O fim só é uma palavra pra quem nunca morreu ao menos uma vez em vida!

(…)
e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos.

(…)

Um poema, de Jorge Pimenta
para a estação de setembro

 

Setembro acabou… esse mês que trás em sua anatomia a grafia do sete porque era o sétimo mês do calendário romano que abandonado foi em meados de um tempo esquecido no fundo de uma gaveta qualquer.

Gosto imenso do mês de setembro… de suas chuvas e de seus dias úmidos-frios porque a vida parece fazer uma pausa para que os dias seguintes aconteçam. A vida também precisa respirar fundo para ser flor no dia seguinte. Engana-se quem pensa que depois do fim, a gente engata a marcha e pronto. Olha lá pra fora e repara nos movimentos. A vida se refazendo nos dias de chuva. É lindo-mágico! A vida tem seu momento de luto e os vivencia intensamente…

A gente é que gosta de acreditar que ao ler a última página é só mergulhar no próximo livro. Eu não consigo… Fico com a história em mim, degustando-saboreando-deglutindo cada pequeno aroma. Revejo os trechos favoritos — sinto em minha derme as alegrias-tristezas-decepções de cada um dos personagens e, às vezes, penso em como teria escrito determinada cena. Digo em voz alta: eu teria feito diferente… e o riso floresce.

O fim não é apenas uma palavra. Só pensa assim quem, por ventura não saboreou de certos rituais. Nunca leu um livro. Acenou da plataforma da estação. Escreveu uma missiva. Recebeu nos lábios um último beijo. Mudou de casa. Fechou a porta. Pensou ter esquecido algo. Olhou nos olhos de alguém que atravessava o seu caminho. Disse adeus querendo dizer até logo e depois soube que não teria tempo para mais nada. Quem nunca escreveu um texto e ao final deste sofreu dias inteiros ao ouvir a própria voz anunciando: acabou e sentiu falhar o cuore, percebendo que uma parte de si, acabou junto.

Setembro acabou! Mas em mim ele ainda respira através dos versos da canção: “e sara´a settembre”

26 | s e g u n d a (última)

Neste estado não mundano em que me movimento
Minha Fe e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.
Allen Ginsberg

Dia quente. Segunda feira. Impossível dizer que o inverno se foi. O calendário diz que é primavera, desde o dia vinte e três. E a moça do tempo disse que a transição aconteceria por volta das dez e pouco (horário de Brasília) da noite… Eu estava ocupada com as páginas de uma história que se escreve-e-reescreve há alguns dias-semanas-meses…

Ainda é setembro… quase outubro — falta pouco. O ano ainda não acabou, mas pelo ritmo — alguém deu corda no mundo — não deve demorar.

Impossível não se espantar com a voracidade dos dias-horas e ainda há quem reclame da morosidade de Agosto, que passou por mim como se fosse um concorde, rumo a Paris.

Alongo os músculos. Coloco a água para ferver. Dou passos pequenos pelos cômodos ainda escuros. Escuto o som agudo da chaleira a gritar — desesperada — na cozinha. Corro para evitar o pior… Água quente na xícara e vamos ao tempo de espera — meu momento favorito.

Escolho um poema de Ginsberg para esse dia-momento — fico ou Parto, com constante alegria / Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados / Santa prece para o conhecimento ou puro fato. (…)

Lista de coisas a fazer-cumprir na mente: organizar as horas desse dia-semana, um mês novo para experienciar realidades outras. Organizar-me. Começar a ler outro livro antes que o mês acabe e a pilha aumente. Organizar-me. Ler e responder os e-mails pendentes, antes que tudo se acumulem. Organizar-me. Tramar os dias seguintes. Organizar-me. Ler os textos que se enfiaram na minha caixa de correspondência. Organizar-me. Flertar com olhares que se oferecem aos meus textos. Organizar-me.

Há tanto por fazer… mas tudo que eu quero é ficar aqui, no canto, a gozar da preguiça que chega e a ouvir o som das pás dos ventiladores em seus movimentos circulares. Mas eu preciso (eu sei) colocar as coisas em ordem, devolver os livros as prateleiras…

Organizar-me.

Deixei todas as coisas à deriva nos últimos dias. São os meus processos. Preciso esvaziar-me do ontem para alcançar o hoje-amanhã. Encher o peito de ar. Fechar os olhos e sentir-me dentro. Consciente de que tudo que era para dar certo: deu… e tudo que era para falhar: falhou.

