Four Quartets (1943)

Burnt Norton
T.S.Eliot

V

As palavras se movem, a música se move
Apenas no tempo; mas somente o que vive
Pode morrer. As palavras, faladas, se calam
Fazem silêncio. Apenas pelo modelo, a forma,
As palavras ou a música podem alcançar
O repouso, como um vaso chinês que ainda se move
Perpetuamente em seu repouso.
Não como o repouso do violino, enquanto a nota perdura,
Não apenas isto, mas a coexistência,
Ou seja, que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio sempre estiveram lá
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora. As palavras se distendem,
estalam e muita vez se quebram e sob pressão,
Tropeçam, escorregam, perecem,
Decaem com imprecisões, se negam a acabar e
Se recusam em manter-se no lugar,
Não querem ficar quietas. Vozes estridentes,
Irritadas, zombeteiras, ou apenas tagarelas,
Assolam-se sempre. O Verbo no deserto
É alvo da tentação,
A sombra soluçante no balé funéreo,
Lamento estrondoso da aflita quimera.

O detalhe do padrão é movimento,
Como na figura das dez escadarias.
O próprio desejo é movimento
Não por si só desejável;
O amor é por si só imóvel,
É causa apenas, fim, do movimento,
Atemporal e indesejante
Exceto no aspecto do tempo
Apreendido em forma de limite
Entre o não ser e o ser.
Súbito num feixe de sol
Ainda enquanto o pó se move
Eleva-se oculta a risada
De crianças na ramagem
Rápida agora, aqui, agora, sempre —
Ridícula a perda triste tempo
Antes e depois se entendendo.

6 on 6 | Equinócio

Faz algum tempo — vivendo em São Paulo —, que eu percebi que é impossível compreender as estações do ano. Percebi, no entanto, que existe qualquer coisa de satisfação por parte das pessoas — habitantes da metrópole —, em dizer em voz alta: em São Paulo temos as quatro estações do ano dentro de um mesmo dia, se duvidar dentro de uma única hora.
Nunca reparei nesse fenômeno… até porque já faz algum tempo que não sinto as estações do ano. Temos dias cada vez mais quentes… mas os dias frios são raros e duram pouco…
Mas, gosto imenso de reparar num fenômeno natural que segue imutável… a duração dos dias-noites.
Não sei se repararam… mas a tarde já se demora um bocadito mais e os pássaros já cantarolam dentro da noite — um espetáculo maravilhoso que, estranhamente, incomoda os moradores do bairro-cidade. Já ouvi morador irritado gritar de sua janela: cale a boca seus malditos…

1 — os galhos das árvores que ficaram nus nos últimos meses, começam a exibir o verde das folhas-novas… colorindo todo o cenário das ruas-calçadas-prédios-céus.

2 — algumas flores não esperam pela primavera para colorir os caminhos…

3 — Embora se chame Primavera… desde o começo de agosto que estão a colorir os muros das casas. Gosto imenso quando se forma um tapete de flores pelos caminhos. E adoro furtar um pequeno galho com flores e trazer para casa…

4 — Com o sol ainda ainda opaco e sem força… é possível se sentar num banco da praça e folhear um livro antes do meio-dia. Daqui a pouco será impossível…

5 — Hoje escureceu pouco depois das seis e eu fui vendo o sol já com um brilho diferente, um pouco mais forte-intenso e respirei fundo ao pensar em como será o próximo verão…

6 — Se tem algo que me encanta são as nuances… do dia-tarde-noite-madrugada-manhã. Uma minuto-hora a mais-ou-a-menos modifica a luz e a paisagem que se acende-apaga…


