10 | os discos da minha infância…

Quando menina eu gostava de espiar as capas dos discos do mio babopara tentar adivinhar qual deles seria o escolhido para girar na vitrola, na próxima noite de sábado. Era um dos nossos rituais. Ele definia o cardápio… eu e C., saiamos para buscar os ingredientes e à noite… ele escolhia a trilha sonora para preparar os pratos…
Foi numa dessas noites que eu conheci o Elton John — não me lembro quantos anos tinha. Me lembro apenas de ver o mio babo puxar o velho álbum de capa azul da prateleira… passar a flanela nos dois lados do vinil e colocá-lo no pick up e posicionar a agulha para que aquele chiado gostoso tivesse inicio e pouco depois a música — you can stop the world, steal the face from the moon / You can beat the clock, but before high noon / You gotta love someone.
Eu acabei seduzida pelo ritmo do piano… e pela voz do homem que dialogava comigo através de um idioma que eu ainda não dominava — uma ou outra palavra, uma frase ou duas e ainda assim a música falava comigo. E antes de terminar a canção, eu já repetia com ele: you gotta love someone… num sentido apenas meu.
Naqueles dias eu não sabia muito do mundo, das pessoas… gostava do meu quarto e dos livros. Das viagens que eu fazia durante o verão. Dos passeios nas tardes de sábado. De subir no telhado para espiar a cidade e suas luzes amarelecidas, que se acendiam assim que o breu se estabelecia. Eu sempre queria saber de quem era a mão que apertava o botão daquelas luzes… que inventavam outra cidade. Eu dizia que havia dois lugares no mundo… um iluminado e outro subjugado as sombras — o meu favorito.
Todas essas coisas juntas cabiam naquela música… e, durante dias-semanas-meses, a música foi a trilha sonora dos meus escritos secretos, para o fechar dos olhos e o delírio seguro.
Fui e voltei um sem-fim de minhas ilusões-sonhos. Nesses dias eu sonhava pessoas-lugares-momentos e acho que foi isso que me fez compreender a poesia de Emily Dickinson. Eu não precisava ir… conjugar os verbos. Me sentava num canto apenas meu, me apropriava daquela superfície e pronto. Era exatamente como escreveu o poeta Álvaro de Campos: e onde diabo estou eu agora, Com almirante em vez de sensação?…
Há pouco, antes de me sentar aqui para escrever, estava a ler poemas de Emily Dickinson… e, em alguma janela começou a tocar Elton John. Fui e voltei… observei a flanela percorrer o disco de vinil e o som do chiado da agulha ao ser posicionada imediatamente na primeira faixa. Elton John — o signore inglês — começou a tocar-cantar no idioma de ontem e eu misturei a minha voz a dele.
O tempo passou — you can beat the clock, but before high noon — mas, a música, ainda me diz as mesmas coisas: lugares-pessoas de ontem-hoje…e o refrão ainda se repete em meus lábios como antes numa espécie de eco — como se a mulher que sou e a menina que eu fui ocupassem um mesmo lugar no espaço-tempo da vida.

6 on 6 | calendário particular

Escolhi a trilha sonora para espiar os dias-semanas-meses — cannonball do damien rice — e vim me sentar aqui, na varanda… esse meu-cenário-lugar desde que a realidade eclipsou.
Alguém me disse que estava a viver um sábado depois do outro… o que me fez sorrir, já que tenho imenso apreço por esse dia, que me remete a infância e é uma espécie de Norte para a pessoa que sou. Quando me sento para escrever… amanheço dentro de desses sábados que trago na memória.
Esse 6 on 6 foi como revirar um antigo álbum de fotografias e dar por ausências sentidas de todas as coisas que não fiz-vi-senti.

1 — janeiro… quando tudo ainda era novo e a gente fazia planos para os dias seguintes. Nos reunimos entre esquinas para celebrar a segunda edição de Alice… abraços, sorrisos, café e sonoras conversas sobre tudo e nada.

2 — fevereiro… e o Carnaval a bater a nossa porta. Era preciso esperar para começar o ano e dar corda nos planos…

3 — março… nos mudamos de bairro-casa. Eu gosto imenso de levar minhas coisas para outros lugares-cenários e me acostumar ao espaço.

4 —abril... foi um mês estranho, com notícias de uma realidade em colapso e as fragilidades humanas escancaradas, nos tornamos reféns do invisível. Os cenários se esvaziaram… e a distância tão aclamadas-desejadas por tantos, foram estabelecidas. Foi um atravessar de ruas constante e o que se julgava necessário e temporário, virou rotina…

5 — maio… nos adaptamos ao novo modelo social: viver dentro… conviver apenas com os nossos corpos e evitar os outros, que pareciam estar a viver em uma realidade paralela à nossa.

