19 | um conhecido ritual…

dsc_0187Água no fogo e enquanto espero pelo apito da chaleira… escolho o lugar. Um canto para o corpo-alma-livro. Hoje, escolhi ‘poesia completa‘ de Gilka Machado. Gosto de mantas para os pés-pernas. Gosto de luz amena — artificial, de preferência. Moderada, sem agredir meus olhos.

Ouço o apito agudo-forte-gostoso da chaleira… preparo o chá e começo a folhear o livro — sem pressa. É parte de um conhecido ritual, que eu não sei dizer como começou. Preciso entender os caminhos do livro. Tenho preferência pelos que são separados em capítulos.

Poesia completa me oferece uma espécie de mapa… que eu separei com post it vermelho para poder navegar calmamente. Começa com ‘cristais partidos‘… que não me seduz. Deixo para depois. Em seguida vem o que me arranca o sossego ‘estado da alma‘. Fecho os olhos e me aproximo do livro. Cheiro as páginas e avanço na leitura. Com calma, entre goles, pesados suspiros, um inundar-se de sensações-emoções. Um entrar e sair de vida-morte.

Chego ao final desse capítulo. Respiro fundo… preciso andar. Ultrapassar o meu próprio passo. Voltar para essa casa-corpo que sou e dialogar com os meus silêncios. Esbarrar em casas-prédios-pessoas. Atravessar ruas. Dobrar esquinas. Preciso me perder até que eu esteja pronta para seguir para o próximo ponto nesse mapa.

 

Nesse livro é: ‘mulher nua’…

 


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18 | Ulisses… e eu!

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Eu já escrevi sobre isso… sobre o quanto era difícil abandonar livros, no começo. Não folhear as páginas… uma a uma, até a última linha. Não ler palavra por palavra até calar-me diante do inevitável fim. Restando apenas: suspirar como quem morre. A xícara vazia e corpo convertido em deserto.

Nunca lidei muito bem com o fim das histórias… que leio. Desenvolvi com o passar do tempo uma autodefesa. Dar continuidade a trama, do lado de dentro, onde nada se acaba.

Foi assim com o dia seguinte de ‘orgulho e preconceito‘. Lizziê e Darcy adentraram Pemberley para uma vida a dois… de ‘noite e dia‘ em que o casal da trama continua a se encontrar e desencontrar naquele monótono: ata e não desata. E tantos outros!

Mas, aconteceu de um livro não atrair o meu olhar. Não me conquistar-seduzir. Foi difícil avançar as linhas. Percorrer o capítulo. Deixar a primeira página. Eu insisti: uma-duas-três-quatro vezes — sem sucesso…

O pior era que se tratava de um livro-clássico. Lido por todos… venerado-reverenciado. Considerado o autor dos autores… e o livro, o Norte para qualquer leitor-autor.

Tentei mais uma vez… equipada com uma bula-bússola-mapa. Precisava compreender os malditos labirintos de Ulisses  que é um calhamaço de experimentações… de Joyce, mais um autor a desejar abraçar a eternidade e, para isso, precisava manter os críticos ocupados. Eis a fórmula do sucesso. Sem conseguir desvendá-lo… o elogiariam, apenas para não acusarem o fracasso de não entendê-lo.

Pois bem… abandonei Ulisses! — o livro, Joyce… e, ao concluir que não era para mim, percebi que há livros não irei ler… e não há nada de errado nisso, pelo contrário, terei tempo para reler os meus favoritos e os outros tantos livros que ainda não foram lidos e estão à minha espera… amém.

 


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17 | Um poderoso gole de tudo e nada…

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Eu nunca me preocupei com os rótulos, só me importei com eles, ao aprender um punhado de coisas sobre vinho… tipo-ano-origem. E levei algum tempo para me acostumar com essa idéia. Nunca fui boa com esse tema:

Acho que os livros que leio, combinam com pesados goles de tudo e nada… café-chá-vinho-água. Gosto de degustar len.ta.men.te. Sentir os aromas entre os sulcos da boca, pelos cantos do corpo. Acusar sentimentalidades conhecidas. Deixar fazer efeito.