Ale HelgaDarlene ReginaMariana GouveiaObdulio Nunes Ortega

É setembro no calendário da minha agenda…

É setembro em São Paulo e em diversos lugares do mundo… ao menos é o que diz o rodapé do calendário impresso na primeira página da minha agenda.
No calendário gregoriano, inventado pelos cristãos-católicos — a quem o mundo, estranhamente, se rendeu —, o mês de setembro é o nono mês do ano… mas, não combina! É coisa fora do lugar…
Setembro para mim é Septem (latim) porque no velho calendário romano — em desuso desde que Gregoriuns inventou outro calendário — o ano começava em março… e não havia julho e agosto, meses que foram criados em homenagem ao Cônsul romano Júlio Cesar (Julho) e ao Imperador Augusto César (Agosto)… o que fez com que setembro fosse adiante — empurrado feito mobília velha —, convertido no nono mês do ano. Mais uma maldita imposição romana…
Na Grécia antiga, Setembro era chamado Boedromion… embora em muitos estados gregos, fosse conhecido por Demetrion, por ser o mês dedicado a Demeter — Deusa da terra cultivada e das colheitas. Muito mais interessante… e ainda assim eu prefiro o Septem… porque quando eu penso em setembro… eu vislumbro os dias a partir da grafia e percebo o grafite marcando o papel: três vogais e cinco consoantes.
Se bem, que nesse ano marcado pelos não-acontecimentos, eu ainda não sei para onde foram os dias-semanas-meses. Onde se esconderam ou por qual ralo escorreram?
Risco um a um os meses do calendário… mas eu continuo presa a esse ontem que insiste em não amanhecer. Estou em suspenso! Não fui e não voltei. Não parti e tampouco cheguei.
Sinto-me como se estivesse a soprar achas velhas — sem conseguir fazer o fogo pegar. Imagino a madeira vermelha… a arder e, por um instante, me esqueço de tudo… e escrevo — por escrever somente —, como se fosse a minha última porção de ar.
A realidade não desisti… e volta aos olhos: praias cheias, festas nos apartamentos vizinhos pessoas sem máscaras a ocupar as mesas dos cafés entre esquinas. E a pergunta que se repete no minha boca: já acabou a pandemia? Os números seguem anunciando mortes que poderiam ser evitadas se fôssemos uma versão melhor de nós mesmos, como disseram lá no começo de tudo isso… que seríamos.
É a maldita acha velha, sem efeito… para o qual olho enquanto repito o mantra escolhido para esse dia: é setembro! E depois de amanhã será Primavera… para os que restarem de nós!

Personagem: mulher

“Tive consciência de que uma primeira questão se colocava: o que significava para mim ser mulher? Primeiro pensei poder livrar-me disso rápido. Nunca tive sentimento de inferioridade, ninguém me havia dito: “Você pensa assim porque é mulher”; minha feminilidade não me atrapalhava em nada”.

— Simone Beavouir, em o “segundo sexo”.

Na semana-mês que passou por mim, atribuíram-me uma vez mais o adjetivo característico durante uma fala: “achava que você era lésbica-sapatão”… devido ao meu jeito-estilo de ser-existir e de se vestir. Eu ri porque nunca me ocupei de rótulos. Não os atribuo, tampouco os considero para consumo. Nunca me preocupei com a imagem que o outro tem de mim… até por considerar impossível saber o que o outro vê quando me olha-observa. O olhar tem suas formas peculiares de rótulos e eu nunca me afeiçoei as fôrmas e suas formas. Sempre fui aquela que fugia das multidões, procurando o lado contrário, o canto oposto…
Eu tinha pouco mais de oito anos quando ouvi pela primeira vez a palavra androginia. Respirei fundo e senti qualquer coisa de segurança-acolhimento. A repeti em voz alta algumas vezes… e, de posse de seu sentido-significado, certos desenhos se agarraram a minha matéria — uma espécie de tatuagem. Era uma palavra na qual atracar a minha existência. Mais tarde seria uma frase — inteira —, de Bevouir a causar turbulência nessa embarcação que sou: “não se nasce mulher”. — e, eu sorri… como se tudo em mim fizesse algum sentido. 
Naqueles dias eu não era nada. A pele, a voz, o corpo… estavam em mutação. Eu tinha dobrado de tamanho. Meu corpo tinha novas formas… de seios, bunda, coxas. As roupas precisaram ser trocadas… e um par de tênis não durava nem seis meses — perdas e ganhos, próprios da idade.
A mente seguia inquieta e a alma selvagem. Os gestos indóceis… e eu ainda não era alguém. As mutações iriam muito além da matéria… e o espelho não dava conta de exibir tudo que acontecia em minha embarcação. Era necessário estar atenta a tudo para não me perder e cair nas emboscadas traiçoeiras da realidade, moldada por certos senhores e senhoras, com seus malditos manuais de existir.
Eu tinha uma certeza: não queria repetir fórmulas, formas. Queria experimentar, ousar, descobrir, provar de tudo um pouco… até compreender o humano que eu era. Abusei dos excessos, enganos. Somei e subtrai com a mesma voracidade. Encarei o espelho e celebrei meus cabelos brancos no meio da segunda década de vida.
A mulher que eu sou… é causa-consequência de todas as escolhas feitas, decisões de momento ou de uma vida inteira. Sei de que gosto — do que não é lugar comum — o que sinto — amor e ódio em proporções iguais — e penso — nada é para sempre, absolutamente tudo é para nunca mais — e, principalmente, sei o que vejo quando encaro o espelho pela manhã, após molhar o rosto com água fria…
Uma mulher que ama-odeia-tropeça-cai-se-levanta, que gosta de percorrer calçadas, atravessar ruas, dobrar esquinas, tropeçar em vultos humanos — reais ou imaginários —, contornos urbanos, pisar poças, observar cotidianos impossíveis-improváveis. E que sabe, conscientemente que, se lhe fosse dado o direito de nascer de novo… seria na mesma pele — porque nascer nos coloca em igual condição: uma multidão de nada-ninguém.

