. Um mês inteiro, que passou num sopro… tem certeza de que era Agosto? Eu não tenho… nunca fui fã desse mês insano-perturbado, chamado por aí de ‘mês do cachorro louco’, com suas lendas estranhas. Certo mesmo apenas que não vi os dias, não dei por eles, mas escrevi durante cada um dos dias que passaram por mim. Insano, eu sei… mas é agosto. Certo?

No último dia… transitei pelas ruas-veias dessa cidade, com seus faróis apagados e suas esquinas falsamente organizadas por marronzinhos a soprar apitos bobos, como os vendedores de picolés da minha infância.

Sentei-me a mesa de um café, no final do dia para um abraço atrasado e um gole de latte. Recordei — atordoada — o tempo em que os blogues foram uma mania frenética e eu escrevia — de maneira livre-sem-moderação — posts e mais posts. Dois… três… quatro… por dia. Era tão fácil-simples. Era uma escrita leve, sem preocupação. Escrever por escrever somente.

Vasculhei meus arquivos… e me deparei com os textos escritos para povoar olhos que se somavam aos meus. Eu escrevia com calma, na primeira hora do dia, antes de ir me deitar. Escrevia em movimento, de maneira arredia. Escrevia e publicava, como se fosse a correspondente de várias pessoas e o meu blogue o envelope que chegava a caixa de correspondência de centenas de pessoas.

Não desaprendi a arte de ‘blogar’, mas confesso que foi difícil me dedicar ao compromisso diário. Foi agradável saber que ainda sou capaz de dialogar através dessa ferramenta, mas confesso, estou velha demais para esse exercício.

{Pausa para o riso}

Agosto acabou e o BEDA também… amanhã será setembro, depois primavera e a vida segue, mas no meu caso, posso assegurar que voltarei a escrever…

Au revoir

 


selo para o BEDA

Anúncios

BEDA | Apenas uma personagem…

french-inhale_thumb.jpg

Sempre alguém me pergunta quem é Catarina… e em seguida: porque ela voltou a escrever. Exibo um sorriso nos lábios e me calo… porque não gosto de me explicar. Quer me ver naufragar… é ser questionada quanto a um título-rótulo — como se uma história simplesmente se explicasse sem que fosse preciso ler suas linhas.

Catarina é apenas uma personagem… a primeira, dentre todas, nas quais tropecei em meus caminhos de vida. A chamei assim, porque esse nome já existia em mim. Pertencia a uma figura — intempestiva. Habitamos o mesmo espaço… tropeçamos em nossos discursos contidos. Dividimos insanidades. E pouco depois — sem deixar rastros — ela simplesmente desapareceu…

Eu percorria uma das avenidas de São Paulo a bordo de um Coletivo… espiava as esferas urbanas, com seus movimentos humanos. Vivia dias de quietude, a afundar-se no abismo que sou. Não conseguia organizar uma única frase. As palavras soavam estranha. Faltava-me vontade-ânimo… e, pensei que jamais voltaria a escrever um mísero texto. Acabou — disse em voz alta sem me preocupar com o que eu faria com o que sobrou de mim no dia seguinte.

Encarei meu próprio reflexo no vidro da janela do Coletivo ‘lapa-vilamariana’… e vi meus lábios em movimentos-mudos a tramar uma espécie de diálogo… a soluçar a cidade. De dentro de mim — como quem escava as cavernas da pele — ecoou a frase que Catarina costumava anotar em si mesma e nas folhas brancas que levava consigo — “será que a gente morre quando não tem mais nada a dizer?”.

Ao chegar ao café entre esquinas, abri o meu notebook e digitei no espaço em branco do worpress… Catarina voltou a escrever.

 


selo para o BEDA

BEDA | Chá de hortelã…

Dizem que o tempo ameniza Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece Como os músculos, com a idade

Emily Dikcinson

ritual-do-cha

O chá de hortelã veio à mesa, enquanto eu misturava folhas num trabalho Plural. O exato instante — precioso — em que absolutamente tudo me pertence… já deixei de ser a leitora voraz, que garimpa seu ouro a partir dos instintos que trago em mim, prontos para uso — e aos quais recorro, consciente ou inconsciente.

Talvez seja por isso que uma das perguntas que mais ouço em meu cotidiano é: como se lê poesia? Sempre que essa questão me alcança… eu respiro fundo, pinto nos lábios um sorriso e engulo um pesado gole de café, enquanto observo o espaço a minha volta.

Como ler poesia? Repito a pergunta em meu avesso, em busca da resposta… que está trancafiada em algum canto de minha memória. E, para isso, é preciso instigá-la e trazê-la à tona.

…recordo o primeiro livro — pequeno — e seus versos em idioma outro, a esfarelar-me… Não perguntei a ninguém como ler. Mas precisei de um dicionário, porque ainda não tinha vocabulário suficiente.

Eu não tinha um manual de instruções sobre como proceder, tampouco a orientação de uma pessoa. Segui meus instintos para ler, entender e sentir os versos, que despejaram em mim uma melancolia úmida-única… que me fez calar.

Entendi que a morte era traiçoeira e agia na calada de nosso fôlego. Morri… no arrepiar da derme, anestesiada pela intensidade dos versos que me liam.

Depois desse primeiro momento, encontrei outros tantos livros-poetas por aí… uns não ecoaram em mim… outros, apenas rasparam suavemente minha derme, como um esbarrar apressado pelas ruas da cidade, sempre em movimento.

