Poesia Completa

Símbolos

Gilka Machado


Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento
do mar, fero a estourar de encontro à rocha nua…
Um símbolo descubro aqui, neste momento
esta rocha, este mar… a minha vida e a tua.

O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento
de quem maltrata e, após, se arrepende e recua.
Como compreendo bem da rocha o sentimento!
São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.

Contemplo neste quadro a nossa triste vida;
tu és esse dúbio mar que, na sua inconsciência,
tem carinhos de amor e fúrias de demência!

Eu sou a dor estanque, a dor empedernida,
sou a rocha a emergir de um côncavo de areia,
imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia. 

Poemas Completos

A faca não corta o fogo

Herberto Helder

que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na reescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisa,
fiat cantus! faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
O canto comum-de-dois
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça.
e a noite se vê a luz que desaparece na mesa, chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta
já és toda

* Às sombras, imaginações e formas,

…que destecem e tecem esta vida.

Depois de meses sem sair de casa, fui as ruas… entrei no metrô — linha lilás-verde-amarela –, e depois de quase meia hora, estava na Rua da Consolação — conhecido endereço paulistano. Foi como voltar no tempo e chegar a cidade novamente. Me perdi por caminhos conhecidos e depois de muitas voltas desorientadas, acabei diante dessa construção antiga-abandonada e depois de espiar suas formas, saquei o celular do bolso e som de Léon, fotografei o que um dia foi uma luxuosa mansão de Higienópolis… que me fez pensar nos cômodos — percorridos em meu imaginário –, e nos personagens que ali viveram num tempo anterior a esse.
Tenho paixão por casas antigas-abandonadas… aqui em São Paulo ainda restam algumas — a maioria são tombadas. Mas não existe projeto de preservação e ser um Patrimônio histórico em uma cidade que avança sempre em direção ao futuro, não salva o imóvel das ações do tempo, das invasões e do descaso.

 | * verso do poema de Jorge Luís Borges, limites |

livro do desassossego

“Porque eu não sou nada, eu posso imaginar-me a ser qualquer coisa.”

Não sou de fazer lista de livros por ler ou para ler — lista me lembra ida ao supermercado, prateleiras, códigos de barra e, filas nos caixas. Eu sou do tipo que vai até a estante — nos intervalos do dia — para escolher um livro e sair com ele por aí. Nos últimos meses-semanas-dias… sair significava tão-só: levar o livro do sofá para a cama e para a mesa na varanda. Antes, era dobrar esquinas, atravessar ruas, caminhar calçadas até um café e por lá me sentar para virar páginas.

É uma mania antiga… iniciada na infância, quando eu passava horas inteiras na Biblioteca do colégio… transitando entre as prateleiras nada organizadas e sentindo a textura dos livros na ponta dos dedos.

Gosto imenso de escolher o que ler através da tato… sem me preocupar com título, autor. Apenas a sensação que o toque provoca e é qualquer coisa poderosa. Se ousar experimentar, depois me conte como foi para você.

Minha relação com Bibliotecas — definitivamente — forjou a leitora que sou. Gosto imenso de livrarias — principalmente as de rua —, e tenho ótima lembranças de alguns desses mini templos, onde adquiri a maioria dos exemplares que tenho comigo.

Mas, foi nas Bibliotecas das cidades — em que estive para ficar por uns dias-semanas-meses, em alguns casos, míseras horas —, onde os rituais de leitura ganharam corpo e descobri uma edição do Livro do desassossego, de Bernardo Soares.

Leitura densa! Cada página virada oferece um diálogo que precisou ser interrompido algumas vezes para puxar ar, pensar a realidade — do autor em paralelo a minha —, e refletir a respeito de quem sou e quem era o homem a escrever fragmentos de tempo-vida-realidade-mundo.

