Beda |6 on 6… as cores da manhã!

Recentemente me perguntaram: que cor tem as suas manhãs?  levei um susto e me calei porque sou uma pessoa notívaga, que aprecia as sombras e o breu… e fecha os olhos varias vezes ao dia… para anoitecer dentro.

Fiquei com a pergunta em mente e me lembrei de que no outono-inverno, as cores são outras, portanto, as manhãs também.

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— as primeiras horas do dia, da manhã. A janela aberta e nós dois a tagarelar as coisas da vida… daqui a pouco a gente segue pelos caminhos da cidade. Mas, enquanto isso, permanecemos aqui, entre lençóis, com pijama xadrez e os pés enfiados em meias. Mais meia hora… antes que o relógio cante as suas horas de sempre e tudo comece para valer!

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— abrir as janelas pela manhã. Deixar entrar a luz do sol. Perceber a realidade… essa eterna tela de Hopper, com suas muitas janelas, recortes de nada. Dentro e fora. Luz e sombra. Todos os contrastes de vida-realidade. O que chega… e o que fica pelo caminho.

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— ir a rua e apreciar a realidade de uma manhã em plena segunda-feira. Tudo é rotina pelo caminho. O cinza-asfalto. O verde-das-árvores. O roxo-da-florypê. As pessoas em seus movimentos de vida… 

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— enquanto caminho repito dentro, os versos do último livro lido (ARIEL, de Sylvia Plath) — ‘o membro em febre, o pecado, o pecado /  Crepita a chama / O indelével aroma / da vela apagada!” — eis que enquanto persigo os desenho da cidade, uma folha se desprende do alto da árvore e pousa aos meus pés, no meio do caminho. Abaixo e a levo comigo. 

dsc_0271— centro velho Paulistano e suas muitas figuras mortas-envelhecidas. Fotografia do ontem-hoje-amanhã. Cenário de filmes. Cópia de outra vida-mundo-realidade. Aqui se pode respirar o cheiro de mofo-antigo-nublado a qualquer hora-momento do dia-semana-mês-ano. Mas, até quando? 

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— alamedas com nomes de pássaros. O café entre esquinas. E no meio do caminho… o outono mostra seus tons de vida-e-morte. 

 


Claudia Leonardi  | Fernanda Akemi  |  Maria Vitoria
Mariana Gouveia Mari de Castro Obdulio Nuñes Ortega |


 

beda interative-se

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Ano 06 | Ensaio…

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Ana Luísa Amaral

Outras vozes

Fechar os olhos e por dentro ecoar em passado.
Pensar «podia ter outra cor de pele, outra pelagem»
E o tempo virar-se do avesso, e entrar-se ali,
em vórtice, pelo tempo dentro.
Escolher.

Trazer cota de malha e de salitre,
ter chorado quando o porto ao longe se afastara,
milhares de milhas antes,
meses em sobressalto para trás.

As febres e tremuras durante a travessia,
a água amarga, as noites
carregadas de estrelas,
junto ao balanço do navio, um astrolábio.

Numa manhã de sol, do porto de vigia,
ver muito ao fundo, em doce oval,
a linha, quase tão longínqua como constelação.
Gritar «terra», gritar aos companheiros
ao fundo do navio, do fundo dos pulmões gritar,
e o bote depois, os remos largos,
a cama de areia e o arvoredo.

Ou trazer na cabeça penas coloridas,
conhecer só a fundo a areia branca
e o mar sem fundo, peixes pescados ao sabor dos dias,
uma língua a servir de subir a palmeiras,
a servir de caçar e contar histórias.

Moldar um arpão, começar por um osso
ou pedra e madeira,
entrelaçar o corpo da madeira, e o afiado da extremidade.
Contemplar devagar o resultado do trabalho
e da espera.
Ou a beleza. Escolher.

Trazer o fogo na mão, escondido pela pólvora,
fazer o fogo na orla da floresta.
Os risos das crianças, tocar a areia branca, tocar
a outra pele. Cruel,
o medo, vacilar entre a fome e o medo.
Ou não escolher.

As penas coloridas sobre um elmo,
a cota de malha lançada pelo ar como uma seta,
os sons dos pássaros sobre a cabeça,
imitar os seus sons,
num lago de água doce limpar corpo e
pecados de imaginação,
sentir a noite dentro da noite,
a pele junto da pele,
imaginar um sítio sem idade.

