Diário das minhas insanidades, 15

O real veste nova realidade, a linguagem encontra seu motivo até mesmo nos lances de silêncio. A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: Não sou eu, sou o Outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz  a ser retrato, espelho, semelhança de gesto alheio aberto em rosa.

Carlos Drummond de Andrade

 

marionetes

...enquanto caminhava pelas calçadas da Paulista, vigiava atentamente os olhares que esbarravam nos meus. Figuras estranhas, desconhecidas… um sem-fim de possibilidades. Personagens de uma vida — supostamente — real. Marionetes num teatro particular… que não  dão pelos fios que articulam seus movimentos.

E ao vigiar cada humano que se precipitava aos meus olhos… um pensamento repentino escapou — o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que me invada-preencha-e-ocupe-totalmente?

Tentei articular uma resposta a cada passo… e sem sucesso, me vi obrigada a recordar as muitas vezes em que alguém saltou da realidade diretamente para dentro de minha matéria — obrigando-me a represar o passo, buscar por ar… e acalmar o mio cuore — acelerado.

A ciência já inventou respostas práticas que envolve uma insana combinação de elementos químicos da tabela periódica. Para os cientistas nós somos a própria tabela… uma mistura exótica de sessenta diferentes elementos. E suas finalidades não são exatamente conhecidas. Tudo isso em ebulição… a qualquer momento gera: atração ou repulsa.

A poesia, no entanto, nos acena com respostas muito mais interessante ‘nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto, a dor de formas repartidas. Tão doce era viver sem alma, no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Agora, na revelação frontal do dia, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas‘… foi o que escreveu Drummond e é com o poema dele ‘nos olhos’ da alma que eu caminho, atravesso ruas… ultrapasso espaços inteiros, percorro  jardins, espio a antiga fachada da casa Haroldo de Campos, ultrapasso uma porta de vidro. Aceno ao segurança… aguardo pelo elevador — enquanto o pensamento articula-se dentro da vida-história que trago em mim.

Quantos personagens perdidos por um simples gesto intempestivo. Odeio quando as pessoas se aproximam de mim. Raramente alguém se conforma com o que o meu imaginário constrói. Sempre que se aproximam, são apenas humanos forjados em moldes próprios — irregulares e impossíveis de serem ‘usados’.

Pontualmente as sete horas… me sentei na poltrona preta de couro, e depois dos tradicionais cumprimentos fiquei — por alguns segundos — em silêncio… a observar W., e a recordar nosso primeiro contato. Sou uma pessoa de primeiras impressões — como os cães — ou gosto ou não gosto. Ou me interesso e me importo ou o contrário disso.

Sorri… ao me lembrar da minha primeira vez aqui. Disse a ela… que já tinha acertado as minhas contas com a realidade — galopante. Quem precisava de ajuda era a escritora que vivia-vive em mim — “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”. Ela espiou os meus flancos… sorriu mansamente e tomou nota em seu velho caderno, devidamente acomodado na perna esquerda. Eu tomei emprestado em meus lábios o sorriso…e soube que voltaria na semana seguinte. Desde então somos personagens nessa realidade de nós duas.

Diário de minhas insanidades, 14

Deixa-me adormecer e não perguntes nada.
O mundo foi alheio e a vida foi comprida
nos seus desenganos de coisa perdida.

Alberto de Lacerda

…sai de casa pouco depois das seis horas de um quase noite tumultuado. As ruas estavam entupidas e fiquei com a sensação de que não chegaria ao meu destino comum às noites terças a tempo. Desci no meio do caminho… e mergulhei nos contornos de sempre. Atropelei uma dúzia e meia de figuras estranhas, dispostas a tumultuar uma realidade frágil… e pronto. Cheguei ao prédio espelhado no começo da Avenida Paulista…

W., é uma dessas senhoras com olhar atento às coisas frágeis… sabe o outro apenas por ouvir um combinado de vogais e consoantes que podem ou não ser separados por vírgulas, pontos, exclamações e/ou interrogações. Toma nota de tudo… Às vezes, penso que até a quantidade de vezes, que respiro, estão anotadas em seu velho caderno, sempre apoiado sobre as pernas cruzadas. A caneta, que usa, foi presente do marido. Ela não exibe fotografias dos filhos em sua sala… mas em sua mesa, a fotografia de uma gata-branca-gorda-e-velha tem lugar de destaque.

