08 | Nem sempre tenho respostas…

livros artesanais, autora e editora, scenarium

…e veio a pergunta fatal: e então, o que vai escrever, agora? Respirei fundo. Observei o cenário ao meu redor. As portas do teatro estavam sendo fechadas por uma figura cabeluda, que juntava as duas folhas de madeira, presas por um ferrolho.
Um punhado de pessoas esperavam pelo artista da noite e eu me senti nua diante de um espelho… a observar o meu corpo, em busca de nódulos inexistentes. Apalpei os seios — esquerdo e direito —, e nada encontrei. Vasculhei as axilas, o pescoço. Tudo apalpado com o cuidado de quem nada quer encontrar e fica aliviada por perceber que está tudo certo, nos lugares de sempre, sem alterações inconvenientes.
Havia figuras femininas interessantes por ali… elas são, desde sempre, o desenho favorito dos meus olhos. Gosto imenso de admirar traços e recortes de mulheres, principalmente as que não se rendem aos moldes e exibem cores inusitadas nos cabelos, nas vestimentas como se fosse uma necessidade não ser igual.
Avisei uma senhora de cabelos grisalhos, mal cortados, corpo macambuzio… recém-recuperada de uma grave doença — e que ainda não sabe o que é corpo-alma-matéria. A doença foi embora, mas deixou sequelas. Ela não sabe se reza ou vocifera contra esse tal de deus. Quem venceu, afinal? Acreditar é sempre um passo para dentro de um abismo. A única certeza que temos é a queda.
E havia uma pequena mulher de olhar marítimo que grudou em meus olhos num intervalo de cenas. Corpo minguado-encolhido. Fala inaudível. Movimento calculado. Cabelos rebeldes em cachos. Estava contida — fechada dentro. As lágrimas escorriam livremente, em fuga dos olhos-cansados. Todo e qualquer movimento lhe doía. E eu sorri o que ainda não sabia, com quem antevê uma vida inteira.
É sempre assim comigo… encontro alguém no meio da multidão e preciso aprender o máximo possível do outro que esbarra e fica em mim. Por quanto tempo? Um segundo ou dois… o tempo exato de uma vida — inteira! Preciso tragar tudo que chega e torcer para que as distâncias não sejam encurtadas. Sempre há alguém disposto a atravessar a rua com a mão estendida para um toque que fere a pele e faz sangrar o invólucro.
Eu nunca sei o que será meu de fato! Leva algum tempo para que tudo se oriente do lado de dentro e faça algum sentido. Nem sempre acontece. Às vezes, no entanto, a memória alimenta o imaginário e os dedos atacam o teclado e pronto… uma história se escreve na tela — ou tudo se perde até ser reencontrado num futuro inexistente.
Talvez seja minha próxima história ou uma mísera cena que determine tudo — começo. Meio. Fim. Talvez seja apenas o desespero de nada ter-ser. Mãos vazias… a maldita folha em branco e o cursor do Word a piscar, enquanto a mente desarticula-se sem mapa-direção-destino a partir da Ausência de resposta para uma pergunta simples-curta-direta que pareceu um murro certeiro na boca do estomago a me deixar sem ar, quase sem vida.
Respirei fundo, afirmei o vazio que trago em mim, e mudei de assunto. O artista da noite estava à espera de afagos. Caminhamos até ele… sem saber o que dizer. Reparei, enquanto trocávamos apertos de mãos, em seu olhar de homem que ainda não tinha voltado a si — me reconheci ali, nós dois a deriva de nós mesmos. Eu ainda estou a bordo da vida de Alice, ainda sou ela, vivo seus dramas e anseio desesperadamente por uma felicidade a qual não tenho direito. Ele permanecia no palco — da vida-arte-morte —, a bordo do outro que não ele. Já tinha trocado de roupa, mas, depois de tanto tempo na pele do mesmo personagem, quem se sobressai?
Ele sorriu… também não queria dizer palavra. Queria apenas ir… precisava encontrar o caminho de volta para si e não fosse pelo assistente, nem ao elevador teria chegado.
Ri por dentro, em silêncio, enquanto indagava o meu próprio vazio. Por que alguém iria querer habitar a pele de outro e depois percorrer todo o caminho de volta para si?
O artista Mamberti ao entrar no elevador… evitou o espelho — encarar-se não é um ato para ser feito em público, é preciso preservar a plateia do espanto. Ele se afundou nos braços de alguém conhecido… e a porta se fechou.
Fim de mais um ato.
Vasculhei o lugar num giro de trezentos e sessenta graus… notei que o cenário era recolhido por dois homens fortes. O velho apartamento foi desmontado em segundos. Os holofotes foram se apagando, ficando apenas os sons dos bastidores: ferramentas, caixas, movimentos brutos.
Escolhi subir os degraus para evitar espelhos e olhar no fundo dos meus olhos… respirei fundo ao verificar o horário no pulso — era hora de voltar para casa porque é para onde a gente sempre volta, certo?

