A volta dos manicômios

Faz alguns anos que me causa incômodo o tema… em 2019, o atual governo havia liberado a compra de aparelhos de eletrochoque para o SUS e a internação de crianças e adolescentes em hospitais psiquiátricos, acendendo o receio de que seria inevitável a volta dos manicômios, estruturas que ficaram conhecidas como depósitos de pessoas.

Mas a última notícia caiu feito uma bomba, o Governo anulou — com sua conhecida caneta Bic — todos os avanços conquistados no tratamento da Saúde Mental nos últimos anos, liberando investimentos no velho modelo psiquiátrico que ainda não foi de todo superado. Quem é da área sabe que o esquema segue em funcionamento em muitos cantos do país, clandestinamente ou disfarçados de clínicas antiestresse.

A notícia me fez voltar os olhos para a literatura, que aborda o tema de tempos em tempos. A Scenarium lançou o livro-história escrito por Mariana Gouveia — corredores, codinome: loucura — em que a personagem da trama é uma menina que grita contra os abusos cometidos pelo padrasto e acaba apontada como louca.

Uma história comum que, infelizmente, se repete aqui e ali. A maioria de nós, se não conhece alguém nessa situação, ouviu relatos a respeito.

Desacreditada e rotulada, a própria mãe leva a personagem para um manicômio e não foi necessário exame que apontasse um problema de saúde mental na menina. A Diretora do lugar era irmã do abusador e facilitou todo o processo, trancando-a naquele lugar e submetendo-a aos conhecidos rituais de torturas, oferecidos nesses cenários de horror.

Pessoas eram arrastadas e trancadas, independentemente de seu quadro clínico, em sua maioria: mulheres que fugiam as regras da família — os tais valores, pelos quais pessoas de bem gostam de gritar e enaltecer; ou que eram fardo para os maridos que queriam outras esposas, mais jovens e bonitas.

Esquecidos… eram submetidos a tratamentos diferenciados: novos abusos. No Brasil, o uso da terapia de eletrochoque era bastante comum, além de medicamentos em fase de testes, que faziam desses “pacientes” meros ratos de laboratório.

A literatura buscou suas referências nesses “castelos de horror”. Mariana não foi a única a retratar essas “instituições” financiadas pelo governo ditatorial dos militares, que usavam a loucura como justificativa para certos comportamentos.

Lima Barreto escreveu diário do hospício, narrando suas “aventuras” por um manicômio, para onde foi levado pela polícia para “tratar do alcoolismo”. No diário relata como foi viver em um hospício e em Cemitério dos vivos utiliza-se da ficção para relatar a sua experiência com a loucura.

O que Mariana fez, foi semelhante… experimentou a sensação da loucura. Maria —personagem principal da trama — recorre a esse argumento, na tentativa de preservar a sua sanidade. Mas após tantos abusos, começa a questionar a própria lucidez e passa a acreditar que enlouqueceu de fato.

O romance é baseado em fatos que foram confidenciados a autora e não é possível não se sentir incomodado com a narrativa… independentemente de você conhecer ou não a realidade dos hospícios brasileiros.

Em São Paulo, um incêndio destruiu a memória do Juquery — uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil, situado em Franco da Rocha — ao atingir o prédio administrativo. As únicas vítimas foram os próprios residentes do local. Todos os documentos e relatórios foram perdidos, impossibilitando saber o verdadeiro número de pessoas que por ali passaram, estima-se que mais de 18 mil pessoas foram confinadas ali, longe dos olhos da sociedade paulista que não queria conviver com os “seus loucos”.

Os últimos pacientes do local, que fechou suas portas de maneira definitiva em 2021 vivem atualmente em RT — residências terapêuticas — casas nas quais vivem em sistema familiar com outras pessoas em sofrimento psíquico, com o apoio de profissionais, mas isso pode mudar a qualquer momento. O atual governo não acredita nesse tipo de tratamento e parece preferir as antigas masmorras de confinamento.

Holocausto brasileiro, escrito pela jornalista Daniela Arbex é outro livro que resgata a história de 60 mil mortos em um hospício mineiro, conhecido por Colônia, situado em Barbacena. Epilépticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas e meninas que engravidaram antes do casamento engrossavam o número de pacientes. A maioria não tinha tinham doença mental comprovada.

No hospício, perdiam seus nomes e suas roupas. Viviam nus, comiam ratos, bebiam água de esgoto, dormiam ao relento e eram espancados. Nas noites geladas, cobertos por trapos, morriam de frio, pela fome ou por doenças. Em alguns períodos, morriam 16 pessoas por dia nesse manicômio.

Os cadáveres, com a conivência de médicos e do Estado, eram vendidos para Faculdades de medicina e quando não havia compradores, os corpos eram banhados em ácido no pátio, diante dos internos.

A literatura ao narrar essas histórias, ocorridas entre os muros desses cenários de filme de horror, tenta evitar que essas atrocidades voltem a acontecer. Mas o atual Governo se mostra empenhado em repetir essa realidade…

Através da Portaria 596 revogou programas que visava reintegrar pessoas com problemas de saúde mental à sociedade. E através do Ministério da Cidadania abriu Edital para investimento em hospitais psiquiátricos, dando aval para trazer de volta todo o horror representado por essas instituições, que não tinha pessoal especializado no trato diário com pacientes e não se preocupava em relatar se essas pessoas, de fato, deveriam ser apartadas do convívio social.

