Beda | Um quarto que seja nosso…

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Na tarde de ontem, enquanto aguardava por abraço-café-e-diálogos… em meio a balbúrdia dos cenários urbanos que tanto amo, diretamente de meu canto de mundo-vida… saquei o meu notebook da mochila, pedi um latte e, com os fones nos ouvidos… comecei a escrever um texto.

Nesse instante, eu me ausento da realidade… sem dar pelo tempo e, pelo lugar-cenário-espaço, onde estou. Mas, às vezes, sou trazida de volta à realidade das coisas e suas causas — numa espécie de susto que arranca-e-devolve a alma ao corpo —, por alguém que resvala em minha superfície anestesiada.

Dessa vez foi uma senhora-leitora… que ocupou a cadeira à minha frente… com sua xícara-caderno-e-livro. Depois de virar algumas páginas em pares… ela era todo alvoroço e incomodada com a cena do livro, esbravejou-alto  se esquecendo, que estava em público — uma cena pitoresca.

Descobri  ao me comportar como um cão  que ela estava a ler ‘os olhos amarelos do crocodilo’… literatura francesa-conhecida. Lhe sorri cúmplice  como quem acena — tentando descobrir por qual página navegava seu olhar. Percebi que se travava de uma leitura recém-iniciada — e, me posicionei imediatamente sobre os acontecimentos.

A personagem de Josephine  figura encolhida , descobre a traição do marido… e reage como quem não sabe o que fazer com a vida-realidade. Se sente incomodada em ser obrigada a tomar uma atitude. Expulsá-lo de casa seria o certo a fazer. Mas, ao fazê-lo teria que assumir tantas coisas  o próprio fracasso, a casa, as filhas e os olhares inquisidores de sua mãe e irmã… que afirmariam de maneira sonora a sua incompetência em manter um casamento. Algo que as duas faziam havia anos  com louvor.

Conversamos um pouco… sobre a vida, a personagem, a trama, os cafés e em algum momento, anunciei que estava a trabalhar em um livro. Ela arregalou os olhos —  surpresa — percorrendo todo o espaço-cenário com os olhos. Disse sem titubear que não daria conta de escrever uma única linha ao pé de tantas pessoas. Precisaria de seu espaço-silencio-dicionários e outras tantas coisas mais  numa lista recém-preenchida.

Eu apenas sorri… e me lembrei de um texto-crônica, escrito para esse blogue em que citava Virgina Woolf… e sua famosa frase: ‘um quarto que seja seu’… usada para afirmar a necessidade que toda mulher sentiria ao se aventurar  pelo mundo das letras.

Essa frase pertence a um texto… que reproduz duas palestras dadas por Virginia Woolf em uma universidade feminina, cujo tema era: ‘mulheres e ficção’. O texto foi escrito em 1920… e acho bom pousar os olhos sobre ele para nos dar conta do que se passou com nossas antecessoras  e tentar nos entender enquanto personagens de uma realidade contemporânea, que ainda não abandonou certos ranços.

Quanto a senhora-leitora-cúmplice… ela me entregou um sorriso cúmplice e acenou ao voltar para a sua realidade. Não sei o que faz…. mas tenho certeza de que percebeu que há diferentes meios de se conseguir silêncio-espaço… um mundo que seja realmente nosso.

 


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BEDA | em pequenos goles

Outro dia… me perguntaram como eu iria comemorar o dia mundial da poesia. Eu arregalei os olhos — típico de quem leva um susto —, levantei a sobrancelha esquerda e olhei ao redor, feito pássaro em busca de pouso.

Meu calendário pessoal não se ilude com datas. Lembro-me de uma ou outra apenas. Dois ou três dias de junho. Um ou dois dias de novembro. — o resto me escapa. Nem mesmo sei dizer que dia é hoje sem espiar o rodapé do notebook.

E segue a rotina de semanas-meses devidamente numerados, uns com mais — outros com menos. Sempre acontece de eu me esquecer do aniversário de alguém, mesmo com os constantes avisos de redes sociais. Não sei se alguém ainda se surpreende com isso. Não sou o tipo de pessoa que se ocupa em contar os dias-meses-anos alheios-meus. Nunca foi um hábito meu celebrar datas.

Minhas manias são outras… gosto imenso de me lembrar de alguém sem orientações ou obrigações de datas. De estar a andar pelas calçadas da cidade e recordar falas-diálogos-um-copo-de-café.

Comemorar o dia mundial da poesia (?) como eu faria tal coisa? Iria até a prateleira e escolheria um livro? Coisa que faço naturalmente as segundas-terças-quartas… no meio do dia… do passo. Enquanto espero pela xícara de chá ou por alguém.

A poesia me ensinou a ler as paisagens… a enxergar diferentes tons… a ultrapassar anatomias e compreender o que é um olhar verdadeiramente úmido. A poesia que eu leio, também me lê. Me cala e me faz ficar dentro — a suspirar-soluçar —, nesse lugar onde poucos tem acesso. Eu mesma, por muito tempo, vive alheia-ausente… desse Abismo.

