Detalhes de uma escrita ficcional

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“Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…”

— John Keats —

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Vez ou outra… alguém me pergunta: como surgem os meus textos! Confesso que, nas primeiras vezes, eu pensava na teoria da geração espontânea — que caiu por terra há anos — achava graça e respondia com o um dar de ombros característico dizer…
Acabei por perceber se tratar de uma pergunta bastante comum… motivada pelo aparente mistério que envolve o universo da escrita. Todos querem saber de ondem saem os temas, personagens, motivação…
Há muitas teorias e lendas a esse respeito… oriundas de investigações feitas por pesquisadores literários a fim de desvendar tais mistérios — ainda que isso não faça a menor diferença na realidade de cada um.
Recentemente eu li outro artigo num importante jornal inglês…  sobre a possível origem de Mr. Darcy — personagem de ‘orgulho preconceito’. Um verdadeiro jogo de xadrez, sem cheque-mate. Eu me divirto igualmente quando me deparo com artigos que explicam como a vida na prisão influenciou e motivou a escrita de Dostoiévski.
Eu resolvi realizar  minha própria investigação para alcançar uma possível resposta para essa pergunta… e evitar o famoso dar de ombros quando questionada.
Sentei-me aqui… e enquanto esperava pelo meu copo branco de latte… enfrentei o branco da tela, em paralelo aos muitos movimentos que acontecem entre esquinas. Percebi que ao me sentar e abrir o notebook… acontece um efervescer dentro. Uma necessidade de dizer-se sem voz. Um silêncio tão fundo-profundo que me cala, desorganiza.
Na infância… ainda sem consciência de corpo-mente — ainda inocente com as sentimentalidades, pensava ser tristeza. Lembro-me de dizer, com o olhar cheio, a pele devastada, como no poema ‘the wast land’ de Eliot  — ‘eu sou uma pessoa triste‘.
Descobriria mais tarde — através da poesia de Emily Dickinson — se tratar de melancolia. Um afundar-se dentro porque certas coisas me encantavam e emudeciam e eu queria guardar aquele sentimento novo-inédito-incrível para todo o sempre… em algum lugar do meu corpo-matéria.
Ainda me lembro da sensação de olhar cheio e espanto ao dar pelo cair da tarde. O fechar-se das cortinas me deixou boquiaberta. Os diferentes tons no céu e aquele breu a esparramar-se em todas as direções. Fiquei anestesiada por alguns minutos, completamente imóvel diante da janela. A luz do quarto se acendeu e eu vi o reflexo do meu rosto no vidro da janela… vi o caminho das lágrimas e o molde do sorriso nos lábios.

Pouco depois… risquei uma missiva à Emily, a poeta-amiga-mulher narrando as minhas emoções. Era exatamente o que eu precisava: escrever… porque sou minha própria caixa cênica…

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Sobre a minha escrita,

Minha professora de literatura, uma das responsáveis pela minha dedicação à escrita, certa vez, durante um diálogo literário, me disse — ‘de repente, eu também aprendo‘. Eu tinha poucos anos. Ainda era primária. Aprendia as primeiras palavras-frases, devorava os meus primeiros livros… e começava a trilhar o caminho da realidade rumo ao imaginário.
Ela era uma espécie de guia por esse mundo-novo…  e todas as suas coisas infinitas. Sua tarefa era provocar-me — oferecendo-me livros-autores. E ela se mostrou bastante hábil. Por algum tempo, eu acreditei que ela conhecia todos os livros do mundo — impossível, eu sei… talvez por isso a frase tenha ficado sem efeito, naquele instante.
Ela me fez experimentar as minhas primeiras emoções literárias… e me ajudou a identificar muitas das sensações que alimento, até hoje. O que gosto e não gosto. O que guardo… descarto. Foi através de nossos diálogos, na Biblioteca que compreendi que, por mais que a escrita seja um ato solitário… é através da partilha que compreendemos o nosso lugar no peculiar universo da Arte escrita e a frase ganhou  sentido.
Não foi nada fácil me articular nesse cenário movediço… de papel-caneta-palavra-silêncio-tormento-delírios e um sem-fim de sentimentos contrários. Foram muitos sustos, desconfortos, algumas vitórias e centenas de fracassos… narrados na Primeira pessoa do singular. Escrevi muita coisa… reescrevi algumas. Amassei centenas de folhas e mais descartei que guardei.
Compreendi, contudo, que a escrita arrasta tudo que sou com ela. Sabe aquela trilha de migalhas que nos leva de volta para casa? Quando escrevo… eu preciso desesperadamente dela, para regressar a casa que-sou. Porque a escrita avança — sempre rumo a um futuro próprio — e me leva com ela… sem mapas ou destino certo! Me faz passageira… nunca condutora. E eu me deixo orientar por essa bússola: percorro calçadas-ruas-avenidas, pessoas, construções urbanas, lugares vários. Absorvo tudo-todos… e quando me posiciono diante do papel-tela-teclado, todas as coisas que tenho-sou se deixam narrar…
Acredito que seja esse o motivo do meu regressar constante à infância. É a minha casa primeira — referência. O meu ponto de partida para a vida. De onde sai para o mundo e para onde retorno em busca de aconchego. A minha página ainda em branco, esperando pelo discurso confessional…

Ser escritor,

Faz alguns dias que anotei o título desse post num pedaço de papel. Desde então penso numa espécie de resposta. Naveguei por aí. Andei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e saí de estações. Encontrei pessoas. Mergulhei em olhares vazios-cheios. Admirei o céu de Abril e sua lua cheia num falso amarelo. A poluição da cidade muda a cor e a forma das coisas.

Li Al Berto e lhe roubei a frase: “passei o dia como quem dá tropeções“.

Pensei minha vida-realidade e percebi que minha visão das coisas sempre esteve intimamente ligada a escrita. Existe uma espécie de dependência natural. Nada de fato existe ou acontece em minha realidade sem que frases inteiras — notas de poemas, pequenos ensaios, artigos — se rendam ao papel. Tudo se explica, origina ou termina com pontuações.

Não falo de livros publicados — isso é recente e cabe dentro de um ontem qualquer. Falo do ato de escrever — deitar a caneta sobre o papel e riscar símbolos que dê sentido ao silêncio que impulsiona o meu existir.

Quando me calo… escrevo — por escrever somente, como disse Al Berto “num recanto inacessível do meu próprio corpo” — esse abismo onde todas as coisas caem comigo. Sem corpo ou matéria, sem sentimentos ou desejos-vontades. Quando tudo misteriosamente finda… e o som do tempo, em forma de carrilhão — na infância — também se cala, se recolhe em um sono mortal. Surgem as palavras. Sem forma, fôrma, sem tinta ou papel, mentiras ou significado. Uma espécie de linguagem própria, desconhecida, indecifrável.

Escrevo dentro… pelas paredes do corpo. Risco. Rabisco. Rasgo. Sangro. Verto. Derramo. Transbordo. O que chega ao lado de fora é o que restou de tudo que sou-fui — o soluço da alma.