O livro do desassossego é interminável. Não é leitura para ser feita de uma só vez. Descobri isso conforme avançava na leitura. As pausas devolviam-me a cadeira-mesa-pele-lugar. É maravilhoso perceber que ao regressar já não se é mais o mesmo. A narrativa contida nesse livro parece — e tenho para mim que foi essa a idéia do autor-poeta-homem Pessoa —, um diário ou um simples caderno de notas, onde o autor tenta se despedir do poeta-homem-personagem Álvaro de Campos e toda a sua metafísica — tão imensa —, contida nos últimos poemas da pessoa mais incrível que Fernando inventou, como: depus a máscara e vi-me ao espelho — esse poema é uma espécie de tatuagem para a minha pele.

Sempre que leio esse livro, tento imaginar como foi para o homem-Pessoa conviver com o personagem. E tenho para mim que Álvaro se apoderou de tal maneira de Fernando que no fim, o poeta não sabia onde começava um e terminava o outro. Tanto que não há referência de morte para Campos — que chegou a ser determinada e abandonada —, e o próprio assinou uma das partes das anotações… organizadas e publicadas após a morte de Pessoa.

A edição que irá me acompanhar nesse 2021 é da Tinta da China… edição de Jeronimo Pizarro, que considera que o livro do desassossego é uma — e eu amei essa definição —, obra em que há pelo menos três autores à procura de um livro.

6 ON 6 | portas…

Desde a infância que eu aprecio portas… me lembro que ao caminhar pelas ruas do bairro em que cresci, espiava os contornos que eu alcançava e equilibrava o meu olhar entre portas — com seus capachos e enfeites sazonais —, e janelas abertas-fechadas, acortinadas.

Penso que seja como observar uma tela presa a parede… a porta é a moldura da construção. O começo, o meio e o fim. Por onde se entra e saí… por onde se chega e vai embora…

Dos caminhos que estendem o poente
Um (não sei qual) há de ser percorrido
A última vez, por mim, indiferente,
E sem que o adivinhe, submetido
(Borges, Limites)

1 — Primeira fotografia que fiz, pouco depois de chegar a São Paulo, em meados de 2002… caminhava sem compromisso com uma Leica X2, em mãos. Me perdi dos passes e acabei no Vale do Anhagabaú e esbarrei nessa porta, bem debaixo do Viaduto do Chá. O resultado eu só fui ver semanas depois ao revelar o filme…

2 — Fotografia feita por acaso… estava a percorrer os espaços da Pinacoteca do Estado quando estacionei o passo, atrapalhando o ir e vir de outros visitantes. Levantei a câmera para olhar através da lente e acionei o clic. Outra fotografia que eu só fui ver o resultado dias depois…

Ps. saudades dos filmes de rolo! Hoje é tudo tão rápido-ágil.

3 — Foto feita com o celular… é recente, foi feita na primeira vez em que fui as ruas depois da pandemia, no final do ano passado. Uma dessas saídas necessárias. Ainda não acredito que não tinha visto essa mansão antes. Me estiquei por inteiro para fotografar a porta e janelas dessa construção abandonada, enquanto imaginava os personagens em suas idas e vindas.

4 — Essa foto foi feita antes da pandemia… sai para andar pelo bairro e acabei diante dessa casa — uma sobrevivente — entre prédios, que incomoda a vizinhança. Nunca vi ninguém entrar ou sair por essa porta de ferro, que parece solta-encostada no batente. Essa casa com certeza é uma persona-personagem de alguma história que ainda não escrevi. Percorrer esse chão de cimento e alcançar essa porta para espiar dentro é um devaneio que por enquanto pertence apenas ao meu imaginário…

5 — Eu queria muito um livro — sou dessas, que sai de casa e tem pressa de chegar à livraria… da Vila, na Avenida Moema. Seis de março… e a noite caiu silenciosamente. As ruas começavam a se esvaziar. Foi a última em que sai sem máscara, com o passo leve, sem receios do ar, das pessoas e comprei meia dúzia de livros. Estava a poucos passos da livraria quando o olhar esbarrou e ficou nessa porta, que pertence a um edifício antigo-fechado-abandonado e ainda hoje me pergunto que cuida do lugar, porque é certo que há um zelador ali…

