6 ON 6  |  ho ho ho

Eu me lembro de uma única comemoração de Natal… Aproveitamos a época das festas para ir visitar J., que não frequentava os encontros familiares para evitar desconfortos para a sua esposa, que era católica e tinha o hábito de festejar o nascimento do menino cristão…

1 — Levamos uma rosca de yule feita com massa de manteiga, açúcar e trigo… recheada com frutas cristalizadas e cereja ao marrasquino. Uma tradição familiar que eu aprendi com o mio babo que aprendeu com a nonna... e eu sigo dando continuidade.

2 — Assim que passei pela porta da casa de minha zia… dei de cara com uma enorme árvore de natal. A casa inteira exibia o tal do ar natalino. Havia meias penduradas na lareira com os nossos nomes. Na mesa de jantar um enorme arranjo com velas, pinhas e castanhas… e um sem-fim de enfeites coloridos espalhados por todos os cantos e cômodos. Eu me senti em uma daquelas lojas de departamento…

3 — Comentei com C., que se um Noel entrasse pela chaminé a qualquer momento, eu bateria nele com um daqueles enfeites. Escolheria o mais pesado… e engolimos a risada para não ter que nos explicar.

4 — Tivemos que sair às pressas para comprar presentes — tradição natalina… e nos divertimos — feito turistas — em simpáticas lojinhas da cidade… todas decoradas de acordo com o Advento.

5 — A meia noite sentamos à mesa para a ceia, unimos as mãos e L., — que parecia a mais feliz das criaturas –, fez uma prece de agradecimento por estarmos todos reunidos, com saúde e celebrando o nascimento da criança cristã. Trocamos presentes pela manhã sem a tão esperada neve que só foi cair no dia vinte e sete… contrariando — para variar — a previsão do tempo.

6 — A única tradição de Natal que eu preservei — até a pandemia mudar a maioria dos meus hábitos — tem relação direta com o Café… Depois que passei a frequentar a Starbucks, passei a acompanhar as mudanças praticadas pela rede que substituía o tradicional avental verde por um vermelho… E o branco do copo de papelão com sua sereia de duas caldas cedia espaço para as versões natalinas.

Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

17 — Uma porta que se abre em outro lugar

Caríssima M.,

Manhã de domingo indecisa entre nuvens e sol e ventos e o canto dos pássaros nas árvores da Alameda. Há previsão de tempestade no decorrer das horas. Mas, as nuvens no céu dizem contrários.

Fui à feira pouco depois da terceira hora cheia… para fugir do sol quente. E ao avançar pelas ruas com nome de pássaros, esbarrei no colorido de uma construção e, o cuore acusou o golpe. Outro estacionamento nasceu… e eu não consegui evitar o espanto ao ver o terreno limpo, o chão coberto pelo cinza-asfalto e as tendas azuis armadas para proteção dos veículos.

A memória acenou com as lembranças do pequeno portão de ferro retorcido e do estreito corredor que levava aos fundos, onde havia uma casa com suas paredes e janelas resistindo bravamente ao tempo e ao descaso. Eu sabia que era questão de tempo… Mas não esperava que o dia seguinte fosse acontecer tão depressa.

Restaram as fotografias… que eu fui espiar assim que voltei para casa e acabei por recordar uma construção da minha infância. A casa da rua debaixo havia sido derrubada e no lugar brotava outra — maior, com dois andares. Numa dessas aventuras de criança, fui até lá para espiar os contornos. Dava para saber os cômodos, embora não fosse possível saber o que seria quarto-cozinha-sala e não estava interessada nisso. Os garotos da rua — que me acompanharam — decidiram brincar de labirinto. E o que começou com quatro crianças… de repente, era uma dúzia e meia delas, correndo por dentro e por fora, entrando e saindo dos cômodos por contornos de portas-janelas; subindo e descendo degraus de tijolo.

Não consigo me lembrar qual era a graça nessa brincadeira… que acabou quando uma das crianças, ao tentar pular da janela, desequilibrou-se ao pousar e foi com a cara no chão. E foi aquele horror de sangue, fraturas nos punhos e nos dentes — seguido por uma aborrecida saraivada de broncas dos adultos.

Durante uma semana inteira não se ouviu um único ruído na rua… crianças de castigo, sem poder brincar com os amigos, isoladas em suas casas. Eu estava no portão de casa, sentada nos degraus, ouvindo contos indianos quando a vizinha perguntou a C., a respeito do meu castigo. Eu não havia sido punida. Tinha dito aonde iria e não me machuquei, tampouco fui responsável pela queda do garoto, que era conhecido por suas fragilidades. Conversamos a respeito dos perigos de correr em um local em obras e só…

Furiosa, a mulher atravessou a rua e foi contar a novidade a outra vizinha, que estava no portão à espera de diálogos. Vez ou outra o olhar das duas atravessava a rua. Consideravam C., uma péssima mãe… curioso que os filhos delas pensavam justamente o oposto.

