Beda | eu sou assim…

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Autora e Editora da Casa Scenarium livros artesanais

Uma pessoa de poucos lugares… que vive em uma cidade que reinventa seus contornos-espaços todos os dias. E, às vezes, o que era lugar-aconchego para o corpo-alma… vira estacionamento sem aviso prévio.

…uma criatura insana, que gosta do novo-moderno-antigo, mas precisa ir com calma. Entrar-espiar-aprender-domar-ocupar o lugar-espaço… antes de encontrar um canto para ficar-esparramar.

…uma figura intrépida que prefere mesas coletivas — porque são como um comboio, a atracar à plataforma, permitindo chegadas e partidas. Diálogos alquebrados e movimentos muitos.

…uma tempestade movida pela pulsação, a seguir a bússola interna, que aponta o Norte — o ponto exato em seu mapa de vivências. Não falha. Quem, às vezes, sou eu… pela teimosia em não ouvir esse bater sonoro. Quebro a cara. Me aborreço. Amarro os lábios.  Cruzo os braços. Me fecho dentro… e respiro fundo — balançando a cabeça de um lado para o outro, enquanto tento aquietar minhas fúrias.

…uma menina cuja religião é o abraço… que não entrega a qualquer pessoa. É preciso encaixe porque todos nós somos peças de um quebra-cabeça! E, juntos… formamos paisagens — conhecidas e pautadas pelas vivências acumuladas ao longo dos dias.

E quando há encaixe, me deixo ficar mais… e mais… e mais. Abraço forte-demorado-apertado… e não largo-solto — fácil! Porque gosto de me enroscar e me recompor. Chego uma e saio sendo outra… sem nunca saber o que deixo e o que levo comigo.


beda interative-se

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Beda | O quebra-cabeça que sou!

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Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista

Eu gosto de vez ou outra, fazer uma pausa na realidade das coisas e munida de uma xícara de chá… observar as peças do quebra-cabeça que sou para ver quais se encaixam e que figuras formam.

Hoje, me deparei com a imagem lírica de minha nonna. Mulher firme-decidida, de voz forte-grave e atitudes definitivas. Ela enfrentou a família para estudar Filosofia e para trocar de noivo-marido por amar-um-e-des-amar-outro.

Quando a conheci, ela já era nonna de uma dúzia e meia de netos. Adorava ver a casa cheia tanto quanto adorava o esvaziar-se dos cômodos da casa… até o verão seguinte.

Eu tive duas avós… como quase todo mundo. Uma miúda-elegante-sisuda e estranha. Outra enorme, de cabelos bem brancos e bem farta de carnes, como quase toda italiana. Figura intensa-imensa. Confiança nunca lhe faltou, verbos tampouco. Felina e ferina, sempre diz frases inteiras, bem pontuadas.

Ela foi desde sempre uma espécie de Norte para os meus olhos… gostava de ouví-la contar os muitos mitos e lendas nórdicos-gregos-celtas-escandinavos-egípcios. A história do mundo e do homem era sempre mais interessante e empolgante quando saltava de sua boca, através de criaturas incríveis-impossíveis que sua voz desenhava em meu imaginário.

Em sua cozinha, ela inventava os melhores doces e reinventava as receitas da mãe que, pouco antes de morrer, confessou sentir orgulho da filha, que se fez mulher pelas próprias mãos. A nonna sempre foi o Lado B de si mesma. Suas infusões secretas — galhos, raízes, folhas cascas — curavam dores reais e inventadas. Não havia sofrer que não se extinguisse.

Foi ela quem me ensinou a não me limitar a uma só cultura-religião. A não me curvar diante de Chronos e escutar o poderoso eco de Kairos em meu peito. E foi ela quem segurou firme a minha mão e disse num sem-voz: “faça sempre o seu melhor, não pelos outros, por si. Não espere pelo dia seguinte e não perturbe o dia de ontem. Seu relógio marca sempre a mesma hora, todos os dias, mas a gente teima em inventar outros ritmos, só para nos atropelar e permitir arrependimentos que são modernas formas de desperdício. Não se oriente por falsos exemplos. Seja fiel a si e não aceite tudo que te oferecem. Aproveite cada minuto de vida. Mas desperdice um pouco também, para não chamar a atenção do mundo. Não corra. Apenas siga”.