6 — Não me lembro do dia-ano-momento… mas era véspera de alguma coisa. Certamente eu tinha ido ao Mercado da Cantareira — conhecido por Mercadão —, e subi a Florêncio de Abreu para desviar do tumulto corriqueiro da 25 de março. Multidões me roubam a paz… esbarrei nessa arquitetura antiga, em estado de ruínas. Vontade de abrir essa porta com as duas mãos, por sorte não foi possível porque pelo estado do prédio, não havia nada por trás dela…

Darlene ReginaMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

05 | o ano ainda é novo?

manhã de terça-feira. ouço o canto das maritacas nas árvores. será um dia de sol. se será quente, parece impossível saber. estamos no verão. é janeiro. mês das tempestades. céu azul e nuvens carregadas que mudam o cenário num piscar de olhos.

e o ano — aparentemente — ainda é novo. mas quando é que ele deixa essa condição? em que momento o novo perde o a cor, o aroma, o sabor?

quando criança, eu me aborrecia ao ganhar um par de tênis novo. com aquele cheiro de coisa guardada na caixa. era fase de crescimento e o calçado anterior perdia a serventia rapidamente. ficava pequeno, apertava os dedos maiores. e, às vezes, o pé não cabia dentro do espaço, reduzido da noite para o dia. ao menos era o que a criança que eu era, pensava. até ontem servia. o que houve com esse tênis? e lá vinha a caixa de papelão com o logo da empresa estadunidense que parecia concordar comigo. quanto mais velho, melhor.

nunca gostei de tênis novo. e sou do tempo em que não havia tantas opções ou modelos. todos nós usávamos um all star — que era visto nos pés da geração punk rock nos anos setenta e de roqueiros clássicos, como Kurt Cobain, do Nirvana na década de noventa —, mesmos modelos, variando apenas a cor. o meu era vermelho e de cano alto.

quando calçado pela primeira vez era incomodo e desconfortável. o calçado tinha seu próprio molde. era necessário caminhar para ajusta-lo a minha fôrma. certa vez, ganhei uma maldita bolha de presente.

mas e o ano? já se passaram cinco dias. ainda é novo ou será que já envelheceu? ontem foi apenas o primeiro dia útil de dois mil e vinte e um. ouvi muitos: feliz ano novo. todos que chamei para falar dos projetos de escrita — em fase de construção —, ainda pareciam ouvir o espocar dos fogos, da rolha. a maioria ainda estava em estado de pausa, embriagados pelo velho. dois mil e vinte ainda não se dissipou totalmente. foi um ano inteiro, uma vida inteira.

na última hora do dia trinta e um — o tal do ano velho — eu decidi escrever outro romance. disse em voz alta, na varanda, enquanto observava alguns fogos festejarem o novo. esvaziei gavetas-caixas-e-baús, em busca de meus antigos rascunhos. tenho muita coisa escrita na década primeira do novo século. rascunhos deixados para depois. coisa de escritor.

escrevi várias histórias. duas delas foram reescritas nos últimos anos. vermelho por dentro e alice, uma voz nas pedras. o processo de reescrever histórias é fascinante. é como diz a canção de Fabá de Belém — regressar é reunir dois lados, a dor do dia de partir, com seus fios enredados, na alegria de sentir.

você se lembra da paisagem, mas o lugar não é mais o mesmo, nem você e o mesmo acontece com uma história que ficou guardada-esquecida, em estado de espera. os elementos da trama, os personagens é algo conhecido e estranho… novo e velho — outra coisa. e a pessoa que escreve também é outra.

o dia seguinte de uma narrativa é muito interessante. 

