04 | Borges Oral

Borges oral & sete noites

Aproveitei dos aromas da manhã-esbranquiçada — segunda-feira a espreguiçar do lado de fora da janela — para ler mais uma vez o texto de Borges sobre a poesia, no livro borges oral & sete noites. É uma dessas leituras que não cabem dentro de um único momento. É preciso voltar às páginas e navegar palavras…
Gosto imenso quando autores tentam trazer um pouco de luz às sombras que inventamos pelos caminhos que percorremos nesse mapa de vivências de coisas e causas. Na semana passada… eu fiz o mesmo. Respondi em meia dúzia de linhas: o que é um romance? Me afastei da ideia pronta. Ignorei os moldes oferecidos… e parti do meu fígado-estômago-intestino-rim.
O Poeta português josé luis peixoto fez o mesmo. nas primeiras páginas de seu livro a criança em ruínas. Diz ele, com a calma de quem inspira e expira — os lugares onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos, o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me olhas, o poema é teu rosto, eu, eu não sei escrever a palavra poema, eu, só sei escrever o seu sentido.
Borges era um talentoso professor-homem-poeta, moldado por suas preciosas memórias. Embora acusasse estranha dependência dos fatos acumulados em vida. Certamente seria algo para se lamentar, não fosse a vida do homem, tão rica.
Em seu ensaio, ele nos diz: a poesia é o encontro do leitor com o livro, a descoberta do livro Há outra experiência estética que é o momento, também muito estranho, em que o poeta concebe a obra, no qual ele vai descobrindo ou inventando a obra. Como se sabe, em latim, as palavras “inventar” e “descobrir” são sinônimas. Tudo isso está de acordo com a doutrina platônica quando esta afirma que inventar, descobrir, é recordar. Francis Bacon acrescenta que, se aprender é recordar, ignorar é saber esquecer; já dispomos de tudo, só nos falta ver.
…e continua — quando escrevo alguma coisa, tenho a sensação de que esse alguma coisa preexiste. Parto de um conceito geral; sei mais ou menos o princípio e o fim, e depois vou descobrindo as partes intermediárias; mas não tenho a sensação de inventá-las, de que dependam do meu arbítrio; as coisas são assim, estão escondidas, e meu dever de poeta é encontrá-las.
Me lembrei — imediatamente — da paixão que sentia ao descobrir novas palavras, em idiomas outros — na infância. Eu tomava nota e as guardava no meu porquinho de porcelana. Era para guardar moedas ali — foi o que me disseram. Mas a minha riqueza era outra: as palavras, que eu acrescentava ao meu vocabulário particular. Ainda minúsculo naqueles dias…
Tinha medo (aos sete) de perde-las… soube, ao ler Amélia Rosseli que, palavras se perdem de nós. Vão parar no limbo, por desuso-descaso diário. Foi o que bastou para me incomodar a existência. Me lembro do sorriso de meus pais, que me davam as moedas — troco das compras — para juntar. Era parte do aprendizado. Aprender a somar para alcançar o valor de um caderno novo. Não pedir… conquistar.
Mas, quando viram os papelotes com palavras… se mostraram satisfeitos. Lemos juntos… palavra por palavra. Buscamos pelos significados e agreguei novas palavras ao meu vocabulário, cada vai mais distante do mínimo inicial.
No meu aniversário seguinte… ganhei um conjunto de dicionários: latim-inglês-espanhol-francês e português. Durante algum tempo foi toda a minha biblioteca e não passava um único dia sem que eu percorresse aquelas páginas a pescar significados. De idioma em idioma… uma aventura-descoberta e um novo mundo a partir das sonoridades que chegavam. Não gostei de algumas palavras, recusando-as. Outras, passaram a ter uso frequenta. Misturava os idiomas e me expressava com a certeza das melodias.
Borges tinha razão ao dizer que um poeta não inventa a poesia. Ele a reencontra. Está tudo no ar… nos lugares e nas pessoas. A estética se oferece ao olhar e o sentimento dá cor ou a abstrai — tudo em uma pequena fração de segundos em que podemos ter atenção bastante para, — como disse, Bradley — recordar alguma coisa esquecida.

