Uma porta que leva a outro lugar

comboio porugal

Caríssima A.,

…enquanto folheio sua missiva, observo a realidade em movimento do lado de fora desse comboio e me dou conta de que é novembro — e de que já se foram um punhado de dias desse mês que é meu Porto-Norte…

Trouxe comigo alguns rascunhos para revirar enquanto atravesso a paisagem porque gosto do som dos trilhos — esse fio condutor que me leva direto a infância, quando eu grudava os olhos na janela para observar a realidade em movimento — tudo era uma grande festa para os meus olhos.

Hoje, me distrai com a algazarra de crianças — como se fossem pássaros — em suas maratonas particulares. Animados, dão o melhor de si. Tenho para mim, que o maquinista deve ter pensado seriamente em reduzir a marcha… e deixá-los vencer.

Mas há um horário a cumprir… e com um apito sonoro, o gigante acelera sobre os trilhos, pouco depois da curva, deixando para trás os humanos em miniatura — vencidos, mas não derrotados… conquistaram acenos dos passageiros, que por alguns instantes regressaram à infância e sentiram seus músculos povoados por cansaço-alegria-e-a-certeza-de-que-nada-é-impossível… seguem a viagem com uma alegria nova que não vai durar muito, mas está lá em olhares reluzentes e sorrisos imensos.

Eu volto o olhar para os meninos a beira da linha… e os vejo se curvar exaustos sobre os joelhos por alguns minutos… pouco depois, voltam percorrem o caminho de volta, arrastando suas fragilidades. Tenho para mim, minha cara que eles tentarão de novo… quando outro comboio passar.

Já reparou que a realidade sempre encontra um meio e nos levar de volta a infância? Como se nos pedisse uma pausa nas coisas demasiadamente humanas e nos lembrasse… é possível. Só basta acreditar. O que me leva a seguinte questão: em que momento da vida a gente simplesmente deixou de acreditar?

Me despeço por aqui, mas a viagem continua..
Au revoir

Caindo de si mesmo, em si mesmo…

‘pois estou só e quero que o olvido
devolva aos dias tua leve sombra
para esta já cansada ostentação
de umas palavras em que a tarde esteja’.

jorge lui borges

Jorge Luis Borges en Palermo, foto Ferdinando Scianna (1984)02

Caríssima A.,

…aconteceu novembro em mim, no meio dessa tarde, enquanto observava a janela e a cidade em seu estado de pausa. Às vezes, parece que o tempo para e a vida não se atreve a sair do lugar… permanece imóvel, como se aguardasse algo a acontecer… um estalo, um estouro.

Hoje aconteceu um punhado de pesadas nuvens… vindas do mar — lentamente. Cobriu toda a cidade em minutos. Um vento insano rasgou a paisagem, invadiu a casa e cobriu minha pele de arrepios. Fechei os olhos e me esqueci dentro da pele. Choveu pesado dentro, fora e por todos os cantos da pele, da casa, da cidade…

Choveu como não chovia havia tempos… exatos doze meses. Me lembrei de ler em tua missiva — ‘já é quase novembro’ — e com ela ‘em mãos’ eu apenas ri… eram apenas palavras suas numa folha de papel… uma espécie de caminhar que não te leva para casa, sabe?

Eu e o calendário não temos qualquer entendimento… não sei como se organiza essa sequência de números insana, rotulados com seus nomes equivocados. Eu tenho meus próprios ritmos de vida e não-vida… minhas somas, meus rituais de ir e vir. No final do mês será meu ano novo. No final do ano, será apenas troca de calendário. Não vou estourar champanhe, soltar fogos, fazer festa, promessas, pular sete ondas. Vou assistir de novo o mesmo filme, ler o mesmo livro e agarrar-me a pele daquele que já se acostumou aos meus desfeitos…

E Novembro — esse novelo de lã — aconteceu apenas hoje… justamente quando chovia fortemente por cima da cidade. Eu me encolhi em mim mesma… e de meu canto de mundo, revisitei cada um dos meses desse meu ano. Fui revendo meus lugares-paisagens… passando a limpo os fatos que a memória escolheu guardar…

São trezentos e tantos dias… você sabe… não há como guardar tudo. Algo sempre se perde, mas eu não faço idéia de como se orienta essa escolha. Você sabe? Deveria ser como os livros de poesias que trago comigo. Pela manhã, eu abri o livro de Borges — o outro, o mesmo — e a poesia da página ficou em mim.

Au revoir

L.

A pessoa que não somos…

 

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —


À você…

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente e quase me escapou do olhar… distraída que estava — como sempre. Alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco… e o desejo de ter em mãos um copo branco — venti — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa… a desviar do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis… você parece um daqueles malabaristas que esperam fechar o sinal para se apresentar a uma pláteia de desinteressados.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância segura… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro, que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim…

Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário. Me encantei com seus traços e a idéia de “desenhá-la”. Seus passos me fascinaram… seu olhar e sua intensidade — sempre um grau acima.