04 | um verbo para este ano {novo}

…sempre gostei imenso de conjugar os verbos em seus diferentes tempos. Tenho os meus preferidos. Desaparecer, por exemplo, sempre se destacou dentre tantos outros, no idioma local. Lembro-me de descobrir um poeta que se foi sem deixar rastro. Tudo que se sabia dele era o seu pequeno livro de poesias. Tão simples e lúdico. Desapareceu, sem mais…
No inglês e no francês há outros tantos verbos que lustro e digo em voz baixa apenas para que eu possa ouvir-sentir o reverberar silencioso-ameno, feito voos ligeiros de pássaros no ar. Por aqui, tenho bem-te-vis suicidas, que despencam das janelas em quedas espantosas que são interrompidas há poucos centímetros do chão.
E foi ali, na virada do ano, a observar o vôo dos pássaros que eu decidi que gostaria que 2021 superasse 2020… nas conquistas, mas, sobretudo nos fracassos.
Fracassar é um dos verbos mais ingratos quando pronunciados em outras bocas que não as minhas. Não somos educados — mais deveríamos ser — a fracassar. É dito em voz alta que não devemos desistir. Insistir é o melhor dos verbos paras a maioria das pessoas que conheço. Eu dou de ombros. Não gosto. É qualquer coisa enjoativa. Eu sempre me questionei quanto a não desistir porque as minhas medidas são outras. Certo e errado sempre depende de quem vai e de quem vem. E, como eu estou sempre na contramão, não é surpresa que alguns conceitos humanos, soem estanhos e equivocados para mim.
Eu fracassei muitas vezes e desisti outras tantas… nesses meus quase-quarenta. Não foi nada fácil! Acostumada a dar o passo seguinte, para o salto no escuro de um Abismo que sempre fui. Recuar exigiu muito de mim. O Abismo é uma figura fascinante. Me deixei seduzir ainda na primeira infância. Ouvi o chamado e atendi. E não foi uma chamado qualquer. Era algo provocativo-poderoso. O abismo soube me induzir ao salto… e me convenceu a permanecer em estado constante de queda.
Ao recuar na primeira vez, senti um enorme cansaço nos músculos (cansados de parar, como diz o soneto de Álvaro de Campos). Fechei-me dentro e sem voz, fui repousar a cabeça no travesseiro. Lembro-me bem daquela manhã primeira. O meu mundo era um lugar pequeno-encolhido-mínimo, com meia dúzia de esquinas e uma dúzia de casas. Eu sabia das multidões. Mas, ainda não havia colidido contra elas.
Foi estranho sentir que o meu mundo desmoronava. Mas, ao sair para caminhar naquele mesmo dia, me deparei com uma casa em ruínas, que me fez interromper o passo. Fiquei lá, completamente imóvel. Me identifiquei com as paredes alquebradas. O estado de abandono. O mato crescendo por todos os lados. Ao regressar ao meu quarto, escrevi na página do meu diário: hoje eu entendi que sou uma casa-corpo. Será que Fernando — na Pessoa de Campos —, sentiu isso também?
Em 2020 eu precisei desistir de muitas coisas. Abandonar outras… e assumir o meu fracasso. Não foi o ano ou o vírus. Fui eu que não tive condições de continuar. Precisei reconhecer minha falta de habilidade em lidar com tudo que se passou. Ali no 11 de março quando o mundo a minha volta entrou em colapso… eu apenas parei. Precisava de tempo para entender o que acontecia dentro.
Eu sou uma pessoa de pequenos goles. Não sei virar tudo para dentro. Preciso de sentir a temperatura da xícara na ponta dos dedos, entre as mãos. Apreciar os aromas (todos).
Eu fui uma das primeiras a recuar o passo, a cancelar o dia seguinte. Eu desisti… do ano, dos projetos, das coisas todas. Me abandonei no canto… e não me arrependo! Hoje eu sei o resultado do meu ato. Claro que à época, eu não fazia idéia do que aconteceria comigo. Acompanhei pessoas em surtos… amigos em pânico. E me mantive calma! …consumi todas as informações que encontrei a respeito de tudo-e-nada. É impressionante como em plena era da comunicação… pouco se sabia ou dizia a respeito da ameaça invisível que nos atingia. Lembro-me de ouvir o Presidente Macron dizer: estamos em guerra. E eu não sei dizer o que senti ali. Mas toda a estrutura do meu corpo estremeceu.
Eu não sou parte de geração das guerras… embora saiba delas, através dos livros de história. As únicas ameaças do meu tempo, até então, éramos nós mesmos e nossas batalhas egoístas contra tudo e todos. Estamos em guerra — repeti em voz alta, conscientizando-me da verdade ingrata. Eu não vivi nenhuma grande guerra mundial, mas, vivo uma para a qual não me alistei e nem fui convocada.