Texto publicado na Revista Plural 21 — edição de março de 2019


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[poemas] Wislawa Szymborska

Quando leio poesia, me demoro nas páginas e no livro. Gosto de percorrer caminhos. Levar a poeta comigo para um passeio — coisa rara nesses dias pandêmicos. O máximo que tenho feito é transitar pelos cômodos do lugar… da varanda para a cozinha-banheiro-quarto-sala.
Para essa semana… escolhi poemas de Wislawa, que é uma descoberta recente. Eu me encantei primeiro pelos versos e só depois fui em busca da persona que escrevia.
Soube que — assim como Emily Dickinson —, ela viveu sua vida toda no mesmo lugar mas, até minutos atrás, eu desconhecia a idade dela. A figura a ilustrar a capa do livro não me dizia seus oitenta e poucos anos. Até porque, a minha relação com a idade-tempo é totalmente imprecisa-inexata.
Poemas são atemporais — assim como quem os escreve —, embora nos fale de momentos e revelem muito do que é sentimento na pessoa que visita certos cenários. Mas, quando folheio um livro de poesias, eu sou o lugar do verso e o trago como um cigarro entre os dedos.
A minha pesquisa revelou que Wislawa foi traduzida por Ana Cristina Cezar… o que me deixou sem ar, por alguns minutos. A conheci em uma livraria portuguesa, num desses passeios por calçadas-esquinas e ruas por atravessar. A encontrei no meio de outros livros, sem destaque. Estava ali a minha espera — rata de livros que sou… sempre em busca do que não está na lista de uns e outros. Gosto de ser a última a ler.
Mas, no caso de Wislawa, confesso que sinto falta do antes. De ter colidido com ela nesse tal dia anterior. Sabê-la minha contemporânea… enquanto ainda viva. Mas não é a primeira vez que chego atrasada, no dia seguinte.
Se trata de um lamento bobo. O encontro aconteceu quando tinha que acontecer e eu provo desse aroma e isso tem que ser o bastante porque quantas autoras… ainda não-sei?
Ao menos posso me sentir amparada pela ironia que Wislawa despeja em versos. Linguagem simples, sutil e elegante. Seu olhar é um varrer contemporâneo, mas ela mergulha em águas estrangeiras, vai e volta no tempo e espaço nos estregando suas certezas absolutos e suas convicções plenas sempre com um humor único para as nossas tragédias e fragilidades.