Antigamente, os registros nesses hospitais eram “de uma violência enorme”. “Identificavam as pessoas como ‘ignorado preto um’, ‘ignorado preto dois’. Havia uma completa violação da dignidade dessas pessoas.

A quem interessa repetir esse horror e trancar pessoas por uma vida inteira em condições sub-humanas? Conhecendo a realidade brasileiro, me faz acreditar que há muitos interesses envolvidos…

Será que alguém se atreveria a listá-los?

Adeus, Fellini!

Numa bela noite de junho de 2017 — com direito a lua cheia no céu — nos encontramos no Café Feliini para celebrar o lançamento do primeiro Coletivo Scenarium — que reuniu 09 poetas e seus poderosos versos em páginas alinhavadas por mim… entregue em mãos, embrulhados com papel de pão e fechados com a mesma fita de cetim que usei para costurá-los. Foi divertido vê-los se comportar feito crianças…

Naquele dia, eu não imaginei que estaria sentada diante da tela — nessa espécie de futuro envenenado e condenado à morte — com os olhos embaçados e o cuore a falsear dentro do peito ao saber que o lugar irá fechar as portas para ceder espaço para mais um empreendimento imobiliário… que nunca antes esteve voraz.

Não passa um único dia sem que eu leve um susto por aqui… ao voltar do mercado na semana passada, vi que uma antiga casa estava no chão. Na rua de cima, o mesmo aconteceu com um quarteirão inteiro, em poucas horas. No muro de metal, penduraram a placa da empresa responsável pela demolição, que foi transformando tudo em ruínas.  

O Café que fica no fundo do antigo cinema — abriu as portas em 1995 e foi um dos principais responsáveis pela guinada da Rua Augusta — foi escolhido por mim para o lançamento, por ser um dos primeiros lugares a me receber, na cidade. Um novo amigo quis saber: conhece o cine 4? E eu avisei que era recém-chegada e tudo que eu conhecia era aquele templo sagrado… a Biblioteca Mário de Andrade.

Ele me fez guardar tudo, me pegou pela mão e subimos a Rua Augusta num fim de tarde movimentado… Me apaixonei assim que comecei a subir aqueles degraus em pares. Passei a frequentá-lo e era conhecida pelo nome, tanto que ao dizer que gostaria de lançar um livro ali… ganhei um abraço da queridíssima R., a quem presenteei com um exemplar artesanal.   

Ali eu bebericava xícaras pesadas de chá, servidos em generosos bules coloridos, sentada em uma daquelas confortáveis mesinhas, enfeitadas com um pequeno vasinho. Gostava imenso das janelas enfeitadas com girassóis-tulipas… que me faziam questionar se antes, o lugar não era uma dessas praças de bairro.   

No jardim havia uma linda árvore centenária que me brindava com a sensação de quintal de casa… Era perfeito para escrever uma crônica, enquanto observava o movimento entre sessões e pequenos goles. Ali vi estranhos se misturarem a conhecidos: autores, atores, músicos, cineastas, jornalistas, poetas…

E ainda não consigo acreditar que o lugar será demolido para virar mais um condomínio… soube que o cinema do outro lado da rua continuará a existir. Mas não tem o mesmo charme-elegância. Não é um quintal de casa com uma árvore. É apenas um espaço mais moderno, igual… meio sem graça.

  Pois é, alguma coisa acontece no meu coração… e não é que eu seja apegada às coisas-pessoas-lugares, mas certos espaços fazem de uma cidade o que ela é. E faz tempo que São Paulo vem perdendo muito de si para esses empreendimentos. Está virando uma cidade sem alma… apenas casca. Daqui a pouco não poderemos dizer que existe amor em sp...  

Um grito a ecoar nas paredes do corpo-casa

Enquanto o molho salsa estava a cozinhar, pensava na minha escrita e nessa voz que surge quando os dedos se movimentam afoitos pelo teclado. Eu falo enquanto escrevo ou seria melhor dizer que resmungo palavras-frases para ouvir o que sinto-penso enquanto escrevo-transbordo?

Preciso ouvir-me… sabe?

A primeira vez que ouvi falar a respeito da voz do autor… foi durante as aulas de literatura contemporânea. A professora disse em voz alta, em seu palco particular: todo escritor tem uma voz única e a empatia que sente ao ler determinado autor diz muito sobre você

Eu não me entendi com esse processo… Fiquei à deriva, em alto mar. Não importava para onde eu olhasse, lá estava o azul céu-mar… Misturados em meu par de olhos.

