BEDA | once and again…

 

Assisti — no meio da tarde —, o primeiro episódio de uma série antiga: ‘once and again‘… que teve míseras e incríveis três temporadas. O enredo — um dos melhores que já vi na televisão —, é sobre pessoas e como se relacionam entre si… a partir de suas realidades alquebradas, pautadas por rupturas e como seus mundos se reorganizam depois disso.

Em cena temos Rick Sammler (Bill Campbell) e Lily Manning (Sela Ward) — duas pessoas que são o resultado das somas feitas ao longo de suas existências.

Lily é mãe de duas meninas… até se deparar com a traição do marido, era uma mulher que vivia para cuidar da casa, de suas filhas e de um futuro seguro para sua família. Depois que tudo desmoronou… restou trabalhar na livraria de sua irmã: ‘my sister´s bookstore’ e aprender a lidar com a solidão o seu não-futuro.

Rick é pai de um adolescente, jogador de basquete e de uma jovem frágil que sonha ver seus pais juntos novamente. Ele é sócio num escritório de arquitetura Sammler/Cassali…  e vive de ter idéias para outras pessoas aproveitarem em seus futuros-sempre-promissores. Depois da separação… assumiu seus fracassos enquanto pessoa-homem-marido-pai e tenta se equilibrar em sua não-vida.

São duas pessoas tentando ser felizes, que se encontram… se descobrem e tentam encontrar uma maneira de entrelaçar suas vidas, independente do que trazem consigo.

O que mais me fascinava nessa série… era ouvir os personagens em narrativas que lembrava monólogos teatrais. Uma cadeira, o fundo escuro. Tudo em preto e branco e as confissões feitas para a câmera… revelavam o que nem sempre conseguiam dizer em cena, como naqueles momentos em que a gente se cala porque a frase poderia gerar desconforto no ouvinte ou porque faltou voz-vontade… ar. A gente percebe que é melhor se calar, respirar fundo e deixar tudo guardado… para depois-nunca-mais.

A série foi ao ar de 1999 a 2002… e foi um dos maiores acertos nesse mundo repleto de seriados insossos. Foi uma das primeiras a retratar a homossexualidade feminina de maneira lúdica-sensível ainda na adolescência. Não houve uma única pessoa que não torceu por Jessie (a menina frágil, anoréxica) e Katie (a melhor amiga, que chega para lhe estender a mão e preencher vazios). Elas tinham muito o que superar até aceitarem-se enquanto duas pessoas que se amam-se-completam e são diferentes num mundo onde o que importa é repetir-se, ser exatamente igual.

Once and again era um desenrolar de afeições… me apaixonei por Sela Ward e sua interpretação perfeita de mãe-mulher-pessoa a lutar por si, pelos filhos, pelo homem que ama, tentando não se perder e ser. E por Bill Campbell e sua interpretação incrível de homem-pessoa-personagem humano… que baixa a cabeça, chora seus medos e admite não saber o quer, qual melhor caminho seguir. Mas, levanta a cabeça e tenta… porque depois da primeira queda, fica mais fácil se levantar.

Cada pessoa-personagem de ‘once and again’ tinha suas questões de vida, com as quais lidar. Eram tão incrivelmente humanas em seus começos-recomeços-e-desfechos que muitas vezes me calaram… restando apenas o soluçar no fundo de si. O seriado terminava e eu ainda estava lá a digerir todos aqueles movimentos em cena… reconhecendo-os…

 

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BEDA | baseado em fatos reais…

Aproveitei a noite-fria-gostosa de sábado para ir ao cinema… e assistir ao novo filme de Polasnki — diretor dos filmes: Bebê de Rosemary e O Pianista.

baseado em fatos reais nos apresenta Delphine Dayrieux,  uma escritora que acaba de lançar seu livro e se vê as voltas com o sucesso… que lhe obriga a incontáveis compromissos de lugares-pessoas-cenários. Lançar um livro é o ponta pé inicial para todo tipo de atividades, que a maioria dos autores quer rejeitar. Mas, não pode. Principalmente em tempos contemporâneos, que transformou o autor no personagem principal e o livro em mero coadjuvante.