A seguir três poemas do livro [poemas]
Tradução  Regina Przybycien
Companhia das Letras, 2011


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escrever poemas não é boa maneira de atordoar

escrever poemas não é boa maneira de atordoar os
tempos do verbo,
não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,
nem perder algures uma perna e lembrar-se depois de perder ainda a outra:
ninguém ganha assim uma barra de ouro,
ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro,
ninguém transforma assim numa chaga a beleza humana,
tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:
e como só de pensá-lo o corpo avança!
escrever,
deixar de escrever,
escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa
quanto se pensava,
um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,
escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do
costume:

colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios
olhos,
e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,
tudo tão prodigioso que se não entende nada:
uma rosa é uma rosa é uma rosa — disse ela em inglês
(há quantos anos li isso!)
(há quantos anos fiquei bêbado desse talhão de roseiras!)
a rose is a rose is a rose et coetera
— mudou-me a vida?
oh faminta ciência da paciência!
coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida,
e então porque não a mudaria uma rosa compactamente
múltipla?
morrer por uma rosa é que fia mais fino:
que fabuloso fio em que roca e em que fuso,
que segredo do mundo

fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes
tão sutis no súbito entendimento das intenções segundas
que temos em relação a eles
se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam
aqueles que os escrevem
do que têm com A ou B
eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho diria
a propósito da morte de Deus e da glória do poema onde
morre
as palavras turvas que me transmitiram algumas bocas
maometanas
uma dessas bocas foi a mesma que disse
viva o profeta!
quando decretaram a morte de Salman Rushdie
por causa dos Poemas Satânicos
parecia Lisboa nas trevas católicas
mas não ele felizmente não estava à mão de matar

até aproveitou a confusão e mudou de mulher
e na Dinamarca para aquecer um pouco
a malta gozava fazendo caricaturas sacrílegas dos ayatolas
mais um pouco e salvava-se o mundo


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12 | Le cousine di Lunna…

A primeira coisa que faço ao procurar por uma casa… é espiar os contornos da cozinha, por ser a parte da casa onde meu corpo precisa se acomodar. No quarto eu me abandono de qualquer jeito… é o lugar da cama-colchão-travesseiro-armário-edredom e eu não do tipo que gosta de dormir. Sou aquela que acusa cansaço do dia, das pessoas, da realidade e se joga na cama para se desligar das coisas do mundo. Na sala, eu me esparramo em um sofá, no chão, em cima de um tapete. Ligo a televisão… deixo a xícara no canto da mesa, ao lado de um livro. Tudo ao alcance das mãos para um gesto curto-breve sem que seja preciso muito esforço.
Mas, na cozinha é diferente. Eu preciso dos móveis certos porque é um espaço cênico… com seus instrumentos de tocar-bater-cortar-picar. É um meu cenário e eu gosto de pendurar as xícaras e as panelas. Acomodar a louça. Encaixar os fornos elétricos, a geladeira e ter espaço para todos os ingredientes. 
Aprendi ainda na infância a fazer compras no sábado. É o dia em que reservo toda a minha paciência para ir ao mercado. Mas é também o meu dia favorito, na cozinha. É quando penso o cardápio do almoço-jantar sem pressa… com qualquer coisa de pausa. Escolho a música, respiro fundo e penso receitas de ontem… pão, bolo, caldo de massa. Tudo o seu lugar . O Sábado é um desses dias inteiros… sem urgências — apenas a permanência.

E por ser assim… é que eu preciso de todas as coisas ao alcance das mãos…

Mesa com livros (de poesias) e xícaras de chá… o meu caderno vermelho. Uma fruta madura numa vasilha defeituosa porque eu gosto imenso de pequenos defeitos. É uma maneira de saber meus gestos de sábado. E as perfeições me aborrecem.  
A cozinha é território para os pés-mãos-braços-troncos-cabeça-corpo-alma, mas não é para qualquer um. Toda conversa boa começa e termina ali. Toda amizade que é inteira-cheia tem seus quartos de hora numa cozinha. São os outros ingredientes essenciais. E acho que é por isso que toda a minha alquimia de Mulher se manifesta através de todas as gerações que forjam a figura humana que sou, naquele espaço-meu-Eu.