Eu gosto desse equilíbrio… de saber que irei errar-acertar muitas vezes — ainda. Existe qualquer coisa de acalento nisso. Gosto imenso de ter certeza de que irei sorrir-chorar… amar-odiar… ser feliz-triste. É vida… e pulsa… pulsa… pulsa.

E eu gosto de como tudo acontece, mas até para isso acontecer é necessário: organizar-me! — Difícil é me convencer disso no momento. Há dias em que o meu corpo não reage. Os movimentos não acontecem e sinto aquela vontade de ficar debaixo das cobertas. Por isso que eu amo dias frios.

Dois mil e vinte e dois não está sendo fácil… os movimentos humanos estão tensos. Os ânimos acirrados. Verbos conjugados de maneira equivocada… pela esquerda-direita. Por todos nós. As notícias me incomodam. O som da televisão me aborrece. É sempre o mesmo ontem. Quando foi que todo mundo começou a se odiar? Uma moça foi agredida por dizer que não votaria no atual presidente. O homem-agressor misturou política-preconceito-ódio e partiu para o ataque. Armado…

E eu não sei o que sinto… Espio a prateleira e me lembro de Crime e Castigo — que não irie ler novamente. Fiódor passou anos de sua vida numa cadeira russa e presenciou o pior do ser humano. Eu vivo numa falsa-democracia, onde tudo é excesso, não importa o lado.

Na semana que passou surgiram fotos de livros vermelhos nas redes sociais. Não sei quem começou. Mas a minha tela ficou cheia. Confesso que eu ri… extremistas não gostam de livros. Não interessa a cor deles. O fato de ser livro, basta! E ser de esquerda não nos faz vermelho-sangue, cuore a pulsar. Nos faz humanos… Conscientes de que existem diferenças e desigualdades e é preciso fazer algo nesse sentido. Os outros querem apenas manter as coisas onde estão… mão de obra barata, lucros astronômicos. Por isso uma fatia de gente ainda aposta no nome que aí está: é a certeza do lucro e da impunidade, afinal, corrupção é moeda preciosa, contanto que esteja no bolso certo.

Ah, maldito sejam os Fariseus!…

E cá estou eu, me afastando do meu Norte… Foco, minha cara.
Não me misturar é difícil. Tento me preservar dessa falta de modos social. Nem sempre consigo. Ainda mais quando não entendo certas falas machistas-preconceituosas que insistem em reverberar. Como é difícil engolir certos desaforos. Às vezes, tenho vontade de chacoalhar o ser humano a minha frente, para ver se acorda, se olha e vê, se sua pressão sobe-desce. — se reage! Me certificar que há sangue em suas veias.

Me concentro em respirar… ainda que o ar esteja pesado-envenenado. E insisto em dizer em voz alta a quantidade de afazeres acumulados. Repito: organizar-me. Ler meus livros… planejar novos ‘cadernos artesanais’ e providenciar ingredientes para a hora do almoço.

Coloco Patti Smith no toca-discos… palavra antiga que repito com gosto. Lembro que a Scenarium abriu as portas para a poesia nos últimos dias — apenas dois dessa vez e, há manuscritos em minha caixa de entrada, aguardando leitura.

No ano passado… pouco ou nada me seduziu. Sou uma escritora-editora-Leitora… exigente-difícil… que gosta de, ao ler, sentir aquele aconchego da infância — ‘encostar a cabeça no peito e ouvir a marcha do cuore‘ — tum tum… tum tum…

| escrito ao som de dancing barefoot |

25 Estou sozinha no quarto, entre dois mundos

Caro Escritor,

Escrevo-te dentro dessa manhã de sábado, no segundo (ou seria terceiro?) Dia de primavera. Estou em dúvidas e ao olhar lá para fora, nada se esclarece. Será um lindo dia de sol. Mas está frio… E há um silêncio pouco comum na Alameda que exibe um vento típico dos dias de julho de ontem. Nesse ano não ventou dentro do mês, que foi seco e quente. Monótono e interminável. Ao contrário de agosto que passou por mim sem canto de pássaros na madrugada e sem flores de ipês, que vieram a surgir nesse setembro que se despede sem cerimônia alguma.

Preparei uma xícara de chá e fim me sentar aqui na varanda. Cobri as pernas com uma manta e viajei para outros ontens. Tudo muito rápido. Voltei… atraída que fui por uma dúvida que começou a existir no primeiro domingo — esse dia escolhido para trabalhar um capítulo do texto escrito em novembro passado, quando escrevi um por dia.

