Categoria: lua de papel

Trilogia escrita por Lunna Guedes, que conta no livro um… a história de Alexandra Mendes, que vive seus dias na pequena e fictícia Teodoro, sonhando ir embora.
De malas prontas para a Faculdade e prestes a realizar a primeira grande viagem de sua vida… a jovem estudante de Letras vai viver ao mesmo tempo o seu maior sonho e, seu pior pesadelo: conhecer-se!

BEDA | A cidade é um chão de palavras pisadas

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S., que veio para ficar uma semana
, fez as malas repentinamente e foi embora. Mas não levou tudo de si… deixou um punhado de rastros, que eu sigo feito um cão farejador…

Foi o que permitiu a re-escrita de um capítulo inteiro durante a madrugada a partir de um novo título: ‘a cidade é um chão de palavras pisadas’…

Tudo fluiu como se eu tivesse calçado os sapatos de Alexandra e vestido as ruas com seus passos… que me levaram ao meu lugar comum: o café entre esquinas — convertido nessa manhã na pequena Teodoro.

Fui a pé… e a cada passo me afastava um pouco mais da Paulicéia… misturando os cenários — embaralhando-os como cartas de naipes iguais — para uma rodada de nada.

Senti as variações dos caminhos em mim… fui à escola, com uma mochila presa as costas e livros agasalhados junto ao peito. Avistei olhares inquietantes. Flores nos jardins alheios. Vassouras a arrastar folhas soltas pelas calçadas. A vida pequena. A palavra pouca.

De aceno em aceno… cheguei a represa. Nasci ali mesmo nesse ápice de vida inteira. Eu não tocava em nada e nada me tocava… nada se tocava entre si. Mas eu sentia o ar úmido e o cheiro de mato a crescer em desordem por todos os lados. Ouvia o canto de um pássaro em seu vôo rente a água. Sentia a ferrugem do velho portão quebrado na ponta dos dedos.

Tudo tão longe, perto, dentro… e eu apenas escrevia a partir desse caótico existir. Outra realidade… e o meu corpo preso a mesa do canto, sentado, com o costumeiro copo branco a me oferecer pesados goles de latte… enquanto o ecrã do computador brilha como um relâmpago a atingir os meus olhos, a acusar o assombro.

Não posso dizer-afirmar que o texto está pronto… apenas que se adequou ao papel.

 


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BEDA | O metro quadrado de um olhar…

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Depois de visitar algumas cidades do interior Paulista… voltei para casa com a bagagem cheia e a alma vazia. Percebi ser impossível usar a realidade disponível para a minha personagem, porque os lugares que visitei e provei não lhe vestem — pelo contrário, a deixam nua…

Recordei, enquanto somava minhas incertezas em pares, os cenários antigos que trago em mim… resultado das muitas andanças feitas ao longo da vida… e não encontrei porto que sirva de ancoradouro.

Preparei uma xícara de chá e vim me sentar nesses degraus em pares, com o cão de um lado e a velha jabuticabeira do outro. Em mãos o livro ‘o jogo do anjo’ de Zafon, que me acena com qualquer coisa de serenidade tumultuosa.

Lendo-o na ‘falsa calmaria’ desse dia… fui visitar uma vez mais a sua Barcelona e acabei por perceber que eu não tinha que sair por aí a procurar por uma cidade. Tinha apenas que senti-la em mim.

E lá se foi uma das minhas hipóteses de paz... fiquei como Dostoiévski, encostada a um muro à espera do fuzilamento. Fechei os olhos e aguardei, acovardada, até o focinho gelado do cão me resgatar desse estado deprimente.

Serviu para eu compreender que Zafon fala de uma Barcelona particular em seu livro. Ele não foi fiel aos contornos urbanos. Apenas usou seu cenário ideal… o que seu olhar tragou  e deixou dentro de si.

Isso me fez navegar pela literatura, que trago em mim. Em ‘cem anos de solidão’ Gabriel Garcia Márquez inventou uma cidade: Macondo. Borges também fez o mesmo em ‘o Aleph’. Mário desenhou sua Paulicéia e Baudelaire… a sua Paris. Todas essas cidades são inexistentes, porque compreendem o metro quadrado de um olhar…

Passei um punhado de horas após essa conclusão a imaginar uma maquete-lugar-cenário. Liguei para alguns amigos. Queria o caminho das pedras. Como se inventa um cenário a partir de um texto de teatro. Como se edifica um lugar. E a melhor resposta veio quando a mesa já estava repleta de anotações: ‘cidades não existem, o que existem são pessoas’. Vou como remover uma cortina da frente dos olhos.

 


 

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