Eu era apenas uma pequena leitora que escrevia notas em um caderno. Fazia redações escolares em parcas linhas, difíceis de serem respeitadas. Mas encontrei um caminho para a minha escrita ao saber o exato instante de ruptura, deixando um rastro — que a literatura chama de gancho — para a narrativa seguinte…

Todos os meus textos escritos nas aulas de redação formavam uma espécie de vagões conectados à locomotiva que eu era. E esse meu artifício não passou despercebido. A professora ao apresentar aos meus pais o meu arquivo, anunciou: falta apenas um título para o conto que a sua filha escreveu nas minhas aulas

Nada disso, no entanto, me ajudou a entender a tal voz do autor. Antes de escrever, eu pensava no que gostaria de narrar-contar e optava por personagens da minha realidade… Qualquer coisa que chegasse às portas da minha matéria: servia.

As mulheres da minha rua alimentavam-me com frequência. Eu observava as inúmeras histórias pitorescas do portão de nossa casa. Certa vez, duas mulheres se engalfinharam na calçada. Agarraram os cabelos uma da outra e os puxavam com toda a força. Trocaram unhadas, coices e xingamentos múltiplos.

Uma cena shakespeareana.

Dois homens tentaram separá-las e acabaram apanhando por se intrometerem e foram varridos de lá. O motivo da briga? Uma fofoca feita pela senhora que passava os dias em sua janela, tomando conta da vida alheia.

Eu a observei por alguns segundos, enquanto tudo acontecia. Ela parecia satisfeita com a confusão que havia provocado. Tenho certeza de que vi qualquer coisa de sorriso naqueles lábios opacos e murchos. Ao se ver detida em meu olhar, foi ágil em fechar as cortinas para rir em segredo.

As duas vizinhas que, antes eram amigas, não voltaram a se falar e proibiram os filhos de travarem qualquer tipo de contato. Mudaram os caminhos de seus passos apenas para não passar na frente da casa uma da outra… e os maridos optaram por obedecê-las, desfazendo a amizade. Certa vez, os vi sentados em mesas opostas na praça. Jogavam cartas com novos parceiros e trocavam olhares enviesados, forjados em ódio destilado.

Eu não cheguei a uma conclusão a respeito do que se passou…
Hoje, fosse escrever, o faria no melhor estilo Anais Nín.

Consciente de que cada escritor tem a sua voz… Decidi tentar identificá-las e para isso, recorri às minhas autoras favoritas. Gosto imenso da maneira como Jane Austen fala das mulheres de seu tempo. Não enxergo heroínas e vilões — como tantos leitores — em sua narrativa. O que percebo é a necessidade de mostrar-se enquanto mulher dentro de uma época… um elemento que nos une em tempo e espaço. Mas o que me agrada mesmo em Austen é o cuidado com o texto, a prosa elegante. Muitos afirmam que sua gramática era ruim; como se houvesse algum bom escritor que se preocupa com regras de pontuação ou qualquer outra, na hora de escrever. Sabe-se o mínimo e pronto. Não escrevemos gramáticas. Usamos o que sabemos, o que somos e não devemos esperar mais. Acho que todo escritor é anti-grámatica e estabelece linguagem própria para si e seus escritos.

Eu me deleitei com o que chamo de período laboratorial de Austen. Os muitos borrões, rasuras, confusões e a quebra de regras. E me deleito sempre que ouço ou leio alguém a desmerecendo — fosse homem seria um gênio — mas era apenas uma mulher que dependia de um bom Editor, como se houvesse no mundo um escritor que vivesse sem tal dependência.

Procurei por Virginia Woolf que me ofereceu o elemento de admirar as diferenças. Gosto imenso, como ressalta o sentimento incompatível com os valores de nosso tempo. Com ela, eu aprendi a não julgar os personagens — coisa nada fácil. Somos forjados para olhar e condenar. Não gostamos da roupa, do gesto, da fala. A lista de coisas que nos incomoda é longa e interminável. A maioria de nós… lida com caixas. Woolf desconstrói esses elementos todos. Em Orlando, me apaixonei pelo dualismo de sua personagem. A preferência pelo feminino e a percepção das exigências, que são muitas. Acho curioso que a personagem — após sua transição — conclui que as pessoas mais simples eram mais agradáveis que aquelas que admirava.

Mas está na narrativa de Lygia Fagundes Telles e Eliane Brum… um caminhar junto. A maneira como emprestam tudo de si aos personagens que se permitem ser. Não é silêncio o que encontro nas linhas dessas mulheres-escritoras, tampouco barulho. Funciona como se estivéssemos — as três — sentadas em uma mesa de um desses cafés que a cidade nos oferece, compartilhando histórias que são nossas e são de outros.

Quando escrevo, eu traço um diálogo sincero com minhas memórias — reais ou imaginárias. Às vezes, eu falo sozinha ou com a cadeira vaga a minha frente ou com um pássaro que surge do nada e pousa na varanda. Falo com as paredes ou com o autor que leio e escreve-se em linhas poderosas. Tenho essa necessidade de emergir dos meus silêncios profundos, demorados.

Desde a infância que me tranco dentro por necessitar ser a minha única companhia. Não quero o olhar do outro, a opinião. Quero apenas a minha voz… Sou uma romancista que inventa histórias, conta mentiras. Nada é real e nem tudo é inventado. Eu misturo mundos, pessoas, personagens. Não sou fiel a nada-ninguém, apenas a mim. 