Há poetas — homens-mulheres —, que me são caros… eles percorrem minha epiderme e dialogam com minha amalgama. Silenciam o mundo-momento… a minha voz. E eu reaprendo com eles, pequenas coisas-simples: uma manhã de primavera, uma tarde de outono, uma noite de inverno. Passos encaixados por calçadas urbanas. Silhuetas escuras de casas antigas. Uma rua escura com seus fantasmas de ontem. Uma folha em seu último voo de vida-e-morte. A fumaça do último trago. O silêncio que fica quando não há mais o que dizer. Dois olhares, certos do fim, a acenar um adeus.

Ah, a poesia… ela não precisa de datas… precisa de poetas, tanto quanto nós.

 


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Uma dúzia de ovos…

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O que sabemos do tempo, afinal? Eu sei que passa… dizem que é ágil-astuto-ardiloso. Eu olho para trás e nessa soma que me acompanha… há um punhado de lembranças que me seguem. Uma espécie de rastro que eu mesma deixei… uma trilha de migalhas para não me perder… de mim — como se a alma precisasse disso para permanecer atrelada ao corpo.

Me lembro dos lugares por onde passei… das pessoas com quem estive… de coisas que marcaram a pele-alma-passo e outras que, de tão transitórias, se desfizeram no ar — feito grandes chumaços de nuvens com suas promessas (não cumpridas) de chuva.

E no meio de todas essas lembranças… está o meu menino. Me lembro de seu olhar entristecido e de seu sorriso travesso-arteiro. Tudo dentro de um mesmo segundo-cenário. O abraço demorado-gostoso-tranquilo e aquela velha sensação (clichê) de sabê-lo. No entanto, não há rastro algum em meus dias passados.

Vasculhei tudo o que tinha a partir de seu traço, guardado em mim como desenho feito com grafite numa folha branca na última porção de segundo a que se tem direito, para preservar um pouco de tudo-nada.

Revirei toda a minha bagagem, que já era imensa naqueles dias. Nada. Passei horas a vislumbrar seu contorno de homem-menino. O levei comigo por aí — sem sucesso. Mas aconteceu algo inédito… o encontrei em outros olhos-lábios, em movimentos desarticulados de falas… em outros passos pequenos-largos. Figuras inteiras se dissolveram e se misturaram ao que trazia no fundo de mim, esse abismo onde permanecer em queda.

Nos reencontramos dias depois… para um diálogo de minutos. Falas cheias. Frases completas. Não tínhamos perguntas — apenas respostas. E tudo foi se encaixando… olhares, mãos, passos, vontades, sorrisos, lábios, corpos, espaços… como ovos que acomodamos na caixa… um a um. Eu prefiro os brancos-grandes, mas há quem prefira os vermelhos-pequenos.

Parece que não há segredo em escolher uma dúzia de ovos… são parecidos em formatos-cores-tamanhos. Será? Já descobri várias curiosidades sobre como escolher e acomodar os ovos com a moça da feira. E sempre há alguém para anunciar uma ou outra particularidade… para a qual a “dona da banca”, com seu jeito peculiar de vendedora, sorri e diz: “será?” — dividimos o riso e a desconfiança. Sua piscadela de olho diz muito sobre as lendas e mitos que cada um carrega em si…

Mas e se ao invés de ovos, escolhêssemos os anos para ali acomodar? Uma dúzia deles… é o que temos, pois não? O primeiro ingrediente dessa nossa receita… e então, como vais querer os ovos hoje?

17 | e a epidemia de solidão…

‘É preciso compreender a solidão’

Charles Baudelaire

 


 

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Soube hoje, que a premiê britânica, Theresa May nomeou a ministra do Esporte e da Sociedade Civil, Tracey Crouch para o que foi chamado de ‘ministério da solidão’… problema que afeta muitos ingleses, estadunidenses e boa parte da humanidade contemporânea.

Mas quando foi que a Solidão se tornou um problema? Me lembro de ler uma crônica de Rubem Alves sobre o tema e me divertir com sua afirmação de que a Solidão não é o problema… somos nós! — nos sentimos sozinhos quando nos deparamos com a não-solidão. Duas pessoas juntas a caminhar de mãos dadas nos faz perceber as nossas mãos vazias…

Eu me acostumei a ser expulsa dos lugares… nunca fui de muito falar e conseguia, com alguma facilidade, permanecer em silêncio durante horas inteiras, dias-noites — e com o passar dos dias, passei a sonhar-desejar ser esquecida nos cantos da casa, dos lugares. Inventei muitos esconderijos improváveis… acalentando o desejo de não ser encontrada e sempre suspirava profundo — decepcionada —, quando ouvia o famoso ‘a.c.h.e.i v.o.c.ê’. Abraçava o fracasso do momento… desejava a mim mesma: ‘melhor sorte da próxima vez’ e deixava meu canto de mundo para ir me juntar — desgostosa —, aos humanos da casa.

Sentia uma inveja gigantesca do cão largado no tapete, com os olhos fechados e as orelhas atentas aos menores ruídos. Quando uma criança se aproximava dele, eu reparava em suas reações — juro que se pareciam com as minhas.

Eu sempre soube ouvir… mas não demorou muito para perceber que não sabia ouvir calada certas coisas.

