12 | meus naufrágios…

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Passei as horas dessa manhã-dia, ocupada com: ‘os meus naufrágios‘ — esse novo projeto-diálogo-livro… que me permitiu praticar  — uma vez mais —,  os meus três verbos favoritos… até a exaustão da mente.

Escrevi. Escrevi. Escrevi… sobre a noite, em paralelo, a minha infância e acabei com uma xícara de café, em mãos — a lidar com um punhado de dúvidas… coisa típica de quem nunca teve certeza de nada.

E enquanto percorria calçadas, em movimentos de passos-lembranças-frases — a  mesma velha dança de sempre —, tentava pontuar as minhas emoções. Eu sempre vivi a deriva, em um barco frágil, com tempestades a gritar seus trovões e raios cortantes. Com os olhos fechados a sentir tudo dentro… a pele molhada de chuva e os arrepios de frio a correr de norte a sul. O movimento de ondas a me levar de um lado para o outro… e o corpo a se render a essa artimanha, que algumas pessoas gostam de chamar de: destino. Eu sempre dispenso os rótulos e fico com os versos de ‘meus poetas’.

Comigo é tudo sempre intenso… na voltagem máxima. Não sei ser diferente! Não me ensinaram a me preocupar com margem ou cais, onde atracar. Eu aprendi a navegar e com isso veio o desejo de ser marinheiro. Verso de Pessoa-Campos. Disseram-me, no entanto — o que me fez rir —, que era coisa da idade. Com o passar do tempo, eu ficaria mais calma…

E o tempo passou… e ainda estou a bordo daquele pequeno barco-frágil, construído ali na infância — a navegar nesse oceano cada vez mais blues… e ao lado, sopram ventos e a água pula dentro. É preciso aguentar firme, adequar-me. Pelo alto chegam os raios de sol a queimar forte a pele e as tempestades, com os seus muitos riscos prateados.

 


 

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01 | Um ano inteiro para dizer-te: novembro!

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Olhei de soslaio o calendário — em cima da mesa — e reparei que outubro se foi. Revisitei os dias em minha mente-pele… apenas os que alcancei. Não sei quantos vivi. A soma foi injusta-confusa. Trinta e um dias… algumas segundas. Duas ou três terças. Uma quarta. Duas quintas. Um ou outro sábado e dois domingos inteiros — intermináveis domingos…

É insuportável se pôr a medir as vivências… o que fiz e não fiz… o que foi desejo-angústia-sofejo-melodia-vontade-desânimo… e o que nada foi. Amém.

Amassei a pequena folha, com a insólita combinação de números — que são dias, um mês inteiro, uma vida inteira (?) — e nada são. Como se o gesto e o som do papel a se deformar em minha mão, tivesse efeito anestésico. Não teve…

Coloquei a água para ferver e enquanto esperava… fechei os olhos, escavando-os com as mãos. Atravessei o oceano. É outono por lá… tempo de biscoitos no forno, meias para os pés e os cantos da casa às escuras, sem a incidente luz dos dias azuis.

Passei pela porta, toquei os móveis-paredes e tudo retornou para mim, numa espécie de abraço: os aromas, as pessoas, um outro-eu… porque há momentos que tudo que precisamos: é voltar para casa — esse lugar confortável-agradável, que preservamos em algum lugar de nós para momentos críticos. E nem sempre é real.

Eu chamo de “casa do pensamento” — esse cenário-desenho-lugar que antecede a realidade dos enquadramentos. Não existe paredes-retratos-mobília. Só existe o desejo que se esparrama pelo corpo, como missangas por cima do vidro.

Outubro foi ausência-recusa, me deixou sem visto-país. Pela primeira vez, desde a minha chegada a São Paulo — e lá se vão dezesseis anos — eu quis juntar minhas coisas e ir embora. E uma parte de mim — fugiu… de algumas pessoas-lugares-cenários. Se foi — e (ainda) não voltou.

23 | velhos hábitos

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setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encadernar os cadernos com folhas de jornal e plástico transparente.
livro novo de poesias. era nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton.
a leitura acontecia sempre da mesma maneira. sentava-me na cama à noite. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. sábado. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas.  como antes.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo….

 


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20 | espírito de tempestade

dsc_0075Treze e trinta e quatro. Um minuto antes eu pensava no vento de ontem. Lia na cama ”aqui de dentro‘ quando ouvi o uivo forte. Vento Sul. Céu encoberto. Fazia calor e eu me lembrei de uma reportagem sobre o inverno. A elegante moça do tempo falava: ‘foi o inverno mais quente e seco dos últimos vinte e três anos“. É o tipo de notícia que me faz desligar a televisão.

