Você é seu próprio autor…

Uma das coisas mais difíceis na vida de um escritor… é saber pontuar suas histórias, atribuindo ritmo a sua narrativa. Não é mesmo fácil e talvez seja uma das mais ingratas tarefas, sendo apenas superada pelo desafio da folha em branco… quando é preciso escolher a melhor das frases para lançar o leitor no abismo, colocando-o em queda permanente.

Uma história começa a existir — primeiro — dentro dessa caverna, que são os escritores. É tudo muito secreto, silencioso. A trama vai sendo — lentamente — urdida em malabarismos particulares. Nesse momento, o silêncio se acaba e começam os barulhos — alguns insuportáveis.

Mas até se sentar diante da tela para escrever, o escritor irá organizar milhares de pensamentos, traçar centenas de anotações e pesquisar milhares de informações.

E na hora em que finalmente os dedos se mostram prontos para dedilhar o teclado nessa construção insana, cada um tem seu próprio ritual — estranhos, esquisitos, surpreendentes e até mesmo inacreditáveis…

Mas o ato de se sentar para escrever, não significa que o autor alcançou seu objetivo maior. Geralmente, o primeiro escrito, é apenas uma promessa-que-não-se-cumpre. Alguns autores preferem abandonar o texto primeiro… optando por voltar a ele num tempo futuro, quando a maturidade de seus pensamentos, talvez, venha lhe permitir outro olhar.

Que uma história precisa ter começo, meio e fim, todos nós estamos cansados de saber, mas a estrutura literária vai muito além disso… é preciso pontuar os objetivos, determinar as pausas e arquitetar cuidadosamente esse roteiro onde absolutamente nada escape.

Eu tenho alguma preferência — confesso — por histórias divididas em capítulos… justamente por facilitar as interrupções da leitura em determinado momento. Como leio em coletivos, ao descer em determinado ponto, posso caminhar por todo o universo para o qual fui tragada. Alguns de meus livros favoritos, contudo, não dispunham desse artifício, e eu sempre me perguntei: “por que razão o infeliz do autor não dividiu a trama em capítulos?”

Mal sabia eu o quão difícil é organizar uma história em pequenas divisões precisas, desenvolvendo argumentos que sirvam como fios condutores para o leitor, sem que esse se sinta diante de uma rua sem saída. Cada capítulo, deve ser para o leitor, uma espécie de cruzamento, de onde se pode observar os caminhos sem saber para qual direção ir… mas avistar na figura de um transeunte qualquer, alguém a quem pedir orientações e ao indagá-lo, a única resposta possível para a pergunta feita pelo leitor — sabe onde fica a rua desse capítulo? — deve ser inevitavelmente: no capítulo seguinte.

O fim de um capítulo tem essa responsabilidade, afinal, se trata do caminho que conduzirá o leitor ao que ele tanto deseja: o final… da trama! Mas antes de chegar a esse ponto, ele tem que ser, cuidadosamente, conduzido… É mais ou menos como em um jogo de xadrez, antes de derrubar o rei, dizemos Xeque e todo o resto — sabemos — se orienta naturalmente…

* esse texto é parte integrante da Revista Plural Solombra, publicada pela Scenarium em formato artesanal e também digital…

O livro é seu — não meu…

Ao correr meus olhos por cima de uma revista especializada em literatura — uma das últimas no gênero mundial — me deparei com um excelente artigo, escrito por um Editor… à inglesa! Confesso que, desde que mergulhei no mundo literário, sempre me senti propensa mais ao estilo inglês e francês de escrita e edição que aos demais… gosto de pensar a literatura como sendo um diálogo para com o outro.

No cenário literário europeu prega-se a idéia de “editing“… o que significa que por lá, o editor é alguém que corrige, anota, sugere alterações, risca e rabisca sem receios e, às vezes, muda “todo” o conteúdo, dando nova forma e, sobretudo, melhorando as linhas que compõe o escrito. E não apenas, seleciona títulos e subtítulos para publicação, função específica de um publisher.

No artigo que chegou aos meus olhos, o Editor divide com o leitor… algumas de suas experiências com autores… e apresenta uma conclusão necessária, porém, muito difícil, a qual chegou depois de muito esforço: “o livro é seu, não meu“… mas em seguida, Ele diz em voz alta: “mas sem mim, não existe livro, porque exageros não vendem e escritores tendem a ir em frente, sem saber quando é o melhor momento de parar”.

