Missiva de primavera | Sinto falta de mim, em mim…

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Caríssima,

 

…caiu a noite, a chuva e setembro começa a cair também. Faz alguns dias que arranquei a folha do mês septe-nove do calendário e fui inventar o futuro — outubro —organizando-o para não me perder da realidade. Não me agrada ser atropelada-engolida pelos ponteiros-calendários equivocados.

Esperei por suas linhas na semana que passou. E como não chegaram… solucei meus silêncios e vazios e fui conversar com o teto. Às vezes, me faz falta um diálogo de linhas retas, bem pontuadas. É como aquele gole de café bem feito, sabe? O aroma chega primeiro, o sabor pouco depois.

Sim! eu sei que o silêncio também é uma forma de diálogo — de não dizer, não chegar. Sei que um quarto escuro tem ruídos sinceros. E o espaço de um café — entre esquinas  — com suas mesas cheias — numa noite de sexta é lugar comum para a solidão.

Já reparou que as pessoas inventaram uma nova forma de comunicação? diálogos sem palavras. Os olhares estão sempre em outras estações  a mover-se por trilhos invisíveis. Quando foi que a vida-realidade virou esse vagão com paradas orientadas por um ecrã — onde mapas virtuais guiam os nossos pés?

Quando foi que esse tempo descarrilou? Se isso é ser contemporâneo-moderno… eu prefiro ser antiga porque não consigo me adequar as essas aldeias de ninguém, onde se discute tudo e nada sem propriedade alguma.  São todos marionetes presos por fios e não se dão conta disso…

Escuto o silêncio de porta em porta. O vazio de boca em boca. A pressa de pés em pés… e os dedos das mãos a gritar misérias. Hoje foi a nudez de um homem em uma exposição a fazer alarde. E o barulho foi tanto que eu precisei fechar os olhos para aquietar o cuore. O que virá amanhã? Não passa um só dia sem tormentas.

E eu que sempre gostei do canto — no lado oposto ao mundo-vida… me vejo obrigada a ir pelo meio da rua, porque as calçadas estão povoadas por uma nação de zumbis-marionetes de si mesmos.

Resolvi reler 1984  depois de hoje  — eu que nunca acreditei em profecias, cheguei a conclusão de que George Orwell era um profeta. E isso me tira o pouco de sono que ainda me resta. Será que em uma dessas estações é possível desembarcar em si e se oferecer a um abismo-qualquer?

Em fases de ser minha,

L.

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Missiva de primavera | Estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

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Caríssima,

A tarde me trouxe novamente às tuas linhas… e enquanto bebericava alguns goles do meu ‘latte‘… ouvia alguém dizer que já é primavera nesse setembro quente-e-seco. Resvalei o olhar na capa do meu novo livro ‘em teu ventre’... e comecei a pensar nos muitos caminhos que os livros percorrem antes de saltarem do abismo que somos para o mundo, em voos (?) de vida e morte… para se aconchegarem no formato de páginas-capas e se jogarem no olhar dos leitores.

Percorri — em segundos — a estrada de vida que trilhei até aqui. Gosto imenso de pensar que é feita de terra. Chão batido com pesadas marcas deixadas por todos que por ali passaram — uma manada sem norte. Cercada por frondosas árvores, dá para ouvir o som das águas de um rio qualquer em paralelo aos meus passos. Minhas mãos — sempre em busca do que tocar — resvalam no cercado de arame farpado — a margear o meu destino… reconhecendo os famosos ‘nos’ de espinhos, que não me ferem… apenas alertam que nada é fácil nessa tal realidade.

Por entre as folhas, chega um pouco de sol-nuvem-chuva — a ilusão que somos. Sinto no rosto o vento frio, fecho os olhos, respiro fundo e alimento o meu imaginário — sempre tão faminto.

Tantos personagens se precipitaram em mim nessa caminhada. Certa vez, estava sentada em um Café em Paris… a esperar pelo meu fiel escudeiro de aventuras, quando se sentou ao meu lado uma Mulher-febril. Me encantei com os seus gestos-contornos e a bebi — sem modos — em pesados goles… receosa de que ela se fosse antes que eu a consumisse por inteiro.

Ainda hoje sinto o seu gosto em meus flancos. Gosto imenso de pousar meu olhar sobre seu desenho humano — o que tomei para mim. Folhear a história que nasceu ali, naquele instante de espera. Está inacabada, mas vez ou outra, na solidão de minha escuridão, busco pelas páginas no fundo de uma gaveta e retoco pequenos detalhes. É aquele último e precioso gole que fica no fundo da xícara.

Que bom que sentou a mesa comigo para esses sabores-saberes-futuros de páginas por mim alinhavadas.

 

Catarina.

