18 | a câmera de claire

Me sentei para assistir ao filme, na sala do cinema na Augusta. Como de costume, tentei me isolar de todos os sons ao redor — resíduo de conversas e o insuportável farfalhar dos papéis de bala-chocolates-pipocas… minutos antes de começar a exibição.

Fecho os meus olhos e tento me antecipar ao que passará na tela… a partir do título-resenha. Cinema para mim, sempre foi outro tipo de livro. Imagens prontas. Posso calar-me e ver a vida de sempre, encenada.

Ouço um click… e o espocar do flash, acontece… é a ‘câmera de Claire‘ que dispara e te conduz por uma espécie de mapa — feito de instantes.

O filme — propositalmente — não se orienta em tempo-e-espaço. São fotografias do dia-momento-personagem… todas feitas em Cannes, durante o famoso festival de Cinema. E isso é tudo que conseguimos saber.

Sou convidada a reagir ao que chega, em poucos clicks — a enxergar sem ter o obturador da “Câmera de Claire” a minha disposição. A fotografia é esse elemento a nos lembrar que sou uma sucessão de instantes. Basta um click e tudo muda.

Claire faz o que faço todos os dias… olha! E com um click… guarda o que alcança a sua retina. Não sei o que ela faz no filme-cidade. Não sei absolutamente nada. Ela é apenas um personagem que se move com uma Leika em mãos. Mas, também não sei o que motiva o seu olhar.

Sou colocada no lugar de sua câmera… e, às vezes, parece que ela olha para mim… por mim ou através de mim. Sou o seu polaroid… a tristeza nos olhos de Manhee. O desconforto de Nam. A dor de So. Sou o cão largado no meio do caminho…

Fiquei com a sensação de que cheguei tarde demais à cena, e perdi alguma coisa. Sou aquele passageiro que perdeu a hora do embarque e acena para o motorista… que segue viagem por ter horário a cumprir.

E nessa condição… é impossível entender a cena em que Manhee e Nam estão sentadas numa mesa de bar, em meio a um diálogo frio-estranho-vazio… todo em koreano. A fala sem pudor de So… esse artista miserável-bêbado que não sabe lidar com a casca que é seu corpo velho-enrugado.

a camera de claire 2

O filme acaba e ainda estou dentro do último click, a pensar os personagens, seus mundos-realidades. O que foi que deixei passar? O que foi que não vi?

Susan Sontag, ao escrever o ensaio — ‘uma foto não é uma opinião. Ou é?’ parece ter se antecipado ao diretor Hong Sang-soo — “cada uma dessas fotos tem que se sustentar sozinhas“.


maratone-se grupo interative-se

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Beda | Paterson

 

Paterson é motorista de ônibus na pequena cidade de quem herdou o nome… realiza todos os dias uma sequência precisa de movimentos iguais e ouve muito mais do que fala. Uma espécie de observador de pássaros…

Acorda — pontualmente — no mesmo horário. Toma café sozinho na cozinha… e sai para o trabalho como quem combina os passos com os ponteiros de um velho relógio. Desce a rua, dobra esquinas… passa sempre pelos mesmos prédios e pessoas — percorrendo uma espécie de ‘mapa particular’ de sua pequena cidade. Ele acena as mesmas pessoas e parece não se cansar da vida-mínima que leva — que se resume a uma sequência interminável de dias sempre iguais.

Paterson, no entanto, foge dessa geografia provável ao se deixar tocar por algo sempre novo-inédito. A cada passo dado, reavalia a maneira como a luz resvala na anatomia dos velhos edifícios, colhe fragmentos de tudo-e-nada e reverencia as formas-fatos em silêncio-segredo. É apenas um passageiro, muito embora seja o condutor do Coletivo que atravesse a cidade.

Enquanto espera dar o horário da partida de seu Coletivo… para realizar o conhecido trajeto — ele escreve poesia, à mão… em um velho caderninho, do qual não desgruda — uma espécie de sombra.

Paterson ganha sobrevida em seus instantes de solidão — quando se isola da realidade… mergulha em si, e ali se tranca para tentar encontrar um sentido para si e para todas as coisas a sua volta.

A sua poesia é seu diálogo  que ele mostrou apenas a namorada-musa… uma figura curiosa que permeia sua realidade e parece ser a única coisa a destoar na vida comum-miúda de Paterson. É ela quem insere cor em seu mundo preto e branco… e o incentiva a exibir sua poesia para o mundo — uma idéia que ele refuta-recusa, como se quisesse preservar sua vida-pequena.