Até aqui foram três… e amanhã trabalharei mais um. Não estou satisfeita…
Não é novidade essa condição, eu sei.

Quando escrevi, no ano passado, foi um libertar-se diário. Os primeiros dias foram os mais difíceis e pareceu impossível escrever mil e quatrocentas palavras por dia.

Confesso que foi a primeira vez que escrevi sem rastro. Não tenho um diário de bordo da trama, dos personagens. Sei mais de Cecília hoje do que na época. Mas é, estranhamente, tudo intuitivo e estabeleci novas conexões aqui e ali. Abandonei outras, que à época pareciam certas.

Sei que tudo isso é comum a você… e a sua escrita. Mas não para mim. E a primeira vez que não lido com a realidade. As personagens não se apoiam em figuras conhecidas. Não há nelas nada de conhecido. Talvez sejam uma mistura de tudo que fiz até aqui.

Comparo Cecília a uma boneca de louça quebrada. Alexandra (em lua de papel) encontra uma e quer guardar. Essa cena eu vi em um filme. Não me pergunte o nome. Foi um recurso para explicar a personagem e eu achei poético aquele objeto de cena onde a personagem se reconhece.

O fio condutor que move a trama veio de um recorte de jornal. Notícia antiga. Eu gostava de vasculhar os cadernos em busca do trágico para descobrir o motivo. Compreender o horror na mente de certas personas.

Eu tenho alguma bagagem. Afinal, são quatro décadas de coisas acumuladas e deixadas para depois. Há vários elementos em cena, com os quais tenho proximidade, como a loucura de Cecília e suas certezas bem pontuadas e a dualidade — elemento essencial para mim — de Milena…

Enfim, claro que ainda precisarei de muitos domingos para ter algo que se assemelhe a uma história para que Sol em sagitarius mereça pousar em páginas e olhares atentos.

Au revoir

Setembro [entre tantas coisas] é o mês de Missivas de Primavera
e eu terei companhia nessa aventura semanal
Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Roseli Pedroso Suzana Martins

As estações das quais sou feita…

Há pouco eu vi uma folha desprender-se de uma árvore. Estava no meio do passo, com as mãos guardadas nos bolsos da calça. O pensamento ia a galope. Foi um voo lento… o último. Recordei um poema de miss Emily e cheguei a pensar em correr para recolhê-la em minhas mãos, antes que tocasse o chão — o seu sepulcro. Mas não o fiz. Fiquei presa entre a vontade rasa e uma lembrança inelutável. Não me movi por alguns segundos, tempo suficiente para acompanhar o pouso da folha no meio do asfalto cinza, com suas muitas ranhuras, que são como estrias ou veias.  

Hoje é o primeiro dia de primavera e no lugar de flores, são folhas que caem. Eu me divirto com a confusão das estações. Não há ciclos cheios. Há dias quentes e frios que dependem da força dos ventos que trazem nuvens em grandes maços.

Eu sinto falta dos rituais da infância. Os maços de flores enrolados em jornal. A mesa da cozinha. A caixa com apetrechos de jardinagem e velha tesoura para ajeitar as flores nos vasos. Cada cômodo com uma cor e um tipo de flor. Tulipas vermelhas, hortênsias azuis, margaridas africanas… Mas o momento especial era quando acontecia a floração da laranjeira no fundo do quintal — a árvore de fruta foi um presente de aniversário. Veio pequena, em um vaso. Era para colocar num canto qualquer. Não houve dúvidas. Foi direto para o chão e quando eu cheguei a casa 141 da Vila Giuliana, era maior que eu… Quando alcancei os meus sete anos, tinha o dobro do meu tamanho. Escalei o tronco, alcancei os galhos e fui apanhar o fruto na parte mais alta. Não houve surpresa, nem susto. Ela cruzou os braços e me mandou descer — não foi um pedido. E eu saltei sem dificuldades. Tenho certeza de que iria me dar uma bronca, mas quando estiquei a mão e lhe dei o que considerei a maior laranja do pé, tudo que conseguiu fazer foi exibir um enorme sorriso. Ela descascou a laranja e dividimos os gomos.

Acho que ela teve certeza naquele instante de que eu não seria uma criatura fácil…

A Casa de Alices

Na noite de ontem, participei de uma palestra para mulheres em um novo espaço. Foi um convite que não pude recusar. A Casa é para mulheres vítimas de maus tratos na periferia paulistana e algumas estão destruídas por dentro, outras apenas por fora, com marcas que desaparecerão em breve.