Entendi que poemas têm sonoridade e são como músicas. Me apaixonei por Bach aos nove anos… que replicou em mim aquela sensação primeira. Foi nesse instante que compreendi o valor da primeira sensação. É o que buscamos ao ler. Queremos e precisamos sentir aquele conforto-desconfortável… desejamos alcançar a melancolia-úmida-única.

Mas, a maioria de nós não tem tal consciência… desconhece a sensação, porque somos desatentos por natureza. No entanto, está tudo lá, no fundo de nós. Notas a ressoar no vazio… e, quando alguém nos alcança e toca, é aquele instante mágico… a melhor das sensações. Um emergir em vida-morte-fim-começo-desfecho…

Porque ler poesia é ler-se… em algum momento a pele goza do arrepio sagrado da primeira vez. Amém.

 


selo para o BEDA

BEDA | Coisas que eu não gosto…

o-tempo-de-kairos_thumb.jpg

— ulisses! Dias de sol… sexta-feira! Programas de televisão. Mesa cheia. Gente chata. Gato na janela. Gente que interrompe a fala alheia. Água gelada. Livro chato. Gente que começa a contar uma história — se arrasta — e não acaba…

Tela em branco… folha em branco. Grafite quebrado. Gente que reclama da chuva… tem medo de trovão e não gosta de Fernando Pessoa. Crianças… gente velha — café frio. Telefone tocando. Campainha desesperada. Dedo apontado na cara…

Sapato de salto. Vestidos… saias, blusinhas femininas e revistas de moda. Palavras cruzadas…quadro torto. Manhãs ensolaradas. Chuva sem trovão. Músicas que só tem refrão. Chiclete e balas de goma. Abraços frouxos e indiretas desnecessárias. Falas longas. Palavras abreviadas. Gírias e legumes usados como adjetivos.

Escada rolante. Desodorante… gente que fala ao celular, achando que está na sala de casa. Opiniões sobre tudo. Desaforos. Sala de aula… escritas acadêmicas. Contos de fadas. Verão… os dias de dezembro e também os de março… e não gosto de agosto! Feriados que mudam os dias da semana de lugar. Livros sem capítulos. A linha vermelha do metrô. Vitrines de lojas. Gente que não responde cumprimento. Meio-dia… relógio parado… hora inteira. Memória lotada. A última página do caderno. O último pedaço de bolo. O último biscoito do pacote. Gente que se acha engraçada. Mensagens deixadas na secretária eletrônica… e gente que chega atrasada.

Não gosto de passarinho em gaiola… nem peixe em aquário. Copo vazio, xícara quebrada. Quando um pensamento é interrompido… um texto perdido. Gente que não devolve livro. Prateleiras vazias… e também as cheias.  Gente que marcha quando anda. Fim de feira. Supermercado aos sábados… também não gosto de festas. Multidões. Rua sem saída. Casas quadradas. Jardins sem flores. Cachorro sem dono… a vagar perdido-desorientado pelas ruas em busca de um humano para chamar de seu. Travesseiro baixo. Poesia concreta… e listas sem fim! Ops…


selo para o BEDA

BEDA | Das coisas que eu gosto…

reallity

De palavras sonoras e fim de tarde com sol a resvalar sem força na silhueta dos prédios vizinhos. De vento frio junto a pele… a causar arrepios. De chuva branda dentro da noite. Da primavera e seus tapetes de flores pelo chão. Do outono e seus ventos frios no final da tarde. Do verão e suas tempestades insanas. Do inverno e suas mantas vermelhas, canto do sofá e meias brancas nos pés…

Da cidade e sua Avenida Paulista em linha reta a dizer sempre coisas modernas. Da pressa de sua gente e da lentidão dos meus movimentos. Das esquinas. Alamedas. Cafés e Boulevares. Das vitrines sem graça. Dos amigos que não reconheço, mas que estão lá em meio aos humanos em movimento. Voltar para casa.  Janelas entreabertas, com cortinas em movimento. E dos carros parados nas grandes avenidas. Das sombras que crescem com a noite e da solidão que percebo quando olho para cima…

De barba a roçar a minha pele e a xícara de chá quente entre as mãos nos dias frios. Envelopes vermelhos e amarelos em cima da mesa, ao lado das folhas em estado de espera. Janelas abertas pela manhã. Ingredientes sobre a mesa. Taças cheias. Gargalhadas dentro da noite. Brindes. Diálogos inteiros – pela metade até a madrugada alta-escura-densa.

Picar cebola, alho, tomates. Ouvir a chaleira apitar. Mesa posta. Olhares. Os muitos cantos da casa: da cama, do sofá. A noite inteira. Meia noite… a alma em repouso e o relógio a gritar eufórico as horas junto dos pássaros, que por aqui, cantam dentro da madrugada.

Livros espalhados em cima da cama. Filme antigo na televisão. Tabuleiro de xadrez com as peças em movimento. Cheque mate. Os últimos instantes da tarde. A lembrança sonora de um velho carrilhão a dizer as seis horas. Mesa posta. A noite a se precipitar pelas ruas. As luzes acesas no alto dos postes. As sombras a se espalharem ao longo das alamedas. Semáforo vermelho… Lembranças. Saudades. Baús antigos. Chaves perdidas. E o refrão de uma música a se repetir dentro da pele maybe in the future, you´re gonna come back, you´re gonna come back”. Ficar parada no mesmo lugar a equilibrar-se…  observando pessoas. Sabendo-as. Imitando-as – deixando de ser o que sou, para ser o que nunca fui…

Meia noite. Meia vida. Meio dia. Meia hora. Metade da laranja. Metade de mim. Metade do filme. Metade. Apenas metade… nunca inteira.


selo para o BEDA