Em tempos em que todos querem se exibir… ele prefere se preservar e continuar a acordar todas as manhãs sendo apenas um passageiro-condutor de vidas-realidades em busca de um real sentido: a poesia…


PATERSON
(Estados Unidos/França/Alemanha, 2016)
Direção: Jim Jarmusch
Com Adam Driver, Golshifteh Farahani, Barry Shabaka Henley, Sterling Jerins, Masatoshi Nagase
Distribuição: Fenix


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BEDA | once and again…

 

Assisti — no meio da tarde —, o primeiro episódio de uma série antiga: ‘once and again‘… que teve míseras e incríveis três temporadas. O enredo — um dos melhores que já vi na televisão —, é sobre pessoas e como se relacionam entre si… a partir de suas realidades alquebradas, pautadas por rupturas e como seus mundos se reorganizam depois disso.

Em cena temos Rick Sammler (Bill Campbell) e Lily Manning (Sela Ward) — duas pessoas que são o resultado das somas feitas ao longo de suas existências.

Lily é mãe de duas meninas… até se deparar com a traição do marido, era uma mulher que vivia para cuidar da casa, de suas filhas e de um futuro seguro para sua família. Depois que tudo desmoronou… restou trabalhar na livraria de sua irmã: ‘my sister´s bookstore’ e aprender a lidar com a solidão o seu não-futuro.

Rick é pai de um adolescente, jogador de basquete e de uma jovem frágil que sonha ver seus pais juntos novamente. Ele é sócio num escritório de arquitetura Sammler/Cassali…  e vive de ter idéias para outras pessoas aproveitarem em seus futuros-sempre-promissores. Depois da separação… assumiu seus fracassos enquanto pessoa-homem-marido-pai e tenta se equilibrar em sua não-vida.

São duas pessoas tentando ser felizes, que se encontram… se descobrem e tentam encontrar uma maneira de entrelaçar suas vidas, independente do que trazem consigo.

O que mais me fascinava nessa série… era ouvir os personagens em narrativas que lembrava monólogos teatrais. Uma cadeira, o fundo escuro. Tudo em preto e branco e as confissões feitas para a câmera… revelavam o que nem sempre conseguiam dizer em cena, como naqueles momentos em que a gente se cala porque a frase poderia gerar desconforto no ouvinte ou porque faltou voz-vontade… ar. A gente percebe que é melhor se calar, respirar fundo e deixar tudo guardado… para depois-nunca-mais.

A série foi ao ar de 1999 a 2002… e foi um dos maiores acertos nesse mundo repleto de seriados insossos. Foi uma das primeiras a retratar a homossexualidade feminina de maneira lúdica-sensível ainda na adolescência. Não houve uma única pessoa que não torceu por Jessie (a menina frágil, anoréxica) e Katie (a melhor amiga, que chega para lhe estender a mão e preencher vazios). Elas tinham muito o que superar até aceitarem-se enquanto duas pessoas que se amam-se-completam e são diferentes num mundo onde o que importa é repetir-se, ser exatamente igual.

Once and again era um desenrolar de afeições… me apaixonei por Sela Ward e sua interpretação perfeita de mãe-mulher-pessoa a lutar por si, pelos filhos, pelo homem que ama, tentando não se perder e ser. E por Bill Campbell e sua interpretação incrível de homem-pessoa-personagem humano… que baixa a cabeça, chora seus medos e admite não saber o quer, qual melhor caminho seguir. Mas, levanta a cabeça e tenta… porque depois da primeira queda, fica mais fácil se levantar.

Cada pessoa-personagem de ‘once and again’ tinha suas questões de vida, com as quais lidar. Eram tão incrivelmente humanas em seus começos-recomeços-e-desfechos que muitas vezes me calaram… restando apenas o soluçar no fundo de si. O seriado terminava e eu ainda estava lá a digerir todos aqueles movimentos em cena… reconhecendo-os…

 

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BEDA | baseado em fatos reais…

baseado em fatos reais

Aproveitei a noite-fria-gostosa de sábado para ir ao cinema… e assistir ao novo filme de Polasnki — diretor dos filmes: Bebê de Rosemary e O Pianista.

baseado em fatos reais nos apresenta Delphine Dayrieux,  uma escritora que acaba de lançar seu livro e se vê as voltas com o sucesso… que lhe obriga a incontáveis compromissos de lugares-pessoas-cenários. Lançar um livro é o ponta pé inicial para todo tipo de atividades, que a maioria dos autores quer rejeitar. Mas, não pode. Principalmente em tempos contemporâneos, que transformou o autor no personagem principal e o livro em mero coadjuvante.

E o que temos em cena e uma mulher-escritora em crise no auge de seu sucesso. Tudo que ela deseja é sentar e escrever… justamente o que não consegue fazer, porque precisa se fazer presente em cenários cheios e responder perguntas como: ‘onde você buscou inspiração para escrever esse livro?‘ — a resposta está no título do filme, afinal, é  para onde todo escritor se volta em busca de inspiração: na vida real.

É dentro de si que tudo começa-acontece. O autor escreve por dentro, na própria pele a partir do que guarda do mundo que devora-consome diariamente. Seu primeiro elemento são suas memórias — reais ou inventadas. É com isso que o filme brinca-delira-joga. Essa linha muito fina entre o real e o que não é real — essa fronteira para a loucura.

Delphine conhece Elle… uma mulher misteriosa, interessante, que desde a sua aparição em cena, está sempre dentro dos olhos da protagonista. E, de tão próximas, chegam a se misturar e ser uma mesma pessoa. Dona de um sorriso enigmático… Elle não demora a se mostrar útil-necessária. Um perigo… que a Delphine escolhe saborear em pequenos goles.

Temos duas escritoras em cena… uma conhecida-famosa a viver seus conflitos-turbulências. E, a outra… uma ilustre desconhecida, que escreve para que os outros sejam o que ela nunca será. Eis o elemento novo da trama: a farsa.

Todo escritor teme essa palavra. Porque ser-escritor é condição de momento. Enquanto se escreve você sabe o que é… quando a escrita cessa… o que se é? Existem muitos autores de um único livro e centenas e milhares de escritores de gavetas.

Delphine até conhecer Elle estava a sorver o medo de nunca mais voltar a tecer palavra. Encarava a figura fria da página em branco do Word. Se desconcentrava com e-mails, telefonemas, sonhos, eventos. Tudo era… e não era. Mas, ao se permitir a presença de Elle, tudo ganhava novo sentido-significado, e ela encontra a inspiração que tanto precisa.

Refeita-e-renovada… Delphine volta a escrever sobre… essa outra que habita a sua própria pele. E conforme os fatos nos levam de encontro ao lançamento de seu novo best seller… fica impossível não lembrar Fernando Pessoa e sua frase provocativa: ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’.


 

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Novela | A força do querer

…ontem começou a nova novela das nove — da Rede Globo. E se tem uma coisa que me intriga nessas tramas… são os títulos que as orienta junto ao público.

Eu costumava pensar — antes de me inteirar sobre o processo — que deveria existir um ‘cérebro vivo’ contratado apenas para cumprir essa função: encontrar um título-tema  que resumisse — com qualquer coisa de perfeição — a idéia do autor.

Após pesquisar o assunto, percebi que a ‘novela’ de títulos para as tramas televisivas são as mesmas que os autores enfrentam na hora de ‘nomear’ seus benditos-frutos: os livros. Mas há uma sutil diferença, já que no caso das novelas, os autores é quem batem o martelo e os autores de livros, na grande maioria das vezes, são obrigados a se render a imposição dos editores-editoras.

Mas, assim como no mundo dos livros, todo o processo é bastante particular. Temos autores que deixam o título por último… depois de todo o enredo e personagens prontos. E no último segundo recorrem a profissionais — a maioria da área de marketing, verdadeiros especialistas — em garimpar o melhor dos títulos.

Foi o que fez Agnaldo Silva em ‘fina estampa’, que inicialmente iria se chamar ‘marido de aluguel‘ em referência a personagem principal da trama, vivido por Lilian Cabral…

E há autores que precisam do título como Norte… como Gilberto Braga, que se deparou com o título no momento mais improvável de sua vida: durante o enterro do músico-amigo Dorival Caymmi. A letra da música ‘só louco‘ lhe veio à mente… e ao cantarolar o verso — ‘ah, insensato coração/ por que me fizeste sofrer‘ — ele teve certeza — um ano e meio antes — que ‘insensato coração‘ seria um bom título para uma novela das nove.

Na nova trama das nove… o título — a força do querer — foi usado nas chamadas pela emissora — de maneira bastante didática — para fazer o público entender a proposta da autora e sua trama, que promete mover seus mil e um personagens a partir dessa força que nos faz levantar da cama e encarar essa tal realidade.

Não gosto do estilo-ritmo da autora Gloria Perez e também detesto essas tramas com personagens em excesso — marca registrada da noveleira. Mas é inegável que o mote-título me fez parar e pensar em meus movimentos de vida… porque se tem uma coisa que move os meus passos é justamente o meu querer… que já esbarrou no querer de outras pessoas.

Fui chamada de louca ao deixar de lado uma ‘carreira sólida’ para me enveredar por um mundo ‘estranho e desconhecido’ onde ninguém trabalha… apenas bebe café. Tudo que eu faço é visto por muitos como ‘um hobby’… que não resulta em ganhos ou conquistas.

Que seja… eu faço o que gosto e minha prioridade é a satisfação que sinto ao ver meus projetos concretizados. Nada é melhor que fazer o que se gosta e poder simplesmente mudar de direção junto com o vento…