Uma lua… no papel!

uma lua no papel

…depois de descobrir uma livraria numa dessas ruas com nome de pássaros e relembrar os meus dias em Coimbra, quando ao sair nos intervalos longos-e-demorados das aulas… descobria cenários inusitados — vasculhei as poucas prateleiras do lugar e, curiosamen-te, acabei por esbarrar em um livro de poesias portuguesas… da poeta Ana Luíza Amaral. Provei de seus versos ali mesmo e foi como viajar-vagar no tempo e espaço, voltando as manhãs de minha infância.

De posse do livro, o cão e eu fomos para o ‘café entre esquinas’ ocupar nossa mesa a sombra. E enquanto ele observava os movimentos e ganhava afagos dos baristas — que foram seduzidos por ele… eu virava as páginas com a calma típica de quem observa a si mesma no espelho.

Alguns goles de latte mais tarde… descobri um poema-pele, que ficou em mim, grudou na pele feito tatuagem. Tomei nota de seus versos em meu velho-amigo-diário, na pele, na alma e no ar, enquanto avançava calçadas, na volta para casa…

Sim, eu voltei a escrever… em diários de papel também!

 


Poema: ‘lua de papel’
Ana Luísa Amaral

Se eu cantasse o amor sem resultado ou sem causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em lua-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

Assim o que me resta é lua cheia a
transbordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa a insistir papel. E amor.

Alamedas com nomes de pássaros…

Mudar de bairro em uma cidade como São Paulo é o mesmo que mudar de cidade… ainda mais quando você se encontra no meio de um processo de escrita em que a rotina é um dos elementos essenciais.

Estava acostumada a caminhar pelas ruas em pares, longas, entrecortadas por vielas do Alto da Lapa… esbarrando diariamente nas silhuetas envelhecidas das casas e suas janelas sempre fechadas.

Gostava de ouvir o ‘meu menino’ a narrar ‘a outra Era’… quando as ruas eram habitadas por humanos conhecidos, que sabiam acenar e partilhar a vida em diálogos matinais. Agora é apenas um punhado de casas e ruas vazias, rostos envelhecidos, humanos indispostos para o outro, a vida… e fechados em suas casas-masmorras cercadas por muros altos-eletrificados-e-vigiados.

Agora residimos numa Alameda com nome de pássaro… as ruas por aqui dificilmente se esvaziam e Patrick já desenhou seus mapas de lugares favoritos. Uma praça sem bancos, entre prédios altos, com espaço bastante para suas corridas insanas. Caminhamos os dois, a observar cada porta, janela, esquina… avançamos sem pressa e descobrimos lugares para os pés, os olhos e também a alma.

Há uma sorveteria italiana numa esquina e na outra, uma boulangerie… feira as quartas e domingos. O famoso café ‘entre esquinas’ fica algumas ruas para cima.  Cães risonhos levam seus humanos faceiros para passeios demorados…

Descobrimos pela manhã a ‘praça dos cães’, que Patrick provou e gostou. Depois de correr sem trégua pelos arredores… tombou exausto na grama, deixando seu metro de língua para fora. Fazia tempo não o via tão feliz.

Meu menino, que acusou estranhamento ao trocar de cenário, já se mostra satisfeito com os novos ares…  e passou a concorrer com o cão pelos momentos de passeios pelas ruas e alamedas do bairro.

Enquanto escrevo estas linhas, avisto uma janela aberta e percebo um senhor debruçado junto ao parapeito… a observar os movimentos lá embaixo. Me junto a ele nessa paisagem ‘impregnada pela solidão de Hopper’… por um segundo — e quase imponho a mão o movimento de um aceno. Respiro fundo e volto a escrever minhas linhas… preciso me ater a minha trama, antes que volte a condição de rascunho e acabe novamente abandonada dentro de uma maldita gaveta.

Status atual: personagem em gestação…

Pouco depois do lanche… com um livro em mãos — o jogo do anjo — fui me sentar — estrategicamente, no canto oposto ao de minha hóspede… que disse com a voz-rouca-pouca, que gostou da casa, do bairro, das pessoas e também {ela deveria dizer principalmente} do cão… que não demonstrou interesse algum no carinho que ela lhe oferece. E sinto que fica ao lado dela, apenas para que eu possa fingir que estou a observá-lo e não a ela… ele é um menino terrivelmente delicioso.

…naveguei por cada um dos movimentos inquietantes de S., …que parecia em chamas. Percebi sua necessidade, baseada no vicio. Suas falas erráticas — todas as sílabas saltavam de sua boca, como se caíssem diretamente num abismo. Suas mãos tremiam descontroladas, presas de histeria… e as baforadas se multiplicavam, ao mesmo tempo em que as angústias se agigantavam em sua mortalha. Quando amassou a bituca de cigarro — jogada no chão num gesto de fúria — foi como se estivesse a atacar a si mesma, num desespero de auto-destruição.

S., encontrou um canto para seu corpo… do lado de fora, no primeiro degrau, perto do portão. Ali, passou a traçar uma rota de fuga… como se as grades do portão fossem as mesmas que engaiolam a sua alma.