Adquiri a consciência de que preciso ouvir a minha própria voz para identificar os ritmos da minha escrita faz algum tempo… porque o que está em meu texto precisa ser um eco das palavras que deixam a minha boca, quando experimento a construção de um bom parágrafo, que reúne verbos, substantivos, advérbios e adjetivos.

Eu sei, no entanto, que o rumo da prosa não é o mesmo quando estou em rodas. Essa outra fala se acomoda em pausas, poucas ou nenhuma pergunta e muitas respostas. Como em um jogo de damas, as peças se movem, pulam uma sobre as outras e pontuam jogadas decisivas ou não.

Prefiro a quietude porque não sou como Susan Sontag que tinha opinião a respeito de tudo.
Eu tenho algumas, mas estou cada vez menos disposta a jogá-las à mesa.
Percebi recentemente que discussões quebram o imaginário, limitam-nos a um bolha-caixa-lugar.

A minha escrita desliza pelo papel na terceira pessoa do singular porque é um narrar-se a partir de mim. Estou lá e sou o fio condutor do outro, que se apodera de minha anatomia. Ela não cessa. É uma espécie de eco que se espalha por todos os cantos do meu corpo-alma, se apropriando de cada filamento nervoso.

Escrevo por dentro primeiro e quando todas as paredes estão cheias de frases, transbordo de tão cheia. Acho que preciso experimentar tudo antes, provar dos ingredientes, aprender a misturá-los para só então preparar o prato, a mesa e servir. 

A minha voz é o eco de grito que resvala nas paredes do meu corpo-casa…

Ninguém sabe nada dos mundos que habita….

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das pisoteadas bordas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.

T.S.Eliot

Eu não sou o tipo de pessoa que se preocupa com a idade. Cheguei aos Quarenta anos, no ano passado, alcançando finalmente a idade que eu sempre desejei ter. E a pergunta que me fazem é: o que mudou? Eu não esperava grandes mudanças. Eu queria poder dizer em voz alta a idade e ver como soava. É agradável. São 4 décadas inteiras… e confesso que desde a manhã seguinte ao dia vinte e nove de novembro, penso em como será dizer: meio século de vida. Uau…

Eu me lembro que ao dizer a minha idade, quando questionada a esse respeito, colhia um olhar incrédulo. Nunca tive a idade aferida pelo documento. Aos dezoito, precisei apresentá-lo para assistir a um filme. Confesso que me aborreci. Levou dezoito anos para chegar lá e poucas horas para ser questionada. Alguém comentou se tratar de um elogio. Mas eu considerei uma afronta.

No segundo dia de trabalho — após anos de estudos, estágios, publicações — um paciente ocupou o seu lugar na poltrona à minha frente e depois de observar-me atentamente por alguns minutos, atirou a pergunta: você não é jovem demais para ser psicanalista? Respirei fundo e sorri, como costumo fazer nas horas mais estranhas.

Eu não posso dizer que me acostumei em ser considerada nova demais para algumas coisas e velha para outras. Para os inquisidores de plantão, nunca teremos a idade certa. Ou estamos atrasados ou adiantados. Talvez por isso, tenha encontrado outros silogismos para me ocupar: idade, peso, altura, tipo de roupa, a cor dos meus cabelos e outros itens não estão na minha lista…

As minhas somas são outras… e eu as faço em silêncio: Quantos lugares visitei? Estive em inúmeras cidades. Algumas foram para sempre, outras para nunca mais. Quantas pessoas coleciono? Poucas, nunca fui de multidões. Quantos livros eu li? Bem menos do que gostaria. Quantos eu re-li? Uma dúzia e meia… talvez mais. Quantas xícaras eu tive? (…)

Opa… está é uma pergunta delicada que me obriga a percorrer cidades, momentos, pessoas, livros. E eu precisaria me sentar à mesa — como fazia na infância, dentro de uma manhã de sábado para traçar um diálogo sobre tudo isso.

Na minha infância eu tinha uma daquelas canequinhas de ágata… que era levada à mesa, com leite caramelado — o meu favorito — assim que eu passava pela porta da cozinha. Eu escalava a cadeira para me sentar. Nas primeiras vezes, recebia ajuda. Depois eu percebi que conseguia sozinha e considerei um grande feito. Houve alguns pequenos acidentes, como me apoiar na toalha… Mas nada que ocasionasse em algo terrível. Foram pequenos sustos que até hoje provocam risos.

Eu gostava de sentir os meus pés no ar, a balançar. Adorava a sensação de liberdade que esse movimento me proporcionava. E entre as mãos: a caneca. Adorava lamber os bigodinhos brancos que o leite ‘pintava’.

Desde pequena que me demoro a despertar pelas manhãs por acreditar que elas pertencem aos pássaros e não a mim. Foram muitas as vezes em que acordei em meio a um gole mais quente de leite na língua… marca que me acompanhava pelo resto do dia.

Alguns anos depois… ganhei uma caneca de louça, toda colorida e um pouco maior. Minhas mãos estavam mais firmes e não causariam um possível acidente — precauções maternais. Foi a prova definitiva de que eu havia crescido. Tinha dez anos… uma década inteira de vida e algumas pessoas diziam que eu era uma mocinha, enquanto outras faziam questão de afirmar que eu ainda era uma menina…

Anos mais tarde, eu e mio babo saímos para caminhar no final da tarde pelas ruas cheias de subidas e poucas descidas da nossa cidade. Era um hábito comum… engatar as mãos para passeios sem compromissos — em silêncio para melhor apreciar a paisagem.