6 —junho… ainda sem respostas para as coisas do mundo que inventamos a partir dos nossos exageros. Sem vacinas, medicamentos e ainda reféns do invisível — a se adaptar, ao tal novo normal e a reinventar caminhos para dentro…


Darlene Regina — Obdulio Nunes Ortega — Mariana Gouveia


03 | Aquele ontem amanheceu de novo…

“É porque existe o desejo, o olfacto, es o medo, e os vivos apaixonam-se
por outros vivos, e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos;
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta, porque o coração tem em certos dias
um orçamento incomportável”.

Gonçalo M. Tavares


Eu nem sabia que gostava tanto de quando julho representava o tempo das pausas… de viajar com a família, reencontrar os meus… e me perder pelos quintais de frutas.  Era tempo de ouvir o carrilhão cantar dentro da noite, durante aquele momento de silêncio das primeiras colheradas de caldo de massa… quando acontecia uma espécie de pausa indefinível naqueles sabores-antigos. Então ressoavam… primeiro era uma espécie de advertência… como um zunido de abelha e então o estalo maior. E a hora se dissolvia no ar. Aquele som sempre deslocava a alma do meu corpo. Me lembro que alguém, certa vez, se engasgou à mesa… e correram todos, levantar os braços da criatura-menor, dando suaves batidas nas costas até vê-lo restabelecido.
E tudo acontece de novo… estou do outro lado da mesa, a acertar os óculos nos olhos e a me ausentar da cena. Observo as paredes, as telhas de barro queimado, as vigas de madeira do telhado.
Julho era tempo de céu azul e vôos de pássaros no infinito blue… de acordar devagar e espreguiçar gostoso-lento… de sentir no ar o cheiro do café feito com grãos colhidos no ‘quintal’ e moídos no velho moedor caseiro de ferro, preso a mesa da cozinha… e dos pães feitos pela nonna e a moça — cujo nome eu me esqueci. Mas não consigo me esquecer do problema que ela tinha na perna… o que fez dela — segundo as falas adultas — uma moça solteira e infeliz… porque houve um tempo em que a felicidade das mulheres dependia das alianças feitas em vida.
Todos que olhavam para ela… enxergavam apenas a perna torta, mais curta. Sua bota preta-pesada e os ferros que subiam pela perna — uma geringonça que lhe permitia ficar em pé como o resto de nós. As crianças — em referência ao mágico de Oz — a chamavam de: mulher de lata.
Ela teve paralisia aos oito anos — a única vítima da poliomielite que conheci — e se acostumou a conviver com os desiquilíbrios de seu corpo. Era uma figura triste, de poucas falas, que falseava os passos, enroscava-se nas coisas… e acusava cansaço ao ir de um cômodo ao outro. Mesmo assim, limpava a casa com esmero e ameava as crianças — que não se cansavam de importuná-la, gritando seus defeitos em voz ao alta, ao redor dela. Sempre torcia para que o aparato de ferro atingisse a um deles.
Havia quem sentisse pena da solteirice da moça… e quem dissesse que ela tinha exatamente o que merecia.
Foi ela quem me deu uma sonora bronca por gastar meu tempo sentada na mureta da varanda… a espiar os pássaros no quintal: não seja estupida, você não tem asas, não pode voar. Vá procurar algo melhor para fazer.  Ela se aborrecia por me ver imóvel-quieta-sentada-no-muro, tendo pernas e podendo correr, escalar árvores com as outras crianças.
Mas eu sempre fui quieta… tinha preferência por livros e conversas de adulto, com os quais me misturava com imenso prazer. Ela não conseguia entender-aceitar… fechava a cara, apertando bem os olhos e, furiosa, me cutucava com ponta de sua muleta de ferro.
Soube através da nonna que ela não sabia ler… fugiu da escola por não suportar as outras crianças e eu decidi que naquele verão eu iria lhe dar asas. Passou a existir em mim qualquer coisa de expectativa pelas quatro horas da tarde. Sentava na mesa da cozinha e esperava por ela… que no começou resistiu. Considerou bobagem aprender a ler naquela idade. Sentia vergonha por ser analfabeta e afirmava ser burra. Aquilo era coisa dita por outra pessoa e não por ela.
Ainda me lembro que estava a fazer as malas, no quarto… o coração falseava no peito. Era sempre a mesma sensação de fim de férias. Quando ouvi o canto frágil do carrilhão — era engraçado como em meus últimos minutos naquela casa, ele perdia a força, o encanto e virava um velho resmungão.
Ela entrou no quarto e me mostrou o caderno. Parecia satisfeita… tinha escrito o próprio nome dezenas de vezes. E o leu — com alguma dificuldade — em voz alta… e leu de novo e de novo e de novo. Quando já estava no carro, pronta para partir, ela aparece e disse: vou cuidar dos teus pássaros para você… até o próximo verão!


| leia com a trilha sonora |

02 | A Persona!