Au revoir

16 — Entre o dia e a noite, há sempre uma pausa quebradiça

Meu caro dezembro,

Você chegou! O último mês do calendário humano… costuma ser época de festa, férias e as pessoas se agitam para fazer suas retrospectivas. Passam a limpo um ano inteiro: o que ouviram, leram, assistiram. As famosas listas pipocam aos montes por aí… e eu que não gosto de listas, tento entender para onde foram os outros meses do ano! Acaso saberia me dizer?

Você esteve por aqui e não faz muito tempo e nem venha com essa narrativa comum: já se passaram onze meses. Seus dias não foram nada fáceis — demasiadamente quentes. Choveu pouco e os enfeites pendurados nas casas, nos prédios… parecia sinalização de outros tempos, indicando doenças incuráveis e morte certa.

Os encontros foram proibidos e as festas canceladas. Mas teve quem deu de ombros para tudo isso e amparado na ilusão de corpo fechado: reuniram-se amigos e familiares para festejar como antes. Há quem se arrependa até hoje… dos espaços vazios que viram surgir no janeiro seguinte ao seu.

Mas e nós, meu caro? Nunca nos entendemos, não é mesmo? Desde a infância — quando fomos apresentados — que nos olhamos de soslaio um para o outro. Nunca perguntei o motivo da sua antipatia por mim… e nunca lhe falhei o motivo do meu não gostar…

Quando você era todo branco e havia no ar, certa ansiedade por neve. As previsões falhavam! Você fazia de propósito e eu me divertia com os olhares para fora. Nada de neve… eu te considerava meio teimoso, como eu. Querem neve? Não dou

Do lado debaixo do Equador, você é todo dourado e os dias imprevisíveis. Nos últimos anos foi seco e quente. Choveu pouco… e as tempestades tão comuns aos teus dias dourados de sol, foram poucas. E as notícias são as de sempre: foi o mês menos chuvoso dos últimos quarenta e tantos anos. Essas estranhas somas humanas. É o tipo de notícia que não consigo entender…

Mas é isso, meu caro, você está entre nós, de novo. Chegou cedo, rápido e sem novidades! E eu nem vou dizer para ficar a vontade porque sei que será breve — como todas as coisas ultimamente. Depois de amanhã, você partirá… e alguns de nós pulará ondas, comerá lentilhas. Haverá queimas de fogos e promessas impossíveis, facilmente esquecidas no dia seguinte. Tudo isso para celebrar o fim e acreditar em novos começos.

Será que pode me ajudar com isso, nesse ano? Não te peço um novo começo — você deve saber que não me importo com essas coisas. Quero apenas um dia seguinte a tudo isso? A quem escrevo, dezembro? A você ou ao Noel?

Apenas escrevo…

Au revoir…

15 — Caminho… e atrás de mim caminham lugares

Caríssima A.a,

Comecei a sentir o verão em meu corpo nessa última semana. Vi o sol com seu dourado gasto tingir a fachada dos prédios da alameda. Soube que seria um longo dia azul, com horas abafadas e promessas não cumpridas de chuvas. Eu não sei como as pessoas conseguem ser felizes no verão. Eu acuso cansaço… evito as ruas-calçadas-pessoas. Evito o mundo e sua realidade demasiadamente iluminada. Evito pensar… e aborreço-me facilmente.

Fecho as cortinas e recorro ao amigo-mestre — Álvaro de Campos —, lido tantas vezes ao longo dos últimos anos… ‘leitura perfeita’ para os dias de verão…

Não sei quando aconteceu, mas faz algum tempo que as minhas leituras tornaram-se sazonais. Jane Austen é para o outono, assim como são os poemas de Emily Dickinson e Wislawa! — Mia Couto e seus contos… eu leio no verão, por me remeterem as férias de minha infância, quando sentava-me à mesa com os meus para ouvir o nonno tagarelar impassível suas histórias. Ele era um contador de causos… um ilustre marinheiro de si mesmo.