No meio do passo, nos deparamos com a vitrine de uma lojinha cheia de “badulaques”. Uma novidade a nos chamar. Entramos e depois de nos divertirmos com o som do sino preso à porta, passeamos entre prateleiras — feito turistas — e nos deparamos com uma prateleira tomada por canecas de diferentes estilos-tamanhos-cores.

Foi a primeira vez que escolhi a minha própria xícara. O mio babo achou graça da minha empolgação e em sorrisos, enquanto caminhávamos pelas calçadas, de volta para casa, disse com seu vozeirão — certas coisas fazem a gente perceber que os filhos crescem mais rápido do que nós somos capazes de acompanhar…

O formato das xícaras é algo que chama a minha atenção nos cafés que visito… Ao visitar o Mirante 9 de Julho… esbarrei numa xícara de ágata — adquirida com uma bebida, um latte muito bem preparado… por R$25.

Já tive muitas xícaras… umas se quebraram, outras eu perdi em meio a mudança. De algumas eu me desfiz porque o tempo delas em minhas mãos passaram. Não sou uma colecionadora. Não gosto de objetos amontoados, a juntar pó. Gosto de sentir o objeto em mãos… sabê-lo em uso… a trocar energia comigo. 

Azuis, pretas… com desenhos, riscos… diferentes tamanhos. Umas são apenas para tomar o cappuccino… outras para o chá, outras para as canetas, lápis…  Mas o leite caramelizado com canela não mais. O sabor e a sensação do calor entre as mãos permanecem em minhas vilas… é algo que pertence a minha infância e lá permanece: intocável.

Lembro-me que eu e Marco, certa tarde de junho, saímos para um passeio pela Liberdade. Entramos e saímos de inúmeras lojas e vimos todos os tipos de apetrechos para a cozinha. E, de repente, em uma daquelas prateleiras, uma xícara preta com escritos em vermelho. Compramos duas… a prova definitiva de que abandonei um projeto de vida — um apartamento, um cachorro e uma prateleira de livros — para abraçar outro… 

Leaves of Grass

na vitrolinha

Quando menina, comecei a colecionar folhas… fomos caminhar e C., inventou uma brincadeira: tentar interromper a tragetória do voo de uma folha qualquer, antes que aterrissasse no chão. Claro que eu topei e passamos horas na praça, tentando agarrá-las. Foram muitos quases, mas nenhum sucesso. Nos divertimos horrores. Exaustas… deitamos na grama e adormecemos. Ao despertar, estávamos cobertas por folhas porque é disso que se trata. Eu guardei uma delas para nunca me esquecer daquele momento… Foi parar dentro do meu livro de poesias de Emily Dickinson.

E passou a ser um hábito… recolher folhas durante a caminhada e guardá-las dentro de livros-diários-caixas. Recentemente, por causa do ig, comecei a fotografá-las… Às vezes, envio aos amigos e foi em uma dessas “trocas” que surgiu a idéia para esse post… um desafio com outra pessoa apaixonada por folhas e que assim como eu, as recolhe pelo caminho.

Eu me lembro de uma visita da Su quando eu morava em outro bairro… saímos as duas para um passeio por aqueles labirintos e, de repete, descobrimos esse hábito em comum: abaixar e recolher uma folha do caminho, guardando-as. Trocamos olhares-risos, encaixamos o passo e voltamos para casa, com as nossas folhas colecionáveis…


Uma das primerias fotos que fiz para celebrar a mudança das estações e publiquei no stories do instagram
outono 2018

Caminhava pelas calçadas do bairro, rumo ao supermercado quando essa folha desprendeu-se da árvore e pousou bem diante de mim… Amei as cores e a textura…

Observava as irregularidades do caminho, durante uma caminhada, o meu passo despreocupado e as mãos no bolso…
Quando me deparei com a folha presa nas ranhuras do asfalto…

Toda vez que venta no outono, a árvore estrangeria lota a calçada com suas folhas… e eu sempre recolho a que mais me atrai. Dessa vez fui surpreendida com essa enorme folha enrugada…

Quase pisei nessa folha, estragando-a… mas consegui evitar o passo, tanto o meu quanto o do simpático cão que ganhou afagos e colo…

Essa folha pertence a uma árvore com inúmeros nomes populares, dentre eles, pata de vaca… por causa do seu formato. Para fotografá-la, andei com ela por vários quarteirões, até encontrar um piso que fizesse jus as suas ranhuras, tons e cores…

Essa foto eu fiz pela manhã… enquanto esperava pelo Marco. Estiquei o olhar e lá estava ela na calçada, perto do tronco da árvore… Um capricho do vento, já que ao olhar ao redor, não encontrei a origem da folha. E cmo estava ao pé da árvore, resolvi que seu tronco serviria de fundo…

“Escuta, não dou lições nem esmolas,
quando eu me dou, é por inteiro.”

walt whitman em leaves of grass (folhas da relva)

:: veja a trilha de folhas de Suzana Martins

6 on 6 | Crepúsculo

Desde a infância que tenho paixão pela hora do crepúsculo… não me lembro o exato instante em que ao olhar pela janela percebi qualquer coisa de pausa na realidade das coisas humanas. Mas a sensação nunca se perdeu-esvaziou — segue em meus poros.