Eu tinha quase vinte — ela vinte e seis! Eu era recém-chegada… e ela parecia estar lá desde sempre, com seus olhos cor de caramelo. Os meus eram cor de café expresso. Ela sentava-se na primeira fileira de cadeiras — e eu mais ao fundo… nas últimas. Não nos falamos nas primeiras vezes, apenas nos olhamos rapidamente — e foi como tropeçar…
Ela tinha marcas na pele: um dragão e uma meia Lua em estado Minguante! Eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina: joelho rasgado, sangue a escorrer e a raiva a ferver nas veias… prestes a explodir nos punhos cerrados. Fui segura com força. Eu nunca fui alguém fácil de ser contida…
Ela baixava os olhos e se encolhia para não ser notada. Passava ao largo, se misturava as paredes-portas, feito camaleão. Eu enfiava as mãos no bolso e contava os passos e evitava pisar as riscas no chão.
Eu ouvia Led Zepelim… ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto… e eu de vermelho. Eu era febril… ela delirava!

                              Não me lembro qual das duas falou primeiro.

Me lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das tardes alaranjadas. Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade e eu era justamente o contrário. Talvez por isso, tenha sido muito assustador, mas completamente saboroso…
Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan. Eu era apenas alguém sem rastro-pele-certezas, leitora apaixonada de Emily Dickinson e Susan Sontag.   

Ela cursou apenas o primeiro ano de psicologia…
Surtou e acabou internada.

Me disseram que as drogas a fizeram dormir. Ela precisava de repouso — insistiram. Me avisaram que ela não se lembraria de mim ao acordar. Dei de ombros — não seria a primeira vez. Esperei… queria ver o tamanho do estrago.
Eu soube — através de uma enfermeira — a extensão dos danos. Os medicamentos roubaram toda a sua sanidade.

Foi melhor assim! — afirmou a mãe…
Ela estava em segurança…
(do.ma.da)

E eu passei a ser uma estranha… alguém a quem ignorar — sem nome ou importância. Uma sombra que a luz acende e apaga.
Apenas uma figura difusa, imprecisa… que pode ir embora, de volta à vida. Levando um caderno de notas onde a palavra — desire — foi escrita uma dúzia de vezes… como um sopro de lucidez. Uma espécie de prece secreta-silenciosa que se faz quando se lembra de si num tempo anterior. Uma pausa para ouvir um eco que veio de dentro, como um soluço que não se pode guardar…

Sinal de loucura? Para mim… a prova concreta de sua sutil in-sanidade.
E eu quis ser ela, vestir suas roupas, calçar suas palavras
e me apropriar de suas pegadas…
…e provar da coragem maiúscula que seus músculos vestiam. Da ousadia que seus gestos manipulavam com perfeição.

Mas eu era figura menor-apagada. Um risco sem força.
Uma palavra escrita pela metade — nunca pronunciada…
O silêncio que fica depois que o cigarro é levado à boca. Um rastro da fumaça no ar, até se desmanchar…

Quer ser minha amiga?
Eu não tenho ninguém…

Mas eu nunca tive disposição para pessoas. Queria ser sozinha. Viver no canto oposto às multidões. Ser silêncio. Não-ser! Uma solombra no chão que se apaga quando a noite se impõe e mistura todas as coisas em seu breu imperial. E, mesmo assim ela veio ficar em mim — insistiu com seu silêncio em ondas. Sem medo ou exigências fazer.
Vestia um sorriso imenso… disparava gestos impossíveis de se acompanhar. Era naturalmente curiosa. Parecia ter um caderno com perguntas prontas e uma coleção de poemas para os momentos mais estranhos.

E, ao dizer seu nome em voz alta, foi como ouvir um trovão do lado de dentro da pele, onde se formava uma tempestade:

Ca.ta.ri.na… o personagem-primeiro-premissa.
Substantivo impróprio!

A viagem que se repete dentro…

“Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar”.