Com livros é a mesma coisa. Não escolho capa-título-autor… nada disso. Primeiro eu vou pelo tato. Sinto o papel na ponta dos dedos. Respiro fundo. Guardo o instante. Leio o título, levando-o para dentro. Abro sem preocupação de página e trago de seus aromas. Embriago-me. Respiro fundo. Avanço páginas até encontrar o início. Gosto de sentir aquele solavanco o meio do peito: o cuore, que conforme a leitura avança, vai bombeando sangue pelas veias, oxigenando o corpo para que a mente possa se desprender da matéria e decolar para seu vôo.

Leio o que me toca… romances e poesias e diários e cartas e contos e crônicas. Eu leio… dois ou três ou quatro livros. Vou e volto dessas leituras. Nunca a mesma. Sempre outra.

 


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16 | meus livros… e eu!

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…sempre gostei de livros espalhados pelos cantos da casa-corpo… no meio do caminho, para tropeçar neles, sem compromisso. Iniciar uma leitura no tempo dos livros-páginas-histórias-versos. A leitura sempre foi pausa, um existir entre tempos. É sempre fim de tarde. Dia de chuva. Outono. Lua sempre cheia…

Gosto imenso de tê-los ao alcance das mãos-olhos… empilhados em cima da mesa, ao lado da cama. Esquecidos em gavetas-caixas… na mesa da cozinha, ao lado de uma xícara. Dentro da mochila…

Tenho uma prateleira feita de caixas de feira… e há um tempo certo para arrumá-las, limpar a alma e me preparar para o que ainda está por vir.

Gosto imenso do último dia do mês… mas, não é um compromisso-obrigação. É apenas um gesto antigo, que se repete. São rituais que preservo conscientemente. Desço os livros… removo a poeira e os empilho, sem ordem pelos espaços: mesa-cama-chão. Gosto imenso dessa forma de caos.

E tudo é muito lento… porque acabo por me atrancar as páginas conhecidas e navego nesse mar conhecido, como se fosse um roteiro novo, traçado há pouco. O que, naturalmente, levaria alguns minutos, dura um dia inteiro que é também o tempo de uma vida.

Devolvo-os aos seus espaços, separando os romances das poesias. Os mais lidos, dos menos lidos. Os que estão em estado de espera se ajuntam e o que nunca mais voltaram aos meus olhos, ficam nas prateleiras mais baixas, quase fora de alcance, até que encontro um destino outro-corpo-pessoa, que não eu.

 

 


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15 | a leitora que sou…

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Eu tive fome de juntar letras… formar palavras e construir frases — foi o que me disseram. Mas, não alcanço o momento-processo. Falta-me memória… esse objeto ainda em construção.

Olho para esse passado-meu e me vejo sentada à mesa da cozinha, com os pés a balançar no ar e um copo de leite caramelado ao lado. Os olhos grudados na página de um livro grande, onde leio a história do mundo… a partir dos mitos gregos.

Me lembro da euforia em saber Poisedon (deus dos mares e oceanos), Reia (uma das filhas de Gaia), Zeus (pai dos deuses) e outros tantos personagens fantásticos, narrados em versos imensos-intensos.

Havia livros espalhados pelos cômodos da casa… a maioria: de poesias. Esbarrava neles, a caminho do quarto-sala-banheiro. Gostava imenso de tocá-los… senti-los na ponta dos dedos. Ler os títulos, portas para realidades outros…. e o nome de seus autores, essas figuras impossíveis.

O meu preferido era: ‘essa é minha carta ao mundo‘… de Emily Dickinson. Minha primeira poeta estrangeira, a me calar e roubar a minha paz-alma. Com ela aprendi o sentido de vida-morte, começo-fim. A anatomia do silêncio e a filosofia do espaço.

Em meu quarto havia pilhas de almanaques, ao lado da cama, sempre ao alcance das mãos. Histórias de heróis mutantes… seres estranhos e incríveis. Enquanto lia, pensava em qual seria o meu poder e me divertia ao imaginar minha vestimenta, cor da pele-cabelo.

Decidi que seria uma criatura noturna, com sensor de morcegos na pele e olhar de coruja… com a cabeça a girar trezentos e sessenta graus.

 

 


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