11 | uma pessoa-mês…

Lunna in settembre

Se eu fosse um mês, ah… eu seria setembro — septem — o mês sete no calendário outro, antes da intromissão romana-cristã nas somas que nos orientam.
Setembro é dia seguinte, mas é também dia anterior. É a hora não marcada. A água que ferve. Ervas maceradas. As coisas mais simples. Xícaras na mesa. Livro em mãos… poesia em páginas. Um gole curto de café. O canto dos pássaros na madrugada e o espreguiçar demorado pela manhã. Portão aberto… o passo mais calmo numa manhã azul. As datas não circuladas no calendário… e as lembranças de um ontem que foi há pouco. Os aromas de daqui a pouco. Lápis de cor que se aponta. Folha branca que se risca — porque é ano novo em algum lugar.
Setembro é o número sete — septum — que representa a totalidade do movimento, a soma entre espirito e matéria — corpo-mente-alma… uma união que resulta em vivências. Ciclos que se completam. Somos nós, a experimentar e experienciar.
September — em inglês — tem cheiro de maçãs vermelhas fatiadas e sem as cascas, reservadas para um chá no final da tarde. Uma receita de bolo para as noites de quinta. Aliás, na Alemanha, para se fazer um bolo são necessários sete ingredientes.
Septembre — em francês — é janela aberta, vidraças baixas… os primeiros dias de aula, uniforme novo, banho tomado e os caminhos de sempre para esse dia seguinte.
Settembre — em italiano — é mãos dadas. Um dia de sol. Ruas caramelizadas e o vento frio do Atlântico sul a uivar pelos labirintos da cidade, da pele.
Ah, eu seria setembro — o mês de todos os inícios — um disco girando na vitrola… com a canção que esculpe um sorriso em meus lábios e me faz voar pelo tempo-espaço-lugar e dizer mi manchi em voz alta, como que pousa em algum setembro outro-eu…

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Os dias de julho…

da janela lateral


“e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio… e a difícil arte da melancolia”

al berto


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…eu não me lembro de ter escrito — em momento algum — meia dúzia de frases sobre o mês de Julho e seus trinta e um dias. Revirei a minha mente-diários-notas-mentais… fiz avesso da minha matéria: e, nada!
.…o mês de julho sempre foi o tempo de fazer as malas e partir. Pôr o cuore nos trilhos. Os olhos à janela do comboio para vigiar os vilarejos e cada uma de suas estações — pequenos pontos em um mapa feio à mão numa folha de papel de pão..
Antigamente — como essa palavra é linda — era o tempo de estar do lado de fora — da pele-casca-casa — das pausas… de desacelerar e de se aventurar por dias dourados de nada-tudo fazer…
Eu costumava levar um ou dois livros comigo. Mas, os cadernos ficavam guardados-esquecidos no fundo de alguma gaveta para depois do verão.
Eu não escrevia naqueles dias… e não sei dizer se a escrita não acontecia na ponta dos meus dedos, nas paredes do meu corpo ou se eu simplesmente não pensava palavras.
Me lembro dos dias cheios de realidade e todas as suas coisas e causas — subir em árvores e colher as frutas nos galhos mais altos, pular em rios e deixar o corpo secar ao vento, dormir no meio da relva verde, sentir fome de biscoitos, doces, compotas e pães caseiros, escalar muros, pular cercas, correr rumo ao horizonte certa de que conseguiria alcançá-lo… rir até sentir dores abdominais e desmaiar de cansaço…
Houve um tempo em que julho era dourado de sol e era verão, a melhor das estações… e eu não escrevia palavras, apenas fazia as malas, mudava de cidade-casa e sem saber, construía memórias.
Mas, isso foi ontem —  no templo da minha infância. Hoje, os dias julho mudaram de forma-cor-aroma-estação e há uma soma a comemorar. Catarina faz sete anos, uma espécie de infância primeira — um ciclo cheio…