Assim que me sentei… ela fez duas perguntas — uma depois da outra, em sequência, sem me dar tempo para respirar. Geralmente fica sentada… em estado de espera. Não tem pressa. Deixa que eu me acomode. Parece saber da necessidade de me adaptar ao espaço-lugar. Deixa meu corpo se misturar as figuras todas. Mas hoje foi diferente… perguntou como foi o meu dia? Havia qualquer coisa de apreensão em seus gestos, que poderia ser motivada pela bagunça nas ruas. Uma gente movida pelo ‘não querer’.

Não sou acostumava a responder essa pergunta… meus dias são combinados expressivos de palavras no papel. Monótonos por definição. Ariscos por natureza. São bons quando domo todos os elementos e os organizo. São indóceis quando os personagens do meu dia se rebelam. Mas nada disso se resume a bom ou ruim. É apenas mais um dia nessa seara de dias-semanas-meses-e-ano nesse calendário humano.

Depois quis saber sobre meu novo projeto de vida — vermelho por dentro. Respirei fundo. Minha resposta foi breve… curta. Duas palavras bastaram. Ela exibiu um sorriso estreito e pouco depois: respirou fundo… demonstrando que esperava mais. Ela queria reticências…  e eu ofereci um ponto final.

Ela insistiu com dizeres estranhos… disse que eu devo viver a minha vida sem desperdiçar o meu tempo. Não deixar passar as oportunidades e, ao me ver sorrir… quis saber o que eu pensava sobre aquelas afirmações…

…’não sou laranja para ser espremida e virar suco’ — foi o que pensei, sem nada dizer… enquanto procurava por um porto onde atracar o meu corpo. Queria não ter ido até lá, agora estou aborrecida a pensar no que não se desenha através de mim. O livro é um rascunho antigo, mas precisa de tato e eu não tenho conseguido me desvencilhar de todas as coisas da minha vida para pensar nele. Preciso me render-entregar-me-doar, mas por enquanto, olho para ele e penso no tal do amanhã, como a chata da Scarlet no igualmente chato: ‘e o vento levou’…

Diário das minhas insanidades, 13

Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?

Carlos Drummond de Andrade

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…enquanto caminhava pelas calçadas da Paulista, vigiava atentamente os olhares que esbarravam nos meus. Figuras estranhas, desconhecidas… um sem-fim de possibilidades. Personagens de uma vida — supostamente — real. Marionetes num teatro particular… que não dão pelos fios que articulam seus movimentos.

E ao vigiar cada humano que se precipitava aos meus olhos… um pensamento repentino escapou de minha mente — ‘o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que nos invada-preencha-e-nos-ocupe-totalmente?’

Tentei articular uma resposta a cada passo… e sem sucesso, me vi obrigada a recordar as muitas vezes em que alguém saltou da realidade diretamente para dentro de minha matéria — obrigando-me a represar o passo, buscar por ar… e acalmar o mio cuore — acelerado.

A ciência já inventou respostas práticas que envolve uma insana combinação de elementos químicos da tabela periódica. Para os cientistas nós somos a própria tabela… uma mistura exótica de sessenta elementos químicos diferentes e suas finalidades não são exatamente conhecidas. Tudo isso em ebulição… a qualquer momento gera: atração ou repulsa.

A poesia, no entanto, nos acena com outros elementos muito mais interessante. Drummond transbordou em palavras: ‘nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto, a dor de formas repartidas. Tão doce era viver sem alma, no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Agora, na revelação frontal do dia, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas’.