Sempre sábia em suas ponderações, ela se diz feliz pelos anos que coleciona na soleira de seu corpo. Envelhecer? Ela diz que é inevitável, um processo sem volta, que dispara no exato instante da concepção. Viver é isso. Não rima, mas é como um vício — depende-se. E ela afirma, do alto de seus não sei quantos anos e todas as suas lindas rugas que só se incomoda com os desgastes do corpo, quem não deu corda nas emoções e não ouviu cantar o cuore.

Ainda hoje, nesse tempo depois da infância, sinto arrepios na pele-corpo-alma ao ouvi-la. O sorriso percorre os lábios de lado a lado e eu ouço Kairos suspirar os aromas de uma vida inteira: café preto no bule, bolo de fubá no forno, o tapete da porta de entrada, a manta vermelha no sofá da sala, a xícara de chá de hortelã nas tardes frias, o olhar amendoado nos dias tristes e o sorriso branco-imenso nas manhãs à nossa chegada. Eu ainda me lembro dela, sentada na cabeceira da mesa… no último ano em que estivemos todos juntos.

Don´Anna nunca foi de fazer somas. Isso era coisa do nonno. Ela gostava mesmo era de acenar com a mão bem aberta no ar… e fechar a porta. Dizia com um tom ameno: ‘avisem quando chegarem’. A gente sumia em seus braços e só reaparecia quando estávamos longe…

 

| escrito ao som de say |

 


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Beda | A… gosto de Kairos!

“conheço muitos testes de inteligência. Não conheço nenhum teste de sabedoria.
É importante saber a diferença essas duas, inteligência e sabedoria, frequentemente confundidas. A inteligência é a nossa capacidade de conhecer e manipular o mundo. Ela tem a ver com o poder. A sabedoria é a graça de saborear o mundo. Ela tem a ver com a felicidade”… 

— Rubem Alves em “sete vezes Rubem”, pág 96 —

a...gosto de kairos

Gastei um par de horas nubladas… a pensar no tempo e nos movimentos de vida. É que de tanto ouvir as vozes, que chegam feito ondas as paredes de meu corpo… me perdi do Agosto de ontem, quando o acordar era lento e livre dos compromissos da vida-realidade e o espreguiçar demorado.

Era qualquer coisa amena-branda-gostosa-calma… sem inquietações e o respirar não tinha pressa. Dias dourados de sol. Fortes ventos a acariciar a relva e a tentar nos carregar com ele. E a terra vermelha a oferecer rastros de um agosto outro.

Tempo de pausas permitidas… Sagrado! De vivências conhecidas — subir em árvores, pular em rios, escalar muros, comer frutas maduras no pé, cavalgar sem rumo e ver quem chega primeiro ou por último. Esconder-se em lugares previsíveis. Correr atrás do outro para pegar e soltar. Sentar-se à mesa para refeições demoradas-coloridas. Roubar um pedaço de pão. Encher a xícara do outro. Partilhar de conversas. Contar o que se viveu nesse ontem recém abandonado… e revelar o que se pretende para esse amanhã, que um dia chegará. Mãos cheias de biscoitos de nata. Xícaras de chá na tarde. E aquele riso solto-fácil que faz doer os músculos da barriga…

A varanda iluminada pelos relâmpagos. Os jogos de tabuleiro. Livros com páginas empoeiradas. Os cantos do sofá vermelho disputados por muitos corpos. As mesmas histórias de sempre. As almofadas no chão… e o sono que faz fechar os olhos e apagar a vida-corpo-realidade-mundo.

E lá no meio da parede da sala… o velho amigo-carrilhão e suas horas cheias-inteiras a nos lembrar de Chronos e seu futuro impossível… excelente desculpa para uma guerra — de travesseiros. Éramos sempre vencidos pelo cansaço.

A… gosto naqueles dias, era regido por Kairos… que nos mandava saborear a realidade e abastecer-se das boas coisas da vida para que, esse dia seguinte, ser o amanhã do ontem que guardamos no fundo de nós.

 

 | escrito ao som de goodbye yellow brick road  |


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Ontem amanheceu de novo…

“É porque existe o desejo, o olfacto, e o medo, e os vivos apaixonam-se
por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos;
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias
um orçamento incomportável”.