Você me fez perceber, que o não saber, é o melhor dos ingredientes… porque enquanto você esteve do lado de fora… a ocupar sua mesa e a embalar seu par de horas confusas — você era como o aroma do café, que seduz antes mesmo do primeiro gole! No entanto, depois que veio se juntar a mim, com suas confusões, palavras equivocadas e a realidade de todas as suas coisas: cruel e desumana — passou a ser uma xícara de café amanhecido, esquecido no canto da mesa…

Mas, ao percorrer uma mesma calçada tempos depois… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: quando foi que fomos algo diferente disso?

Deixei-te em tempo e espaço, e você fez o mesmo comigo…
Amém

Ps. Só me incomoda a sensação de perda… do que poderia ter sido um grande personagem.

Au revoir

L.

Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

envelope 2

Caríssima M.,

…sentei-me aqui para responder sua missiva que há dias queima em minhas mãos. Mas eu tenho pequenos hábitos que preservo…

Para escrever uma missiva preciso que meu corpo anoiteça e que o som da chaleira se faça presente… ressoando sonoro pelos cantos da casa, me permitindo uma ilusão confortável de futuro — a única que eu aceito — através da fusão do chá.

Gosto de me sentar aqui, na mesa da cozinha… de frente para a janela para pensar a realidade que me atravessa a partir das linhas que me fizeram porto. É como bebericar um pesado gole de chá…

Já não dependo mais das manhãs de sábado para escrever… mas, as respostas que escrevo continuam a se precipitar dentro de mim, muito antes de eu estar diante da folha de papel — da qual ainda sou dependente, tanto quanto dos envelopes coloridos — sendo uma cor para cada correspondente, que já não são tantos quanto antes.

Também já não existe mais a questão da espera e confesso que sinto falta desse gesto. Era delicioso passar pela caixa de correspondência, no portão de casa, com a ansiedade típica de uma criança em véspera de natal. Era bastante singular ser surpreendida com certos envelopes.

Eu tive muitos correspondentes… um deles — um signore português — confeccionava seus próprios envelopes em papel de pão. Durante anos, ele foi o meu contato com uma pequena cidade do mundo, que antes dele, eu nem imaginava existir. Ele me contava da esposa, a bordo de seus sessenta e poucos anos, os netos que passavam os fins de semana em sua casa e da filha, sempre ocupada e distante.

Em tempos modernos, as missivas dispensam carteiros e caixas de correspondência. Chegam rapidamente através do e-mail, redes sociais, posts e livros. Não me aborreço com a modernidade, mas sinto falta da ‘espera convertida em surpresa’ daqueles tempos…

E eu ainda preciso sentir as palavras brotando da ponta do grafite junto ao papel. Preciso ser noite, xícara de chá, silêncio, folha de papel, envelope, selo…

É minha pausa nessa realidade insistente e também nesse imaginário sempre tão agudo e pulsante. É meu delicioso instante de silêncio em que posso ouvir o som do meu cuore badalar minhas reticências… como disse Tarsila em suas missivas ‘aí vai o mio cuore’

bacio
L

Não só de café vivem os loucos…

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.
Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundo
se fecham. Tudo se revela tão perene

que eu é que sou translúcida morta.

Cecília Meireles


Caríssima A,

…sua missiva chegou num momento de caos. Estou sem tempo para pausas nessa minha realidade movido a agulhas e linhas. Há tanto para fazer antes de me sentar para me dedicar ao prazer de alinhavar livros. Não há tempo — como disse Cecília Meireles na última missiva enviado ao amigo Mário. Suspiro só de lembrar a despedida que ela entoa naquele punhado de linhas.

Não há tempo — insisto… e me sinto como se tivesse recebido uma sentença de não-vida, com dias contados nos dedos de uma das mãos — cinco — é o que diz o médico com seu olhar traiçoeiro a me impor urgências. Tudo é para ontem porque não há tempo e contamos os dias nos calendários e nos preparamos para as ansiedades que se misturam à minha figura.

Me preparo para viver contrários porque sou centauro e empunho o arco e disparo a flecha… uma semana sem sonos, repleta de ansiedades e pressa — justo eu que detesto certos movimentos, me vejo obrigada a eles mais uma vez.

Ainda é domingo e para me preparar para os dias que virão me deixei em estado de abandono. Li livros, vi alguns filmes e dormi horas inteiras no claro e no escuro.  E agora, enquanto aguardo a água ferver… escrevo-te e penso: quantas sentenças de não-vida recebemos ao longo da vida?

As pessoas se preocupam tanto com o ‘fim do mundo’… anunciam datas e conclamam estar próximo do fim.

Será que não percebem que o mundo se acaba todos os dias? Quantos de nós ficaram pelo caminho? Quantos de nós não conseguiram viver o dia seguinte as suas emoções mais agudas?

O mundo se acaba, minha cara… e nem sempre há tempo bastante para uma simples xícara de café preparar, porque o trabalho, a cidade e seus muitos elementos, a casa, a realidade, as pessoas — tudo isso no ocupa e povoa e suga e nos estraga, feito um vírus que anula a nossa imunidade.

E a gente se acostuma a deixar as pequenas coisas para depois — como se existisse algum prazer em dizer ‘não há tempo’. Mas aqui, eu me permito repetir as linhas de Cecília num abrir e fechar de aspas… enquanto sirvo o café feito na lentidão que existe dentro da espera.

Ao menos sou tua amiga…