Alfonso Barrocal


Julho chegou com fortes rajadas de vento e incalculáveis estragos abaixo da linha do Equador. O ano está disposto a não nos dar folga e eu sinto falta dos dias de julho que trago na memória. Tempo de pausa — uma espécie de intermezzo na realidade. Dias aquecidos, mais longos e lentos. 
Eu passei boa parte da minha infância sob trilhos… visitei cidades, conheci países. Me apaixonei por arquiteturas incríveis, culturas fascinantes e amei incondicionalmente os  estranhos nos quais tropecei.
Gostava imenso de observar as chegadas e partidas nas plataformas da estação. Sempre senti imenso fascínio pelo movimento humano de esperas que se encerram em abraços demorados… e das que se iniciam com o apito rude da locomotiva.
Tenho para mim que a escritora que sou, começou a existir ali… enquanto embarcava em frases alquebradas, diálogos aleatórios. Certa vez… vi um rapaz correr ao lado do trem, mantendo a mão no alto — como se quisesse atrair a atenção de alguém — sem sucesso. Gesticulava e pelo mover dos lábios, parecia chamar por alguém. Me pareceu um gesto tão difícil-definitivo que ficou vivo em meu íntimo, enraizado na pele-alma.
O trem avançou forte com seus sons de metais a riscar o trilho e ele sucumbiu… desmoronando gradativamente como um prédio com seus muitos andares, vindo abaixo após o mecanismo ser acionado.
A multidão na plataforma o engoliu e a distância o fez desaparecer de meus olhos. Procurei por ele em vão. Mas, de certa maneira, eu continuava a vê-lo — do lado de dentro. A cena não se dissipava. Seguiu viagem comigo… ultrapassando cenários inteiros-cheios. O vi em diversos olhares, em outras plataformas… enquanto chegadas e partidas — encontros e desencontros… se repetiam.
Quando um jovem vendedor de amendoim salgados — em saquinhos feitos a partir de uma estranha dobradura — bateu no vidro, pensei ser ele. Não era e eu não queria amendoim. Cruzei os braços a frente do corpo enquanto tentava imaginar uma história para aquele personagem solitário…
Conclui três paradas depois… que ele era apenas mais uma pessoa atrasada no mundo. Alguém que chegou tarde demais… e perdeu a oportunidade do gesto, da palavra — ficou para trás-depois-nunca-mais… para sempre.
Ainda hoje, sempre que ocupo um lugar no Comboio, olho pela janela e procuro por ele em meio à multidão. Aguardo até ouvir o som dos metais no trilho… o encontro em outros olhos-boca-mãos-braços… e aceno com o atraso de uma vida inteira.

26 | Bom dia para você também…

Depois de uma noite tumultuada, desisti do travesseiro e fui andar pelos cômodos da casa e acabei na cozinha. Mas, se eu fosse adepta ao cigarro, daria pesadas tragadas na varanda e deixaria no rastro um ar de nostalgia.
O que me tirou o sono? Um personagem que chegou e ficou. Dialogamos boa parte da noite, que escorreu pelas paredes. Eu passo horas inteiras a falar sozinha, com as paredes ou o teto, antes de escrever… quando saio pelas ruas (faz tempo que não pratico esse hábito) falo com as pedras das calçadas.
No meio do papo… resolvi testar ingredientes numa receita qualquer. Uma panela, uma lata de leite condensado, duas colheres de chocolate, meia colher de margarina e uma colher de pau.
Enquanto observava o movimento hipnotizador da colher — já devo ter dito em algum texto… que cozinhar me acalma-distrai-da-realidade, como se eu mergulhasse em uma espécie de transe.
Um grito lá fora, no entanto, serviu de despertador, do tipo que nos arranca da melhor parte do sono e nos coloca de pé, em um pulo:  — bom dia, dia. Uhuuuu. Eu observei aos azulejos a cozinha e orientei as orelhas para me certificar do que havia — supostamente — ouvido. Nenhum outro ruído aconteceu e eu voltei a observar a ‘massa’ do Brigadeiro que começava a ganhar forma.
Outro grito, dessa vez mais longo  — bom dia, vizinho. Bom dia pessoas lindas. Bom dia mundo-vida-árvores-cidade. Bom dia todo mundo…
Espiei o relógio… passava das sete e eu pensei em ir até a janela para saber de onde vinha tamanha euforia matinal. E como não podia abandonar a panela, me contentei com o meu imaginário, que foi abruptamente interrompido por outro grito. Uma vizinha alterada rugiu:  — cala a boca seu otário, vai te #%/+$_%. E para a minha surpresa o animado gajo respondeu:  — um maravilhoso dia para a senhora também. Seja muito feliz. Uhuuuuu. Bom dia mundo
A mulher fechou a janela de maneira abrupta… e aos risos, me pus a imaginar toda a rabugice daquela mulher. Desconhecia o motivo para a alegria matinal do gajo, mas o que sobrava nele, faltava nela. Enfiada em seu roupão de algodão, cabelos por pentear… a preparar o café em seu bule velho-amassado e a reclamar dos ponteiros da realidade em suas voltas nada cúmplice. O dia? Apenas uma data qualquer no calendário. O mês já era outro e ela nem se deu conta dos que se foram. O ano nem começou e para ela, já havia se encerrado. As contas vencidas se acumulando na porta da geladeira e tudo que ela deseja é voltar para a cama e ter algumas horas de sono tranquilo. A vida começou, mas ela se atrasou para a maioria das coisas. Chegou sempre tarde e, agora já não tem mais ânimo-disposição. A última vez em que desejou ‘bom dia a alguém’ foi apenas para retribuir um cumprimento no elevador. Uma formalidade. Mera obrigação social. Coisa que ela faz sem vontade alguma. Viver não é para todo mundo, mas o chato é que sempre é para os outros.
E o gajo gritou novamente sua alegria matinal para a rua deserta… me fez lembrar do galo em seu canto matinal no quintal da casa do nonno  — no templo da minha infância. A mesa posta. O cheiro de café. Pão quente e manteiga por derreter. A preguiça na pele e os raios de sol a dourar tudo que encontrava pela frente. A gente acordava aos poucos, ali na mesa mesmo. A cada gole de leite com café… um sorriso e os planos para mais um dia. Vontade imensa de correr. Pular. Subir. Escorregar. Nadar. Comer. Fugir. Respirar. Sorrir  — verbos fáceis de se conjugar.
Tive vontade de responder ao gajo, mas ainda era cedo demais para certas falas. Guardei tudo dentro para escrever esse texto enquanto devorava colheradas do Brigadeiro, receita da mãe de Marco, que escondia o doce em potinhos e colocava na minha mochila para mais tarde.