E o que temos em cena e uma mulher-escritora em crise no auge de seu sucesso. Tudo que ela deseja é sentar e escrever… justamente o que não consegue fazer, porque precisa se fazer presente em cenários cheios e responder perguntas como: ‘onde você buscou inspiração para escrever esse livro?‘ — a resposta está no título do filme, afinal, é  para onde todo escritor se volta em busca de inspiração: na vida real.

É dentro de si que tudo começa-acontece. O autor escreve por dentro, na própria pele a partir do que guarda do mundo que devora-consome diariamente. Seu primeiro elemento são suas memórias — reais ou inventadas. É com isso que o filme brinca-delira-joga. Essa linha muito fina entre o real e o que não é real — essa fronteira para a loucura.

Delphine conhece Elle… uma mulher misteriosa, interessante, que desde a sua aparição em cena, está sempre dentro dos olhos da protagonista. E, de tão próximas, chegam a se misturar e ser uma mesma pessoa. Dona de um sorriso enigmático… Elle não demora a se mostrar útil-necessária. Um perigo… que a Delphine escolhe saborear em pequenos goles.

Temos duas escritoras em cena… uma conhecida-famosa a viver seus conflitos-turbulências. E, a outra… uma ilustre desconhecida, que escreve para que os outros sejam o que ela nunca será. Eis o elemento novo da trama: a farsa.

Todo escritor teme essa palavra. Porque ser-escritor é condição de momento. Enquanto se escreve você sabe o que é… quando a escrita cessa… o que se é? Existem muitos autores de um único livro e centenas e milhares de escritores de gavetas.

Delphine até conhecer Elle estava a sorver o medo de nunca mais voltar a tecer palavra. Encarava a figura fria da página em branco do Word. Se desconcentrava com e-mails, telefonemas, sonhos, eventos. Tudo era… e não era. Mas, ao se permitir a presença de Elle, tudo ganhava novo sentido-significado, e ela encontra a inspiração que tanto precisa.

Refeita-e-renovada… Delphine volta a escrever sobre… essa outra que habita a sua própria pele. E conforme os fatos nos levam de encontro ao lançamento de seu novo best seller… fica impossível não lembrar Fernando Pessoa e sua frase provocativa: ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’.


 

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Novela | A força do querer

…ontem começou a nova novela das nove — da Rede Globo. E se tem uma coisa que me intriga nessas tramas… são os títulos que as orienta junto ao público.

Eu costumava pensar — antes de me inteirar sobre o processo — que deveria existir um ‘cérebro vivo’ contratado apenas para cumprir essa função: encontrar um título-tema  que resumisse — com qualquer coisa de perfeição — a idéia do autor.

Após pesquisar o assunto, percebi que a ‘novela’ de títulos para as tramas televisivas são as mesmas que os autores enfrentam na hora de ‘nomear’ seus benditos-frutos: os livros. Mas há uma sutil diferença, já que no caso das novelas, os autores é quem batem o martelo e os autores de livros, na grande maioria das vezes, são obrigados a se render a imposição dos editores-editoras.

Mas, assim como no mundo dos livros, todo o processo é bastante particular. Temos autores que deixam o título por último… depois de todo o enredo e personagens prontos. E no último segundo recorrem a profissionais — a maioria da área de marketing, verdadeiros especialistas — em garimpar o melhor dos títulos.

Foi o que fez Agnaldo Silva em ‘fina estampa’, que inicialmente iria se chamar ‘marido de aluguel‘ em referência a personagem principal da trama, vivido por Lilian Cabral…

E há autores que precisam do título como Norte… como Gilberto Braga, que se deparou com o título no momento mais improvável de sua vida: durante o enterro do músico-amigo Dorival Caymmi. A letra da música ‘só louco‘ lhe veio à mente… e ao cantarolar o verso — ‘ah, insensato coração/ por que me fizeste sofrer‘ — ele teve certeza — um ano e meio antes — que ‘insensato coração‘ seria um bom título para uma novela das nove.

Na nova trama das nove… o título — a força do querer — foi usado nas chamadas pela emissora — de maneira bastante didática — para fazer o público entender a proposta da autora e sua trama, que promete mover seus mil e um personagens a partir dessa força que nos faz levantar da cama e encarar essa tal realidade.

Não gosto do estilo-ritmo da autora Gloria Perez e também detesto essas tramas com personagens em excesso — marca registrada da noveleira. Mas é inegável que o mote-título me fez parar e pensar em meus movimentos de vida… porque se tem uma coisa que move os meus passos é justamente o meu querer… que já esbarrou no querer de outras pessoas.