Missiva de primavera | As horas estão escritas num futuro impossível

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Caríssima,

…a madrugada não trouxe os trovões que eu esperava… apenas um silêncio imenso dentro das horas em pares — vividas, minuto a minuto, na companhia de suas linhas. Li e re-li a tua resposta, que chegou no meio da tarde, como um raio no azul… e me afundei em sensações. Fui para o meu canto favorito da casa, e levei comigo outras linhas tuas — guardadas na ‘gaveta da alma’.

Espalhei os versos sobre a cama… a mesa, o chão — o quarto todo… e, aos poucos, o papel se fundiu à minha matéria: embriagando-me! Foi assim que eu vi nascer a certeza: publicar os versos teus.

De repente, estava a dobrar e amassar folhas… a tramar qualquer coisa de futuro em meu íntimo… a imaginar um livro-insano-rebelde, com toda a ‘liberdade’ que me permito.

Passaram-se segundos-minutos — não sei precisar o tempo das minhas urgências. Fui para a cozinha ferver a água. E, enquanto esperava… admirava sua fisionomia serena-calma — da qual não consegui retornar.

Li teus olhos, tua boca… o rosto todo. Colhi um punhado de gestos calculados. Percebi a tua respiração… acompanhei o teu silêncio! Ouvi tua voz murmurar segredos humanos-urbanos… me perdi!

Ao despertar — dentro de um gole de chá —, percebi o inevitável… ao espiar o azulejo que reveste a parede da cozinha: a vida é feita de esperas. E ninguém nos ensina isso. Temos que aprender por nós mesmos. Reconhecer o tempo: o nosso, e também o dos outros. E compreender que uma vida inteira é composta por muitas esperas…

Eu esperei por ti! E, depois que te vi chegar… outras esperas aconteceram. Agora mesmo… espero que te vás. Preciso que regresses a ti e me deixe só… no limbo de minhas insanidades — a flutuar no vazio que sou, para beber a mim em pequenos e generosos goles…

Por enquanto, convivo com a tua janela e devoro a paisagem que sorves. Observo como olhas a rua e os passos que chegam aos teus olhos. A cidade vista do alto é tão singular. Vejo teu sorriso agridoce aquecer os teus lábios nesse refletir de vidraças. Num movimento abrupto — apenas teu —, vejo tuas mãos fecharem as cortinas que pesam sobre tuas janelas. É tua maneira de calar o mundo… mantê-lo longe, para não se sufocar nessas insanidades contemporâneas — tão antigas quanto o passado que tu recusas em ‘preces’ feitas antes de dormir.

Aproveito para me despedir… preciso recolher as folhas à ‘gaveta de minh´alma’ antes que o ‘dia seguinte’ desperte com seu sol de verão…

Beijo-te, certa de que outra espera acaba de começar…

Catarina

Uma porta que leva a outro lugar

comboio porugal

Caríssima A.,

…enquanto folheio sua missiva, observo a realidade em movimento do lado de fora desse comboio e me dou conta de que é novembro — e de que já se foram um punhado de dias desse mês que é meu Porto-Norte…

Trouxe comigo alguns rascunhos para revirar enquanto atravesso a paisagem porque gosto do som dos trilhos — esse fio condutor que me leva direto a infância, quando eu grudava os olhos na janela para observar a realidade em movimento — tudo era uma grande festa para os meus olhos.

Hoje, me distrai com a algazarra de crianças — como se fossem pássaros — em suas maratonas particulares. Animados, dão o melhor de si. Tenho para mim, que o maquinista deve ter pensado seriamente em reduzir a marcha… e deixá-los vencer.

Mas há um horário a cumprir… e com um apito sonoro, o gigante acelera sobre os trilhos, pouco depois da curva, deixando para trás os humanos em miniatura — vencidos, mas não derrotados… conquistaram acenos dos passageiros, que por alguns instantes regressaram à infância e sentiram seus músculos povoados por cansaço-alegria-e-a-certeza-de-que-nada-é-impossível… seguem a viagem com uma alegria nova que não vai durar muito, mas está lá em olhares reluzentes e sorrisos imensos.

Eu volto o olhar para os meninos a beira da linha… e os vejo se curvar exaustos sobre os joelhos por alguns minutos… pouco depois, voltam percorrem o caminho de volta, arrastando suas fragilidades. Tenho para mim, minha cara que eles tentarão de novo… quando outro comboio passar.

Já reparou que a realidade sempre encontra um meio e nos levar de volta a infância? Como se nos pedisse uma pausa nas coisas demasiadamente humanas e nos lembrasse… é possível. Só basta acreditar. O que me leva a seguinte questão: em que momento da vida a gente simplesmente deixou de acreditar?

Me despeço por aqui, mas a viagem continua..
Au revoir