Ah, e para finalizar: bom dia, para você também…

24 | livro publicado e agora?

Uma das coisas mais engraçadas quando você é escritor… acontece quando você publica um livro, que é apenas a ponta do iceberg. Você leva anos para escrever um romance e quando finalmente o publica, nem tem tempo para saboreá-lo em paz… é preciso dar festa — tarde-noite de autógrafos — para os amigos que acompanharam a saga e aturaram — sem reclamar — os intermináveis dias de ausências.
Nem sempre estamos onde o corpo está. A mente foge a qualquer momento… para uma espécie de realidade paralela, onde trama-personagens se orientam. Quantas muitas vezes eu não me tranquei no banheiro para conversar com um personagem (?) para escapar do rótulo de louca no mundo-normal dos outros. Foi numa dessas muitas fugas que eu descobri o bloco de notas do celular… e passei a escrever meus capítulos em paz, alegando estar com dor-de-barriga. Não deixa de ser uma espécie de diarreia…
Uma vez publicado o livro… há um sem-fim de coisas por fazer — porque o livro precisa aparecer e lançamento é apenas um movimento inaugural… o debut. Mas não basta… e preciso mais. Existe uma lista enorme de atividades a cumprir — um verdadeiro plano de divulgação e ações estratégicas —, para que um livro alcance um número razoável de pessoas. Um livro pode ficar esquecido no limbo durante semanas-meses-anos e, de repente estourar.
Pois, lá estava eu em minha noite de autógrafos… tinha acabado de fechar o exemplar para entregá-lo à pessoa que já tinha feito mil poses para a câmera… com um sorriso de mil dentes, quando a distinta quis saber — você já começou a escrever o próximo?
Me lembrei de uma amiga que havia acabado de se casar e seguiam para cortar o famoso bolo… e já queriam saber quando encomendariam o primogênito. Ao que ela reagiu com horror — quem foi que disse a você que eu quero ter filhos? E o horror mudou de lugar, indo habitar a carcaça da outra pessoa, que buscou amparo nos demais convidados da festa: — e por qual outro motivo, se casa?
Alguém ao meu lado, se escondeu atrás da taça, inclinou ligeiramente a cabeça e cochichou sua ironia para comigo: — assim que nascer o primeiro filho, irão perguntar pelo segundo e pelo terceiro…
Respirei fundo… e pensei no meu feito recente — eu pari trigêmeos, acho que vou precisar de tempo para me recuperar desse parto, que não foi nada fácil. Todos riram, menos a criatura de olhos castanhos que me olhou insatisfeita, quase arrancando o exemplar autografado de minhas mãos. E, antes de voltar para o lugar de onde veio, retrucou: — hoje em dia é costume ter poucos filhos. Um ou dois, apenas. E como no seu caso foram três de uma só vez, melhor parar por aí. E saiu acenando com a mão no ar…
Não se provoca uma figura sagitariana dessa maneira — pensei. Ao chegar a casa naquele dia… fui revirar meus rascunhos antigos, guardados em caixas-gavetas e encontrei um que fez o meu vermelho por dentro, pulsar… e, nas horas vagas — que eram poucas, mas existiam — eu distraia a mente e dava descanso ao corpo, preparando o meu próximo romance…