Levei Alice comigo e uma ideia que durou poucos minutos. O diálogo fluiu naturalmente. Todas queriam compartilhar da alegria que é escrever a partir de suas emoções. Tarefa nada fácil que elas estavam disposta a praticar. Um caminho para abordar o horror que é ser uma vítima…

Uma delas, quase sem voz, quis saber: o que te fez escrever histórias? Voltei no tempo… A minha infância de novo — esse porto para todas as minhas viagens. Lembrei que eu estava na cozinha com a nonna. Ela misturava ingredientes na sua vasilha de vidro azul. E eu quis saber dela: o que faz uma pessoa contar histórias?

O nonno era um dos melhores nesse tema. Todo almoço de domingo terminava com ele narrando suas lembranças. Ele as escolhia como quem pega uma carta após embaralhá-las.

A nonna não parou o que estava fazendo, mas esticou o olhar para me observar por alguns segundos e depois de sorrir a sua vida inteira, respondeu. Para não deixar se perder tudo que sou e para que outras pessoas saibam que é possível viver. Eu escolho uma lembrança e a melhoro ou pioro de acordo com o momento e com a pessoa com quem divido minha existência.

Fiquei algum tempo a pensar nisso… vi os ingredientes virarem uma massa, que foi sovada e separada em pequenos gomos… abertos e recheados. E ao perceber a minha inquietação, ela quis saber: “que história você gostaria de contar, para mim?”

Arregalei os olhos. levantei a sobrancelha, respirei fundo. Vasculhei minhas lembranças poucas e nada encontrei. Era tão pequena e tudo começava a se erguer ao meu redor. O que sabia eu da vida, do mundo? Não tinha uma história para contar. Se eu morresse naquele minuto, tudo estaria perdido. Respirei fundo, exibi um sorriso bobo e pensei: quero te contar uma história que ainda não aconteceu. A de uma menina que descobriu que pode inventar o seu próprio mundo.

E a nonna se pôs a ouvir aquela história curta, infantil — quase uma lenda celta. E quando reparei que ela estava com os olhos cheios, quis saber o motivo. E ela disse: todas as minhas histórias continuam em você e vão te ajudar a erguer esse mundo e talvez, o de outras mulheres que souberem da história dessa menina…

Claro que eu me emocionei ao contar essa história e precisei de ar. Ganhei um abraço da mulher que estava ao meu lado e que havia me convidado. Ela havia lido Lua de Papel. Vinda do interior de Minas, havia se identificado com Alexandra. E depois leu Vermelho por dentro e Alice — o motivo do convite. Mas ninguém ali queria comentar a personagem e sua história, porque era um eco de suas vidas e doía saber o desfecho. Uma delas, disse: queria que ela estivesse aqui, para que pudéssemos ajudá-la. Mas a outra foi enfática. Não! Ela não estaria aqui. Ela esta no lugar em que não queremos estar…

E eu segurei a mão das duas… enquanto agradecia a nonna.

Papel em branco

Primavera/08

Sai às ruas para visitar essa pequena parte de São Paulo que tenho para mim… Ver as ruas, sentir os aromas é tudo que precisava hoje. As ruas exibem aromas inéditos. Hoje eu senti cheiro de bolo de laranja. Não sei de qual casa vinha. Espiei uma a uma. São muitas, uma depois da outra. A maioria com as portas e janelas bem fechadas — coisa comum nesse bairro onde impera as ausências.

As pessoas não se sabem e não se visitam. Não dizem “bom dia” umas as outras e quando passam, em suas rotinas matinais de caminhadas em prol da saúde, evitam o outro, os olhos vigiam o chão onde pisam. São estranhos vivendo numa mesma rua.

De movimento mesmo só o do rapaz que se ocupa de “cuidar das casas” e passear com os cães…

Passava das três… e o céu desfilava seu azul, com o sol forte de verão a cuspir seus raios por cima das folhas que nada sabem do inverno. Há folhas secas aos montes na praça da esquina. Há tempos que residem por lá e se acumulam em pequenos montes que o vento organiza — dividem espaço com os bancos quebrados e a grama cheia de restos humanos…

Gosto de folhas secas e seus sons — uma amiga me escreveu contando que não sabia que as folhas secas estalavam. Eu achei curioso, fiquei a pensar em como seria não saber desse pequeno detalhe precioso para mim. Senti vontade na mesma hora de escapar para a praça e pisar folhas para ouvir a melodia da estação. Ajuda-me com a “ilusão de outono”…

As estações do ano em São Paulo limitam-se as minhas ilusões. Tudo muda tão depressa. Nem a poesia de Baudelaire acompanha o ritmo paulistano. Antes do meio-dia faz sol e tudo derrete… do asfalto as paredes das casas que ardem nos olhos. Depois das duas, tudo muda… as nuvens surgem em grande volume. Nem sempre chove, às vezes, garoa. Foi difícil explicar em uma missiva o que é a tal da garoa… imitei Mario de Andrade e a comparei a neblina de Londres. Não é a mesma coisa, mas funcionou.