Ela evitou as conversas desde a sua chegada, apenas ouve e exibe um sorriso forçado. Sente um terrível medo do que poderia deixar escapar de si. E o meu olhar também… do qual foge insistentemente por sentir que estou a desbravá-la, como se fosse uma mata selvagem, sem trilhas e com mato alto.

Mas, nisso ela está certa. Cada vez que esbarro em sua anatomia, aprendo algo novo e demoro a retornar de lá. Me coloco em estado consciente de ebulição… foi assim que percebi que sua vida é uma farsa, narrada centenas de vezes, numa inútil tentativa de convencer a si mesma e obrigar-se a uma realidade que não lhe desce.

Ela está aqui porque deu um passo — inesperado — para fora de si… e não tem certeza de que pisou em chão firme. Ela colheu promessas em seus lábios, em seu corpo… que fizeram a ‘bela adormecida’ despertar. Mas ela não acredita em conto de fadas… e consciente de que está a se afundar em águas desconhecidas… repete constantemente para si, as palavras da mãe — é a sua prece para momentos de desespero…

S., permanece fechada em manhãs inexistentes, onde se obriga a despertar com pesados goles de café — adormecidos nas xícaras. Embala qualquer coisa de tristeza na pele… sua vida… sua história… sua carta náutica… e diante do espelho repete seu desespero: ‘é apenas mais uma fase difícil’… mas não é a primeira e nem será a última. Ela respira fundo, engole as lágrimas e entoa seu mantra: ‘sou uma mulher realizada e feliz’… não se convence, mas vai repetir até esgotar as incertezas.

Roteiros de vida…

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Pouco depois das quatro a campainha soou pelos cômodos da casa… tínhamos visita, foi o que ‘disse’ Patrick — o mais humano dos cães — com seus resmungos de ocasião. Sempre me divirto com suas interferências caninas.

Sometimes, ele dispara pelos cômodos da casa, assim que o um barulho qualquer o alcança… mas, sometimes, ele apenas levanta a cabeça e reclama, como se dissesse: ‘vai embora, não estou disposto, não quero ser incomodado’. Foi exatamente o que fez hoje… como se soubesse da febre em minha pele. Estou doente de saudades ‘de meu homem’ e não há nada que possa a fazer quanto a isso… escolhi me repetir: combinar ingredientes e escrever missivas, enquanto folheio livros de Campos e Cecília — insólita combinação…

A ‘visita’ veio para a cozinha — trazida pelo mio bambino, que também tem suas curiosas formas de sonoridades. Introduziu S., e sua amiga de viagem, que me atravessou com sua falta de expressão.

Tomamos uma xícara de chá fumegante, comemos uma fatia generosa de bolo e os diálogos distribuíram as novidades. A., parecia não ter voz, apenas um sorriso sem moldura na face dourada de sol. Mas, bastou que seu corpo sentisse qualquer coisa de aconchego na velha cadeira de madeira para que as consoantes e vogais se encadeassem em incontáveis frases. Soube de sua ‘profissão’, do motivo de sua vinda à São Paulo, dos seus planos e projetos de vida… dos dois filhos, do marido maravilhoso e de sua realidade colorida. E fez questão de ressaltar, como se desenhasse aspas na frase: ‘sou uma mulher realizada e feliz‘. Não me convenceu… mas eu sorri, como sempre faço nessas horas.

Me interessei muito mais pelo que ela não disse… A., nasceu e cresceu numa cidade pequena, com pessoas igualmente pequenas. Mudou-se um sem fim de vezes depois do casamento, um arranjo entre famílias para curar o desassossego da menina. O corpo-alma só conheceu um pouso depois do nascimento dos filhos, quando finalmente teve uma casa para si.

Ela fez questão de exibir a foto dos filhos, do marido, dos dois cachorros, da casa… e ressaltou em voz alta, em meio a um sorriso falsificado, a bênção que é ter uma família.

Ah, os benditos roteiros de uma vida…

Condição in natura: rascunho…

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O corpo sobre a cama… a tarde a encerrar o dia e a casa cheia de luz. Lá fora o vento a cantar ‘abril’ e a varrer os cenários que chegam em pares a janela da frente. O cão veio me fazer companhia — like always.

Ele sabe como ninguém dos desesperos semeados em meu íntimo… disse a ele, em voz alta: ‘depois de tantos rascunhos acumulados ao longo dos últimos anos, chegou a hora de abandonar essa condição infeliz’.

Ele pousou seu olhar cúmplice em minha superfície e com seu sorriso-canino se mostrou disposto a participar dessa trajetória, que pode levar uma vida inteira para acontecer…

Acuso, contudo, o desconforto de não saber navegar nesse mar de águas revoltas. Voltei ao calhamaço de folhas, onde adormece essa história infeliz, dividida em míseros três capítulos. Li incontáveis vezes, as muitas cenas, que ali se amontoam… e a única certeza que floresceu em minha pele-alma: é que quero navegar. Mas ainda não consegui desatar o nó dessa embarcação, que segue presa a esse cais… que sou.

Patrick com sua genialidade canina — que não cabe aos humanos — me convidou a um passeio pelo bairro. Ele sabe — como ninguém — que quando a minha mente entra em colapso, o que me salva são os passos…