Um episódio…

Gosto imenso de sair para caminhar antes do dia devolver todas as coisas aos seus devidos lugares porque a noite faz isso: transforma tudo em um borrão de tinta — difícil de limpar — no canto da mesa.
Antes de se acender a manhã é possível apreciar os contornos suaves de ruas e avenidas, praças… e as silhuetas das casas e prédios — é  como ir ao Museu e apreciar telas antigas, quando os pintores utilizavam cores quentes, tons pastéis.
E tudo acontece num estalar de dedos. Os primeiros sons-aromas-passos-falas-motores. A cidade é mesmo um grande cemitério — tudo figuras mortas que voltam a vida depois de um intermezzo.
Durante a caminha de hoje… fui surpreendida por uma personagem que — antes das seis da manhã — varria a calçada com uma daquelas vassouras de palha caipira. Parecia feliz e assim que avistou meu parceiro de caminhada, veio ao seu encontro de braços abertos. Deu-lhe um demorado abraço, como se ele fosse o outro — o que ficou no dia de ontem, esse passado para qual voltamos em viagens nossas. O Patrick se comportou bem… deixando-a viver suas saudades.
A tal senhora, cujo nome foi dito num segundo e esquecido no outro, falou de seu menino com o entusiasmo de quem viveu muitos anos em excelente companhia. Nos mostrou sua casa — a uma casa da esquina —, um sobrado antigo, algumas vezes remodelado. A pintura é recente… encomendada pelo filho, que se mudou com a esposa e netos para preencher vazios inexistentes.
Ela viajou ao observar a vida-casa-lugar… uma vida inteira: “sabe, menina. Eu sou tão velha quanto essa árvore, de tal maneira que é impossível dizer quem chegou primeiro a essa rua“. Não havia tristeza em sua fala, pelo contrário, mas era uma despedida narrada com a satisfação de quem sabe que fez o seu melhor.

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Você está bem?

…sou uma pessoa endogenamente melancólica desde miúda. Olhos baixos, pesados suspiros, tragos pesados de ar e o olhar a visitar paisagens distantes. Não sou assim na maior parte do tempo… porque nem sempre posso ficar quieta, do lado que tanto gosto e aprecio: o de dentro — onde vivo perdida em ilusões, qualquer coisa de sonho, a virar páginas conhecidas, onde histórias se repetem. As minhas e a de outros autores que se misturam a mim.
As pessoas se incomodam, algumas dizem sentir medo, outras (corajosas que são) se aproximam para perguntar: você está bem? E não importa a resposta que eu ofereça… nunca ficam satisfeitas. Consideram que estou brava, sozinha, triste, a sofrer dissabores — não passa por suas mentes que estou a existir no melhor dos mundos.
Eu perdi algumas pessoas ao longo dessas quase quatro décadas de vida, mas antes disso eu já vivia dentro… fechada. Preferia os dias de chuva, nublados-cinza. Gostava imenso de fechar os olhos e escutar o som dos trovões.
Certa vez uma alma que atravessou o meu caminho, tomou minha mão e tal qual uma cigana, desandou a ler as linhas de vida-coração… falou em desilusões-agruras-frustrações. Listou tudo como se fosse ao mercado providenciar ingredientes para uma dessas receitas que a gente encontra num livro de culinária.
Ouvi pacientemente enquanto um sorriso percorria o meu íntimo. Tomei minha mão de volta e disse “não há nada de errado comigo. Não vivi nada que não pudesse suportar e não estou triste-doente ou em fase de sofrimento. Apenas estou quieta, como sempre fui, a apreciar a realidade das coisas e suas causas do melhor ângulo que existe“.
A pessoa não se convenceu e me recomendou sua igreja… dei de ombros. Saquei um livro de poesias da mochila, traguei de minha generosa porção de ar. Pedi um latte e degustei o momento, como tanto gosto e aprecio… sem pressa e em silêncio, sem me importar com os sons humanos do lado de fora. Gosto assim…