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11 | Vermelho por dentro

Num agosto outro, estava eu a caminhar pelos trilhos da velha ferrovia, equilibrando-me… com os braços bem abertos e o passo certeiro. Não havia destino, era apenas uma brincadeira. O nonno, preferia pisar os dormentes e estar por perto caso eu me desequilibrasse, algo que não chegou a acontecer.
Sempre tive paixão por trilhos, trens e estações. O percurso de um lugar ao outro me fascinava. Era qualquer mágica a possibilidade do embarque. Eu nem dormia direito na véspera das viagens. A ansiedade me fazia consultar os ponteiros de hora em hora. Queria comprar o bilhete, descer as escadas, ouvir o apito da locomotiva e acompanhar o movimento de pessoas na plataforma.
Caminhar sob trilhos era algo simbólico porque era coisa nossa… ele movimentava as sobrancelhas — era o nosso sinal secreto — e eu já sabia para onde ir. As conversas com o nonno fluíam… ele costumava dizer frases certeiras-definitivas que permaneciam em mim por horas-dias-semanas. Nessa ocasião, ele me disse: nada na vida acontece por acaso. Nenhuma volta no mundo é a toa. Se estamos aqui e agora e porque todo o universo tornou esse momento possível. Existe uma razão para isso e nada no mundo poderia impedir esse nosso momento.
Eu me preparei para questiona-lo… imaginando uma tempestade de verão ou uma visita inesperada. Mas ele se antecipou. Disse com sua voz deliciosamente aveludada, como quem compartilha um segredo. Se algo impedisse o nosso momento, é porque não era para ser.
Cheguei a pensar em destinos, mas descartei rapidamente. E, depois de muito pensar, conclui que estamos sempre onde devemos estar. Não existe o lugar certo ou errado. O que existe é o lugar.
E foi essa premissa — que anos depois — eu usei para escrever meu segundo romance. Vermelho por dentro conta a história da artista plástica Deborah Bodeh… uma mulher que não perde tempo pensando em como seria a sua vida se ela tivesse feito outras escolhas.
Muitas pessoas gostam de analisar suas realidades a partir do famoso “e se”… eu tivesse acordado mais cedo! — amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Devia ter arriscado mais e até errado mais
Deborah fez as suas escolhas de vida. Mas ela não foi a única. Outras pessoas tomaram decisões que tiveram impacto em sua trajetória de artista plástica bem sucedida. Ela viveu o que pode… e foi em frente, sem se ocupar das perdas, erros, tropeços… consciente de que as quedas sofridas foram do exato tamanho da força que tinha para se levantar. — queria ter aceitado a vida como ela é. A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

Vermelho por dentro… traz essas duas personagens femininas ‘mãe e filha’ e seus dilemas de vida. Duas figuras firmes-fortes-e-sonoras, conscientes de que tudo poderia ser diferente em suas vidas, mas uma vez feitas as escolhas, não é possível olhar para trás e pensar um futuro novo — diferente. É preciso conviver com o resultado das escolhas feitas. O passado de uma determina o futuro da outra, resultando em mágoas-distancias-e-ausências. Mas nem mesmo a mágoa que pauta os gestos das personagens impede que elas se amem, se respeitem e torçam uma pela outra, em seus caminhos inexatos’.