Era a única a levantar a mão em sala de aula quando tinha dúvidas… percebia o olhar pesaroso e o sorriso amarelo da professora em minha direção.

Certos temas me levavam naturalmente ao questionamento… não usava o ‘porque’ comum nas outras crianças. Tinha necessidade de mais informações e não de respostas prontas. Eu queria compreender o tema, esgota-lo, atravessa-lo ou alcançar novos horizontes. Mas os adultos — em sua maioria — só sabiam oferecer o lugar conhecido e se aborreciam com minha insistência.

Fui expulsa da Capela do colégio, da sala de aula e vários outros lugares mas, curiosamente, nunca fui expulsa de uma Biblioteca.

Os padres do colégio me olhavam ensimemados… as freiras me evitavam e se benziam ao se deparar comigo pelo caminho… a Conselheira tinha horror a minha presença e as outras crianças tinham medo de mim… era a melhor das sensações, me sentia o próprio Ebenezer Scrooge.

A maioria dizia — com alguma satisfação —, que eu não tinha lugar entre os seus. A Bibliotecária — uma senhora que parecia um personagem saída de um filme de Allen —, no entanto, sempre apreciou a minha presença e me oferecia livros vários… a maioria — segundo o Coordenador Pedagógico —, não deveriam ser lidos por alguém da minha idade. Ela nada dizia, apenas concordava silenciosa-respeitosamente… e aguardava pela saída do prospecto humano para me devolver o livro…

Eu adorava aquele cenário de mesas-cadeiras-prateleiras-livros-janelas — sempre vazias — e o velho relógio bem em cima da porta a pulsar seu tic… tac… — dava para ouvir também o som do carimbo, que a Bibliotecária usava para marcar as páginas dos livros. Às vezes, eu a observava… via quando molhava o carimbo na almofada de tinta… e o suspendia no ar para o golpe fatal. Antes, ela me olhava — consciente dos meus olhos atentos —, e sorria cúmplice.

A solidão sempre foi a melhor das companhias… é silenciosa e nos oferece o melhor dos goles. Um quarto as escuras num dia de chuva é o melhor dos cenários. A mesa com duas cadeiras a oferecer o generoso sabor da ausência me aguça os sentidos… e a rua erma, com calçadas para andar nos dois lados e as casas com suas luzes acesas a anunciar as presenças apenas dentro, sempre me comoveu.

Agora, enquanto escrevo… estou cá, em meu canto de mundo, com uma gentil xícara de café… e nenhuma presença me alcança. Sou obrigada a concordar com Rubem Alves, a solidão não é o problema!

 

o verbo para este ano {novo}

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Autora e Editora da Casa Scenarium livros artesanais

…sempre gostei imenso de conjugar os verbos em seus diferentes tempos. Desaparecer sempre foi o meu favorito dentre tantos no idioma local. Outro que me aquece os lábios é desfalecer, acho o fim a coisa mais perturbadora que o universo inventou.

No inglês e no francês há outros tantos verbos que lustro e digo em voz baixa apenas para que eu possa ouvir-sentir aquele reverberar silencioso-ameno, feito outono nas árvores e voos de pássaros sob o mar.

E eu decidi ali na virada do ano, enquanto os fogos espocavam nos céus e eu fingia ouvir as falas ao meu redor… que gostaria que 2018 superasse 2017… nas conquistas, mas, sobretudo nos fracassos.

Foram tantos discursos inflamados, tanta culpa atribuída ao outro e nunca a si. Tanto ódio disseminado em falas equivocadas. Pedras atiradas. Raiva multiplicada… tantos versos conjugados sem cuidado. Tudo isso consumiu um bocado de energia e nos deixou um tanto mais distante desse lugar que somos.

Por tudo isso… quero o verbo SER tatuado na pele ‘por dentro e por fora’… para que no final do ano, após percorrer doze capítulos de vida, no último dia… último estourar de rolhas — eu possa sorrir a certeza de que eu fui capaz de SER mais…

Quero, contudo, que o tempo não seja tão arredio e não se vá tão depressa… em sua marcha de ponteiros e calendários. Quero viver mais devagar e experimentar pausas porque se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos de vida e morte é que o tempo da espera é precioso-essencial-necessário. O chá só fica pronto depois que a infusão se completa, nem antes e nem depois.

Portanto, para SER mais… é preciso um bom livro, uma excelente música, um bom punhado de idéias malucas na cabeça, uma xícara de chá-café, sorrisos, lágrimas, chuva no fim do dia, noites mais longas, dias mais curtos e caderno novo… cada sim e cada não. O abraço que chega e o que fica pelo caminho. A mão que aquece a outra. O olhar que ilumina o outro. O projeto que surpreende e aquele que não foi possível acontecer.

Todas essas pequenas coisas cabem dentro desse verbo… com o qual fiz um pacto: conjugá-lo na primeira pessoa do singular todos os dias, na primeira hora (meus ponteiros são outros, não anunciam manhãs-autoras, apenas crepúsculo-breu-noite…

E desejá-lo na terceira pessoa do plural: ‘que sejamos mais’…