São Paulo é uma cidade curiosa… cada bairro é um país inteiro. Dá para atravessar continentes. Tudo tem metragens impressionantes — mas é sempre longe, fora de alcance. Leva-se um dia inteiro para ir de um canto ao outro.

O Alto da Lapa — onde atualmente resido — é um lugar fantasma, com muitas lendas. Na casa da frente, aconteceu um crime. Mas ninguém fala a respeito. Na rua de baixo uma casa abandonada era porto seguro para um homem de armas que surtou e matou a família inteira. Tudo contado pelas funcionárias que deixam o trabalho por volta das quatro e tagarelam nos portões por uns quinze minutos, antes de seguirem para seus destinos — cada uma vai para um canto da cidade e levam suas muitas horas até chegar as suas ruas habitadas. Gosto de ouví-las… os sotaques que saltam de suas bocas. Há quem veio de Minas, Bahia e todas ressaltam saudades dos lugares de onde vieram, mas não falam em voltar. É como se fosse proibido — por elas mesmas.

O interesse do leitor

No último encontro do Clube de Escrita da Scenarium… uma pergunta feita por Isabel — uma das alunas — ficou comigo, viajando pelas linhas de meu corpo. Gosto imenso quando acontece. Meu pensamento navega por inúmeras direções ao longo de um dia. Enquanto costuro os muitos pedidos feitos nas últimas semanas, preparo textos e faço uma receita de bolo, volto ao assunto e vou dissolvendo-o em pequenos goles de tudo e nada.

Como saber se o assunto-tema sobre o qual escrevo será interessante para o leitor?

Que pergunta mais estranha! — foi minha primeira reação após a aula. Acredito que a maioria dos novos escritores pensam a respeito. Os que escrevem há mais tempo, devem ter se questionado a respeito; mas com o passar das linhas, a pergunta virou fumaça no ar.

Eu não havia pensado nesse tema até aqui porque escrevo por escrever somente, como afirmo a quem quer que me interrogue a respeito… desde a infância.

E ao olhar para os meus textos todos: ensaios, artigos, romances, contos, algumas crônicas, nenhuma poesia e dezenas de missivas — encontro uma possível resposta para essa pergunta?

Tudo depende do ponto de vista porque a bússola que eu carrego no meio do peito, aponta diretamente para mim. Eu sou o Norte da minha escrita. Tudo passa por mim, ainda que não seja coisa minha… em algum momento a simbiose precisa ocorrer.

As histórias de outras pessoas e os lugares. Eu habito e sou habitada. Eu pertenço a tudo isso. Sabe quantos vezes eu morri?

Mário de Andrade tem uma frase que eu adoro: outras estão mirradinhas, coitadas! Ele falava a respeito de suas ideias e na maneira como tudo mudava de ontem para hoje e deixavam de ser uma coisa para ser outra e outra e outra.

A pessoa que escrevia morria e nascia outra no lugar. Me fez pensar em um dia de inverno, no interior de Londres. Eu vi uma árvore seca e pensei estar morta. Ela vivia o seu inverno — não o seu fim, apenas um intermezzo ou hiato, como preferir.

Entendi a mim mesma e tantos versos lidos ao longo da minha trajetória através daquela árvore.

E o que tudo isso pode interessar a quem me lê? Não faço ideia e não vou gastar um minuto do meu dia a pensar nisso. Prefiro ler Helder. Escrever a Suzana, Mariana ou para mim.

Tem tanta coisa a meu respeito que preciso contar-me. Eu sinto necessidade de narrar-me em linhas. Não sou uma pessoa de falas e ao ter que falar, parece mentira, coisa sem peso ou valor. Me junto ao coro das tagarelas e é tudo tão frágil-fraco. Me lembra aqueles jantares gregos em que os pratos são atirados contra o chão… eu sou a pessoa que recolhe os cacos.

Eu prefiro a quietude de uma frase bem pontuada, escrita depois de um pesado gole de café-chá.

