Categoria: máquina de escrever

Crônicas urbanas, baú de memórias… ensaios sobre a realidade!

Os cafés da cidade…

Passa da uma — a cidade arde — e tudo parece banhado por um falso dourado, que desenha sombras pelas calçadas do bairro. Arrastei o meu corpo para fora, levando-o até o café entre esquinas… aquele com sua sereia de duas caudas, que herdou o nome do personagem de Moby Dick.

Ocupei a mesa próxima da porta — lugar que escolhi na primeira visita — e passei a apreciar os movimentos do lugar… até me distanciar totalmente deles. Algo em mim, de repente, se desliga… e, as palavras povoam todos os meus hemisférios.

É sobre esse ato de escrever em cafés… a matéria da Revista literária Plural… tornou-se um hábito comum na cidade da garoa: trabalhar-estudar-escrever nos famosos cafés descolados, que ocupam as principais esquinas da cidade.

Mas ainda há pessoas que não compreendem a “nova mania”, que desembarcou na Paulicéia do Mário… ainda que tardiamente. Quando cheguei por aqui, trouxe esse ‘velho hábito’ na bagagem…era comum me sentar à mesa do Delfin — também entre esquinas — para finalizar minhas ‘notas mentais’.

Na Europa… é comum os escritores terem uma cadeira para chamar de sua… e ‘os donos’ — como cães abanar a cauda — anunciam eufóricos os livros, escritos-concebidos entre um gole e outro de latte e exibem eufóricos as fotografias de seus ‘clientes famosos’.

Eu ainda me lembro do desconforto demonstrado por alguns garçons por aqui… que se incomodavam com a minha presença. Eles passavam inúmeras vezes pela minha mesa e pareciam contar as inúmeras xícaras de café — machiatto, ristreto, com ou sem gengibre… sempre sem açúcar, que eu consumia. Havia alguns mais abusados que chegavam a me questionar — visivelmente inconformados: ‘mas só vai tomar café, não vai comer nada?’

Passado algum tempo, a minha ausência passou a ser motivo de preocupação. Se mostravam aliviados quando eu ultrapassava a porta. Não demorou para se mostrarem satisfeitos em antecipar-se ao meu pedido. Bastava levantar o dedo para ouvir  a voz rouca-satisfeita do rapaz indagar: ‘machiatto?’ — como se houvesse uma sequência natural em meus atos de degustadora de café.

Certa vez um deles — ao trazer minha xícara de café — quis saber: “o que tanto escreve nesse computador?”… e, a resposta espalhou-se pelos quatro cantos do lugar — trazendo a gerente a minha mesa. Acabou o sossego…

Em formato artesanal, meu primeiro livro foi lançado ali mesmo… os “amigos do café” receberam exemplares em mãos e diziam, com estranho prazer, que iriam ler e comentar. Eu me divertia ao tentar imaginar o que seria pensamento a meu respeito depois disso. Era apenas um experimento. Um escrito para agradar a mim e a ninguém mais. Não tinha preocupação com absolutamente nada…

A gerente do lugar… já não é mais a mesma, mas antes de embarcar para sua viagem, fez questão de me apresentar ao ‘novo diretor’… e, dizer a ele, que a minha mesa (reservada) é a do canto junto a janela — de onde posso observar as pessoas, colher pedaços de diálogos e, descobrir personagens…

E sempre que alguém me pergunta: ‘como consigo trabalhar em um lugar assim’… recordo esses momentos singulares. Minha escrita pressupõe movimento e me pede essa ‘viagem atemporal’, que me leva de encontro a esse lugar confortável que trago em meu íntimo-memória: a mesa da cozinha nas férias de verão, com seu horizonte particular e o cheiro delicioso do café feito pelo nono a transbordar sensações.

Me organizo por inteira… dou rumo aos meus personagens, escrevo minhas linhas em pares, traço diálogos entre nós duas — a criança que eu fui e a adulta que finjo ser.  Tudo isso… entre um gole e outro de café…

Virginia Woolf disse, em suas linhas, que todo escritor precisa de um quarto para organizar suas palavras — mas eu vou na contramão de sua voz aguda, porque eu só preciso de um café numa das esquinas da cidade…

Aconteceu dezembro há pouco…

Sou alheia ao calendário – desde sempre… e geralmente me esqueço das festividades que percorrem a cidade, o país, o mundo e sua realidade particular…

O Natal, no entanto, cada vez chega mais cedo… com suas luzes piscantes e enfeites estranhos. Nesse ano… chegou em meados de outubro… com os muros das casas e fachadas de prédios cobertos por luzes e enfeites mirabolantes; mas há qualquer coisa estranha no ar… e eu não sei dizer se é no mundo ou se é apenas em mim…

As luzes da cidade parecem ser as mesmas dos outros anos… parece que não foram removidas, apenas acesas. As pessoas estão a exibir qualquer coisa de indiferença em seus gestos. Nem mesmo parece dezembro… nas revistas pipocam sugestões de como sobreviver as festas de fim de ano; apontam caminhos para os solitários e deprimidos, número que cresce assustadoramente de um ano para o outro…

Talvez qualquer coisa se acenda na última hora – quando a mesa estiver posta, a ceia pronta e as pessoas reunidas para a comilança…

Quase quarenta…

“Amo a regra que corrige a emoção.
Amo a emoção que corrige a regra”.

Georges Braque

 

Eu sei dos relógios e das voltas que dão os seus ponteiros — mas não sei absolutamente nada das horas que eles medem. Conheço a melodia e a ouço de tempos em tempos: aqui dentro e lá fora… junto as esquinas que eu dobro como se fosse um pedaço de papel a manusear… para compor um origami.

Há sempre um relógio com seus ponteiros em movimentos alucinados nos lugares por onde eu passo — desde a infância — e mesmo sendo apaixonada por esses mecanismos humanos… confesso que prefiro a ciência grega à essa definição humana-equivocada — onde tudo se mede e se perde.

Os gregos dividiram o tempo em dois… dos homens — Cronos e, dos deuses — Kairos. Eu sempre preferi Kairos… por considerá-lo mais poético… menos humano… mais etéreo… mais elegante… e menos dócil.

Às vezes, me assusto com o tempo e seus movimentos para frente… não sei muito sobre o tempo futuro… o dia seguinte para mim, é essa janela sempre aberta que não agrada ao meu imaginário… que prefere o tempo passado, o dia anterior… o pretérito imperfeito.

Gosto de fechar os olhos e tocar levemente todas essas coisas que, se repetem incansavelmente aqui dentro… um punhado de lembranças a saltar de minha memória que, fazem de mim, o que sou: figura humana alucinada, a ir na contramão das multidões, com as mãos dentro do bolso da calça, a espiar as silhuetas dos prédios e das casas… e os humanos em movimento ao meu redor.

Gosto de esquecer o tempo presente… abandonar as horas e suas insanidades de movimentos circulares. Coloco um disco para girar e vou para o canto do sofá ler Álvaro de Campos… esse simpático Senhor, que parece não saber sorrir. Mas sabe como poucos ralhar com o tempo que urge atitudes. Ele fica no canto, com seus versos elegantes… e de lá espia os contornos das coisas e suas causas. E quando se cansa: escreve…

Do tempo futuro espero apenas a soma que ele me deve desde a infância… nunca gostei de celebrar datas… mas gosto de completar décadas: dez, vinte, trinta… quando no intervalo dos anos… apenas digo quase vinte, quase trinta. Ontem foi a primeira vez que eu disse: “quase quarenta”. A pessoa não entendeu minha emoção, mas pela primeira vez, me dei conta que estou quase lá…

É meu Norte particular… completar “quarenta anos”. Ainda vivia os meus dias de menina quando ouvi uma mulher dizer em alto e bom tom, com a fisionomia cheia, diante do espelho, a espiar a si mesma e todos os seus pretéritos: “tenho quarenta anos”. Foi tão lindo. Uma frase inteira… Como se ela conversasse Kairos e ignorasse Chronos…

Eu ainda tenho muito para caminhar antes de chegar a essa casa… e poder anunciar essa linda idade. Enquanto isso, digo em voz alta, lua nova que sou: quase quarenta… e finjo ser cheia, em pleno eclipse das minhas emoções…

 

A janela indiscreta do meu olhar…

Passa das onze… as horas avançam em pares e a noite se esparrama pela cidade. As preces crescem nas janelas que os meus olhos alcançam. Tenho essa mania — desde a infância — observar esses espaços onde vez ou outra um rosto se deixa emoldurar. Não é curiosidade o que me ocorre… é qualquer coisa cinematográfica — são roteiros que se desenham na imensidão do ar.

E com essa sensação de filme que se escreve no verso da folha… vou a cozinha e coloco a água para aquecer na chaleira para um chá de menta. E enquanto cumpro meu ritual de espera…  vou colhendo livros da prateleira: Caio Fernando Abreu e seus ‘fragmentos de vida‘, ‘Olhos de menina‘, de Susan Fletcher, ‘A poesia de Emily Dickinson‘ na voz de Isa Mara Lando.

Tenho dúzias de livros na prateleira… e tento não me repetir. Mas a mãos é mais ágil e busca apenas o que me cala… e eu consinto. Às vezes, me incomoda saber que existem muitos livros no mundo. Sei que não terei tempo para ler todos eles e nem é um desejo meu, na verdade. É apenas uma frase de efeito que a gente diz por dizer somente…

Nunca há tempo bastante para todas as coisas do mundo-vida-realidade. Algo sempre nos escapa… e me preocupar com isso é visivelmente uma perda de tempo. Mas, não consigo evitar o não-fazer, não-ser… é um mecanismo bobo para distrair a mente das coisas que a consomem diariamente. São preciosos pares de minutos de ócio… a maneira que eu encontrei de organizar a minha realidade de maneira a realizar mais e sonhar menos.

A essa hora da noite… que eu sei, será vivida ‘em branco’… com os olhos atentos as páginas dos livros escolhidos — voltei à janela uma vez mais. E ao vasculhar a vida urbana, me deparei com a figura de um veglio signore… no prédio da frente. Quinta janela do canto esquerdo. Ele tem passos lentos e alguma dificuldade motora. Há um andador ao lado da cama. Uma enfermeira está sempre atenta a ele, com medicamentos e cuidados que não o agrada. Ela lhe entrega um copo com água e o medicamento. Ele é tão submisso… sou eu, diante da poesia de Emily Dickinson. Sou eu diante de certos pensamentos.

A enfermeira fecha a janela e encerra o filme da noite… mas eu continuo diante da cena — isso sempre acontece comigo. Filmes nunca se encerram ao subir das letrinhas, o livro nunca chega ao fim quando o fecho.

Mas é instigante pensar sobre esse momento de submissão humana. O que será que ele pensa de si, da vida?  Será que pensa? Será que ainda lhe resta argumento para os pensamentos?


 

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!