E lá vou eu a bordo da realidade — com o poema ‘nos olhos’ da alma — caminhar calçadas, atravessar ruas… adentrar portões de ferro, percorrer jardins, espiar a antiga fachada da casa Haroldo de Campos, ultrapassar uma porta de vidro, a roleta, acenar ao segurança…aguardar pelo elevador — enquanto o pensamento articula-se dentro da questão levantada e o poema de Drummond escorre na pele: — ‘Amor, este o seu nome. Amor, a descoberta de sentido no absurdo de existir. O real veste nova realidade, a linguagem encontra seu motivo até mesmo nos lances de silêncio. A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: Não sou eu, sou o Outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz a ser retrato, espelho, semelhança de gesto alheio aberto em rosa’.

Pontualmente as sete horas… me sentei na poltrona preta de couro, e depois dos tradicionais cumprimentos fiquei — por alguns segundos — em silêncio… a observar W., e a recordar nosso primeiro contato. Sou uma pessoa de primeiras impressões — como os cães — ou gosto ou não gosto. Ou me interesso e me importo ou o contrário disso.

Me lembro que disse a ela no primeiro contato… que eu já tinha acertado as minhas contas com minha realidade — galopante. Quem precisava de ajuda era a escritora que vivia-vive em mim — “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”.

Ela espiou os meus flancos… sorriu mansamente e tomou nota em seu velho caderno de capa vermelha. Eu devolvi o sorriso…e soube que voltaria na semana seguinte

Depois de alguns minutos de conversa — uma espécie de entrevista… eu me preparava para deixar o lugar — consciente de um novo fiasco na busca por um profissional — quando ela me surpreendeu com um sorriso… estranho-e-conhecido.

Fiz uma pausa em meus movimentos rudes… a observei atentamente por alguns segundos — e ela me perguntou com sua voz falsamente branda, sentada em qualquer coisa de consciência: “sabe o que você me disse assim que se sentou aí?”… como de costume, a minha memória impulsionou aquela fala: “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”.

E eu, que já estava a implicar com gatos brancos, preferindo os cinzas por ser a cor dos temporais… tive que me acostumar ao tal gato branco na terceira prateleira da estante… e senti um sorriso irônico crescente naquela velha face de gato… hunft!!!

Diário de minhas insanidades, 12

‘As palavras não tinham importância. Falava pelo prazer de falar,
como se fala depois do amor, o corpo ainda sensível,
a cabeça um pouco vazia’.

— quarto azul — Simenon

la chambre bleue

As palavras, às vezes, parecem almofadas e servem de conforto para o corpo todo… são como abraços demorados, afagos dentro de uma tarde de chuva”… — foi o que disse W., pouco depois que me sentei em meu lugar comum.

…sua fala completamente inesperada, dita sem pausas, de maneira direita, me calou completamente. Cruzei os braços a frente do corpo e mergulhei no branco de seus olhos — uma espécie de mar revolto. Ela parecia ausente-distante… tive a sensação de ser um diálogo inconsciente. Uma frase solta, que escapou da boca, como se saltasse num precipício sem autorização.

Tive certeza de que se tratava de uma de suas ‘notas mentais’ quando sua voz ressoou pelo cenário novamente: ‘o silêncio não serve para todos, há pessoas que precisam do barulho‘…

Pensei imediatamente no traço que, às vezes, me permito junto ao papel… está cada vez mais raro esse gesto. Mas, às vezes, recorro ao movimento comum à minha infância, porque a escrita motivada pela lapiseira é mais lenta, e leva mais de mim… para fora. É diferente quando deito frases inteiras junto ao teclado. O papel pede tato… o computador nos é — quase — indiferente. É como se não se importasse com o que lhe entrego. O papel é mais aconchegante, uma espécie de noite de outono, com vinhos e queijos.

W., fechou rapidamente o seu caderno de notas — como se repentinamente retomasse a consciência. Exibiu um pequeno sorriso e pouco depois de um suspiro — que quis dizer muito — buscou por um livro, que eu tentei descobrir o título e autor — sem sucesso. Disse num sem voz que estava a ler pouco antes de minha chegada.

Nada me inquieta mais, que um livro desconhecido. Me comporto como os cães, viro a cabeça de um lado para o outro, como se o livro fizesse estranhos ruídos — indecifráveis.