Hoje, talvez eu faça pão e me lembro do espanto de Mariana ao ver a minha massa dobrar de tamanho em um dia frio. Era agosto. Ela lançava o seu Cadeados Abertos e eu, o meu Septum.

Quando o escrevi, cumpri uma rotina de escrever dentro das quintas-feiras, esse dia que desde a infância é para se fazer bolo. Escolha a receita. Minha mãe dizia que se tiver que conversar a respeito de alguma coisa, faça isso, na companhia de uma generosa fatia de bolo. Eu achava graça. Mas mantive a nossa tradição.

E o que isso importa a quem me lê? Eu sigo sem saber e sem me importar. Eu escrevo e penso que é como aquela garrafa que se atira ao mar. Talvez alguém a encontre e sinta alguma coisa, ao ler. Seria beleza? Penso que sim porque eu sei o que me faz ler um texto. Ele precisa falar comigo, atiçar labaredas. Aquecer alguma coisa lá dentro. Um texto chato não me faz ouvir o carrilhão da minha infância ressoar pelos cantos do meu corpo.

Ah, eu já falei disso tantas vezes. O som do carrilhão. Um móvel desarticulado que pulsava as horas cheias. E que som gigantesco tinha aquele bicho indócil. Ele era Chronos e me desafiava. Não conseguia dormir por causa dele, nas primeiras horas da noite-primeira. A casa inteira cantava com ele.

Uma vez, eu fiquei lá, parada diante dele — enfrentando-o. Eu tinha o tamanho de uma criança de cinco anos. Quer dizer, eu era um pouco menor que isso. Mas encarei o bicho. Toda corajosa… até ele cantar a primeira hora do dia seguinte.

Tapei os ouvidos e me encolhi. Disse ao mio nonno que fiquei do tamanho de uma noz. E ele riu. Depois me contou uma história a respeito do tempo. Até hoje me arrepia a narrativa que ouço dentro, lado a lado, ao som daquele bichano.

Ele parou de badalar porque o tempo é assim. Ele acaba e nos também. Somos finitos. Basta uma fração de segundos para deixarmos de ser o que somos.

E o que importa é a beleza de tudo isso. E quando falo em beleza, não me refiro às coisas comuns que se limitam a ser bonitas e feias. Falo daquela tela presa a parede que impede o passo e me obriga a ficar um pouco mais.

Chuva de homens, de Magritte. Ou o Abapuru de Tarsila. O homem amarelo de Anita. A fotografia da vidraça quebrada no pós guerra, um registro feito por Annie Leibovitz. Um conto escrito por Mia ou um verso de Cecília, Rupi, Kátia, Rosana e tantas outras. A colcha de retalhos de Mariana. As andanças de tantos de nós. Os (in)versos de Suzana. Os contos de Margarida ou as Ruas de Obdulio…

O que faz um texto interessante para os outros é a pausa, o silêncio e o elo impossível de se romper. Eu gosto de pensar que folheio velhos álbuns de retratos e vou reconhecendo o lugar, as pessoas e a mim mesma.

A leitora que eu sou, agradece.

18 |  Deixa o coração se apaixonar pelas paisagens

Cara Roseli,

Passei a noite com os olhos a piscar realidades… Vigiei a tela da televisão. De filme em filme… fui saltando para cá e para lá, sem me apegar a nada. Vez ou outra, o olhar se voltava para dentro e ficava por lá, a vigiar outros dias-semanas-meses, sem pousar em nada. Sabe aquela sensação líquida, de chuva na vidraça e o dedo a seguir às gotas que escorrem cristalinas pelo lado de fora do vidro?

Mas não choveu… e havia promessa de sol. Por ser domingo, eu sabia que teria de ir à feira, fazer bolo ou uma receita de pão, no meio da tarde. Mas eu não vi as horas desse domingo passaram. De repente, a noite cobria a cidade com seu poderoso manto escuro. Gosto imenso de apreciar o momento em que as luzes se acendem ao longo da Alameda… nas janelas dos prédios.

E, ao olhar lá para fora, dentro dessa noite que segue avançando horas a dentro, pensei nos dramas de Cecília… que não consegue preencher seus vazios. Gosto imenso dessa personagem, que não é a principal. Mas é uma antagonista interessante que dobrou de tamanho desde o primeiro parágrafo.

Ela é uma artista plástica que lida com o barro. É curioso vê-la com as mãos úmidas a trabalhar a argila. Combina com a pessoa que ela é… Uma figura que valoriza o silêncio e os espaços menores. A primeira exposição dela foi em uma pequena sala. Duas peças que exibiam um toque sofisticado e criativo. Soube mais tarde que foram adquiridas por João Victor — um personagem de poucas palavras.