Trocar o fogo escondido pelo fogo alerta,
o arpão pelo braço que se estende,
gritar «eis-me, vida»,
sem ouro ou pratas.
Com a prata moldar um anel
e uma bola de fogo a fingir,
e do fogo desperto fazer uma ponte a estender-se
à palmeira mais alta.

Esquecer-se do estandarte no navio,
depois partir da areia branca, nadar até ao navio,
as penas coloridas junto a si,
trazer de novo o estandarte e desmembrá-lo.
Fazer uma vela, enfeitá-la de penas,
derretidos que foram, entretanto,
sob a fogueira alta e várias noites,
elmo e cota de malha.

Serão eles a dar firmeza ao suporte da vela,
um barco novo habitado de peixes
brilhantes como estrelas.

Não eleger nem mar, nem horizonte.
E embarcar sem mapa até ao fim
do escuro.

 


Ana Luísa do Amaral, poeta lusitana.

6 ON 6 | a pessoa que somos

 Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

Álvaro de Campos


Espaços urbanos

1 — sou lugares, que transito-ocupo na cidade…. esse cenário contraditório onde tudo e nada – novo e velho se misturam e se oferecem aos meus pés, meu guia nesse mapa de possibilidades que eu traço de esquina em esquina.

Outono - estação favorito do ano

2 — sou toda estações… as quatro num mesmo minuto. Mas quando respiro fundo e me calo, sou toda outono da alma ao cuore… da pele ao meu avesso — inquieto-arteiro-afoito…

6 on 6 - rascunhos

3 — sou rascunho… que o papel aceita quando a noite se impõe em meus olhos.

6 on 6 - tempestade

4 — sou tempestade… que chega sem avisar e ocupa todos os espaços da pele-alma… com seus múltiplos trovões e relâmpagos…

6 on 6 - personagens

5 — sou personagens… nos quais esbarro pelos caminhos vida que percorro, enquanto ouço a música dita o ritmo de meus passos alquebrados por caminhos reais ou imaginários.

6 on 6 — personagem próprio

6 — sou figura… inteira-metade-imprópria-irregular-muitas-poucas-nenhuma-contrária-avesso-verso-reflexo. eu mesma-outra.

 


 

| Cilene Mansini Maria Vitoria |Mariana Gouveia |
Mari de Castro Obdulio Nuñes Ortega |

 


 

6 ON 6 | JUNHO

Desde menina que giugno é um dos meses favoritos no calendário e me acostumei a dizer — desde que me mudei para São Paulo em dois mil e dois — que adoraria fechar os olhos e acordar dentro das manhãs de giugno… que por aqui são menos claras-curtas-frias e suavemente esbranquiçadas. O sol se demora a ultrapassar as nuvens e tudo fica mais lento e aconchegante — para depois… como tanto gosto!

Ainda é outono… mas, em poucos dias será inverno e eu vou me fechando dentro — abraçada a melancolia que tem lugar cativo em meu corpo-alma.

6 ON 6 JUNHO 01

1. adoro vestir pijama-meias e andar por aí… com xícaras-livros em mãos. Sem pressa. Acordar cedo, antes do mundo e espiar paredes, a mobília. Ocupar eu lugar à mesa. Medir os ingredientes, a realidade, as coisas e sua causas…

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2. Gosto imenso quando saio para caminhar e encontro as folhas pelo chão… me lembro imediatamente das brincadeiras de infância quando C. e eu íamos ao Parque-Bosque pra tentar agarrar uma folha em seu último voo de vida-e-morte. Era sinal de sorte interceptá-la antes que tocassem o chão!

6 ON 6 JUNHO 04

3. Trabalhar na cama, comer uma fatia generosa de bolo recém saído do forno. Assistir a um filme, ler um livro. Adormecer. Meditar coisas futuras… escrever os posts do blogue. Despertar dentro de certas manhãs esbranquiçadas de giugno.

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4. Ir para cozinha no final da tarde, quando começa a escurecer, medir os ingredientes e preparar fornadas de pães. trigo. ovos. manteiga. leite. ervas secas. fermento. Misturo tudo numa tigela. Amasso até a massa mudar de cor e o cheiro se esparramar pelo ar. Deixo crescer e preparo os pães que vão ao forno. Nunca soube determinar a quantidade dos ingredientes que uso. Aprendi com a nona a usar os sentidos na hora das medições… também não entendo nada de receitas, apenas de ingredientes.