Fui chamada de louca ao deixar de lado uma ‘carreira sólida’ para me enveredar por um mundo ‘estranho e desconhecido’ onde ninguém trabalha… apenas bebe café. Tudo que eu faço é visto por muitos como ‘um hobby’… que não resulta em ganhos ou conquistas.

Que seja… eu faço o que gosto e minha prioridade é a satisfação que sinto ao ver meus projetos concretizados. Nada é melhor que fazer o que se gosta e poder simplesmente mudar de direção junto com o vento…

 

Séries de televisão | Castle

Numa dessas noites de cansaço — causado pela realidade literária na qual habito e transito — e que me faz desejar esvaziar-se de tudo, como se tivesse um botão de desliga na mente-memória… fui para frente da TV na esperança de ocupar o meu olhar com imagens prontas e insólitas.

Queria assistir um filme — com uma história comum, um romance de uma hora e meia de duração com certeza de final feliz na última cena. Foi o que encontrei na programação do Canal AXN — desorientada por natureza.

Era noite de quarta e o filme estava programado para as 23 horas… ainda havia alguns muitos minutos a viver antes de o filme começar. Deitei na cama e enquanto aguardava… assisti ao seriado que estava no ar: Castle — do qual já tinha ouvido falar através de uma amiga, que na época, mantinha um blogue de séries.

Eu estava num período de transição… minhas séries favoritas tinham chegado ao fim… e nada atraia a minha atenção. Nem mesmo Castle, que trazia em sua anatomia, o personagem-escritor convidado a auxiliar na investigação de um crime… que aparentemente tem seus livros como fonte de inspiração. Era clichê demais para mim… já tinha visto esse mesmo argumento em outros cenários algumas dezenas vezes. Não me interessei…

Nas últimas cenas do episódio exibido naquela noite… fui conduzida ao último capítulo de um livro. Assisti a Detetive Beckett — antagonista da trama — levar um tiro no peito durante uma cerimônia de morte… e fim.

De posse do mistério deixado no ar… precisava saber o começo da trama. Ler o livro desde as primeiras linhas para entender os fios que conduziram toda a trama a esse estranho desfecho. Como na infância — diante de um livro novo — assisti a todos os episódios disponíveis da primeira, segunda e temporada… e aguardei — pacientemente — pela quarta temporada — completamente seduzida pelo enredo de uma trama que pincelava um bom drama policial com pitadas de bom humor.

A frente do seriado estava o personagem Richard Castle, interpretado por Nathan Fillion… um escritor atento aos detalhes. Logo no primeiro capítulo, ele nos apresenta sua musa, a detetive Beckett, numa descrição que apenas um bom escritor é capaz de traçar. O personagem nos surpreende com seu conhecimento de cenas de crime, suas curiosas relações com a realidade e também, com a paixão que faz o autor-inativo — em busca de motivação para a escrita nas primeiras cenas — despertar…

A primeira temporada é composta por 10 míseros e intensos episódios… mas é na segunda temporada — infelizmente composta por 22 episódios — que assistimos o início a trama diabólica que envolve a morte da mãe da Detetive e, o surgimento do melhor serial killer que a televisão foi capaz de produzir: o vilão 3XK — tão sagaz quanto o nosso escritor.

A detetive Beckett — interpretado por uma desconhecia Stana Katic — é uma excelente policial, mas tem uma frustração: não ter sido capaz de desvendar o assassinato de sua mãe. Leitora febril de Castle, ela encontra nos livros do escritor uma rota de fuga para seus tormentos. Uma espécie de sobrevida…

Com uma química perfeita entre os atores… somos seduzidos e levados a desvendar os mistérios da trama, que chega ao fim apenas na sexta temporada respectivamente… quando somos brindados com alguns excelentes episódios… mas a série já não tinha mais o mesmo fôlego  e seus personagens já não traziam mais a riqueza das primeiras temporadas.

Assisti Castle até o último episódio — da oitava temporada… esbravejei contra o desfecho de conto de fadas… e me irritei como a condução dada ao personagem principal que foi se liquefazendo a cada novo episódio. A trama perdeu o estilo, a agilidade. E Castle perdeu suas principais qualidades.

Mesmo assim… os episódios da série ainda me prendem diante da televisão, como nessa noite, em que o sequestro da filha de Castle — capítulo duplo da quinta temporada — foi ao ar na Rede Globo. Ainda vibro com o pai-escritor-homem Castle, que vai do desespero ao ato-extremo para trazer de volta sua ‘menininha’…

Castle é uma série sobre pessoas… e a maneira como sobrevivem a si mesmos. É o escritor-homem-investigador a sair de casa para conviver com sua musa-inspiradora em aventuras insanas… e voltar para os braços da filha — fruto de uma relação castleniana… e de sua mãe, uma mulher que fez o seu possível por ele…

Castle são somatórias de mundos comuns… nos quais vivemos e sobrevivemos e embora combine drama policial com comédia, seus melhores momentos estão nas relações humanas que retrata…

“Sou escritor. Boa noite… é entediante.
Até amanhã… é mais otimista.

Sou uma policial. Boa noite”.

E vivemos no tempo do amor inventado numa indústria de lábios

(…)

“esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno”

António Carlos Cortez


beijo Fernanda e Natália novela das nove

— a cena entre Fernanda Montenegro e Natália Timberg —  na pele de suas respectivas personagens na novela das nove — me fez voltar no tempo e recordar uma cena antiga, que parece ter ficado guardada aqui dentro de mim, para esse momento.

Estava em um shopping de São Paulo, a esperar pelo meu menino, quando um casal da intitulada “terceira idade” chamou a minha atenção. Ocupavam uma mesa pouco a frente da minha e estavam — por causa do horário — rodeados por uma multidão… alheios ao que era presença, trocavam carícias de mãos. Uma linda cena que resultou em um beijo ameno-pequeno-perfeito, que levou sorriso aos meus lábios e emoção aos meus olhos.

Me embriaguei com a perfeição do gesto… e a cena da novela resgatou esse sentimento em mim. A sensação de que em tempos estranhos, o amor ainda é possível, porque amar é doar-se ao outro sem restrições. É acontecer dentro do dia seguinte e ser grato a quem nos acompanha… apesar da vida, às vezes, ser indigesta e intragável…

As pessoas, no entanto, me surpreenderam com a mesma pequenez.
Quando dei por mim, o lugar — praça de alimentação — estava Vazio. As pessoas foram deixando o local uma  a uma… incomodadas. A cena causou incômodo-horror, porque acontecia ao alcance de seus olhos — incrédulos — algo indevido-impróprio. Houve quem se manifestasse em voz alta, contrários ao carinho entre duas pessoas…

Fiquei espantada com todas aquelas reações estupidas… sem sentido — impróprias-indevidas. O amor pressupõe — sempre — duas pessoas… sem citar idade-sexo-tamanho-cor ou qualquer outro elemento.

No entanto — estranhamente — as pessoas acreditam que o amor é coisa para os jovens, que vivem a primavera da vida. Aos mais velhos cabe apenas a solidão, o declínio, o fim. Nada de amor ou alegrias. É fim da linha. Ponto final. Acabou. Game over…

E eu que via na cena uma vida inteira de obstáculos superados… um longo caminho percorrido lado a lado — acabei povoada por um sentimento menor. Um horror causado por aquelas reações estupidas.

Vi quando — de mãos dadas — foram embora, com seus passos encaixados… na lentidão que apenas a velhice permite.

A vida a dois não é fácil… exige muito de nós. É um eterno aprendizado… um constante deixar-se para depois. E aquele casal — ultrapassados todos esses ingredientes nem sempre fáceis de digerir — ainda nutria carinho nos gestos e cuidado nas ações. Amavam-se depois de tudo. Estavam juntos e queriam o toque dos lábios, das mãos, da pele, da alma!

Lindo — sem dúvida — mas tão assustador para os outros…

A distância entre as duas cenas — reais e inventadas — guardam aproximadamente dez anos… mas o meu espanto é exatamente o mesmo: como podemos reprovar o amor, preferindo o ódio? Porque o que eu vi depois de uma simples cena de novela — entre duas mulheres — foi apenas isso: uma demonstração evidente de que o amor foi amassado e jogado no lixo e o ódio foi estendido no varal para secar, passar, dobrar e guardar dentro de si…

E pensar que as pessoas vivem em busca da tal felicidade,