23 | no tempo em que éramos felizes…

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Aconteceu junho e ao ler-te, eu me lembrei de outros tempos quando o mês de junho era isso — um tempo muito bom… perfeito e as manhãs tinham uma luz natural intensa. Eu gostava imenso de espiar os raios dourados de sol através do vidro porque deixavam um rastro de poeira astral no ar.
As malas deixavam seus esconderijos — na parte mais alta dos armários. Eram limpas com pano úmido para serem arrumadas pouco depois do café da manhã. C., tinha uma espécie de ritual. Espalhava tudo que iria precisar durante o verão por cima da cama a partir de uma lista cuidadosamente preparada na noite anterior — era de uma perfeição invejável.
Às vezes, pensava que a viagem começava ali… quando eu me acomodava na poltrona, com um livro de poesias em mãos. Enquanto lia meus versos favoritos de Eliot… observava entre os intervalos das páginas… o movimento de passos pelo quarto: gavetas e portas dos armários escancaradas e a fila de roupas surgindo caprichosamente: camisetas, separadas por cores. Calças e shorts. Uma malha para os fins de tarde sem sol e uma blusa para os dias de chuva. Cadernos de notas e livros… a agenda de viagem, com as passagens e os documentos dentro. Um envelope com dinheiro… e os cartões. Ao lado, ficava a sacola com presentes — outra lista, conferida várias vezes. Havia sempre uma encomenda feita por uma ou outra pessoa.
E depois que tudo espalhava… conferia duas ou três vezes — item por item. Ela nunca se esquecia de nada e usava absolutamente tudo durante as viagens. Eu era o seu contrário… a partir do momento em que colocava os pés para fora de casa, começava a me perguntar: o que estou a esquecer? E a resposta eu descobriria dias depois… algo sempre ficava para trás, em cima ou debaixo de algum móvel. Nada que atrapalhasse a minha viagem…
Quando menina, eu sonhava com a viagem na véspera — antecipava os movimentos todos. Percorria o caminho de casa até a Estação… apresentava a passagem ao Guarda e descia os cinco lances de escadas até a plataforma, onde cumpria a minha parte favorita da viagem: a espera. Observava atentamente as chegadas e partidas — naqueles dias eu ainda não pensava personagens. Apenas me sentia atraída por todas aquelas pessoas com as malas em mãos e as vidas em pausas — cada um com seu próprio destino a seguir…
Eu acenava para uns, sorria para outros e me escondia entre as pernas de meu pai para espiar com segurança àqueles que despertavam qualquer coisa de horror em mim. Havia figuras que o meu olhar recusava. Eu ainda não sabia absolutamente nada a respeito de pessoas boas ou más… eu era como os cães: gostava ou não — do jeito como andavam ou levavam as malas, como se apressavam por entre as pessoas, obstáculos a serem superados. E amava reparar como as mãos engatavam umas às outras. Mas sempre havia alguém que me fazia menor-encolhida… com um sentimento estranho, por dentro. Faltava ar-saliva-paz e eu me lembrava do conselho de C., para não falar com estranho e nada aceitar.
Quando acordava pela manhã… não me lembrava onde estava e pensava ser a casa da nonna — faltava, no entanto, o cheiro dos móveis antigos, o som do carrilhão, o cantar do galo e aquele aroma maravilhoso de café no ar.
Consciência restabelecida… começava a correria para chegar uma hora antes do embarque — fechar janelas-portas, desligar a energia, a água. Eu ficava para trás nessas horas… diminuía o ritmo dos passos propositalmente. Gostava de espiar os cômodos vazios, com os móveis todos no seu devido lugar e aquele esvaziar-se de nós. Sempre pensava na condição das paredes sem ter a quem moldurar.
Nas primeiras viagens, C., me buscou pelas mãos e me apressou… e eu me deixei arrastar pelos caminhos de casa. Não sei como ou quando percebeu… mas, me lembro que, de repente, ela passou a esperar por mim, na porta… como se dissesse — no seu tempo. Parecia saber que a minha viagem começava ali… e era preciso aproveitar cada minuto-momento.