Achei interessante a necessidade do Editor — e também autor do texto — de afirmar seu pranto, mas superá-lo como quem respira profundamente, tendo total conhecido de suas habilidades. Eu me lembrei — imediatamente — das inúmeras reclamações que eu já ouvi desde que escolhi alinhavar palavras com agulha e linha, exigindo sempre o melhor conteúdo de meus autores para publicar… recentemente uma autora — após enviar seus escritos —  me disse: “mexe, mas não mexe muito, porque eu tenho ciúmes das minhas coisas”… o que me fez ligar o alerta com relação ao material recebido. Respirei fundo e tracei minha estratégia a fim de fazê-la enxergar que o conteúdo precisava de cuidados. Sugeri mudanças, como se fosse uma vendedora dessas lojas de roupas: “olha, essa não ficou bem em você, quer tentar outro modelo?”.

Mas já houve susto-espanto-desconforto-e-outros-tantos-punhados-de-reações quanto as sugestões por mim apresentadas, porque o autor trabalha com sua idéia — sem ressalvas ou cuidados. Muitas vezes, trabalha a exaustão física… e quando entrega suas linhas a alguém, acredita ter feito o seu melhor… e na maioria das vezes, ele quer receber apenas afagos — elogios —  para amenizar o cansaço…

É um fato bastante complicado/delicado quando o Editor se apodera de um material para “lapidar“… muitos afirmam que editores são em sua maioria, escritores frustrados: “falta-lhe o dom da concepção —  dizem os mais revoltados.  São úteros vazios — afirmam com veemência os mais alterados — resta-lhes apenas a adoção do que é alheio”.

Eu comecei no universo paralelo da escrita muito jovem… a lembrança mais antiga que tenho comigo acerca de rabiscos inventivos, me leva de encontro aos meus sete anos. Eu era uma “inventora” de histórias. Sempre tinha algo a contar para entreter minhas páginas em branco… um velho caderno de capa vermelha, onde escrevia com algum prazer a minha trajetória de maneira mais aguda, escolhendo o que descartar e também o que melhorar. Riscar e rabiscar sempre foi um exercício bastante natural…

Aos quinze anos, eu já tinha inúmeros rascunhos de gaveta. Qual escritor não vivenciou essa fase em sua vida? Mas o universo da edição só passou a ter espaço em mim quando minhas notas mais secretas chegaram aos olhos de um professor que, sem nenhuma piedade, saiu atropelando as linhas expostas ao seu olhar.

…ele riscou com alguma vontade — munido de uma caneta-pincel-preta — diversas palavras enquanto repetia: “excesso-excesso-excesso”. Engoli seco, cerrei os punhos e tentei não estrangulá-lo. O remendo feito por ele foi meu primeiro aprendizado. Ler incansável vezes — em voz alta — para agradar o próprio ouvido foram o segundo e terceiro…

Percebi ao final daquele difícil exercício, que as técnicas são vazias e destrutivas para os escritores, mas para os Editores são absolutamente necessárias. E de um tempo para cá, venho percebendo que quando mais cru o escritor, mais simples a escrita se revela tornando muito mais agradável o tato… e mais próximo de um diálogo natural para com o leitor ela se mostra.

O fato é que raras são as vezes em que o material vem pronto para as mãos de um Editor… contudo, é preciso respeitar a voz que lhe chega em intermináveis frases. Um bom editor precisa saber calar a si mesmo, ter bom senso e, saber exprimir o melhor do material literário que tem em mãos e, que pertence totalmente ao seu autor que, receberá todos os louros das linhas escritas, restando ao editor, o anonimato… as sombras! O seu nome escrito, sem destaque, em algum canto do livro…

Um editor precisa, sobretudo, ser uma pessoa totalmente descontente. Precisa estar disposto a exigências fazer… e lembrar que seu nome estará preso a de seu autor e, se ele fracassar, não o fará sozinho. O Editor não prova do sucesso, mas, infelizmente… saboreia todo o fracasso e vai para o limbo com o seu autor, afinal, você o disse pronto para encarar o universo editorial e o entregou aos leões — os leitores…

E para encerrar, acredito que, fundamentalmente, um Editor precisa ser possuidor de imensa compreensão, afinal, os excessos na escrita são como tempestades de verão e, os autores, quando escrevem, enxergam apenas a realidade de suas palavras… onde tudo é infinitamente azul.

Tirar uma vírgula, acrescentar uma palavra, sugerir cortes… pode fazer do Editor um vilão para o autor e nem sempre ele será compreensivo e conseguirá entender que, para ser um diamante, uma pedra bruta precisa ser lapidada.

Os cafés da cidade…

 

Passa da uma — a cidade arde — e tudo parece banhado por um falso dourado, que desenha sombras pelas calçadas do bairro. Arrastei o meu corpo para fora, levando-o até o café entre esquinas… aquele com sua sereia de duas caudas, que herdou o nome do personagem do livro Moby Dick.