Campos e sua ‘passagem das horas’ aconteceu em minha realidade através de um menino-homem, que dizia ter sua dor tatuada nos poemas desse poeta-homem-personagem de Pessoa. Ele rabiscava na própria pele alguns de seus versos com tinta azul: ‘é preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas’…

Antes, eu tinha preferência por outra Pessoa: Alberto Caeiro, que parecia falar, em seus versos, do homem que eu aprendia… enquanto crescia. Mas ao ouvir a voz rouca do meu menino-homem rasgar no ar,  os versos sagrados de Campos ‘trago dentro do meu coração, como num cofre que se não pode fechar de cheio… todos os lugares onde estive, todos os portos a que cheguei, todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, ou de tombadilhos, sonhando… e, tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero’ — foi como compreender o abismo que trazia dentro. A escuridão se iluminou por um relâmpago, que surgiu pouco depois de um estrondo. E nada mais foi como era antes…

Foi no verão de dois mil e três que encontrei o meu livro-bíblia de Campos… durante um caminhar seguro pelas ruas do centro velho paulistano. Naqueles dias eu tinha meia dúzia de livros: um romance de capa dura (orgulho e preconceito) uma coletânea de Mário de Andrade e livretos colecionáveis (Emily Dickinson, Ana C., ) que eu levava comigo para onde quer que eu fosse.

E ao andar pela Barão de Itapetininga… esbarrei numa dessas livrarias que já não existem mais. Entrei e percorri um cenário estranho-equivocado. Parecia uma queima de estoque para entrega das chaves. Cenário frio, desconfortável e bagunçado. Prateleiras vazias e em total desordem. E no meio desse cenário… me deparei com o livro de capa verde-suja e empoeirada. Parecia que estava ali há alguns séculos.  Aparência velha… e as páginas gastas.

Poesia não vende… disse um rapazote-atendente. Eu sorri e entreguei o exemplar em suas mãos. Ele parecia não acreditar que finalmente aquele livro-encalhado com suas muitas páginas iria embora. Ele ainda ousou perguntar: vai mesmo levar? E eu recordei imediatamente Emily e sua poesia tão minha…

O livro, minha cara… rejuvenesceu em minhas mãos! As poesias de Campos se misturaram as minhas anotações… e eu já troquei o plástico, os postits que marcam os meus poemas favoritos.

E ao espiar a alameda ‘alagada’ de sol… recorro a Campos uma vez mais para mais uma hora (talvez duas) de diálogo. Tranco-me dentro… e escrevo essas linhas a ti, como se escrevesse ao outro, que já não pode receber os meus envelopes. Como se dizia na infância: ‘virou estrela nesse céu de amanhã’…

Ele teria gostado de ti… e ligaria numa hora própria para falar-te. Ele tinha essas manias com as quais nunca ralhei. Na última vez em que nos falamos, ele estava feliz. Ligou para dizer que havia encontrado uma pequena folha pelo caminho. Coisa-sua, disse ele ao que respondi…  Adesso è davvero una cosa nostra, bambino!

Ao que tudo indica, creio que as missivas estão se tornando sazonais… considero que escrevo-te no verão, ainda que o calendário não concorde!.

Au revoir

Anna Clara de VittoMariana Gouveia

Ainda o quase

Eu sei dos calendários e de seus dias em fila — mas, não sei absolutamente nada das datas que eles anunciam-medem. Conheço a sequência… em idiomas vários.

Gosto imenso de Lunedi — em italiano. Miercóles — em espanhol. Friday — em inglês. Dimanche — em francês… mas eu vivo perdida da realidade demarcada por humanos em todos os idiomas que circulam pela minha língua.

Amanheço e anoiteço sem Norte… se Lunedi ou Mardi, Miercólis ou Friday, Dimanche — tanto faz. A minha realidade… se organiza a parir do pôr-do-sol, que eu sei o exato instante em que começar a acontecer. Olho para o céu e percebo a queda do azul… e percebo a maneira como os raios de sol lambem as fisionomias modorrentas dos prédios ao longo da Alameda. As sombras começam a crescer de baixo para cima e vão engolindo tudo…

Por onde eu passo, no entanto, há sempre um calendário… atrás das portas, fixados nas geladeiras, presos nas paredes, em cima de mesas… com ilustrações, fotografias — sempre dispostos a me lembrar do dia da semana… do mês… do ano.

Sempre considerei um equívoco essa estranha mania humana de medir o tempo. Para mim, seria o bastante amanhecer e anoitecer… sem fusos — apenas fases… como a Lua. É tão intrigante minguar. E se fazer cheia? Maravilhoso… Figura nova que parte sempre das sombras, do lado de dentro!