Gonçalo M. Tavares


 

mapa

Julho era o tempo das pausas… de viajar com a família, reencontrar os meus… e me perder pelos quintais de frutas. Era tempo de ouvir o carrilhão na sala… com seu som agudo a se esparramar por todos os cantos da casa quando a noite se impunha. Aquele som sempre deslocava a alma do corpo, nas primeiras noites. Meu sono era intercalado por sustos sonos-robustos…

Julho sempre foi premissa de gargalhadas sonoras… dentro da noite e sua escuridão menos severa, menos intensa — pela metade. Os dias de verão prolongavam os dias e encurtavam as noites… combinavam com a infância e a intensidade das vontades, impregnadas de coisas menores.

Eram dias dourados, de céu azul e vôos de pássaros no infinito blue… de ausentar-me do quarto e ir para fora, visitar a paisagem. Tempo de acordar cedo… com o cheiro gostoso do café feito com grãos colhidos no ‘quintal’ e moídas no velho moedor caseiro de ferro, preso a mesa da cozinha… e dos pães feitos pela nona e a moça — cujo nome eu me esqueci.

Mas não consigo me esquecer do problema que ela tinha na perna… o que fez dela — segundo as falas adultas — uma moça solteira e infeliz porque houve um tempo em que a felicidade das mulheres dependia das alianças feitas em vida.

Todos que olhavam para ela… enxergavam apenas a perna torta, mais curta. Sua bota preta-pesada e os ferros que subiam pela perna — uma geringonça que lhe permitia ficar em pé como o resto de nós. As crianças — em referência ao mágico de Oz — a chamavam de: mulher de lata.

Ela teve paralisia aos oito anos — a única vítima da poliomielite que conheci — e se acostumou a conviver com os desiquilíbrios de seu corpo. Era uma figura triste, de poucas falas, que falseava os passos, enroscava-se nas coisas… e acusava cansaço ao ir de um cômodo ao outro. Mesmo assim, limpava a casa com esmero e ameava as crianças — que não se cansavam de importuná-la. Havia quem sentisse pena de sua solteirice… e quem dissesse que ela tinha o que merecia.

Foi ela quem me deu uma sonora bronca por gastar meu tempo a espiar os pássaros no quintal: ‘não seja estupida, você não tem asas, não pode voar. Vá procurar algo melhor para fazer’. Ela se aborrecia por me ver imóvel-quieta-sentada-no-muro, tendo pernas e podendo correr, escalar árvores com as outras crianças. Eu sempre fui quieta, tinha preferência por livros e conversas de adulto, com os quais me misturava com imenso prazer. Ela não conseguia entender-aceitar, fechava a cara, apertando bem os olhos e, furiosa, tentava me acertar com sua muleta de ferro.

Mas, ao contrário dela, eu tinha asas… e sempre consegui escapar de seus ataques!

A viagem que se repete dentro…

comboio


“Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar”.

Alfonso Barrocal


 

Eu passei boa parte da minha infância sob trilhos… visitei cidades, conheci países, me apaixonei por arquiteturas incríveis, culturas fascinantes e amei incondicionalmente os estranhos, nos quais tropecei.

Gostava imenso de observar o movimento nas plataformas: chegadas e partidas. Esperas que se encerravam em abraços demorados… outras que se iniciavam com o apito “rude” da locomotiva…

Certa vez… vi um rapaz correr ao lado do trem, mantendo a mão no alto — como se quisesse atrair a atenção de alguém — sem sucesso. Me pareceu um gesto tão duro-difícil-indigesto-definitivo — ficou vivo em meu íntimo, enraizado na pele-alma.

O trem avançou forte com seus sons de metais a riscar o trilho — não existe melhor escrita que essa — e ele sucumbiu. Foi desmoronando gradativamente como se fosse um prédio com seus muitos andares. A multidão na plataforma o devorou e a distância o fez desaparecer de meus olhos…

Seguimos viagem… ultrapassamos cenários inteiros-cheios e eu pensei nele durante boa parte do trajeto. O vi em diversos olhares, nas outras plataformas… enquanto chegadas e partidas — encontros e desencontros… se repetiam.

Me lembro de tentar inventar uma história para aquele ‘personagem solitário’ em minhas páginas-diárias, mas conclui três paradas depois… que ele era apenas mais uma pessoa atrasada no mundo. Chegou tarde demais… e perdeu a oportunidade do gesto, da palavra — ficou para trás-depois-nunca-mais… para sempre.

Ainda hoje, sempre que ocupo o meu lugar no acento do Comboio, olho pela janela e procuro por ele e o encontro em outros olhos-boca-mãos-braços… e aceno com o atraso de uma vida inteira.

| escrito ao som de home |