Sentada na mesa mais ao canto — lugar que gosto e prefiro — aprecio alguns movimentos até me distanciar totalmente deles. Algo em mim se desliga… e, as palavras povoam os meus hemisférios todos.

É sobre esse ato de escrever em cafés… a matéria da Revista literária Plural. Tornou-se um hábito comum na cidade da garoa: trabalhar-estudar-escrever nos famosos cafés descolados, que ocupam as principais esquinas da cidade. Ainda há muitas pessoas que não compreendem a “nova mania”, que desembarcou na Paulicéia do Mário… ainda que tardiamente.

Quando cheguei por aqui, trouxe esse ‘velho hábito’ na bagagem… me lembro de alguns cafés europeus, onde escritores tinham cadeira cativas e ‘seus donos’ — como cães abanar a cauda — anunciavam eufóricos os livros, que ali haviam sido concebidos… exibindo eufóricos as fotografias de seus ‘clientes famosos’.

Eu ainda me lembro do desconforto demonstrado por alguns garçons — em um velho café do Alto da Lapa — que se incomodavam com a minha presença. Eles passavam inúmeras vezes pela minha mesa e pareciam contar as inúmeras xícaras de café — machiatto, ristreto, com ou sem gengibre… sempre sem açúcar. 

Passado algum tempo, a minha ausência passou a ser motivo de preocupação. Se mostravam aliviados quando eu ultrapassava a porta. Não demorou para se mostrarem satisfeitos em antecipar-se ao meu pedido. Bastava levantar o dedo para ouvir  a voz rouca-satisfeita do rapaz indagar: ‘machiatto?’…

Certa vez um deles — ao trazer minha xícara de café — quis saber: “o que tanto escreve nesse computador?”… e, a resposta espalhou-se pelos quatro cantos do lugar — trazendo a gerente a minha mesa. Acabou o sossego…

Em formato artesanal, meu primeiro livro foi lançado ali mesmo… os “amigos do café” receberam exemplares em mãos e diziam, com estranho prazer, que iriam ler e comentar.

A gerente já não é mais a mesma, mas antes de embarcar para sua viagem, fez questão de me apresentar ao ‘novo diretor’… e, dizer a ele, que a minha mesa (reservada) é a do canto junto a janela — de onde posso observar as pessoas, colher pedaços de diálogos e, descobrir personagens…

E sempre que alguém me pergunta: como consigo trabalhar em um lugar assim… recordo esses momentos singulares. Minha escrita pressupõe movimento e me pede essa ‘viagem atemporal’, que me leva de encontro a esse lugar confortável… a mesa da cozinha nas férias de verão, com seu horizonte particular e o cheiro delicioso do café feito pelo nono a transbordar sensações.

Me organizo por inteira… dou rumo aos meus personagens, escrevo minhas linhas em pares, traço diálogos entre nós duas — a criança que eu fui e a adulta que finjo ser.  Tudo isso… entre um gole e outro de café…

Virginia Woolf disse, em suas linhas, que todo escritor precisa de um quarto para organizar suas palavras — mas eu vou na contramão de sua voz aguda, porque eu só preciso de um café numa das esquinas da cidade…

11 coisas…

Cadernos colegiais

A Menina Cos(Z)e… lançou em seu blogue esse desafio que me fez lembrar daqueles famosos cadernos de perguntas… que iam de mãos e mãos nos tempos do colégio. Eram os famosos cadernos colegiais… repletos de perguntas.

Eu nunca tive um desses cadernos para mim… mas vários deles vieram até minha mesa. Achava engraçadas todas aquelas perguntas que tinham um só objetivo: investigar o outro a fim de sabê-lo…

Respondia uma a uma as perguntas… sem pressa, mas nem sempre eram minhas as palavras que se orientavam entre as linhas. Lacan disse muito por mim, Campos também… era um jogo e eu gostava de embaralhar muito as cartas antes de distribuí-las aos jogadores.

Vamos as regras do jogo: dizer 11 coisas aleatórias sobre mim. Responder às 11 perguntas elaboradas por quem me indicou. Compor 11 novas perguntas e indicar 11 blogues…

Sobre mim.

1. Gosto de caminhar pelos arredores onde moro, visitando quase sempre as mesmas paisagens. Passo lento. Mãos no bolso e os cenários invadindo-me. Prédios antigos com suas múltiplas janelas. Praças e claro, adoro espiar os cenários alheios, percebendo pequenos detalhes por entre frestas.

