23 | velhos hábitos

clone tag: -8282131645243887907

setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encadernar os cadernos com folhas de jornal e plástico transparente.
livro novo de poesias. era nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton.
a leitura acontecia sempre da mesma maneira. sentava-me na cama à noite. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. sábado. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas.  como antes.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo….

 


maratone-se grupo interative-se

Anúncios

20 | espírito de tempestade

dsc_0075Treze e trinta e quatro. Um minuto antes eu pensava no vento de ontem. Lia na cama ”aqui de dentro‘ quando ouvi o uivo forte. Vento Sul. Céu encoberto. Fazia calor e eu me lembrei de uma reportagem sobre o inverno. A elegante moça do tempo falava: ‘foi o inverno mais quente e seco dos últimos vinte e três anos“. É o tipo de notícia que me faz desligar a televisão.

Treze e quarenta. Me lembrei que tenho um livro a organizar. Mas a minha mente não se orienta nesse sentido. Fica a dar voltas e voltas e voltas… feito ponteiro de relógio. Sinto como se a engrenagem mental estivesse com defeito e eu precisasse recorrer a um personagem que abandonei em algum rascunho-gaveta — um velho-relojoeiro-sapateiro — para fazer funcionar corretamente. Me lembrei de Nabokov e na sua razão para escrever: “êxtase estético” — seja lá o que isso signifique. Penso imediatamente na minha razão para escrever. Respiro fundo. Me lembro de ontem. do vento forte. do livro em minhas mãos. Olhos fechados. A tempestade chegando lentamente com trovões-relâmpagos. Uma conversa sobre o tempo, minutos antes. Choveu forte…

Treze e quarenta e seis. Vou para a cozinha colocar a água para ferver. Preciso de uma xícara de chá. Na pele ecoa ‘claire de lune‘. Sinto o silêncio emergir de meus cantos mais profundos. Penso no título que surgiu antes de qualquer texto. ‘meus naufrágios‘. Penso no que sou e no que nunca serei. Penso. Penso. Penso. De quantos minutos preciso?
.
.
.
.
Treze e cinquenta e oito! Um gole de chá. Quais serão as notícias do mundo, nesse dia meio azul, meio cinza? Outro gole de chá. O vento sul foi embora. Deixou no ar qualquer coisa de primavera, que segundo a ‘simpática moça da previsão do tempo‘ só começa no sábado — com hora marcada. Mais um gole de chá. De onde será que eles arrancam essas certezas? Gostaria de ter um pouco delas para beber em pequenos goles também. Outro gole de chá


maratone-se grupo interative-se

17 | s e g u n d a

dias de setembro

Dia cinza. Segunda feira. Ainda inverno. Quase primavera. Ainda setembro. Quase outubro. O ano ainda não acabou, mas falta pouco. Impossível não se espantar com a voracidade dos dias-horas quando a gente se dá conta de que restam poucas folhas no calendário de 2018 e ainda da para sentir todos os meses anteriores na pele.

Alongo os músculos. Coloco a água para ferver. Dou passos pequenos pelos cômodos ainda escuros. Escuto o som agudo da chaleira a gritar — desesperada — na cozinha. Café na xícara. Um poema de Ginsberg para esse dia-momento.

Lista de coisas a fazer-cumprir na mente: organizar as horas desse dia-semana. Organizar-me. Começar a ler outro livro… dos escolhidos: três já se foram. Organizar-me. Ler e responder os e-mails antes que se acumulem. Tramar os dias seguintes. Organizar-me.

Deixei todas as coisas à deriva nos últimos dias. São os meus processos. Preciso esvaziar-me do ontem para alcançar o hoje-amanhã. Encher o peito de ar. Fechar os olhos e sentir-me dentro. Consciente de que tudo que era para dar certo: deu… e tudo que era para falhar: falhou.

Eu gosto desse equilíbrio… de saber que irei errar-acertar muitas vezes. Que irei sorrir-chorar… amar-odiar… ser feliz-triste. É vida… e pulsa… pulsa… pulsa. E eu gosto imenso de como tudo acontece.

Dois mil e dezoito não está sendo fácil… os movimentos humanos estão tensos. Os ânimos acirrados. Verbos conjugados de maneira equivocada… pela esquerda-direita. Por todos nós.

Não me misturar é difícil. Tento me preservar dessa falta de modos social. Nem sempre consigo. Ainda mais quando não entendo certas falas machistas-preconceituosas que insistem em reverberar. Como é difícil mudar…

Me concentro em respirar… ainda que o ar esteja pesado-envenenado. Me concentro em meus afazeres. Em organizar-me. Ler meus livros… e a planear novos ‘cadernos artesanais’ e providenciar ingredientes para a hora do almoço.

Coloco Chopin no toca-discos… palavra antiga que repito com gosto. E me Lembro que a Scenarium abriu as portas para novos autores. E começo imediatamente a imaginar as palavras que serão enviadas para nós… por escrevinhadores-contemporâneos.

