Categoria: notas mentais

13 | o luto que não vivi…

Publicado pela Companhia das Letras, em 2009


 

Ao ler-te no meio dessa tarde… me lembrei de quando comprei o diário de Susan Sontag. Era apenas um livro — em meio a tantos outros — esquecido na prateleira da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, no qual resvalei e fiquei. Havia tempos que não consumia a literatura de Sontag — com quem dialoguei durante minhas meninice-aguda.

…comecei a ler as páginas ali mesmo — uma depois da outra — e me vi a percorrer a vida-realidade da pessoa-personagem que era para mim. Voltei ao ‘nosso discurso’ silencioso-quieto-morno de leitora-autora. Ouvi sua voz de mulher-firme-forte-às-vezes-fraca-frágil-alquebrada-contraditória. Me vi em seus círculos… a participar de suas trocas. Provei de sua raiva-dor-medo. Me envolvi com suas mulheres. Me vi de mãos dadas com seu menino-filho-estranho-e-conhecido. Fui passo a passo pelos países que visitou…. e sei como se sentiu porque foi exatamente como me senti ao pisar o chão estrangeiro.

A última página da história de sua vida foi escrita no dia 28 de dezembro de 2004. Tento, enquanto te escrevo, me lembrar do lugar onde estava… o que fazia. Mas nada me ocorre. Sei, no entanto, que a notícia não chegou a mim nesse dia…veio mais tarde. No ano seguinte. Uma pequena nota de jornal, lida a caminho de algum lugar, dentro do trem. Uma nota rasa-pequena. Como um sopro na chama de uma vela. Um sopro e pronto… apagou-se. Não dei importância, foi como saber da missa de sétimo dia de um estranho a se rezada numa das muitas capelas existentes no mundo.

Enquanto degusto mais um pesado gole de café… recordo o instante em que tive o prazer de estar sob o julgo de seu olhar. Primavera em Nova Iorque. Primeira viagem para as terras do tio Sam. Eu tinha um mapa secreto de lugares — com base nos livros e filmes que passavam pelo meu olhar —, em que queria estar. E aquele café na parte ‘mais escura’ da cidade era um deles… de frente para um velho hotel, onde residia G.T.S — com quem Sontag adorava ‘discutir-discordar’.

Tomei um susto ao vê-lo no balcão, bem ao meu lado. Quase cutuquei-me para ter certeza da realidade. Demorei a reagir e vislumbra-la enquanto pessoa em um café. Me lembro de seu quase não sorriso. A maneira como povoou o seu cenário preferido, na cidade. A idade visível em sua pele branca. Sua fala-pouca. Seus idiomas-muitos. E seu silêncio-imenso. Seus contornos pesados-rudes. Ela era linda-e-horrível. Aparência fechada. Parecia mal-humorada. Olhar certeiro-definitivo. Me encantei com seus pesados goles — pareciam lentas tragadas — de café.

Que mulher! — pensei, sem dizer palavra. Não foi nada fácil estar a míseros centímetros daquela entidade que influenciou minha escrita-fala-movimentos. E sabê-la ausente de nós ainda me causa alguma estranheza, afinal, seus livros se acumulam ao meu redor, teço longos diálogos com ela, pontuando as minhas incertezas amadoras e ainda espero pelos lançamentos do que ficou por publicar…

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Sou uma naufraga da tua lembrança

A distância dos teus olhos não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer

José Miguel Silva

…a juventude chegou até mim como se fosse um interruptor, que alguém toca sem cuidado, e pronto: uma lâmpada se acende no meio desse cômodo que sou. Eu existia de maneira contida, indiferente ao que era realidade, imersa  em um mundo  particular sem me ocupar de tempo-espaço-lugar.

Ocupava sempre a mesma porção de mundo-vida, cercada por paredes brancas… uma janela sempre aberta para os dias de chuva e fechadas para os dias de sol. Distraia-me com filmes em preto e branco… com as páginas dos muitos livros que devorava nas primeiras horas das manhãs e, fundamentalmente, com as palavras que deitava nas folhas dos cadernos que aprendi a colecionar na infância.

