— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta…

alovesongfor

 

Quando começo a desenhar um personagem… passo horas inteiras a observar a vida em movimento — em busca de certos sinais. Narrativas dependem de certos detalhes que ninguém além da realidade é capaz de ofertar com tanta perfeição: a cor dos olhos, da pele, o jeito dos gestos, a maneira como o sorriso se precipita nos lábios, o tipo de óculos que cobre os olhos, a maneira como se ajeita os cabelos, o tipo de movimento que orienta o passo… a moldura do rosto.

O imaginário — astuto-ardiloso — usa cada um desses artifícios naturais para converter palavras em imagens… dar ao traço a precisão necessária. Por isso, já não me espanta mais a realidade acenar com todos os seus dedos… atendo imediatamente.

Hoje, no meio da tarde, vivida em pequenos goles… “flertei” com esse homem-inédito. Ele estava a viver seu instante particular de vida, no canto. O olhar atento varria as superfícies do lugar-novo para seus sentidos — medindo e encurtando distâncias. Nada escapava de seus olhos de águia… a se habituar ao cenário — uma novidade para sua derme embriagada. Tudo parecia lhe agredir e incomodar. Não sabia o lugar dos pés, das mãos. Não conhecia os estranhos em movimento retilíneos…

Ele caminhava com cuidado… como se o chão guardasse minas secretas — a explodir num movimento equivocado-precipitado. Percebi que traçava uma espécie de mapas de possibilidades — entradas e saídas… onde estar… a quem vigiar… como fugir-escapar.

Meu olhar não passou despercebido… e eu precisei fingir atravessá-lo. Nada me incomoda mais que perder um bom personagem devido a rebeldia de certos olhares precipitados. Certa vez uma figura-humana — que eu espiava atentamente —  atravessou a rua e acabou dentro dos meus olhos. Escapou-me. Diante de mim a revelar-se sem mistério a ser por mim desvendado era figura comum-igual-a-todo-mundo. Me desorientei e perdi a personagem. Restou-me apenas a indignação. Esbravejei-trovejei e fim…

Ainda assim os humanos continuam a ser meu material favorito… hoje, em fuga dos olhos cor de céu nublado a trovejar… busquei pelo retrato de terras em fase de preparo para o plantio do café às suas costas — e me distrai com memórias de infância.

Astuto… ele inventou um sorriso-isca — e como não reagi, acreditou que não ser o alvo dos meus olhos. Mas, a flecha disparada pelo Centauro que sou, acertou em cheio a sua figura.

Sua respiração intensa… fazia emergir o tédio de uma vida inteira, atingido o ápice por ‘mimar’ figuras insólitas, cuja existência ele reprovava veementemente. Ele tentava domar o próprio corpo — indócil-inquieto… habituado a realidades perversas e pessoas maquiavélicas. A desconfiança é sua goma de mascar. As mãos ágeis — prontas para um golpe aplicar — voltavam sempre a mesma parte do corpo — seu lugar secreto. Em um tempo anterior: eram um só — o objeto e ele… figura una — equação facilmente resolvida. Não hesitava… o objeto se oferecia ao seu gesto bem tramado-seguro-atento. Era preciso… econômico — aprendeu com o passar dos dias a não desperdiçar munição.

E eu também aprendi com o passar dos anos a não desperdiçar realidade… quando ela bate a porta do meu imaginário, acendo o meu cigarro e trago pesado certas figuras.

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— a leitura que faço de mim mesma

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Eu gosto de ir na contramão do passo alheio… devagar, pelo meio, com as mãos dentro do bolso da calça. Combinar os meus passos com os pensamentos, enquanto o olhar saboreia tudo que chega. Aprendo o outro que passa… com pressa — a esbravejar contra a própria sombra. São figuras insólitas em estado latente de fobia-insanidade a marchar por essa realidade bucólica sem dar por absolutamente nada. Figuras inéditas… imersas em fúrias, que não desconfiam do quão preciosas são.

Passam por mim e ficam… pequenas partículas. Peças de um quebra-cabeça que eu monto quando aqui me sento — entre esquinas — com um copo de latte a espiar-me a cada toque dos dedos no teclado…

Sou apaixonada por essas figuras fantásticas… tanto quanto um desenhista por sua folha em branco. Ele, de posse de um carvão tece seus riscos-rasgos no Canson. Eu, de posse das anatomias que devoro, cruzo a fronteira da realidade e mergulho nesse mundo onde tudo se dissolve e transforma através do cinza-toque-grafite-no-papel. Curiosamente, também é cinza a cor das letras que, em um punhado de toques, se precipitam na tela.