 | fotografia tirada nos primeiros dias de junho, curiosamente primaveril |

22 | O ano que não passou…

Acordei pela manhã com uma sensação de outono na pele e também na alma — mas a moça do tempo disse que o Inverno chegou no sábado, pontualmente às 18h44… horário local. Como se pontualidade fosse coisa-comum por aqui.
E para contrariar a moça… o sol emergiu forte logo nas primeiras horas, estampou um dia na fachada da cidade, lambeu as faces dos prédios, tocou o asfalto e fez subir a temperatura: quase trinta graus antes do meio dia.
Mas, no meio da tarde, tudo mudou… fortes rajadas de vento agitaram o que ainda restava de folhas nas árvores. Causou turbulência no vôo dos pássaros. Tumulto nas cortinas e fez bater um sem-fim de portas-janelas. Alguns dos meus papéis voaram, por sorte não deixaram o espaço do quarto-cama…
Lá fora… quase ninguém pelas calçadas porque as ruas do bairro seguem semi-desertas de humanos e cachorros. Às vezes, um ou outro surgem do nada… e desaparecem sem que saiba para onde foram. O bairro perdeu as conversas pelo caminho, entre esquinas e qualquer ruído novo atraí uma platéia nas janelas dos prédios. Por aqui, se respeita o isolamento.
Não sei dizer para onde foi o ano, o mês… a semana — o outono, tampouco. Alguém anunciou em voz alta — reparou que estamos em Junho? — Eu reparei que não sei para onde foram a maioria dos dias desse Ano, repleto de estranhezas.
Me lembro que no Ano passado, em dado momento, pedia — quase implorava — para virar a página e avançar ligeiro para o próximo capítulo. Soubesse o que eu sei, teria ficado mais tempo por lá e lidado com as agruras.
À meia noite do dia trinta e um — distraídos com os risos e diálogos — só fomos reparar no Novo quando o colorido dos fogos alcançou os céus da Paulicéia. Foi um corre-corre atrás de um relógio. Não encontramos nenhum e alguém ironizou — perdemos o Ano Novo — enquanto gargalhávamos pela sala… o espocar dos fogos no ar se despedia do Velho. Ah, se soubessem… creio que ninguém teria festejado.
É verdade que o ano passado não nos deu trégua — mas ao menos foi um ano inteiro… com seus trezentos e sessenta e cinco dias, sem pausas ou interrupções abruptas, por mais que os temas tenham nos levado à exaustão. Existia a possibilidade de trabalhar o rascunho, melhorar o enredo, trabalhar os personagens… porque foi um livro escrito às pressas, de qualquer jeito, sem o cuidado necessário. Um escrever por escrever somente. Não foi possível editar-revisar… apenas uma leitura de mesa, num sem fôlego.
E veio o tal do Ano Novo! E como havia muitos clichês na trama, resolveu-se adicionar um elemento novo. E ainda não sei se foi o susto com o tamanho do conflito escolhido… ou a incapacidade dos personagens em lidar com a trama. O fato é que o rascunho que foi considerado promissor, acabou abandonado no fundo da gaveta.
E cá estamos nós — feito Marionetes com fios cortados — a imaginar o dia seguinte. Alguns por aí, acreditam que seremos melhores, que aprenderemos alguma coisa. Não há como saber Assim como no caso do vírus —  sars-cov-19 —  nada sabemos e, talvez, amanhã, saibamos menos ainda.

