…cada um enxerga o mundo a partir de suas próprias cores!

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Eu nunca lidei com proibições a casa. Havia limites… mas a palavra proibido não encontrava abrigo na casa 141 da Rua Amélia Maranghoni, onde aconteceu a minha infância. Os livros viviam espalhados por cima dos móveis, empilhados nos degraus, ao lado das poltronas e alguns em prateleiras-estantes, facilmente alcançáveis. Não havia restrições de leitura. E eu tinha acesso a poesia de Emily Dickinson… os romances russos- franceses-lusitanos e os meus favoritos: os ingleses.

A proibição — curiosamente —, aconteceu quando chegou a idade escolar… os livros eram adequados a idade e turma e ficavam dentro de uma caixa, na sala de gramática. Cada aluno podia ler um daqueles livretos se terminassem as atividades curriculares, antes dos demais. Uma espécie de prêmio de consolação por ser mais ágil.

Fiquei interessada até que tive acesso a tal caixa… livros coloridos, ilustrados e com histórias pequenas-curtas… que me aborreciam devido ao teor infantil. Virei aquelas páginas enormes, sem empolgação e o devolvi a caixa com o descaso típico de quem era uma leitora de livros de verdade.

Me refugiei na Biblioteca da escola… e ao caminhar por entre as prateleiras, encontrei uma versão de ragione e sentimento e foi como emergir do fundo da piscina após longo período em imersão.

Escolhi a mesa do canto, me acomodei e fui virando as páginas — uma a uma — até ser descoberta, de posse de um livro impróprio para a minha idade, portanto, proibido para mim. O livro foi retirado das minhas mãos, o que me deixou furiosa. O meu comportamento foi considerado irregular e além de ‘ouvir’ um longo e monótono discurso sobre o perigo de consumir literatura inadequada para a minha idade… chamaram os meus pais, na escola para lhes contar sobre o meu gesto.

Antes de ir para a escola… eu era uma criança livre dos enquadramentos sociais e dos muros convenientes — inventados para ‘nos proteger de nós mesmos’. A escola, no entanto, me oferecia uma lista de perigos e regras estranhas, com as quais impliquei desde o primeiro momento.

Tinha a sensação de que no fluxo da vida, eu tinha perdido a hora — chegado atrasada. O tempo corria de maneira diferente naquele mundo comandado por adultos esquisitos, diferentes dos meus.

Para a minha alegria, no entanto, encontrei na figura de J., — uma senhora simpática: dona da Biblioteca da escola — uma cúmplice. Ela me deu um livro enorme, com capa de couro-marrom, que continha todos os contos de fadas da Disney — em suas páginas ilustradas, coloridas e com letras bem desenhadas.

Me aborreci assim que vi do que se tratava. Cruzei os braços a frente do corpo e disse que não queria ler aquele livro bobo. Ela não desistiu. Me acompanhou até a mesa, esperou que eu me sentasse e colocou o livro aberto, em meu colo. Me ensinando a manuseá-lo. Era bem pesado para o meu tamanho. Mas, dentro dele, cabia um livro menor: ragione e sentimento — que ela abriu e disse: esse o nosso segredo.

Durante todo o primeiro ciclo escolar… li muitos livros, em segredo, sem que ninguém desconfiasse. Fato estranho, já que eu nunca aturei os tais contos de fadas e suas bobagens de príncipes e princesas, reinos distantes e bruxas malvadas.

Mas, como disse C., ao tentar explicar ao diretor que a leitura não iria além das portas do meu imaginário: cada um enxerga o mundo a partir de suas próprias cores.

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~ participam dessa postagem ~

Ale Helga | Ana ClaudiaFernanda Akemi Gustavo Barberá
Maria Vitória | Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega | Roseli Pedroso

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blogagem coletiva

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sempre aos domingos…

sempre aos domingos

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…criei há alguns anos a newsletters ‘poemas de domingo’… uma espécie de folha caída na calçada, nas quais os olhos tropeçam e ficam. Eu sou aquela que sempre se abaixa e recolhe a folha que realiza seu último voo até o chão por onde passo, a caminho dos espaços urbanos aos quais pertenço. Gosto imenso de fotografar e enviar para alguém… em minha lista de contatos, porque é uma maneira de se fazer presente, convidando o outro para um passeio por ruas-calçadas-muros e casas com seus números impares e pares… pregados nas paredes da frente.

A idéia das newsletter era a mesma: partilhar com os amigos-leitores que me aceitavam em suas ‘caixinhas de correspondência’ — a poesia que ancorava em meus olhos.

Sou leitora de poesias desde a infância… o primeiro livro lido por mim, foi de poesias. Um pequeno, com capa verde e um punhado de poemas de Emily Dickinson espalhados por pouco mais de vinte páginas — foi o suficiente para me seduzir e determinar o ritmo do mio cuore e também da minha escrita, que transita livre pela narrativa poética.

Durante dois anos — inteiros —, dividi com uma lista de leitores essa correspondência-particular-coletiva. Foi bastante singular porque sou uma pessoa antiga. Não sou dada a multidões, tampouco a essa mania algorítmica que se espalha pelo ar, feito vírus. Eu gosto imenso do verbo pertencer. Sentar-me à mesa para um café no meio da tarde, ouvir a voz que me alcança… e dialogar impressões.

Gosto imenso de descobrir o outro, como no tempo das correspondências que começava com uma fina folha de papel… e, de repente, se tinha uma caixa repleta de envelopes com seus selos coloridos e todas aquelas histórias reais ou imaginárias.

Uma newsletter é isso… uma missiva-carta que você se propõe a receber e ler — abrindo uma brecha na realidade, para respirar e degustar de um novo-antigo-conhecido sabor… em pequenos goles.

Nesse ano — supostamente novo — decidi retornar com os envelopes e quem quiser me receber… avise-me, e aos domingos irei até você.

24 | Meu Scenarium de… agosto!

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As horas passam em velocidade ímpar-luz. A semana acabou… e hoje não parece sexta. Agosto tampouco. Mariana (Gouveia) chegou na quinta-ontem… no meio da tarde e trouxe seu abraço de menina-mulher-autora-poeta. Recebeu de minhas mãos, o seu romance-primeiro — “corredores, codinome: loucura‘… com capa vermelha e fita marrom.

Gosto imenso de apreciar o primeiro contato… e todas as emoções que se precipitam como se o próximo passo fosse imediatamente… para dentro do abismo. Mas a queda é minha… silenciosa-secreta-deliciosa.

Com o Obdulio — autor da zona norte paulistana — o encontro aconteceu no outro dia-terça… entre esquinas. No famoso ‘café da seria de duas caldas’. Rua 2 se definiu em capa, fita e miolo aos poucos.

O gostoso do lavouro artesanal… é que se trata de um processo similar a colheita — feita a seu tempo, na fase certa da lua e durante todas as estações do corpo-alma-mente-realidade-das-coisas…

Amanhã à noite…  o encontro será mais uma vez entre esquinas — no Paraíso-paulistano—, regado a café e abraços. Espera-se a presença dos amigos-inimigos-curiosos. É só chegar e se apoderar de uma cadeira.

O lançamento, como sempre segue o melhor dos elementos… o plural! Com a Plural Clandestina e suas vivências literárias, a partir do afiado discurso de nossos contraditórios Autores e alguns convidados nada sensatos.

E o projeto Sete Luas com singular mistério de linhas, cores fôrmas e formas.

Ah, meus caros… foram dias de caos dentro e fora da pele — até esse dia em que tudo se orienta com movimentos de furos e linhas.

 

| escrito ao som de she moves |


beda interative-se

Ano 06 | Ensaio…

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Ana Luísa Amaral

Outras vozes

Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado.
Pensar «podia ter outra cor de pele, outra pelagem»
E o tempo virar-se do avesso, e entrar-se ali,
em vórtice, pelo tempo dentro.
Escolher.

Trazer cota de malha e de salitre,
ter chorado quando o porto ao longe se afastara,
milhares de milhas antes,
meses em sobressalto para trás.

As febres e tremuras durante a travessia,
a água amarga, as noites
carregadas de estrelas,
junto ao balanço do navio, um astrolábio.

Numa manhã de sol, do porto de vigia,
ver muito ao fundo, em doce oval,
a linha, quase tão longínqua como constelação.
Gritar «terra», gritar aos companheiros
ao fundo do navio, do fundo dos pulmões gritar,
e o bote depois, os remos largos,
a cama de areia e o arvoredo.

Ou trazer na cabeça penas coloridas,
conhecer só a fundo a areia branca
e o mar sem fundo, peixes pescados ao sabor dos dias,
uma língua a servir de subir a palmeiras,
a servir de caçar e contar histórias.

Moldar um arpão, começar por um osso
ou pedra e madeira,
entrelaçar o corpo da madeira, e o afiado da extremidade.
Contemplar devagar o resultado do trabalho
e da espera.
Ou a beleza. Escolher.