Enquanto caminhava pela Avenida Paulista — rumo ao meu lugar entre esquinas — ouvi uma dessas pessoas esbravejar pesado contra minha lentidão nada humana: “por acaso está no mundo a passeio?” Não consegui evitar o riso — o que serviu para dobrar a fúria no humano apressado, que eu acompanhei em progressão, com o passo acelerado ao máximo — a desviar dos “obstáculos humanos” enquanto distribuía — infeliz — sua impaciência para com tudo e todos… em gestos indóceis e palavras rudes…

Quando caminho calçadas… crio meu mundo fantástico. Me desconecto da realidade e sua gente impaciente. E mesmo que esbarrem em minha figura — infelizmente visível — não me devolvem ao lugar do passo. Aqui dentro a realidade é qualquer coisa fora de foco — inventada-transformada — a diluir-se…

A maioria dos meus textos surgem entre um humano e outro… uma esquina e outra… um passo e outro… a caminho de casa ou qualquer outro lugar na cidade. Eu gosto de me perder e de me saber perdida — desorientada. Gosto de provar dos aromas-cores-superfícies e tudo o que a cidade oferece. A poesia do espaço urbano é infinita e reverbera em mim a todo o momento.

Viro uma esquina e esbarro num personagem, que para aquele momento pode não ter utilidade, mas em algum momento será o elemento essencial-necessário. Atravesso a rua — com o som nas orelhas a gritar um rock ou um velho blues — e a maneira como a luz resvala na silhueta de um prédio me brinda com um cenário de vivências a serem narradas por mim em linha reta. Enquanto espero pelo ônibus… colho o resto de um diálogo — falas que eu guardo para quem sabe, durante o trajeto por ruas e avenidas — a caminho de casa — se encaixe na voz sonora de algum personagem.

Porque como disse Silvia Plath em seus diários — somos todos personagens de nós mesmos.

Ano cinco…

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O bom de se ter um blogue é que tudo é mutável-instável e o passado é sempre presente, já que muitas pessoas chegam atrás dos rastros deixados, por nós. Basta uma rápida espiadela nas estatísticas para saber que antigos posts estão sempre em evidência. É uma espécie de janela que não se fecha…

Nessa minha caminhada virtual… já encontrei dúzias de adjetivos para essa página. São quinze anos de uso incansável dessa ferramenta, que eu descobri através de um amigo-de-ontem, que achou que seria eficiente para os meus ‘dias futuros’.

Tudo começou no ano de dois mil e dois… me sentei diante do ecrã e fui seguindo as orientações que surgiam clique após clique. O primeiro dilema foi… ‘dê um nome ao seu blogue’. Pensei em tudo e nada. Nomes de livros-filmes-personagens-favoritos. E depois de bufar com a parede branca, olhei para o lado e pronto: “Caderno Vermelho” …um lugar para os meus escritos de gaveta.

Pouco depois, como se finalizasse o processo de um livro, mudei o nome para “Acqua” — estado liquido, condição natural das minhas idéias, que escorriam-jorravam pelos cantos da pele. E um belo dia… todo o conteúdo do blogue se liquefez. Perdeu-se no limbo da rede.

E eu entrei pelo buraco da toca de Alice e virei “Menina no Sótão” — o lugar mágico da  minha infância… com seu incrível cheiro de madeira, papel e páginas.

E como não consigo ficar quieta, imóvel, no canto por muito tempo… fui ‘vermelhos tons’ porque é a cor do meu sentir e de mio cuore, que pulsa insanidades mil.

Eu estou sempre em movimento… em busca de algo que defina minha essência. Para mim  é  impossível ficar dentro-retida-contida. Mas eu cansei do ritmo… da insanidade… das publicações e me calei.

E depois de uma pausa de horas-dias-semanas-meses-anos… Aconteceu: Catarina voltou a escrever… entre pausas-interrupções, o nome reflete a realidade das minhas linhas e não há previsão de mudança quanto a isso. Catarina segue firme nessa soma: cinco anos me parece uma excelente premissa.

Depois não diga que eu não avisei…

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Eu nunca senti medo das coisas da vida. Na infância, gostava da luz apagada, e nunca procurava por monstros embaixo da cama… eu mesma me enfiava lá. Colava fotos-poemas-recortes-de-revistas no estrado e mantinha às escondidas uma lanterna, para iluminar meus mapas-secretos.