05 | Um torvelinho por dentro

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As minhas ideias acontecem quando eu me coloco em movimento de cômodos-calçadas-ruas-esquinas. Só depois é que me sento para escrever. Meu pensamento necessita do passo… como o grafite que precisa caminhar pelo papel. Tudo se organiza naturalmente e eu sinto dentro, o lado de fora e o contrário também.
Quando leio um texto-livro-original-a-mim-encaminhado… o mesmo acontece. Me coloco em movimento… ultrapassando um a um os cômodos da casa, o espaços da cidade — quarto-sala-cozinha-banheiro-corredores-calçadas-ruas, numa espécie de reinvenção dos mapas de minhas emoções-vivências-e-experiências…
Me lembro do quanto gostava — na infância —, de observar da janela, aqueles giros rápidos de vento em espiral, feitos de ar quente. Os torvelinhos surgiam no nada nos dias quentes e carregavam tudo o que fosse proporcional ao seu tamanho-força. E desapareciam sem deixar rastro, como se não tivessem existido. Rápido e ágil — o tempo exato de um sopro-morno que existe enquanto há fôlego.
Uma das minhas brincadeiras favoritas, na infância, era imitar os torvelinhos… abria bem os braços e rodopiava — girando e girando cada vez mais rápido. Não era ágil o bastante… nem o meu corpo era propício ao movimento de giro. Sentia tontura e, naqueles dias, não fazia idéia de que era uma ilusão. Sentia tudo em movimento, menos o meu corpo. O meu mundo e a cabeça giravam ao contrário… e, na tentativa de recuperar o equilíbrio perdido, fechava os olhos e esperava… sentindo dentro, o efeito que tinha buscado do lado de fora.

Detalhes de uma escrita ficcional

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“Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…”

— John Keats —


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Vez ou outra… alguém me pergunta: como surgem os meus textos! Confesso que, nas primeiras vezes, eu pensava na teoria da geração espontânea — que caiu por terra há anos — achava graça e respondia com o um dar de ombros característico dizer…
Acabei por perceber se tratar de uma pergunta bastante comum… motivada pelo aparente mistério que envolve o universo da escrita. Todos querem saber de ondem saem os temas, personagens, motivação…
Há muitas teorias e lendas a esse respeito… oriundas de investigações feitas por pesquisadores literários a fim de desvendar tais mistérios — ainda que isso não faça a menor diferença na realidade de cada um.
Recentemente eu li outro artigo num importante jornal inglês…  sobre a possível origem de Mr. Darcy — personagem de ‘orgulho preconceito’. Um verdadeiro jogo de xadrez, sem cheque-mate. Eu me divirto igualmente quando me deparo com artigos que explicam como a vida na prisão influenciou e motivou a escrita de Dostoiévski.
Eu resolvi realizar  minha própria investigação para alcançar uma possível resposta para essa pergunta… e evitar o famoso dar de ombros quando questionada.
Sentei-me aqui… e enquanto esperava pelo meu copo branco de latte… enfrentei o branco da tela, em paralelo aos muitos movimentos que acontecem entre esquinas. Percebi que ao me sentar e abrir o notebook… acontece um efervescer dentro. Uma necessidade de dizer-se sem voz. Um silêncio tão fundo-profundo que me cala, desorganiza.
Na infância… ainda sem consciência de corpo-mente — ainda inocente com as sentimentalidades, pensava ser tristeza. Lembro-me de dizer, com o olhar cheio, a pele devastada, como no poema ‘the wast land’ de Eliot  — ‘eu sou uma pessoa triste‘.
Descobriria mais tarde — através da poesia de Emily Dickinson — se tratar de melancolia. Um afundar-se dentro porque certas coisas me encantavam e emudeciam e eu queria guardar aquele sentimento novo-inédito-incrível para todo o sempre… em algum lugar do meu corpo-matéria.
Ainda me lembro da sensação de olhar cheio e espanto ao dar pelo cair da tarde. O fechar-se das cortinas me deixou boquiaberta. Os diferentes tons no céu e aquele breu a esparramar-se em todas as direções. Fiquei anestesiada por alguns minutos, completamente imóvel diante da janela. A luz do quarto se acendeu e eu vi o reflexo do meu rosto no vidro da janela… vi o caminho das lágrimas e o molde do sorriso nos lábios.

Pouco depois… risquei uma missiva à Emily, a poeta-amiga-mulher narrando as minhas emoções. Era exatamente o que eu precisava: escrever… porque sou minha própria caixa cênica…

Ser escritor,

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Faz alguns dias que anotei o título desse post num pedaço de papel. Desde então penso numa espécie de resposta. Naveguei por aí. Andei ruas. Dobrei esquinas. Entrei e saí de estações. Encontrei pessoas. Mergulhei em olhares vazios-cheios. Admirei o céu de Abril e sua lua cheia num falso amarelo. A poluição da cidade muda a cor e a forma das coisas.

Li Al Berto e lhe roubei a frase: “passei o dia como quem dá tropeções“.

Pensei minha vida-realidade e percebi que minha visão das coisas sempre esteve intimamente ligada a escrita. Existe uma espécie de dependência natural. Nada de fato existe ou acontece em minha realidade sem que frases inteiras — notas de poemas, pequenos ensaios, artigos — se rendam ao papel. Tudo se explica, origina ou termina com pontuações.

Não falo de livros publicados — isso é recente e cabe dentro de um ontem qualquer. Falo do ato de escrever — deitar a caneta sobre o papel e riscar símbolos que dê sentido ao silêncio que impulsiona o meu existir.

Quando me calo… escrevo — por escrever somente, como disse Al Berto “num recanto inacessível do meu próprio corpo” — esse abismo onde todas as coisas caem comigo. Sem corpo ou matéria, sem sentimentos ou desejos-vontades. Quando tudo misteriosamente finda… e o som do tempo, em forma de carrilhão — na infância — também se cala, se recolhe em um sono mortal. Surgem as palavras. Sem forma, fôrma, sem tinta ou papel, mentiras ou significado. Uma espécie de linguagem própria, desconhecida, indecifrável.

Escrevo dentro… pelas paredes do corpo. Risco. Rabisco. Rasgo. Sangro. Verto. Derramo. Transbordo. O que chega ao lado de fora é o que restou de tudo que sou-fui — o soluço da alma.