Trazer o fogo na mão, escondido pela pólvora,
fazer o fogo na orla da floresta.
Os risos das crianças, tocar a areia branca, tocar
a outra pele. Cruel,
o medo, vacilar entre a fome e o medo.
Ou não escolher.

As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira alta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.

 


Ana Luísa do Amaral, poeta lusitana.

Uma prece à você…

…outro dia uma pessoa, depois de me contar sobre um momento ruim que estava a viver… me pediu para colocá-la em minhas preces. Não recusei, afinal, não se recusa um instante de silêncio a ninguém.

A maioria das pessoas sabem que eu não tenho religião. Eu acredito em muitas coisas, principalmente nas paisagens que trago em mim — do lado de dentro. Esse cenário imenso que eu costumo chamar de abismo, onde é possível viver em constante estado de queda. Os religiosos dão a isso o nome de Alma. Mas, eu não acredito em seres onipresentes. Tenho minhas próprias definições e não abro mão delas…

Respirei fundo. Fechei os meus olhos, mergulhei dentro… e me lembrei de minha meninice, quando aprendi a fazer uma prece — na mesa da cozinha, durante o tempo de espera por uma xícara de chá.

O que me fez ir até a prateleira… voltei de lá com um dos meus Poetas em mãos. Herberto Helder. Senhor-Poeta-Homem insano, que tanta paz atribui aos meus olhos.

 


estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quando aumenta o mundo


 

De posse do livro… fui as ruas, espiar movimentos, ver a cidade diferente, as cores da tarde. Havia um dourado grave a lambuzar tudo com promessas de tempestades.

Andei pelos arredores… esbarrei na velha casa abandonada, com seus mesmos traços-cor. Sempre imagino o meu passo pelo caminho de cimento — ultrapassando o mato, que cresce sem controle — até a porta. Me vejo forçar a maçaneta quebrada da porta. Busco pela vidraça toda suja. Impossível ver dentro. E eu continuo sem saber seu interior… sempre acho graça de meu imaginário nesse momento. Essa incapacidade de avançar por um mundo onde meu olhar não tem acesso.

Segui com o caminhar… passei por pessoas cabisbaixas-agitadas-atormentadas. Nada veem além do próprio passo. São marionetes… e eu sempre me pergunto: ‘onde estarão presos os seus fios’?

Ocupei um dos banco da Praça-deserta e pensei — imediatamente —, nos projetos deixados em cima da mesa. Nos textos por escrever… nos trinta dias de abril. E o pedido feito emergiu em minha mente. Abri o livro… e li outro poema e outro e outro e mais outro.

Me lembro de ter lido em algum lugar que ‘poemas são músicas no meu silêncio’. E isso me fez recordar a voz do padre a dizer sua oração cristã… um combinado de palavras misturadas para nada dizer. Ninguém ouve. Apenas repetem frases inteiras que não tocam, não dizem. Pássaros presos numa gaiola. Eles até cantam, mas lhes falta as asas bem abertas e a imensidão azul com todas as suas belezas.

Na ocasião… me lembrei de Emily Dickinson e me distrai com os versos sobre abelhas-manhã-de-sol-flores-vida. Eu quase podia tocar naquelas coisas das quais a Poeta falava. Tudo tão lindo-aquecido-agradável… silencioso. Eu sorri e o padre insistiu em sua ave-maria, pai nosso. Não sabia nada daquilo…

Fui expulsa do catecismo… para onde tinha ido por livre e espontânea vontade. Queria entender como se ensinava religião a uma pessoa — algo que eu considerava impossível e não demorei a perceber que estava certa, apesar da pouca idade.

Contei os passos até a casa… me sentei à mesa da cozinha e esperei pelo chá que chegou pouco depois. Duas xícaras. Dois olhares bem acesos. Dois sorrisos imensos e as mãos unidas sobre a mesa, numa espécie de prece.

Poemas são preces verdadeiras. Partem do silêncio. Aquele que temos dentro, quando precisamos nos ouvir. Poemas me calam… às vezes, falam por mim e, eu alcanço a paz que preciso para existir na realidade das coisas onde tudo se nomeia… inclusive o grande mistério inominável.

 



que implacável poder o desta ordem das matérias

a ordem do acessível,
e o prodígio oh
do ar na luz resolvidos de um espaço para outro,
e de repente entende-se
que um corpo é só um corpo: prova do improvável, ou
impossibilidade, ou
esplendor, ou
que alta tensão! e diz-se:
toca-me, e toca-se, e os dedos
despedaçam-se, e aquilo em que se toca alumia-se
até ao intacto, o intocável



Amém..

 


 

beda