Não me misturava porque não fui forjada para existir em bandos… acontecia em minha anatomia uma espécie de prazer quando me permitia lugares vazios: a mesa do canto, a sombra distante de uma árvore em algum lugar obtuso ao fundo, o espaço entre prateleiras na biblioteca da escola. Era desses lugares que partia meu olhar, indo tropeçar em um ou outro humano em movimento, aprendendo-o com o cuidado de quem gosta de saborear anatomias.

Foi a bordo de meu “canto de mundo” que eu a descobri… com suas mãos em movimentos perfeitos, livros empilhados de maneira precisa, caderno de notas… todos os acessórios de uso pessoal para o seu trabalho — e sua boca de silêncio preciso.

No começo os nossos diálogos eram mínimos… devido a distância natural que existia entre nossos corpos. Cumprimentos rápidos, acenos lentos e diálogos moderados a partir de seu discurso eufórico… sempre em língua estrangeira.

Aprendi outros nomes, novas palavras, reformulei frases inteiras… reaprendi a mim mesma! Fui outra ao misturar  nossas geografias. Seu olhar era sempre mais manso para mim, enquanto para os outros mais severo.

Com ela que aprendi o efeito calmante de uma xícara de chá inglês… e o prazer de sorver pequenos goles espaçados. Descobri o prazer de se chegar primeiro aos lugares, antecipando-se as pessoas. A cheirar as páginas dos livros antes de iniciar uma leitura. Sentir a textura das paredes e das superfícies dos móveis na ponta dos dedos e a me esparramar em diálogos amenos, sem precisar pensar a melhor pontuação, ponderar os hiatos ou escolher com algum cuidado os verbos.

Mas, foi ela quem me deixou sem ar-fôlego e fez o cuore pausar no meio do peito quando me disse — sem titubear —, que seria a autora da peça de teatro do ano… como se fosse a coisa natural-comum-rotineira. Eu a odiei por isso… me senti traída-molestada-ferida… engoli o que existia de saliva na boca e não mais respirei. Ela foi a causa de minha primeira morte!

Através dela, no entanto, me dei conta do quão prazeroso é ouvir o outro… sua voz era suave-amena, quase como um canto. Suas frases bem pontuadas e havia sempre um sorriso moderado entre uma frase e outra. Parecia que estava sempre a virar as páginas de um livro… um verdadeiro cálice de brandy degustado antes do jantar, que ela nunca me ofereceu porque não tinha idade para isso… ao contrário dela, cuja maturidade, suas rugas confessavam sem cerimônia alguma.

Ela era ousada nos gestos, nos passos, nos vôos-pousos… e sobretudo, nas vontades. Citava Woolf, escrevia à Auden e Dickinson… dormia na companhia dos russos e acordava ao lado dos portugueses. Calçava os óculos feitos sob medida para se encaixar em suas orelhas pequenas. Não usava maquiagem… e eu sempre reparei no imenso prazer que sentia em cobrir suas vestimentas com seu velho avental azul.

Quando dizia poesias de Borges — um estranho naqueles dias… me fazia eclipse. Quando empilhava os livros diante de mim — para que eu provasse de novos aromas… me fazia lua cheia.

Percebi através dela que o primeiro amor não é oferecido a nós como sendo coisa entre homem-e-mulher ou mulher-e-homem… é apenas um crepitar do fogo junto a acha recém-chegada… esse cuore de batidas irregulares acontecendo dentro do peito.

A., foi o amor da minha juventude… a mulher que se aconchegou em meus olhos, permanecendo ali até o final do colégio, quando deitou em meu corpo um abraço demorado e meia dúzia de palavras em meus ouvidos: “eu fiz a minha parte, agora é com você”. Eu segurei firme em suas mãos… como quem se recusa a partir, consciente de que não poderia ficar. Nosso tempo juntas tinha chegado ao fim…

E o seu pulsar se encerrou nessa semana de janeiro. O filho mais velho dela — também professor —, fez a gentileza de avisar-me em poucas linhas… o suficiente para sabê-la em paz. ‘O cuore parou, disse ele, como o de seu personagem. Por sorte finalizamos a leitura de seu vermelho em tempo’.

17 | e a epidemia de solidão…

‘É preciso compreender a solidão’

Charles Baudelaire

 


 

 

Soube hoje, que a premiê britânica, Theresa May nomeou a ministra do Esporte e da Sociedade Civil, Tracey Crouch para o que foi chamado de ‘ministério da solidão’… problema que afeta muitos ingleses, estadunidenses e boa parte da humanidade contemporânea.

Mas quando foi que a Solidão se tornou um problema? Me lembro de ler uma crônica de Rubem Alves sobre o tema e me divertir com sua afirmação de que a Solidão não é o problema… somos nós! — nos sentimos sozinhos quando nos deparamos com a não-solidão. Duas pessoas juntas a caminhar de mãos dadas nos faz perceber as nossas mãos vazias…

Eu me acostumei a ser expulsa dos lugares… nunca fui de muito falar e conseguia, com alguma facilidade, permanecer em silêncio durante horas inteiras, dias-noites — e com o passar dos dias, passei a sonhar-desejar ser esquecida nos cantos da casa, dos lugares. Inventei muitos esconderijos improváveis… acalentando o desejo de não ser encontrada e sempre suspirava profundo — decepcionada —, quando ouvia o famoso ‘a.c.h.e.i v.o.c.ê’. Abraçava o fracasso do momento… desejava a mim mesma: ‘melhor sorte da próxima vez’ e deixava meu canto de mundo para ir me juntar — desgostosa —, aos humanos da casa.

Sentia uma inveja gigantesca do cão largado no tapete, com os olhos fechados e as orelhas atentas aos menores ruídos. Quando uma criança se aproximava dele, eu reparava em suas reações — juro que se pareciam com as minhas.

Eu sempre soube ouvir… mas não demorou muito para perceber que não sabia ouvir calada certas coisas.

Era a única a levantar a mão em sala de aula quando tinha dúvidas… percebia o olhar pesaroso e o sorriso amarelo da professora em minha direção.

Certos temas me levavam naturalmente ao questionamento… não usava o ‘porque’ comum nas outras crianças. Tinha necessidade de mais informações e não de respostas prontas. Eu queria compreender o tema, esgota-lo, atravessa-lo ou alcançar novos horizontes. Mas os adultos — em sua maioria — só sabiam oferecer o lugar conhecido e se aborreciam com minha insistência.

Fui expulsa da Capela do colégio, da sala de aula e vários outros lugares mas, curiosamente, nunca fui expulsa de uma Biblioteca.

Os padres do colégio me olhavam ensimemados… as freiras me evitavam e se benziam ao se deparar comigo pelo caminho… a Conselheira tinha horror a minha presença e as outras crianças tinham medo de mim… era a melhor das sensações, me sentia o próprio Ebenezer Scrooge.

A maioria dizia — com alguma satisfação —, que eu não tinha lugar entre os seus. A Bibliotecária — uma senhora que parecia um personagem saída de um filme de Allen —, no entanto, sempre apreciou a minha presença e me oferecia livros vários… a maioria — segundo o Coordenador Pedagógico —, não deveriam ser lidos por alguém da minha idade. Ela nada dizia, apenas concordava silenciosa-respeitosamente… e aguardava pela saída do prospecto humano para me devolver o livro…

Eu adorava aquele cenário de mesas-cadeiras-prateleiras-livros-janelas — sempre vazias — e o velho relógio bem em cima da porta a pulsar seu tic… tac… — dava para ouvir também o som do carimbo, que a Bibliotecária usava para marcar as páginas dos livros. Às vezes, eu a observava… via quando molhava o carimbo na almofada de tinta… e o suspendia no ar para o golpe fatal. Antes, ela me olhava — consciente dos meus olhos atentos —, e sorria cúmplice.

A solidão sempre foi a melhor das companhias… é silenciosa e nos oferece o melhor dos goles. Um quarto as escuras num dia de chuva é o melhor dos cenários. A mesa com duas cadeiras a oferecer o generoso sabor da ausência me aguça os sentidos… e a rua erma, com calçadas para andar nos dois lados e as casas com suas luzes acesas a anunciar as presenças apenas dentro, sempre me comoveu.

Agora, enquanto escrevo… estou cá, em meu canto de mundo, com uma gentil xícara de café… e nenhuma presença me alcança. Sou obrigada a concordar com Rubem Alves, a solidão não é o problema!