Cartas para todos lerem…

mario de andrade na madrugada de novembro

Adormeci entre livros, sem dar pelo sono em meus olhos, corpo e alma… e acordei na madrugada, a enroscar-me em um punhado de páginas. Mário de Andrade — esse homem-poeta amargurado — me fazia companhia, com todos os títulos que o ‘seu ano’ trouxe as prateleiras.

Li tudo o que tenho dele… nesse ano — depois de decidir construir um mapa de ‘angústias interrogáveis‘ para uso próprio. E a cada página virada acontecia algo curioso: enroscava a minha trajetória humana a dele… indo do desassossego a paz — em míseros segundos.

Enquanto verificava os poemas — que separei para o projeto —, que teve início em algum momento do ano passado,  pensava no motivo da escrita.  A minha,  a dele e de tantos outros que li.

Já ouvi tantas explicações sobre o porquê se escreve… eu mesma já dei tantas respostas diferentes ao longo dos últimos anos. Algumas eram justificativas tolas, respostas imprecisas-imediatas, um dizer-cego — algo dito apenas porque alguém espera uma resposta.

Quando terminei lua de papel,  tinha uma resposta diferente, da que tenho hoje. Não mudou o sentimento,  a necessidade…. mas,  eu mudei. A história, os personagens me fizeram outra e gosto que seja assim — diferente.  A realidade não… essa dificilmente me toca — apenas me faz ter certeza de que seus barulhos são ensurdecedores.

Eu gosto imenso do silêncio daqui de dentro… da pele, da memória, do quarto, da tela. Quando deito no papel as minhas palavras: chove. O que eu escrevo… são os meus trovões. E como eu gosto de trovejar… sou nuvem pela manhã, antes de o dia acontecer, como agora, em que os primeiros movimentos de vida, começam a acontecer lá fora. Respiro fundo, sinto a pulsação no pescoço com a ponta dos dedos e deixo escorrer pelos lábios um sorriso ardiloso.

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S E P T U M

Sete… Septem… Setembro… Septum, do latim ‘aquilo que contém’ — quem conhece esta artesã das palavras sabe bem que se encontrará lá dentro, em cada linha de cada página, porque a colecionadora age assim… na calada da noite, nos gritos do dia, transformando pessoas em arte”.

Adriana Aneli


“minha pele tem…
suas próprias Estações”


 

 

 

 

 

Adriana Aneli também escreve diários…

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Lembro-me — e não sou boa em recordar pessoas — de nosso primeiro contato: apressado.  Seu passo pequeno sem deixar rastros. Olhar dissimulado… sem vertente de fazer somas. Nem mesmo voz parecia ter… foi apenas um gesto: cartão deitado em minhas mãos.

Bastou, no entanto, uma xícara de café, para sabê-la Mulher… de palavras e traços… de azul a bordô. Uma sombra no chão a marcar seus contornos, como se calculasse o espaço vago para si mesma.

Sempre breve e exata… um expresso degustado no final da tarde. Um bom presságio para um diálogo que não retorna… se espalha e se conjuga com sorriso esquadrilhado.

Foi café-amor, com narrativas que são tatuagens em busca de pele… e em linha reta foi… diário a narrar as peripécias do verão ao inverno, em poucas horas.

Também é poesia… missiva… é tudo que o papel aceita quando o silêncio se aconchega e e pais, mar… um céu esquecido. Memória. Ausência das horas. Caderno aberto. Xícara de chá quente. Um degustar demorado.

Senhoras e senhores: Adriana Aneli

adriana-e-lunna

 

 


Diário das Quatro Estações —  A construção da primavera
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação

Mariana Gouveia também escreve diários

Scenarium 381

Mariana foi gerada… no próprio útero — e dali se precipitou para o mundo… onde nos encontramos. Primeiro através de nossas palavras. Depois dentro de um abraço — onde nos esquecemos por um punhado de incontáveis segundos.

Gosto de “ouvi-la” narrar suas histórias — em linhas retas, que são ruas e quebras imprecisas — que são calçadas. Me sinto tragada por esse sopro de vento forte — rajadas tropicais — que varre a minha realidade.

Mariana é toda colorida de sol. Seus passos desenham mapas que os dias se ocupam de colorir. Seu nome é uma sonoridade antiga em meus quintais de fruta. A nona dizia que significava duas mulheres em uma mesma pessoa. Uma menina linda e uma mulher apaixonante.

Faz sentido… pois, não sei quem de fato escreve! Mas, desconfio que a menina junta as mãos em concha nos ouvidos da mulher… e cochicha seus sonhos e ilusões de vida. Uma espécie de itinerário — pequenos pontos no papel que a gente brinca de ligar um ao outro com um lápis preto para ver se vira desenho para fazer a menina sorrir.


 

Diário das Quatro Estações 

Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h

Biblioteca Mário de Andrade

R. da Consolação, 94 – Consolação