Gosto imenso de amanhecer-anoitecer e de apreciar os intervalos de vida-morte entre um e outro. Já reparou que há dois momentos no dia em que tudo parece fazer uma pausa. É rápido e é breve ao mesmo tempo. Se piscar, você perde. Precisa estar atento para sentir que, como o cuore, o corpo e a alma, a vida simplesmente para… e fica lá, dentro daquela fração de segundos. Não pulsa! Não acontece… e é como prender a respiração e buscar por uma generosa porção de ar no instante seguinte, enchendo bem os pulmões.

E depois que eu sou atingida por uma espécie de rajada forte de vento… volto a existir e não nego que tenho dificuldade para lidar com os mapas humanos. Nem sempre reconheço as segundas, terças… não sei o que fazer com os dias de domingo e seu cansaço de horas. Os sábados já não me conduzem as ruas com sacolas jeans — feitas a partir de calças e saias velhas. Não acordo cedo… tampouco vou a cozinha para beber uma xícara de leite caramelado e me sentar à mesa — povoada por papéis-envelopes-cadernos-livros e a velha lapiseira de sempre.

Na minha infância, o tempo se deixava medir — era o tempo do crescimento, das emoções, das chegadas e partidas… descobertas e despedidas. Quase sempre era o tempo dos outros… medidos a partir das rotinas diárias: hora de acordar, de tomar banho, de ir para a escola…

Não sei se sou feita de dias ou de noites! E quanto tempo tenho. Mas quero chegar aos quarenta e avançar ruas, beber xícaras de chá, ler muitos poemas e sair desse quase que me persegue desde a meninice onde tudo começou. E o fim se escreverá no rodapé da minha figura, mas enquanto isso, repito meu mantra em voz alta: quase quarenta

Mas agora falta pouco, ao menos é o que diz o calendário dos humanos.

De que eu me lembro?

Enquanto folheava — pela segunda ou terceira vez — o livro “olhos de menina” de Susan Fletcher… no meio da tarde fria e sonolenta desse domingo, comecei a pensar nos ontens que eu coleciono como se fosse figurinhas de álbum.

A personagem se questiona a respeito das coisas das quais se lembra e desfia de forma agradável as suas lembranças acerca dos dias passados a partir de um elemento que a marcou profundamente. Surge a pergunta: do que eu me lembro? — e a sensação que senti na primeira leitura se repete…

Quando dou por mim… estou entregue as lembranças. Recordo momentos inteiros. Não a partir de um determinado ponto, como a personagem do livro que diz num sem fôlego: três coisas aconteceram quanto tinha sete anos… Como é tudo coisa aleatória.

Meus pretéritos são figuras estranhas. Não sei exatamente de que me lembro. Há muita coisa acumulada. Tanto entulho-retalhos-restos — algumas coisas inteiras; outras pela metade… A mente é essa coisa arbitrária narrando prelúdios ao seu bel prazer e entregando-os a mim a qualquer momento do dia.

E ao questionar-me de maneira consciente, nada ocorre… mas bastou ler a pergunta dentro do livro que fui catapultada para outro lugar. Não é exatamente uma lembrança minha… é coisa emprestada. Disseram-me que uma bola passou pela porta-aberta e encontrou o meu rosto, atingindo-o em cheio.

Eu me lembro de descer os degraus de madeira, aos pares… Estou animada porque vamos a algum lugar. Vou a frente… É manhã de domingo e me deparo com um clarão que antecedeu a escuridão, como numa tempestade.

Quase quarenta anos depois e eu ainda tenho dúvidas… sei que eu acordei na cama do quarto de alguém e estão todos lá, ao meu redor. No pé da cama, avisto a imagem de um garoto cabisbaixo com uma bola na mão. Ele parece pronto para se desculpar. Mas eu nem sei pelo que…

Ajudam-me a sentar na cama… Ainda sinto tonturas e tudo se move-gira. Eu acho divertido e estranho. Sino sono-cansaço, digo palavras sem sentindo e fecho os olhos… Acordo algumas horas depois, num quarto branco com uma mulher que diz: olha quem acordou!

Passei alguns dias enxergando apenas por um olho — o esquerdo — e o resto da vida cobrindo-o com a mão, para enxergar as coisas por outro ângulo. Uma grande bobagem, concordo! — mas é um movimento involuntário. Quando dou por mim, lá estou eu com a mão em cima do olho em busca de um ângulo diferente.

Curioso foi descobrir em uma ida ao oculista que é justamente o que enxerga melhor… o outro — direito — exibe imagens sutilmente esbranquiçadas e um pouco turvas.

Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

14 — Caindo de si em si mesmo…

Amore mio,

…aconteceu novembro em mim, há pouco, enquanto observava a paisagem ensolarada, a rua com seus movimentos de carros-cães-pessoas… Às vezes, parece que o tempo para e a vida não se atreve a sair do lugar… permanece imóvel, como se aguardasse algo a acontecer… um estalo, um estouro — talvez.