No ano passado… pouco me seduziu. Sou uma escritora-editora-Leitora… exigente-difícil… que gosta de, ao ler, sentir aquele aconchego da infância — ‘encostar a cabeça no peito e ouvir o ressonar do cuore‘. tum tum… tum tum…

 


maratone-se grupo interative-se

Beda | mais um ponto final em minhas vivências…

dsc_0016

 | aumenta o som  |

 

trinta e um dias. agosto. último dia. sexta-feira. adormeço no quarto escuro. a vida ensaia um novo hiato. a última hora. o último texto. a água ferve. a xícara espera na mesa. corto pães ao meio. besunto com manteiga. pico cebola-alho-tomates-couve.

…a ansiedade percorreu minhas veias nessa semana. encontrei pessoas. desencontrei lugares. falhei comigo e com minhas idéias. dei passos em direções erradas. dei passos… me desequilibrei. me distrai. insisti…

ouvi o som do cuore a pulsar os dias de ontem-hoje-amanhã. as notas que valem. a canção diz, como um mantra que eu repito com algum prazer — ‘I am here, I am here / I’ve already seen the bottom / So there’s nothing to fear / I know that I’ll be ready when the devil is near”… o sorriso pousa nos lábios. repasso as páginas de borges. relembro a história de vida de plath e penso um punhado de linhas para setembro, o septum que me orienta. não é mais o sétimo mês do calendário, mas a grafia mantêm a relação do número em minha amalgama.

…faço uma prece secreta-silenciosa enquanto os últimos minutos avançam para o fim de agosto. agradeço as luas. o sol. os caminhos. as pessoas. bebo um gole de mate. aproveito para voltar no tempo e ler o que escrevi nessa mesma data um ano antes

 

pausa para o riso.

agosto acabou e o BEDA também… amanhã será setembro. depois primavera e a vida segue. mas no meu caso… posso assegurar que voltarei a escrever…

au revoir

 


beda interative-se

Beda |ano dezesseis…

cropped-whatsapp-image-2017-05-06-at-15-24-592.jpeg

No dia seguinte a minha chegada à São Paulo… sai sem destino para andar calçadas, atravessar ruas, dobrar esquinas e encontrar qualquer coisa de pouso para o meu corpo.

Fui de ônibus até o Centro velho — equivocadamente modernizado. Saltei no ponto perto do Teatro Municipal e com os olhos sepultados no alto, consumi as anatomias irregulares dos prédios. Tanto abandono… prédios cobertos por enormes placas onde se podia ler os nomes dos estabelecimentos comerciais enfiados em estruturas envenenadas pelo consumo: lojas de calçados, roupas, perfumes, doces e tudo o mais que se pudesse ser vendido por um punhado de notas.

Tudo muito sujo-feio-enfadonho… não consegui descobrir, tampouco imaginar o que era silhueta por ali. Esbarrei — ao subir o que ainda era Avenida São João —, na fisionomia rude do Martinelli — em estado de abandono —, com suas portas trancadas por correntes e cadeados. Tentei enxergar através da sujeira do vidro, ouvir sons… mas o velho edifício estava entregue a próprio sorte — condenado — como se seus contornos antigos fosse apenas um enorme empecilho e existir-insistir entre esquinas.

Continuei a caminhada… percebendo uma pressa incomum nos passos ao meu redor — que me fez lembrar o estouro de uma manada de zebus. Ou saia da frente ou seria pisoteada após a inevitável queda.

Cheguei ao Viaduto do Chá ao mesmo tempo em que pesadas nuvens roubavam a ‘tarde de Mário’ da cidade —”tarde, recreio do meu dia, é certo — Que só no teu parar se normaliza — A onda de todos os transbordamentos — Da minha vida inquieta e desregrada”.

Os ventos fortes varriam as ruas-pessoas… os guarda-chuvas se abriam um por cima dos outros. Raios disparavam pesadas descargas elétricas em riscos irregulares-rápidos pelos céus… e os trovões faziam lembrar uma partida de boliche.

Parei no meio do Viaduto… para apreciar aquele instante de silêncio-quietude que antecede as tempestades. O vento cessou e um clarão se impôs por cima das vilas e aldeias de ninguém. Fechei os olhos para melhor ouvir-sentir tudo que acontecia dentro e fora de minha pele, que se vestiu de arrepios, os mesmos da infância…

Me lembrei do nonno que sempre dizia que, quando a morte alcança um corpo doente — uma melhora inesperada acontece. São os avisos que nem sempre compreendemos. O último suspiro de um corpo. O respeito da morte à vida O último passo… o tempo exato de um adeus.

Eu esperei… quieta-muda diante da imensidão do lugar. Senti as primeiras gotas, convergidas em milhares em segundos. A chuva caiu forte… molhando a minha pele-alma. Abri os braços e imagina o espanto que causei em toda aquela gente sem Norte.

Ouvia o som frenético dos para-brisas, das rodas no asfalto úmido… sentia o meu pé encharcado dentro do tênis e a temperatura se elevar de dentro para fora.

Uma senhora gritou — ‘sai da chuva menina, vai se resfriar‘. Eu sorri, enquanto observava sua figura-encolhida a seco… buscando por abrigo na banca de revista. Tentei ouvir algum som dentro de mim porque há sempre uma canção para soar como trilha sonora nessas horas. Mas só havia os sons naturais de uma tempestade tropical.

Ao chegar ao hotel onde estava hospedada naqueles primeiros dias me comportei feito um cão — para espanto do concierge!

… e lá se vão dezesseis anos!

 


beda interative-se