6 ON 6 JUNHO 05

5. Gosto imenso de ir à feira com um prato em mente… escolher os ingredientes frescos. Cozinha limpa-arrumada. Lavar. Picar. Ralar. Água no fogo. Massa a cozinhar. Azeite na frigideira… alho-cebola-cenoura-couve-flor-alho-poró e os aromas no ar.  Mesa posta para dois-três. Depende do dia…. gosto quando é para apenas nós dois. Aprecio quando é para outros de nós. Ir para a cozinha a qualquer momento, sem compromisso-obrigação de horários é pausar a realidade e deixá-la para depois…

dsc_0091 6. Gosto imenso de giugno porque é o mês de meu menino… o nosso mês… mais um bom motivo para despertar dentro dessas manhãs esbranquiçadas.

 


 

| Cilene Mansini | Maria Vitoria |Mariana Gouveia |
Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega |


 

6 ON 6 | RETRATOS

O primeiro retrato de que me lembro… é também uma de minhas primeiras lembranças. Tinha quase cinco anos, a manhã estava ensolarada e os pássaros sobrevoavam telhados. O vento frio derrubava folhas e cumpria seu papel de anunciar a nova estação.

Um signore e seu ajudante chegarão na hora marcada… com o equipamento necessário. Posicionaram a câmera no quintal dos fundos. Nos arrumamos como se fossemos sair… e debaixo da laranjeira posamos para a fotografia. Um. Dois. Três. Quatro… cliques.

A foto meio esverdeada se desfez com o tempo, se perdeu dos olhos, mas permanece intacta em minha memória. Recordo a inquietude de meus gestos. Eu não parava quieta. Não sorria. Espiava os gestos dos meus. Me distraia com folhas-pássaros-vento. Mio babo fez questão de comprar todas as doze fotografias, que foram coladas num álbum, que a gente folhou nas noites de sábado durante os anos seguintes.

Hoje com o advento dos celulares, fotografias são frequentes, mas os velhos álbuns deixaram de existir. Registramos todo e qualquer momento, mas é tudo tão frágil. São tantos cliques por dia, que esquecemos ou simplesmente não nos lembramos do instante.

Eu não tenho retratos impressos, estão todos em nuvens-memórias… e dificilmente volto a eles. Hoje, para preparar esse post, me diverti com cenas que nem na minha memória estavam…


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— uma visita ao mirante nove de julho, para mais um dia de trabalho, pesados goles de café, pesadas nuvens a vestir a tarde de noite e a sensação de que mais um capitulo de minha história — que se fosse intitular, chamaria de 1981 — foi escrita..

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nós dois… com nossos sorrisos conhecidos, em pares. Sorrimos por sorrir somente, para nós… o mundo que somos um para o outro.

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era um dia azul e a gente pegou a estrada. As paisagens foram passando por nós e nós por elas… os pedágios, carros-ônibus-caminhões-motos. Gosto de observar o lugar de onde saímos… e dar pelo lugar para onde fomos. Chegar-partir-ficar… verbos devidamente conjugados nesse retrato nada comportado… rá

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fomos caminhar pela centro velho de São Paulo. Passos em pares… a gente sempre se mistura quando se encontra pelos caminhos… se diverte com olhares-sorrisos-palavras. E sempre se lembra de fotografar o momento que daria para fazer um álbum…

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o relógio dizia 15 horas... o calendário anunciava a terça-feira. Eu cheguei primeiro. Gosto de escolher o lugar-mesa-cadeira… e esperar. Gosto de observar a chegada… abrir os braços — como pássaro que salta para o vôo — e se encaixar em outros braços. Gosto das primeiras palavras — sempre imprecisas, as pessoas chegam trazendo rastros e até se desfazer deles leva algum tempo.

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entre esquinas para lançar mais um livro. Era noite de quinta. As pessoas foram chegando-deixando abraços-sorrisos. Gosto de observar as reações de cada leitor de posse de um livro artesanal. Querem compreender o caminho percorrido pela fita… a maneira como o papel se ofereceu ao molde. E, no dia seguinte a esse momento-movimento… ao passear pelos retratos desse dia, esse ficou… um nó que não desata!

 


Mariana Gouveia | Maria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega