A minha boca perdeu a memória…

“A minha boca perdeu a memória
não pode falar as palavras entram no seu túnel
e não é preciso segui-las”

Mário Cesariny

 

silencio

…eu nunca tive talento algum para a fala. Sempre preferi ouvir e detestava quando era requisitada para um diálogo. Era qualquer coisa aborrecida, demasiadamente cansativa. Quando em grupo, contudo, era mais fácil encontrar um caminho para o silêncio por ser mais fácil ficar quieta, no canto, ausente — como se estivesse em um jogo… a colher as melhores palavras para compor uma frase perfeita.

Fui estimulada ao diálogo desde cedo, mas nada de dizer o que vem a mente. Era sempre um exercício meticuloso em busca de frases bem-feitas, devidamente pontuadas, com pausas e sorrisos — intercalando substantivos, verbos e adjetivos… sem excessos — como tanto aprecio ou as fatídicas repetições — causa maior da minha fadiga…

Eu podia caminhar ruas inteiras sem pronunciar palavra. Nunca me obrigaram às respostas… até porque as perguntas que comumente faziam, eram conhecidas: “como foi o seu dia?”… e objetivavam coisas comuns: aromas e sabores.

Mas, o meu comportamento — silencioso — acabou por precipitar questionamentos fora de casa: “essa sua menina tem algum problema?”. C., não reagia — apenas reparava no comportamento da criança alheia: inquieta, incansável nos gestos e também nas falas. O que segundo os especialistas de plantão era sinal de saúde perfeita. Era assim que uma criança deveria ser.

Eu nunca tolerei gritos… comumente fechava os olhos, como se a audição dependesse do meu olhar e não dos ouvidos. Havia quem me achasse triste. Emotivamente fechada. Centrada demais para a idade. A maioria, contudo, sempre concordou com um mesmo argumento: tinha algo de errado comigo. Eu não era uma criança saudável.

Existem padrões comportamentais que devem ser seguidos por uma criança — que deve saber sorrir, ser alegre e feliz. Querer brincar e fazer amigos. Falar o tempo todo sobre tudo e qualquer assunto. Fazer mil e uma perguntas. Ir à escola, à praça… se misturar-socializar. Qualquer coisa diferente disso requer cuidados. E, para isso existem os especialistas em comportamento humanos — cada um com uma teoria infinitamente particular para tratar a questão.

Quando comecei a terapia… veio a pergunta fatal: ‘do que você gosta e do que você não gosta?’. Demorei a responder porque precisei analisar a pessoa — autora do questionamento —, cuidadosamente a fim de saber se ela queria de fato a verdade. Concluída essa condição, respondi: “há quem goste de falar… eu gosto de ouvir! Há quem goste de barulho… eu amo o silêncio”.  Traída… fui diagnosticada com um transtorno qualquer — o que não fez a menor diferença em meu desenvolvimento.

Continuei alheia a realidade barulhenta e segui dando preferência para o silêncio. E passo a ser uma meta particular: ouvir mais, falar cada vez menos, cultivar pausas — como quem respira e fim. É uma necessidade que vai na contramão do mundo: todo mundo fala demais e produz um sem-fim de ruídos com suas opiniões acerca e tudo-e-todos.

E como não uso mais óculos — que eu removia para embaçar a visão — fecho os olhos e quase adormeço. Ouço o som do mio cuore em batidas ritmadas, os sons ocos dos lugares que habito, o tic e tac em meu pulso, o som do vento na janela, da chuva no asfalto, da ponta do grafite no papel  e a realidade é como o vidro do box do banheiro depois de um banho quente.

 

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Ninguém sabe dos mundos que cada um habita…

Esta mão que escreve a ardente melancolia da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração.

Helder

2017-03-05 14.12.58-1

 

Estava sentada na mesa do café entre esquinas quando ouvi a tradicional frase ‘quantos anos você tem?’. Levantei a sobrancelha e sorri… já me acostumei ao estado e espanto que vejo no meu interlocutor quando anuncio a soma dos anos que trago em mim.

A maioria das pessoas me julga pelo diálogo — sem gírias e alcunhas, bem pontuado e parafraseado por memórias que trago em mim. Um conjunto de significados que eu acalento com prazer.