W., consciente da atenção que o objeto em suas mãos despertou em mim, falou do livro… com singular euforia. Salientou que suas mil e uma palavras, de tão sutis e gentis, é de fácil compreensão. Se trata de 1iteratura francesa — a minha favorita, nessa seara de publicações.

Respirei fundo levando uma gama maior de ar até os meus pulmões. Sentindo atentamente todo o caminho percorrido pelo ar levemente gelado do ambiente de temperatura controlada…

W., me olhou rapidamente de soslaio, enquanto seu discurso acontecia: ‘é uma primorosa lição de bem escrever. Nem se trata de um policial, no sentido mais vulgar do género. Sobretudo, falta-lhe a presença de qualquer investigador. Ao invés, estamos perante um par de amantes que se encontram, regularmente, no quarto azul de um hotel de província’.

Nem sempre ouço as falas, que se aglomeram ao meu redor… mas, dessa vez, não apenas ouvi, como tentei entender quem lhe atribuiu a condição de crítica literária. Levantei os olhos em meio a um sorriso irônico, e me distrai com a capa do livro. Uma edição nova, recém-lançada. Uma tradução de La Chambre Bleue… “o quarto azul” de Georges Simenon.

…’conhece?’ — eu apenas sorri… e ela não ousou recomendar a leitura, apenas escondeu o livro imediatamente abaixo de seu caderno lilás, onde toma nota da vida alheia — incluindo a minha. E, onde o meu imaginário ousou escrever um pequeno trecho do livro: ‘era verdade. Naquele momento era tudo verdade, uma vez que ele vivia a cena em estado bruto, sem se fazer perguntas, sem tentar compreender, sem suspeitar que um dia haveria alguma coisa a ser compreendida. Não era tudo verdade, como real: ele, o quarto, Andrée, que permanecia deitada na cama desarrumada, nua, as coxas abertas, com a mancha escura do sexo, de onde escorria um fio de esperma‘.

Eu diria ‘cheque‘… mas não seria nada elegante, afinal, ela usou o livro — argumento infalível, no meu caso — para desviar a minha atenção de sua figura em ruínas. Ela é uma mulher interessante, não permite em momento algum que eu cruze a linha. Me mantêm distante para a segurança de ambas. E eu aprecio esse jogo de movimentos poucos. O tabuleiro sobre a mesa. Peças brancas e negras e os olhares acesos…

Diário de minhas insanidades, 11

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Caminhei pela avenida em linha reta, sem pressa… a contar os passos e medir as distâncias. Fui pontual… passei pela nova moça, de quem nada sei — as dezenove horas — e fui direto ocupar o meu lugar de sempre.

W., atravessou a porta pouco depois… enxugava as mãos em uma toalha de papel e finalizava um gole de qualquer coisa — um chá, provavelmente. Disse ‘boa noite’ num tom monocórdio… e tomou seu lugar, a minha frente.

‘como está a sua semana? Voltou a escrever?’… respirei fundo, pausado e demorado. Nem era preciso dizer que não. Meu corpo era todo silêncio. Minha matéria estava anestesiada e a alma embrulhada para viagem.

Faz alguns dias que o cansaço — essa entidade bizarra — se apoderou de minha anatomia… se espalhando por meus músculos e nervos, como um vírus.

Queria ficar em silêncio… com o olhar detido num ponto qualquer — atravessar a matéria humana de W., saborear a quietude de meus gestos, a ausência de sons… e foi o que fiz. Fiquei em transe absoluto… sem dizer palavra, emitir som ou ouvir a própria voz, tampouco a dela.

Foi como fechar os olhos e adormecer… mergulhar no oceano, cessando os sons da vida como a conhecemos. Afundar na própria memória… e ouvir um único som, que para mim é sempre estranho e novo, agradável e manso — uma espécie de trilha sonora: os passos por cima de folhas secas, em pleno outono, ao lado do nono, pelo bosque de minha antiga cidade… o meu porto seguro, o cuore do meu mundo — o lugar onde mio cuore pulsa mais forte, fazendo vibrar a pele, palpitar as têmporas. Minha própria morte e vida e falência e ausência e fim…

Foi como desaparecer por um punhado de segundos… um piscar de olhos — o tempo de um sorriso.