Estiquei o olhar lá para fora e percebi que havia um exato segundo em que não era mais dia, mas a noite ainda não se fazia presente. Bastava um piscar de olhos e pronto… estalava a escuridão e o dia se dissolvia dentro da hora anterior.

Mas, dentro daquele pulsar fracionado, nenhum movimento acontecia, nem um tic ou tac. Eu puxava um pouco de ar e como quem medita… apreciava o passo que não deixava os pés, o caminho que não se oferecia. A vida que não acontecia. Tudo ficava para depois…

1 – raramente estou na rua… geralmente estou na varanda a apreciar o acender das luzes, mas nesse fim de tarde, havia levado Jane dog para um passeio e adorei perceber as sombras avolumando-se a minha volta…

2 – Em minha varanda a espiar as nuvens, quando sei que o sol está a se despedir da paisagem… mas os seus raios ainda transbordam tímidos…

3 – Vejo as luzes se acenderem nas ruas, calçadas, nos prédios em fila e os farois dos carros…

4 – Ainda não é noite, mas as sombras devoram os prédios, engolindo-os… enquanto no céu, o sol ilumina as nuvens em movimento de ventos…

5 – Nesse dia, eu estava a esperar pela noite… fechei os olhos pra pensar em um poema “louvação da tarde, de Mário de Andrade” e pronto, me deparei com esse momento alaranjado. Ainda não era outono, mas já não era mais verão… embora os calendários afirmassem suas preferências, que não me alcançam…

6 – Às vezes, ao cair da tarde… abro as cortinas-janelas para deixar entrar as sombras e preparo xícaras bem merecidas de cappuccino para celebrar a noite em pequenos goles…

Bells Mariana GouveiaObulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

O que ando a ler | Solombra…

Que eu gosto — de ao cair da tarde — colocar a chaleira no fogo para preparar uma xícara de chá… não é novidade. Enquanto espero, caminho pelos cômodos da casa, apreciando os meus passos pelo piso-frio e me deixo conduzir até a prateleira, onde escolho um livro de poesias a partir do tato, sem me importar com título, autor… para ser lido enquanto a tarde tomba e a noite se avoluma…

Solombra — que deixou a prateleira — é um dos meus favoritos. Mas nem é um livro, como propôs o Editor… O título flutua na capa. Mas se trata de um combinado de poesias com sonoridades que representam a ideia de noite, do mistério e da aceitação da morte.

O conjunto de poemas que compõe Solombra — foi escrito um ano antes da morte da Poeta — se encerra na página vinte e três do livro e a organizadora, escolheu Sonhos para vir em seguida… Eu acusei o susto. Me senti andando no deserto, sem forças e sedenta… e de repente, me deparei com um lago de águas translúcidas. Ou seja… uma miragem.

Vens sobre noites sempre. E onde vives? Que flama
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos,
um outro Sol descendo horizontes marinhos?

A palavra sombra é uma evolução de “solombra”… É como se tivessem tirado o peso da palavra, deixando-a mais simples, menos poética… Incapaz  de denominar essa região escura que se forma no chão, devido à ausência de luz. Ao ler os versos desse conjunto de poemas, senti que a poeta Cecília Meireles tentou se antecipar a morte da palavra, evitando o seu completo desaparecimento porque enquanto palavra, Solombra nos obriga ao breu, que tanto tormento causa aos ‘navegantes’. É uma palavra inteira-imensa-completa… nítida. Uma tela impressionista. Um céu tão negro que não nos oferece outra coisa além de sua escuridão.

…e esse é o mote dos versos de Cecília que deseja transpor a vida. Mas esbarra na Morte, essa espécie de ponto final, que a silencia e cala, impondo a poeta uma porção de sentimentos conhecidos: a melancolia e a solidão. Tudo a leva para esse lugar quieto-comum, raso… e dá para sentir as ondas indo e vindo, molhando os nosso pés em acenos de chegadas e partidas.

É que morremos – e num lúcido segredo –
sabendo, ouvindo – atravessados de evidências –
que somos de ar, de adeuses de ar… E tão de adeuses

que já nem temos mais despedidas.

A poeta não compreende o ponto final… um poema vai para o outro e o outro até o último, que silencia a escrita, mas não encerra o dilema e abraça a pergunta: o que existe depois?

a vida, a vida, a vida! e sendo apenas cinza.
E sedo apenas longe. E sendo apenas essa
memória indefinida e inconsolável. Pousa

teu nome aqui, na fina pedra do silêncio,
no ar que frequento, de caminhos extasiados,
na água que leva cada encontro para a ausência

com amorosa melancolia.

É claro que os cães não falam…

Há pouco, ao olhar pela janela, presenciei uma cena agradável entre um cão e o seu humano de estimação… conversavam os dois. O cão estava sentado, enquanto o humano reprovava a atitude do animal de quatro patas. Algumas pessoas em suas rotinas de volta para casa, numa quasenoite, passavam pelos dois e faziam sinais de reprovação com a cabeça.  