Eu não me preocupo com essa coisa de idade… tenho outros silogismos para me ocupar e definitivamente: idade, peso, tipo de roupa, a cor de meus cabelos e outros itens supérfluos não fazem parte da minha lista de coisas a considerar…

Gosto das somas que faço em silencio… que servem para contabilizar o que realmente importa. Quantos lugares visitei? Estive em inúmeras cidades. Algumas foram para sempre, outras para nunca mais. Quantas pessoas coleciono? Quase nenhuma, pouquíssimos são humanos que considero interessante. Quantos livros eu já li? Bem menos do que gostaria. Quantos eu já re-li? Uma dúzia e meia… talvez.

Mas, se alguém se atrevesse a me perguntar: quantas canecas/xícaras eu já tive? Seria necessário percorrer cidades-momentos-pessoas-livros… para tecer uma resposta sonora e agradável. Iria me sentar num canto da mesa — como fazia a casa, no meio de uma tarde qualquer… vagar cenários e traçar um diálogo sobre certas vivências.

Na minha infância eu tinha uma daquelas canequinhas de ágata… e sempre que chegava à cozinha pela manhã, lá estava ela sobre a mesa, com meu leite caramelizado — delicioso. Sentava-me na cadeira com ajuda de C., e sentia meus pés balançarem no ar. Adorava a sensação de liberdade que esse movimento me proporcionava por ainda não alcançar o chão. Entre as mãos: a caneca que aquecia meus vãos. Naqueles dias… eu podia adicionar canela ao leite e adorava lamber os bigodinhos brancos que o leite ‘pintava’ pouco acima dos lábios.

Desde pequena que me demoro a despertar pelas manhãs, mas é que eu sempre achei — não pergunte a razão — que as manhãs pertenciam aos pássaros… e não a mim. Muitas vezes eu acordei à mesa, com um gole mais quente a queimar a língua… marca que me acompanhava o resto do dia.

Alguns anos depois… ganhei uma caneca de louça, toda colorida. Minhas mãos estavam mais firmes e não causariam algum possível acidente. Precauções maternais… e a prova definitiva de que eu tinha crescido, embora continuasse a ser a ‘bambina’ da casa.

Anos mais tarde, eu e mio babo saímos para caminhar no final de uma tarde de sol ameno… pelas ruas cheias de subidas e poucas descidas — da nossa cidade. Era um hábito comum… engatar as mãos para passeios sem compromissos — em silêncio para melhor apreciar a paisagem.

Nessa tarde que vive em minha memória… encontramos e entramos numa lojinha cheia de “badulaques”, com sininho na porta. Compramos ali três canecas. Foi a primeira vez que escolhi minha própria xícara, que trazia um verso de Eliot. O babo achou graça da minha empolgação e em sorrisos disse assim que voltamos a caminhar pelas calçadas — “certas coisas fazem a gente perceber que os filhos crescem mais rápido do que nós somos capazes de acompanhar”…

O formato das xícaras é um das coisas que sempre chama a minha atenção nos cafés que visito… recentemente, ao ir ao Mirante 9 de Julho… esbarrei numa xícara de ágata — adquirida com uma bebida, um latte muito bem preparado, por $25 — e o lugar — um belíssimo cartão postal da cidade… me ganhou com isso.

Já tive muitas xícaras… umas se quebraram, outras eu perdi, algumas eu me desfiz porque o tempo delas em minhas mãos passaram. Não sou uma colecionadora. Não gosto de objetos amontoados, a juntar pó. Gosto de sentir uma xícara em mãos… sabê-la em uso… a trocar energia comigo.

Azuis, pretas… com desenhos, riscos… diferentes tamanhos — umas são apenas para tomar o cappuccino… outras para o chá. Mas nunca mais consegui tomar leite caramelizado com canela. O sabor e a sensação do calor entre as mãos permanecem em minhas vilas… mas é algo que pertence a esse templo sagrado que foi a minha infância e lá permanece: intocável.

 

BEDA | Minha lista de medos {aos treze}

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Encontrei no acaso do próprio acaso… o meu antigo ‘booklet journal’ — ferramenta habilidosa para se organizar e adquirir disciplina na lida com os afazeres, que se multiplicavam de um dia para o outro em meu tempo colegial.