Treze e quarenta. Me lembrei que tenho um livro a organizar. Mas a minha mente não se orienta nesse sentido. Fica a dar voltas e voltas e voltas… feito ponteiro de relógio. Sinto como se a engrenagem mental estivesse com defeito e eu precisasse recorrer a um personagem que abandonei em algum rascunho-gaveta — um velho-relojoeiro-sapateiro — para fazer funcionar corretamente. Me lembrei de Nabokov e na sua razão para escrever: “êxtase estético” — seja lá o que isso signifique. Penso imediatamente na minha razão para escrever. Respiro fundo. Me lembro de ontem. do vento forte. do livro em minhas mãos. Olhos fechados. A tempestade chegando lentamente com trovões-relâmpagos. Uma conversa sobre o tempo, minutos antes. Choveu forte…

Treze e quarenta e seis. Vou para a cozinha colocar a água para ferver. Preciso de uma xícara de chá. Na pele ecoa ‘claire de lune‘. Sinto o silêncio emergir de meus cantos mais profundos. Penso no título que surgiu antes de qualquer texto. ‘meus naufrágios‘. Penso no que sou e no que nunca serei. Penso. Penso. Penso. De quantos minutos preciso?
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Treze e cinquenta e oito! Um gole de chá. Quais serão as notícias do mundo, nesse dia meio azul, meio cinza? Outro gole de chá. O vento sul foi embora. Deixou no ar qualquer coisa de primavera, que segundo a ‘simpática moça da previsão do tempo‘ só começa no sábado — com hora marcada. Mais um gole de chá. De onde será que eles arrancam essas certezas? Gostaria de ter um pouco delas para beber em pequenos goles também. Outro gole de chá


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17 | s e g u n d a

dias de setembro

Dia cinza. Segunda feira. Ainda inverno. Quase primavera. Ainda setembro. Quase outubro. O ano ainda não acabou, mas falta pouco. Impossível não se espantar com a voracidade dos dias-horas quando a gente se dá conta de que restam poucas folhas no calendário de 2018 e ainda da para sentir todos os meses anteriores na pele.

Alongo os músculos. Coloco a água para ferver. Dou passos pequenos pelos cômodos ainda escuros. Escuto o som agudo da chaleira a gritar — desesperada — na cozinha. Café na xícara. Um poema de Ginsberg para esse dia-momento.

Lista de coisas a fazer-cumprir na mente: organizar as horas desse dia-semana. Organizar-me. Começar a ler outro livro… dos escolhidos: três já se foram. Organizar-me. Ler e responder os e-mails antes que se acumulem. Tramar os dias seguintes. Organizar-me.

Deixei todas as coisas à deriva nos últimos dias. São os meus processos. Preciso esvaziar-me do ontem para alcançar o hoje-amanhã. Encher o peito de ar. Fechar os olhos e sentir-me dentro. Consciente de que tudo que era para dar certo: deu… e tudo que era para falhar: falhou.

Eu gosto desse equilíbrio… de saber que irei errar-acertar muitas vezes. Que irei sorrir-chorar… amar-odiar… ser feliz-triste. É vida… e pulsa… pulsa… pulsa. E eu gosto imenso de como tudo acontece.

Dois mil e dezoito não está sendo fácil… os movimentos humanos estão tensos. Os ânimos acirrados. Verbos conjugados de maneira equivocada… pela esquerda-direita. Por todos nós.

Não me misturar é difícil. Tento me preservar dessa falta de modos social. Nem sempre consigo. Ainda mais quando não entendo certas falas machistas-preconceituosas que insistem em reverberar. Como é difícil mudar…

Me concentro em respirar… ainda que o ar esteja pesado-envenenado. Me concentro em meus afazeres. Em organizar-me. Ler meus livros… e a planear novos ‘cadernos artesanais’ e providenciar ingredientes para a hora do almoço.

Coloco Chopin no toca-discos… palavra antiga que repito com gosto. E me Lembro que a Scenarium abriu as portas para novos autores. E começo imediatamente a imaginar as palavras que serão enviadas para nós… por escrevinhadores-contemporâneos.

No ano passado… pouco me seduziu. Sou uma escritora-editora-Leitora… exigente-difícil… que gosta de, ao ler, sentir aquele aconchego da infância — ‘encostar a cabeça no peito e ouvir o ressonar do cuore‘. tum tum… tum tum…

 


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