Da varanda… comecei a rir ao recordar um fim de tarde de outono em que depois de escrever um texto, saímos eu e o Patrick — um cão da raça boxer — para um passeio até a praça. Ele fazia uma enorme festa ao ser chamado para ir à rua. Saltava, latia, dava giros e, às vezes, corria pelos cômodos da casa até a porta ser aberta.

Nunca gritei com ele ou precisei repreendê-los… mas tivemos muitas conversas que sempre funcionavam. Com o Marco a coisa era diferente… Ele precisava falar mais alto e ser rude. Patrick nem sempre o atendia. Comigo bastava dizer “não” e ele entendia.

Pois bem, ao voltar do passeio, sentamos nas escadas — na frente da casa — para limpar suas patinhas e aproveitei para avisá-lo que não poderia levantar a patinha traseira e fazer fazer xixi nos meus antúrios…

E ele lá, sentado, dando a patinha para ser limpa e atento ao que dizia. Eis que no meio do nosso diálogo, surge um cidadão — incomodado com o que presenciava — e diz: ele é apenas um cão e não entende patavinas do que está falando. Só esta perdendo o seu tempo e amanhã terá que dar umas boas palmadas nesse safado.

O cão e eu olhamos para o estranho intrometido, medindo suas feições, gestos, falas e após rotulá-lo como humano desnecessário… voltamos a nos olhar novamente num sincronismo perfeito, típico de nós dois.

E eu não sei quem rosnou mais alto: eu ou ele… Mas o Patrick desceu os lances de escadas e foi para o portão latir grosso para o humano tolo. Tamanho foi o susto que o infeliz deu um pulo para trás e desapareceu da nossa frente, levando seu inconformismo para bem longe…

E o Patrick — todo satisfeito — voltou a se sentar ao meu lado. Deu a outra patinha para ser higienizada e nós dois sorrimos. Eu ainda tive um momento-felícia… o abracei bem forte, apertando-o gostoso. Eu era a única que ele permitia fazer tal coisa. Qualquer outro humano que tentasse… sabia que corria perigo ou não tinha amor a pernas-braços.

Continuamos o nosso diálogo sem outras interrupções… e Patrick nunca mais voltou a fazer xixi nos meus antúrios.

A leitora que eu sou

Eu nasci na famigerada década de oitenta — a famosa década perdida, com todos os seus excessos. Por aqui, estranhamente, ficou conhecida como a década de ouro. Mas, ao espiar o que era o Brasil desses dias, fica fácil compreender essa geração de alienados e negacionistas que assolam o país atualmente. Impressionante como ninguém se deu conta do horror desse tempo. E há os saudosos de uma realidade opaca e completamente sem brilho… 

Eu cresci numa rua pacata… parte de uma vila composta por duas ruas e uma avenida que nos conduzia por rotas curiosas… à pequena ponte de pedras e suas lendas urbanas — replicadas de boca em boca — e a velha praça onde caminhar, correr, pedalar, jogar xadrez e esperar pela mudança das estações. Ali tudo acontecia primeiro. 

Não convivi com escritores… mas o nonno tinha uma apetitosa prateleira de livros e uma caixa abarrotada…  com escritos seus. Ele não era um escritor… Era um contador de causos — como ele mesmo dizia ser. Em sua prateleira havia poetas antigos e alguns romances — apenas os seus favoritos.

Em minha casa, o meu pai tinha uma extensa coleção de livros jurídicos e meia dúzia de tramas policiais… Era leitor de Arthur Conan Doyle e de Agatha Christie. A minha mãe espalhava os seus livros favoritos por toda a casa e eu os encontrava em toda parte — inclusive nos lugares mais inusitados. Ela adorava contos indianos e sua realidade se explicava facilmente a partir de trechos inteiros de suas leituras.  

Havia um personagem incrível em minha infância. Um livreiro… o feliz proprietário de uma pequena livraria de rua — situada pouco depois da tal ponte de pedras. Era o meu lugar preferido, na cidade. E ele era a minha a pessoa favorita.

Adorava conversar com ele. O homem sabia todos os livros que tinha em suas prateleiras… organizadas por gênero. Ele não me tratava como criança. Eu era uma leitora, que sabia o que gostava de ler. E ele nunca me ofereceu um daqueles livros bobos, com figuras enormes e poucas palavras. Nunca fui leitora de literatura infantil… 

Foi ele quem me falou mais a respeito da senhorita Emily Dickinson, a Poeta que me fez pensar em escrever. É possível uma página falar diretamente à minha alma? — perguntei e ele abriu um enorme sorriso.

O signore B., não tinha respostas prontas e gostava de pensar um pouco antes de dizer qualquer coisa. Nisso, era parecidíssimo com minha mãe. Passei a acreditar que era uma qualidade dos leitores. E era delicioso o ato de esperar… como se eu estivesse sentada à mesa, aguardando por uma xícara de chá. Chaleira no fogo e a espera pelo apito estridente. A água precisa atingir a temperatura certa para isso acontecer — nem antes, tampouco depois. 