2. Gosto de cozinhar sem compromisso. Reunir ingredientes e inventar coisas.

3. O primeiro livro que li foi um livro de contos indianos, o favorito de C.

4. Gosto de ser sozinha e ficar no canto, em silêncio – espiando as pessoas e suas coisas.

5. Sou inquieta, teimosa e autoritária.

6. Adoro Bossa Nova.

7. Queria ter uma máquina do tempo para ir viver em Paris em 1900.

8. Adoro cadernos, mas já não os compro mais como antes.

9. Não consigo entrar em uma livraria e sair de lá sem um único livro em mãos.

10. Sou uma criatura sonora, logo, há palavras que em português não me dizem coisa alguma, o mesmo acontece com o francês, italiano e inglês…

11. Adoro reticências, tanto que o meu primeiro livro em língua portuguesa tem justamente o título: “reticências“…

As perguntas da menina cos (z)e.

1. Defina-se em três palavras. Teimosa. Insana. Apaixonada.
2. Qual é a altura do dia que mais gosta? Aquele momento em que a escuridão se desfaz, mas as luzes do dia ainda não se manifestaram. O tempo parece fazer uma pausa. Já não é mais madrugada, mas também não é manhã ainda. É como se nada e tudo fossem uma mesma coisa e eu fico ali, junto a janela a espiar esse segundo que a tudo antecede. Se piscar, o perco e talvez por todo o sempre.
3. Qual o motivo pelo qual criou o blogue? O primeiro? Para brincar com a palavra, domar o idioma e tentar não pensar outra coisa que não o português. Confesso. Falhei… Mas não desisti ainda…
4. Qual o assunto que mais gosta de tratar no mesmo? Minha insanidade porque acho que a loucura nos socorre de nós mesmos. Então me deixo ser outra e saio por ai inventando cenários, pessoas – as vezes invento a mim mesma porque a vida por si só é coisa pouca. Não basta – ao menos pra mim é preciso mais…
5. Quais as vantagens e desvantagens de ter um blogue? Vantagem? Conhecer pessoas de todos os lugares, com diferentes perspectivas… Desvantagem ter pouco tempo para xícaras de café dentro da tarde. Nem sempre o outro está disponível ou perto o bastante…
6. Qual o local mais bonito que já visitou? Numa das muitas fugas praticadas por mim aos doze anos, quando eu estava a descobrir o mundo, descobri essa estrada de terra, com árvores dos dois lados e pequenas casas ao fundo que me levou de encontro à um lugarejo onde havia essa casa com apenas uma janela e uma porta – ambas abertas. Uma criança brincava no imenso jardim e uma árvore imensa deixava sua sombra espalhar-se por cima da casa que era bem menor que a frondosa árvore. Uma senhora preparava o jantar em um fogão improvisado no que parecia ser uma varanda improvisada. Fiquei horas a observar aquele cenário. Já estive em muitos lugares no mundo, mas aquele lugarejo segue aqui dentro de mim.
7. Diga qual é para si, a sua viagem de sonho. Viajar pela Europa na companhia do meu menino. Será algo novo. Conheço muitos lugares, mas ele não. Então será tudo novo pra nós dois. Quero levá-lo a Coimbra. Toscana. Barcelona. Paris.
8. Qual é o seu doce favorito? Tisamissu
9. Diga um filme que a tenha marcado. Apenas um? Sério? Tem pelo menos uma meia dúzia. Enfim: Melhor é impossível com Jack Nicholson.
10. Confidencie-nos o seu maior defeito. Tenho dúzias de defeitos e citar apenas um é quase um atentado, mas sou perfeccionista – embora eu considere isso uma qualidade (risos múltiplos)
11. Conte-nos a sua maior qualidade! A indiferença – eu explico. Não dou a mínima para o que os outros pensam e dizem sobre mim. Sou egoísta por natureza e queria que as pessoas fossem assim também porque o mundo seria mais simples. Pensar em si evita que a pessoa tenha tempo para se ocupar do outro. O egoísmo faz com que a gente seja melhor. Eu sei que muita gente não concorda com isso, mas eu me importo com as pessoas que amo, mas não me intrometo na vida delas porque é isso: é a vida delas…  Não mantenho minha existancia atrelada a vida do outro que passa ao lado. Observo pessoas o tempo todo, mas não as trago para junto de mim – mantendo-as a uma distancia segura sempre que possível. (risos)

As perguntas que faço?

Para 1. Tatiana Kielberman 2. Letícia Alves 3. Ingrid Caldas 4. Mariana Gouveia 5. Inês Nougueira 6. Edilma Maria 7. Isa Lisboa 8. Thelma Ramalho 9. JoaKim Antônio 10. Inge Lobato 11. Raquel Stanick

1. Para a cabeça? 2. Para os ouvidos? 3. Para os olhos? 4. Para as mãos? 5. Para o coração? 6. Na xícara? 7. Na mesa? 8. Na prateleira? 9. Para os pés? 10. Crepúsculo ou aurora? 11. E no fim do dia?