Sempre fui o tipo de pessoa que se choca contra a parede. Mergulha de cabeça. Salta no abismo. Me acostumei a dizer, depois de um sorriso: ‘eu vivo em estado constante de queda’. 

Eu sempre fui a primeira a levantar a mão para questionar as coisas prontas. Não sou destemida… mas não sei baixar a cabeça. Encaro nos olhos e exibo meu melhor sorriso para as coisas que batem na parede do meu corpo. Adoro desaforos… coleciono-os! Não sei de nada, mas há gente por aí que sabe bem menos que eu… porém, estranhamente estão sempre certos de tudo.

Sempre senti imenso prazer em cair, me levantar, limpar a poeira dos joelhos, o sangue dos cotovelos. Coleciono: cicatrizes, rasgos, riscos, roxos — são as únicas tatuagens que consegui fazer em vida.

Me acostumei a tentar de novo… sem desistir… sem calcular o risco e arriscar tudo naquele que pode ser meu último salto, mas nunca a última queda. 

Errar sempre foi meu verbo favorito.
Mas… não sou o tipo de pessoa que tem fé. Não sou de acreditar nos ecos que me alcançam. Não aprendi a juntar as mãos e orar para deuses-fantasmas-seres-imaginários. Eu gosto mesmo é do escuro, dos cantos da casa, da cidade, do corpo, da mente… e, se alguém me indica a direita como certa e segura, atravesso a rua e vou pela esquerda.

Não tenho heróis… vilões, tampouco. Sou uma pessoa de poucos humanos. Não detenho ninguém junto a mim, mas se quiser ficar, é melhor gostar de café, memórias e silêncio. Eu sei ouvir, mas não sou muito boa com essa coisa de falar. Não me faça perguntas… e eu te ofereço respostas. Mas, se perguntar, saberá a cor do meu silêncio.

Sou guiada pela minha intuição e movida pelas batidas do mio cuore, que ouço sempre que fecho os olhos… e faço isso a qualquer hora do dia. Eu sou a pessoa do passo seguinte, a primeira a pisar na mina e aquela a quem nunca poderá dizer: ‘eu te avisei’…

BEDA | Coisas que eu não gosto…

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— ulisses! Dias de sol… sexta-feira! Programas de televisão. Mesa cheia. Gente chata. Gato na janela. Gente que interrompe a fala alheia. Água gelada. Livro chato. Gente que começa a contar uma história — se arrasta — e não acaba…

Tela em branco… folha em branco. Grafite quebrado. Gente que reclama da chuva… tem medo de trovão e não gosta de Fernando Pessoa. Crianças… gente velha — café frio. Telefone tocando. Campainha desesperada. Dedo apontado na cara…

Sapato de salto. Vestidos… saias, blusinhas femininas e revistas de moda. Palavras cruzadas…quadro torto. Manhãs ensolaradas. Chuva sem trovão. Músicas que só tem refrão. Chiclete e balas de goma. Abraços frouxos e indiretas desnecessárias. Falas longas. Palavras abreviadas. Gírias e legumes usados como adjetivos.

Escada rolante. Desodorante… gente que fala ao celular, achando que está na sala de casa. Opiniões sobre tudo. Desaforos. Sala de aula… escritas acadêmicas. Contos de fadas. Verão… os dias de dezembro e também os de março… e não gosto de agosto! Feriados que mudam os dias da semana de lugar. Livros sem capítulos. A linha vermelha do metrô. Vitrines de lojas. Gente que não responde cumprimento. Meio-dia… relógio parado… hora inteira. Memória lotada. A última página do caderno. O último pedaço de bolo. O último biscoito do pacote. Gente que se acha engraçada. Mensagens deixadas na secretária eletrônica… e gente que chega atrasada.

Não gosto de passarinho em gaiola… nem peixe em aquário. Copo vazio, xícara quebrada. Quando um pensamento é interrompido… um texto perdido. Gente que não devolve livro. Prateleiras vazias… e também as cheias.  Gente que marcha quando anda. Fim de feira. Supermercado aos sábados… também não gosto de festas. Multidões. Rua sem saída. Casas quadradas. Jardins sem flores. Cachorro sem dono… a vagar perdido-desorientado pelas ruas em busca de um humano para chamar de seu. Travesseiro baixo. Poesia concreta… e listas sem fim! Ops…


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