E ele me disse… um livro é como uma pessoa. A gente sente através de todos os nossos sentidos se acaso aconteça o estado de empatia. Você pode não gostar de um livro, de um autor. É simples… nunca complique isso. Não se obrigue a ler o que não gosta. Você encontrou nessa poeta, um pouco de si. E vai acontecer de novo e de novo e de novo. Mas, em algum momento poderá não acontecer. 

Toda vez que pego em um livro, pela primeira vez… eu respiro fundo e sinto a textura do papel em minhas mãos. Espio o título, o nome do autor e vou direto para a primeira página — saltando todas aquelas informações avulsas e descartáveis que lá estão… 

E fico feliz ao constatar que ele estava certo… aconteceu de novo!

Eu não engulo sapos

Todo idioma tem seus atrativos… peculiaridades que apenas os falantes locais são capazes de compreender. Mas o português é o que me brinda com frases inteiras com as quais nem sempre sou capaz de lidar. Ao menos me divirto tentando compreendê-las.

É inevitável, no entanto, que em alguns momentos, as expressões em meu rosto, acusem estranhamento, deixando transparecer minha dificuldade com o idioma que uso habitualmente, misturando-o a outros.

Certas expressões populares, por exemplo, escapam-me… e nem mesmo as muitas interpretações que me oferecem, são capazes de me arrancar da condição de estrangeira a lidar com o idioma-alheio-local…

É o que acontece quando ouço falar em sapos! Antes, aviso que, nunca fui capaz de compreender por que os contos infantis o escolheram.

Causei alvoroço em sala de aula ao questionar a patifaria. Dentre tantos seres, por que o sapo? Pela expressão incrédula da professora, percebi que ninguém — antes de mim — havia questionado tal fato.  

Ela se mostrou incomodada e não me ofereceu uma resposta. Mas fez questão de enfatizar que o sapo é uma criatura medonha, asquerosa, horrenda e tratou de perguntar para a turma: alguém aqui já imaginou o horror que seria remover as cobertas da cama e encontrar um sapo? E todos reagiram demonstrando qualquer coisa de nojo-pavor. Como se fosse possível tal coisa acontecer…

Levantei a mão e ganhei um olhar de reprovação imediato que não me demoveu da pergunta que eu tinha para fazer. E como figura curiosa que era, a professora concedeu-me a palavra: por acaso, a senhora já viu um sapo?

Ela perdeu a voz, a paz e eu ri por dentro… Eu tinha visto um sapo e gostei imenso de ouvi-lo coaxar. Fui aconselhada a não me aproximar. Ele estava quieto em sua pedra e não deveria importuná-lo.

Eu me lembrei das muitas vezes em que eu estava lendo um livro e alguém me arrancava do mundo para onde havia migrado. Não seria eu a repetir tal gesto enfadonho. Fiquei de longe a espiá-lo… e ele parecia imponente em sua pedra escorregadia. Tinha um olhar atento aos menores movimentos a sua volta e foi habilidoso ao capturar um inseto que voava ao seu redor, engolindo-o.

Não sei se ele reparou na minha presença miúda, mas enquanto o aprendia, desejei ser a menina com um sapo de estimação. E quis acreditar que ao voltar ao lago no dia seguinte, encontraria o signore rospo por lá. Não aconteceu… mas o ouvi coaxar de outras pedras e isso bastou. Sabia que estava por lá… e o saudava.

Quando toca o meu telefone — o meu ringtone é um coaxar de sapo — retorno a beira daquele lago e o reencontro. Mas reparei que há pessoas que se assustam e penso nessa expressão tola: ter que engolir sapos.

Engolir remete a alimentar-se… o que geralmente é motivo de prazer para a maioria. Mas não existe prazer algum quando se trata de um sapo.

A origem da expressão, no entanto, me causa incomodo: quem foi o infeliz que tentou essa façanha?

Os sapos são lisos e dizem que são frios… eu nunca toquei em um e, vegetariana que sou, não desejei comê-los. Mas não sei por que as pessoas os consideram desagradáveis.

Na França se come o famoso escargot que eu jamais levaria à boca. E em alguns países —  Tailândia, China, Caribe, Indonésia e esporadicamente em toda a Europa — as rãs são iguarias…

Mas e os sapos? Soube que o Brasil é o país que apresenta a maior quantidade de espécie desse anfíbio que são responsáveis pelo controle de certas pragas e sua presença em determinado lugar serve de indicador para informar que o ambiente está em equilíbrio, por serem sensíveis as mudanças climáticas. E há répteis, aves e alguns mamíferos que realmente engolem sapos, por serem seus alimentos favoritos.

Mas, nós humanos, não gostamos de engolir sapos, que no caso, seriam desaforos, ofensas ou coisa pior. Eu sou ume excelente ouvinte, mas sou melhor ainda na arte de não-ouvir. Quando alguém me incomoda com suas frases impertinentes, respiro fundo e pinto um sorriso nos lábios. Meu corpo está lá, mas a mente partiu para longe… talvez tenha ido habitar o lago e ficado por lá, a espiar o signore rospo e a imitá-lo, coaxando para a lagoa.