12 | Lugar-de-fala

Quando criança — segundo as minhas lendas pessoais e eu tenho algumas —, eu demorei a falar. O que foi motivo de preocupação dos parentes-amigos-vizinhos, que recomendaram a ajuda profissional. Não era natural uma menina com quase três anos… não pronunciar palavras. E as possibilidades foram rapidamente enumeradas: de surdez a algum defeito nas cordas vocais… ou coisa pior.
Os meus, consideraram que eu falaria quando fosse o momento e tivesse vontade — decidiram esperar. E a primeira palavra veio certeira — sem erros fonéticos. Apenas uma palavra inteira — segundo o que me disseram, sem revelar a tal combinação de vogais e consoantes. Depois disso — ainda segundo a lenda — voltei a me calar.
Eu gostava imenso de ouvir todos os sons… me sentia atraída pelo gestual dos lábios-olhos-mãos e me divertia tentando encaixar todas as peças daquele jogo fonético — isso não sofreu qualquer alteração.
Nasci numa família de pessoas adultas… um advogado especializado em transações comerciais a uma psicologa cognitiva. Os dois gostavam de ouvir-falar. Nossas refeições eram regadas a diálogos sobre tudo-e-nada. Respeitava-se o tempo de fala do outro, em silêncio, sem interrupções ou quando feitas, havia o cuidado de pedir a palavra.
Eu fui a última chegar… a menina que se sentava à mesa… com os adultos da família e não interferia no diálogo a menos que fosse chamada à fala — seguindo as orientações recebidas… e meu comportamento frequentemente era confundido com timidez.
Mas enquanto muitas crianças da família, não tinham autorização para se sentar à mesa com os adultos — nem mesmo durante as refeições —, devido a falta de modos… lá estava eu, entre os adultos a observá-los e sendo alvo de um punhado de elogios-rasgados.
Curiosamente, existia um esforço da parte deles para me introduzir nos diálogos. Faziam perguntas várias… apenas para me conceder o direito-de-fala. Antes de responder, no entanto, eu buscava pelo olhar dos meus, em busca de autorização. O sinal era discreto, quase imperceptível, mas eu o captava com facilidade. Alguns demonstravam surpresa com a resposta data, como se eu fosse um ser extra terrestre, com capacidade de comunicação.
Na idade escolar, o tempo-de-fala era outro. Os professores faziam suas explanações — algumas pareciam intermináveis. Uns exigiam silêncio absoluto enquanto outros permitiam pequenos diálogos que transformavam a sala de aula em uma caixa de abelha. Os questionamentos eram permitidos ao final — quando a lousa estava cheia e a matéria desvendada. Nesse momento se podia levantar a mão e apontar as dúvidas. Eu era a única a me apresentar. Meu professor de história, depois de algumas aulas… passou a se dirigir diretamente a mim, enquanto o de geografia — figura esquizóide —, vasculhava a turma inutilmente, antes de me conceder a vez. Eu me divertia com a decepção demonstrada por ele, ao se ver obrigado a mim uma vez mais…
Ao ingressar na vida adulta… percebi que a fala era um dos tais direitos humanos. Todos falavam sem intervalos ou pausas. E lá estava eu, dentro de uma caixa de maribondos atordoada pelas ferroadas. O jogo ficou complicado… me acostumei a remover os óculos na tentativa estranha de alcançar um pouco de silêncio-paz-quietude. Fechar os olhos e dar especial atenção a respiração — às vezes, funcionava. Mas, os sons eram tantos que no final do dia… eu estava exausta.
Um diálogo requer duas ou mais pessoas… alguém precisa estar disposto a ouvir o que o outro tem a dizer. Mas, se você prestar a atenção… a maioria das pessoas querem apenas falar e falar — esvaziar-se de tão cheias, porque não há quem se mostre disposto a escutar. Todos tem opiniões a dar sobre os mais diversos temas, ainda que não tenham qualquer conhecimento a respeito.
Não dizer-se, permitir-se calar e respeitar o tal lugar de fala do outro… parece matéria que se acumula por incapacidade, resultando em dependência.
Sinto saudades das mesas da infância… enquanto o mio babo lia as notícias de dentro do jornal, eu espiava os títulos das matéria do lado de fora. Ele gostava do caderno de esportes e de economia. Eu tinha preferência por palavras cruzadas e outros jogos, que ele separava para mim — com o tempo passei a ler o caderno de entretenimento. C., lia revistas de arte-moda e artigos especializados, durante o café da manhã.
Tudo isso produzia em nós… curiosas formas de silêncios… interrompidas apenas quando um de nós precisava ouvir o outro. Certa vez, depois de finalizar a leitura de um artigo, ela disse em voz alta — há tantos temas não discutidos que requer urgência e não estão na pauta do dia. Não é possível que, às portas do século XXI, continuemos a repetir os mesmos erros. Ainda investimos em mão de obra barata, visando única e exclusivamente o lucro… escravizando pessoas com uma normalidade impressionante. E o futuro de cada um de nós continua a depender da condição de nosso nascimento. A tal oportunidade que o Capitalismo inventou, é como um jogo de caixas amontoadas. Você precisa estar com a caixa certa: tamanho-peso-altura… na hora exata em que uma delas cair, para ocupar o espaço, deixado-vago. E vale tudo: passar por cima de alguém que esteja a sua frente, fraudar o sistema para derrubar caixas, pagar alguém para ficar no teu lugar e estar atento as oportunidades. Claro que tudo isso fica mais fácil se você tiver a cor certa, o sexo certo… e souber se aproximar das pessoas que regem o sistema. E os demais? São meros escravos da idéia-ilusão e são convencidos todos os dias de que a chance é a mesma para todos .
Aprendi entre um gole e outro de leite caramelado quente como funciona o mundo dos homens capitalistas. Cruzei os braços a frente do corpo e fiquei a pensar o meu lugar no mundo-realidade. Não tinha perguntas a fazer naquele momento. Estava quieta-muda-calada… a imaginar como faria para ir na contramão daquela realidade… e cá estou!