Cecília, minha cara… não foi pensada-tramada. Nem mesmo a sua arte foi investigada por mim. Tudo o que sei dela, foi surgindo enquanto escrevia. Uma espécie de experimento que se assemelha à feitura de uma fornada de pães.

Foi estranho escrever Cecília sem nada saber, no escuro. A sensação que eu tenho é que sai de casa e fui para um dos cafés da cidade e, de repente, engatamos uma conversa-muda. Entre goles, a ouvi narrar a sua história.

Falou de Augusto, o homem que a encantou num primeiro momento para desapontá-la depois. E antes de falar de João Victor, fez uma pausa e pedi outro expresso. Ela parecia querer ouvir a própria voz reverberar pelo espaço ao dizer que não olhou para ele quando foram apresentados. Respiro fundo enquanto aprecio o susto que acontece quando se dá conta de que uma mulher-artista enganou-se com os dois homens de sua vida.

Cecília é a mãe de Milena, a personagem principal… de quem sei tudo-tanto, ao contrário dessa mulher-artista que não consegue se relacionar com a parte que sobreviveu. A perda a feriu gravemente; fazendo-a mergulhar na loucura. E depois de seguidas internações, passou a fingir lucidez. Mas a convivência com a filha que lhe restou, não foi fácil… e no momento em que narro, atinge o ápice do caos.

Sylvia Plath tinha razao, as personas são as nossas melhores paisagens…

Au revoir

Setembro [entre tantas coisas] é o mês de Missivas de Primavera
e eu terei companhia nessa aventura semanal
Mariana Gouveia – Obdulio Nuñes Ortega – Roseli PedrosoSuzana Martins

Mais um ontem colecionável

Nove e vinte e sete.

É noite. Janela aberta. Cama desfeita. Xícara de chá em mãos. É primavera, segundo o calendário. Mas a minha alma só sabe falar-me do inverno. Ouço o som do carrilhão ressoar do ontem e a pele reage, com um arrepio que percorre toda a extensão do meu corpo. Respiro fundo. Bebo um pesado gole de chá… e sinto os passos pelo assoalho, que rangem à minha passagem. Da cozinha vem a voz sonora do nonno que cantarola suas músicas de antes de ontem. E meus lábios começam a se mover num cantarolar conjunto.

Dio, è proprio tanto che piove
E da un anno non torno
Da mezz’ora sono qui arruffato
Dentro una sala d’aspetto
Di un tram che non viene
Non essere gelosa di me
Della mia vita
Non essere gelosa di me
Non essere mai gelosa di me

Sinto falta desses momentos menores. Essas coisas que se acumulam na soleira do corpo e falam alto quando todas as outras se calam.

Olho lá para fora e a realidade acena com uma noite escura e sem lua. Volto-me para dentro e observo os livros na prateleira. O olhar escolhe o que lê e a memória onde pousar. Na última vez que estivemos juntos — não era verão. Ele pediu a minha presença e eu larguei tudo.

Comemos caldo de massa na cozinha… uma exigência minha. Um dos meus primeiros rituais. A cor e o aroma era coisa apenas minha. Eu era a primeira a chegar. Sentia os espaços todos… me certificando que tudo estava como eu me lembrava, desde a primeira vez. Fechava os olhos e tragava pesado dos cheiros daquela casa. Ouvia o ressoar do carrilhão e estremecia por inteira.

Saímos para caminhar após o jantar… Ele me falou suas histórias-primeiras. Como chegou a região e escolheu o lugar para fincar suas raízes, e ver tudo acontecer. Mostrou a árvore que plantou. Dava para ver toda a extensão de suas terras dali.

Ele recolheu um galho do chão e eu colhi uma folha, que encontrei no meio da tarde de hoje, em bom estado, dentro do livro de poesias que ele me deu, naquele dia. Ele o comprou numa pequena livraria depois de um verão-qualquer. Confidenciou que não tinha lido Eliot, mas ao ouvir a nossa conversa (Pr e eu) na mesa da cozinha, quis ler o homem inglês. Mostrou o seu poema favorito, que eu marquei com a folha, para ler nos dias seguintes aqueles e me lembrar do homem que se foi em outubro, poucos dias depois da minha visita.

A minha famiglia não foi mais a mesma. Era ele quem nos matinha unidos. O lugar foi esvaziado e vendido. Uma parte de mim morreu naquele dia… Mas renasce toda vez que a memória acena com um desses ontens colecionáveis que não se extinguem.