| clique aqui para ler o primeiro capitulo da trama |


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10 | A última refeição…

Quando a execução de uma pessoa condenada a pena de morte se aproxima… é concedido o direito de escolher o que deseja comer em sua última refeição. Dizem por aí que tem relação com a última ceia de Cristo, a famosa Santa Ceia.
Baseado nesse costume o artista e fotógrafo especialista em comida neozelandês Henry Hargreaves recriou, com a ajuda de um amigo chef, algumas das escolhas feitas.
O resultado me fez pensar no que eu pediria, fosse o meu último dia de vida. E, depois de alguns minutos de olhar reto… a vigiar a paisagem de prédios que chega à varanda… conclui que eu pediria um rigatoni ao ragu de abobrinha com couve. Mas, teria que ser feito por mim e eu exigiria o ritual completo… desde o instante que antecede a decisão — no meio da madrugada —  com a cidade iluminada pelas luzes dos postes.
Teria que ser dia de feira… para pegar a minha sacola de pano e ir as ruas… passando por todos os cenários urbanos de ruas-calçadas-prédios-casas-pessoas-e-cães até alcançar as barracas com o conhecido colorido visual que tanto gosto de admirar. Ouvir a cantoria agradável dos feirantes é essencial e observar os produtos elegantemente acomodados. Provar de um pedaço de fruto aqui e ali. Sentir a textura dos tomates vermelhos para molho. Tenho preferência pelos holandeses… por serem menos ácidos. Cebolas roxas e alhos vermelhos. Um bom punhado de salsa e um belo talo de alho poró. A couve manteiga filetada bem fino e abobrinhas italianas raladas.
Do mercado, traria a pasta… e um bom pão escuro de grãos. Uma manteiga francesa, uma boa garrafa de vinho branco italiano, um azeite grego e um parmesão uruguaio.
No caminho de volta… eu ligaria para alguém para um combinar um café para um dia futuro… uma quinta, por ser o meu dia favorito — na semana — para encontrar pessoas. E passaria numa floricultura para comprar um pequeno arranjo de flores vermelhas.
Arrumaria a cozinha… a mesa com os melhores talheres, uma boa dupla de taças… e tomaria banho para só então iniciar o prato.
Começaria escolhendo uma boa ópera para tocar-cantar-embalar os meus gestos inteiros… lavar, cortar, picar e a água para ferver. Frigideira no fogo… fio de azeite e colher de manteiga para dourar a cebola, o alho e o poró. Gosto imenso quando os aromas se precipitam no ar.
E quando o prato estivesse pronto e servido… uma pausa. Os olhos bem fechados e um verso a se repetir secretamente por dentro.

Muita Loucura faz Sentido —
A um Olho esclarecido —
Muito Sentido — é só Loucura —
É a Maioria
Que decide, suprema —
Aceite — e você é são —
Objete — é perigoso —
E merece uma Algema —

Emily Dickinson
Tradução de Augusto Campos


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09 | ‘poemas canhotos’…

Algumas coisas não acontecem… como esse domingo azul, sem nuvens e com todas as coisas da cidade nos mesmos lugares de sempre. Eu preparei uma xícara de chá e fui me sentar no canto do sofá. Coloquei a minha playlist clássica para tocar e mergulhei nas páginas de ‘poemas canhotos‘ — o último livro escrito por Helder: “esses poemas que chegam / do meio da escuridão / de que ficamos incertos / se têem autor ou não / poemas às vezes perto / da nossa própria razão / que podem nos fazer ver / o dentro da nossa morte“.
poemas canhotos foi presente da amiga-portuguesa Manuela, que escolheu um dos que faltavam em minhas prateleiras para me enviar. A capa vermelha esconde treze poemas — número denso-forte-definitivo… quase um testamento. Em edição única — como determinou o autor-poeta. Se a vida se esgota… é poético propor o mesmo ao livro que se dedica e escreve.
Mas é estranho pensar que tudo que restou do homem é esse espólio que agora pertence a outra pessoa que decide como será publicado nesse pós-vida… poesia-poeta-homem. Respiro fundo! — tento me contentar com o que tenho em mãos — toda uma vida em versos. E isso é tão pouco, mas é tudo-tanto-muito… o mundo de Helberto Herder! — que não era um homem-poeta de multidões. Não visitava e era visitado por poucos. Figura de passo estreito, a percorrer as calçadas de cimento. Herberto não tinha por hábito conjugar o verbo acontecer.
Eu leio Helder com o entusiasmo de quem bebe uma xícara de café, em pequenos goles. Faço pausas e depois do último gole, observo atentamente o fundo da xícara. Não busco pelo futuro ali. Busco pelo silêncio, como quem medita e volto as páginas para um novo poema:

“em boa verdade houve tempo em que tive uma / ou duas artes poéticas / agora não tenho nada: / sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas”

Helder não salva o mundo! Mas, socorre a minha realidade… atormentada por números com os quais não sei lidar. Me afasto das coisas do mundo-vida e volto ao livro-páginas-versos. Constato que uma das coisas que me agrada em ‘poemas canhotos’ é que os poemas estão soltos nas páginas. Não há título a nortear o olhar… estão todos confinados à última página, em sequência, presos. E quando os alcanço, já tenho um mapa próprio e sei o que não-aconteceu, como esse domingo.


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