Eu tinha — em meus dias de estudante — o estranho hábito de fazer listas… coisa que hoje é impensável-impraticável. Talvez por isso tenha me espantado ao me deparar com a tal ‘novidade’ imediatamente na primeira página do velho companheiro de estudos.

 


 

Tenho medo {aos treze anos}

  1. Do som das multidões
  2. Do sol do meio dia
  3. De pessoas enfurecidas
  4. Do menino bobo do segundo ano (o mais bonito, o mais forte, o mais seguro de si, o mais desejado pelas meninas… o mais, nunca menos) urgh
  5. De não ter tempo de chegar a última página do Romance do dia. (estou a ler MrsDalloway de Virginia Woolf)
  6. De ser reconhecida nos lugares onde passo.
  7. De ficar igual a minha tia (física e mentalmente)
  8. De formigas vermelhas
  9. Do som do telefone na madrugada
  10. De não conseguir calar a minha voz e dizer tudo que penso e sinto a alguém.


 

 …e lá se vão mais de vinte anos! — e eu confesso que senti uma enorme paz em me deparar com todos esses medos menores. Do menino do segundo ano — do qual não me lembro. Nem mesmo com grande esforço. Das formigas vermelhas, que viviam em nosso jardim… e que na infância ‘devoraram’ o meu pé. Era o espaço delas entre as margaridas {minhas flores favoritas até então}. Gostava de me enfiar entre elas e sentir aquele aroma sutilmente adocicado. Não havia aviso que ali era o ‘lar doce lar’ das benditas formigas vermelhas. Eu pisei, sem saber, num monte fofo de terra e depois disso só me lembro da forte dor que cresceu perna acima e me paralisou completamente. Voltei a mim apenas no dia seguinte… na cama de hospital. Tinha entrado em choque. Ganhei uma pulseira de identificação onde se podia ler: ‘alérgica’ com a minha cor favorita: o vermelho. E o conselho do simpático ‘doutor’: ‘fique longe de formigas e abelhas, bambina‘. Uma picada poderia me matar.

Ainda tendo medo de formigas e abelhas… e de multidões também. Do sol do meio dia… e acrescento, do verão tropical — porque meu corpo não se acostuma a essa brasa que faz arder o chão, o ar, a vida, a realidade e tudo que toca.

Mas, eu removeria alguns itens ali. Sinal de que algo mudou — em mim… ou no mundo.

Mas e você, tem medo de que?

 


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BEDA | The cat’s house

— narrativa urbana

eh

…de todos os livros disponíveis na pilha, ele escolheu o único que poderia iluminar sua anatomia de homem — que, minutos antes, tinha aberto a porta para que a autora de dias desfeitos entrasse. Ele tinha recusado Modigliani — o primeiro. Picasso — o segundo… e todos os outros artistas, deixados em uma pilha sobre um banquinho-de-madeira — mera decoração de um espaço colorido por ilusões particulares.
Inconsciente e disperso da realidade… tomou em mãos o único livro capaz de fazê-lo visível aos olhos da figura indomável… a bufar os diálogos de uma tarde aquecida, que se recusou a tragar. Alheia, deitava no ar pesadas baforadas imaginárias — despejando toda a indiferença que nutria por aquelas pessoas insossas… bêbadas de si mesmas.
Atenta à porta… planejava uma fuga. Exibia sorrisos opacos-amarelos-envidraçados. Não dizia palavra. Seu olhar atravessava a parede e pousava nas muitas páginas que tinha para si em seu universo alternativo àquele. Era cedo demais para estar ali… tarde para permanecer. Sorria os caminhos, os passos — contava-os… era a única soma que se permitia. Acenava aos estranhos nos quais esbarrava nas calçadas, ruas, esquinas. Desenhava na pele  — por dentro — as silhuetas generosas dos prédios.
Mas… de todos os livros disponíveis: ele escolheu Hopper. Um café na esquina, uma rua vazia. Olhares distantes. Espaços. Sombras. Frio e silêncio. Uma barbearia. Um escritório. Um posto de gasolina. Um teatro. Uma mulher. Um homem. Centenas de objetos. Dúzias de personagens. Milhares de perguntas. Nenhuma resposta! Apenas um único elemento a vibrar… estão todos — em cena — entretidos por uma solidão urbana — quase inevitável. Um espaço que a maioria não quer estar-ocupar. Um espaço de quietude — invisível… condição que ele experimentava… até ter em mãos aquele livro — folheado com alguma indiferença. Visitava as figuras — conhecidas… e recusava o que era narrativa, a dizer um homem único, que dialogava com a jovem figura, sem alto relevo e pouco interessada na realidade do lugar pequeno e em seus traços equivocados.
De pé — junto ao balcão — sem perceber… passou a ser uma espécie de citação de Ralph Waldo Emerson — ‘o grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão‘…The cat’s house