Para esse 2021 eu escolhi o verbo abraçar… porque tanto se falou da falta de um abraço no ano que se foi há pouco. Mas, a verdade é que esse verbo precisa ser conjugado na primeira pessoa do singular… e não é na direção do outro.    

01 / 365… 2021

Meu caro 2020… não sei dizer se já é ano novo e isso é responsabilidade sua que embaralhou tudo por aqui… as horas, os dias, as semanas e os meses. Alguém me disse — em voz alta — que seus trezentos e sessenta e seis dias se resumiram em um único dia… o domingo. Eu gargalhei por dentro. O meu dia favorito é outro. Sigo sendo a criatura dos sábados e, por isso, mergulhei fundo nesse dia enquanto você insistia em cavalgar pelo calendário.

Eu me lembro que nos seus primeiros minutos… estávamos entre realidades, embriagados por uma deliciosa conversa. Desatentos… não o vimos chegar. Eu havia me desprendido do lugar… recuado algumas casas. Fui trazida de volta pela pergunta que ressoou pela sala: gente, já é ano novo. Não havia certeza na frase. Procuramos por relógios, mas não havia nenhum. E já havia se passado dois ou três minutos…

Trocamos abraços, desejos de fortuna, alegrias e paz — o de sempre. Todos a minha volta tinham seus planos futuros que você tratou de esmagar um a um.

Nos teus primeiros dias… não dei importância alguma para o vírus que já causava preocupação em outros lugares. Parecia que não iria chegar aqui — afinal, somos abençoados por deus e bonitos por natureza —, e seria apenas mais uma notícia do mundo a ocupar apenas cinco segundos no JN.

Faltou cuidado! Ninguém se preocupou… ocupados com o Carnaval — que eu esperava passar para dar corda no meu carrilhão interno. Ah, meu caro 2020, para muitos você acabou ali no onze de março… uma quarta-feira que nos obrigou a entender que as divisas inventadas por nós, são meras ilusões.

Cancelamos tudo e eu fiquei com a sensação de amassar muitas folhas de papel — acumuladas no chão. Mas, eu não posso me dizer surpresa. Tenho consciência de tudo que fizemos para chegar até aqui — foram inúmeros os erros e enganos cometidos por minha espécie. E sei que não foi o Ano que, em breve, será esquecido. A memória humana é uma coisa frágil… se apaga com facilidade. Sopra o vento e pronto. Mas, não quero me esquecer de nada porque eu espio os teus dias — esse passado que ainda segue em minhas margens — e a sensação é de que vivi todos os meus trinta e nove anos, dentro de seus contornos.

Será que você saberia me dizer como se mede uma vida inteira? Porque eu tenho uma relação estranho com o tempo. Sou regida por Kairos — graças ao Mestre da minha infância e nada entendo dessas medições humanas, para as quais dei de ombros há tempos.

E, ao escrever-te, me vejo a espiar o velho relógio preso a parede da sala — parado e imóvel sem que alguém saiba seus segredos. Não pulsa, não canta… apenas espera que o dia seguinte o coloque em movimento.

Au revoir mon bon ami

Poemas

Os homens ocos

I
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Forma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

— Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra

Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra

A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra

Porque Teu é o Reino

Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

É assim que o mundo se acaba
É assim que o mundo se acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro.

Tradução: Ivan Junqueira

Poética

Ana Cristina César

Deus na Antecâmara

Mereço (merecemos, meretrizes)
perdão (perdoai-nos, patres conscripti)
socorro (correi, valei-nos, santos perdidos)

Eu quero me livrar desta poesia infecta
beijar mãos sem elos sem tinturas
consciências soltas pelos ventos
desatando o culto das antecedências
sem medo de dedos de dados de dúvidas
em prontidão sanguinária

(sangue e amor se aconchegando
hora atrás de hora)

Eu quero pensar ao apalpar
eu quero dizer ao conviver
eu quero partir ao repartir

filho
pai
e
fogo
DE-LI-BE-RA-DA-MEN-TE
abertos ao tudo inteiro
maiores que o todo nosso
em nós (com a gente) se dando

HOMEM ACORDA!