Loucas noites / Wild Nights

Fui a prateleira há pouco e busquei os livros de Emily… uma decisão tomada ao despertar: ler Emily Dickinson nessa manhã de inverno-domingo. Tenho alguns livros da poeta-mulher, que em seu tempo foi considerada inadequada-imprópria-fora-do-comum.

Hoje, muito se fala de Emily e dos motivos que a fez reclusa… da paixão pela cunhada, que morava na casa a frente e uma das poucas pessoas a quem confiava a sua escrita e aceitava “remendos”. Em vida, apenas meia-dúzia de poemas foram publicados em um jornal — causou alvoroço na família. Uma coisa era escrever… outra era ser publicada. Pior, ser lida… Não voltou a se repetir, mas a escrita continuou ao longo dos seus anos de vida. Escrevia dentro da noite, após finalizada a rotina naquela casa. Emily não se casou e muitos acreditam que a mulher se vestia de branco por causa de uma doença-rara para aqueles dias e facilmente tratável nos dias atuais.

Much Madness is divinest Sense —
To a discerning Eye —
Much Sense —
the starkest Madness —

As lendas ao redor da poeta ajudaram a atravessar os anos, permitindo que fosse redescoberta. Publicada sem cortes ou “cirurgias”… Emily foi considerada modernista. Nascida em uma Cidade conservadora dos Estados Unidos — Amherst — começou a escrever a partir de 1850… totalizando pouco mais de mil e quinhentos poemas, que foram encontrados após sua morte — ocorrida em 1886 —, por sua irmã Lavínia.

A primeira vez em que li Emily foi no ano de 1986 — cem anos após a sua morte. O pequeno livro deixado na mesa da cozinha atraiu a minha atenção. Capa antiga-escura-dura. O formato era diferente dos demais e as páginas tinham um amarelecido diferente. Na primeira página havia uma dedicatória — tratava-se de um presente.

E lá estava a poesia que cobriu a minha pele com arrepios:


I´m nobody! Who are you?
Are you — Nobody — too?

Passei a existir dentro desses poderosos versos. Foi como olhar no espelho pela primeira vez e dar por mim. Tomei para mim a sua voz, o seu sopro, as suas medidas. Nenhuma abelha foi a mesma depois disso. As cores se redefiniram. Tudo que eu sabia até aquele instante — pouco ou nada — tornou-se rarefeito. Um único e poderoso verso…

Eu Me apaixonei pela poeta…e fui devorando cada um de seus poemas deitados naquelas páginas. De uns gostei mais que outros. Meu inglês ainda não permitia grandes leituras. Havia a tradução ao lado, mas eu queria ler o original. Não queria um idioma entre nós ou quaisquer outra coisa. Recorri ao dicionário e me dediquei mais as aulas de inglês — que até aquele momento eram feitas com descaso. Passamos a ter um dia para o idioma-novo naquela casa. Durante horas inteiras, migrávamos para alguma cidadezinha do interior do Londres.

This is my letter to the World
That never wrote to Me
The simple News that Nature told —
With tender Majesty

No Brasil há algumas traduções de Emily Dickinson e eu li várias… a que menos me incomoda é a seleção feita por Isa Mara Lando, intitulada Loucas Noites. Ela foi feliz na escolha do título do livro, usou um verso da poeta estadunidense:

Wild nights, wild nights — !
Were I with thee
Wild Nights — should be
Our luxury!

Isa Mara Lando respeitou o ritmo da poesia de Emily e tentou não inserir rimas ao traduzir, nem escapar da força do verso. Foi feliz e o resultado é agradável para o leitor… Mas há perdas entre um verso ou outro. Nas últimas páginas, ela exibe algumas explicações e nos conta como foi o processo de tradução — é uma leitura interessante: uma espécie de mapa.

O inglês de Emily Dickinson é antigo e algumas palavras não se adequam a outro idioma — sendo necessário investigar possibilidades. Foi o que Isa diz ter feito… Mas alguns sentidos foram muito além da poesia deixada por Emily e isso é comum acontecer em traduções, principalmente quando se trata de poesias.

Alguma coisa sempre se perde.
É um jogo… de palavras.

Look back on Time, with kindly eyes —
He doubtless did his best —
How softly sinks the trebling sun
In Human Nature´s West —

Loucas Noites / Wild Nights
55 poemas / poems
Edição Bilingue
Disal Editora