 

O meu primeiro livro…

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Lembro-me do exato momento em que tomei a decisão. Era outono, mas já se falava em inverno numa contagem de dias-horas… e as ruas do bairro ainda estavam úmidas. Os caminhos estavam desertos de pessoas-cães. Houve uma pausa nas chuvas de maio-junho… e eu caminhava em círculos pelas ruas que se ligavam umas às outras, numa espécie de labirinto. Gostava imenso de me perder no escuro daqueles traços erráticos e de espiar os contornos das casas-pessoas-espaços-praças iluminados pela luz artificial das lâmpadas que se fosse verbo, seria um gerúndio.
Fazia algum tempo que estava a contabilizar silêncios e rascunhos em proporções iguais. Queria um projeto-rumo… um compromisso. Tracei metas… e estabeleci um plano. Tive um bocadito de Sorte… ao ter por perto a melhor das pessoas e suas certezas sem espaços vagos e do olhar sempre pronto para ler um mesmo texto quantas vezes fossem necessárias, ciente de todos os ‘nãos’ que inventaria para dizê-lo inacabado.
Eu me sentei diante do branco-tela e depois de revisitar passados-rituais… agitei os dedos no ar, sorri todas as vidas vividas até aquele dia de junho. Observei o espaço da sala… a acha a crepitar na lareira. Provei do silêncio e vi quando a xícara pousou ao meu lado e foi colo-abraço e também foi junho, primeiro dia-palavra. O meu ponto de partida-recomeço… a partir de mim. Talvez por isso o único título possível foi: reticências! Um diário com seus ciclos completos, divididos em quatro estações!

10 coisas que eu diria para Lunna de 15 anos

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escolho a música. o momento do domingo. chove lá fora. a tarde se perdeu dos meus olhos pouco depois das quatro. vento forte. pesadas nuvens… pedi um copo de latte. observei as pessoas em seus movimentos miméticos. guarda-chuvas a proteger-lhes a cabeça. me lembrei de Alice e a Rainha Vermelha… e de mim mesma nesse tempo outro — ontem. me distraio com o refrão — I fell it now / much harder than I´ve ever done now, now / Hey, I´m gonna do the right thing — os fones nos ouvidos, o sofá e um livro em mãos. O que dizer a essa menina que nunca gostou da realidade e sempre preferiu se fechar em páginas?
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1. A essa altura você já percebeu que a vida é impermanência e tudo muda de maneira definitiva de tempos em tempos…

2. Não tente ser adulta, isso não irá funcionar com você…

3. Infelizmente o mundo não vai acabar no ano 2000, em 2012 tampouco… e a população mundial só faz aumentar.

4. Sabe aquele seu plano de vida: ter um apartamento, um cachorro, um monte de livros e ser totalmente sozinha? Tudo isso mudou… de uma maneira inesperada.

5. Você continua a ter preferência por cães…

6. Você finalmente concluiu que as pessoas são a sua melhor matéria prima… e tem feito bom uso disso. A maioria se revolta e te odeia o que faz você sorrir e tocar uma guitarra imaginária…

7. Pouca coisa mudou: a paciência ainda é curta e você ainda sorri quando ouve argumentos pouco convincentes e ergue sobrancelha esquerda. Continuam a te achar inteligente e você continua a discordar.

8. Você ainda não conseguiu ler todos os livros que pretendia, mas isso já não te incomoda, porque há muitos livros que você não faz questão alguma de ler.

9. O silêncio segue sendo o seu melhor amigo…

10. Pelo que eu te conheço, você não se daria ao trabalho de ler uma única linha e se fosse um pedaço de papel em suas mãos… já o teria amassado apenas para ouvir o som do papel e depois realizado um arremesso perfeito e dito “yesssssssssss”… afinal, o futuro nunca te interessou. E, isso não mudou…

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