 

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BEDA | As cidades mudam de lugar, mas as casas são as mesmas…

casa

eu tive muitos endereços até hoje, mas o primeiro de todos, para o qual me mudei imediatamente ao meu nascimento permanece tatuado na pele. Foi o meu primeiro lar-lugar-pedaço-de-mundo-porção-generosa-de-mim… onde passei a minha infância e parte da minha juventude. Na cozinha tinha riscos atrás da porta para indicar o meu crescimento. Uma vez por mês eu me colocava no lugar indicado e C., fazia o risco, que levou anos para mover um  {mísero} centímetro acima.

Naquela casa… eu sabia quantos passos precisava para ir até a porta e de lá até o portão. Quantos passos levava para chegar à velha casa no meio do quarteirão… onde vivia uma velha senhora portuguesa que tinha um cão chamado Gervásio… e gostava de dizer: “pessoas é uma coisa muito estranha” frase que tomei para mim e passei a repetir, imitando-a, inclusive no sotaque…

Eu sabia todas as histórias estranhas da casa da frente… quantos passos eu levava para chegar até a praça, onde pisar folhas, sentir as estações e apreciar os anciões em seus jogos de dama-xadrez-e-cartas. Os dias tinham sabores e aromas de coisas prontas.

Sábado era dia de dormir o quanto quisesse e pudesse… mas era também dia de se sentar à mesa da cozinha, preencher envelopes e páginas do velho diário de bordo. Pegar as sacolas de pano e ir às ruas para fazer compras. Eu sempre ganhava um pirulito vermelho da signorina do armazém.

Domingo era dia de receber os amigos e parentes… que chegavam aos montes, sem avisar. O almoço era servido depois das duas no quintal, embaixo da laranjeira, na mesa com seus muitos lugares…

As segundas era dia de livros… ler poesias antigas,  novos romances. Abrir as portas para os leitores, que foram se aconchegando no sofá, que ficou pequeno e foram se amontoando pelo chão, em almofadas coloridas.

Terças era dia de ir ao dentista, naquele velho prédio que cheirava a igreja fechada. As quartas… comer fogazza na rua seis. Quintas… de ritual do chá… e as sextas me levavam para a casa da costureira e sua piscina de plástico… onde as crianças sonoras brincavam e eu ficava no canto, espiando a realidade e tramando silêncios em linhas.

Os dias eram uma coisa comum… com suas rotinas simples e agradáveis. Tudo tão fácil de perceber. Mas bastava uma coisa sair do lugar para a minha realidade virar do avesso — se transformar em uma bagunça igual ao do meu quarto. E não dava para jogar tudo debaixo da cama ou afundar no armário de qualquer jeito. Me sentia completamente perdida e perguntava: “mas que dia é hoje?”. C. achava graça… e sabia que eu levaria dias para me reorganizar… porque em meu calendário particular não havia números, nomes tampouco. Apenas aquela tarefa comum a ser cumprida para que os dias fossem uma sequência natural. Ela dizia em meio a um sorriso: “hoje é dia de comer fogazza” e pronto — eu me localizava no tempo e espaço das coisas e suas “nobres” causas…

Eu morei em muitos lugares… mas nenhum outro teve a mesma importância-significado. Foram apenas lugares com teto para os olhos e paredes para as mãos — gosto imenso de sentir a textura dos lugares. É como se tivessem impressões sensoriais.

E hoje eu vivo em um novo endereço — um dos muitos que ocupei nos últimos anos — outra porção do mundo… mas o meu calendário é uma completa bagunça. Estou sempre perdida nos dias. Mas algumas coisas permanecem: hoje é sábado... dia de preencher envelopes e ocupar páginas de diários.

 


 

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