Eu e o calendário não temos qualquer entendimento… não sei como se organiza essa sequência de números rotulados com nomes equivocados. Eu tenho meus próprios ritmos de vida e não-vida… minhas somas e meus rituais de ir e vir.

No final do mês será meu ano novo. No final do ano, será apenas troca de calendário. Não vou estourar champanhe, soltar fogos, fazer festa, promessas, pular sete ondas. Vou assistir de novo o mesmo filme, ler o mesmo livro e agarrar-me a sua pele, que depois de tantos novembros vividos em pares, já se acostumou aos meus desfeitos…

Mas eu confesso que tenho uma relação agradável com alguns meses do ano. Maio — que eu apelidei de mês das trovoadas. Junho por ser final de ciclo num tempo anterior a esse e ser o teu ponto de partida… e o nosso também. E agosto por ser partida anunciada, dias lentos e aborrecidos porque eu começava a me despedir em meados desse mês. Mas isso ficou para trás, virou a página… e Agosto passou a ser premissa-chegada, ponto de partida para tudo e tanto… a começar pelo teu abraço-primeiro-estrangeiro.

E há novembro — esse mês novelo — com seus trinta dias imprecisos, sempre inéditos… tão meu!

E já se passaram quatorze dias… e, no entanto, só agora novembro aconteceu em mim… Eu fechei os olhos e de minha porção de mundo, revisitei cada um dos meses desse ano-maluco. Fui revendo meus lugares-paisagens… passando a limpo os fatos que a memória escolheu guardar.

São trezentos e tantos dias… e não há como guardar tudo! — algo sempre se perde, mas eu não faço idéia de como se orienta essa escolha. Penso que deveria ser como os livros de poesias que trago comigo. Hoje eu escolhi passar o dia na companhia de Borges — o outro, o mesmo — amanhã será outro… E você estará aqui, por perto, com sua voz grave, sua risada em ondas e seu jeito de menino-homem — o meu contato com a realidade, onde tudo começa.

Não fosse você, meu caro… não pisaria em solo firme…
Permaneceria à deriva das minhas próprias emoções!

Au revoir

[considerações para um dia nublado]

Eu gosto de gostar… estender a mão para um encaixe e ficar num abraço. De convidar à casa e pôr a mesa. Escolher o prato, o vinho. Servir o café… com biscoitos de leite que derretem na boca, às vezes, na mão — receita antiga que combina coco-trigo-amido-de-milho-e-manteiga. 

Mas gosto imenso de não gostar porque há temperos que não agradam ao meu paladar e ingredientes que não uso. Considero natural existir pessoas estranhas à minha pele-alma; que o olhar recusa e o corpo não deseja partilhar calor-sabor-aroma.

O que tento evitar é o deixar de gostar… mas, às vezes, acontece e eu tento não lamentar. Há xícaras que se quebram. Colheres de pau que queimam, quando esquecidas perto do fogo. Tábuas que deixam de servir. Facas que perdem o corte. Ingredientes com prazos de validades vencidos que, percebo na hora de fazer uma receita, graças ao hábito de conferir o rótulo das embalagens.

Acredito que as relações se estabelecem através da empatia… esse ingrediente que nos faz prestar atenção em alguém e degustar qualidades-e-defeitos em pequenos goles. É preciso existir algo que nos una a alguém — um aroma âmbar —, nessa seara insana de humanos em movimentos.

Se tem uma coisa que eu compreendi ao longo do caminho é que não é possível gostar de todos. Há gente demais no mundo e não temos tempo-habilidade para tanto-tudo. Ainda mais eu, que sou uma criatura de poucos. Gosto de pequenas doses, colheradas… o excesso me cansa. 

Todos temos preferências… secretas-silenciosas — nossas, que aquece a alma ou que nos faz exibir uma careta. Se quente-frio ou doce-amargo… depende de nós.

Eu gosto de ópera-rock. Vinho branco servido em caneca de ágata. Prato fundo para a massa. Pia sempre limpa. Faca bem afiada. Livro de poesia. Xícara de chá. Mesa posta. Legumes coloridos-firmes-bem-escolhidos-lavados.

Não gosto de louça suja. Bourbon. Prato de vidro. Talher sem peso. Panela queimada. Faca sem corte. Quiabo. Chuchu. Coentro. Café fraco-frio. Toalha de mesa.

E considero que convidar alguém a casa para um jantar… é coisa muito séria. Requer cuidados. Escolher o prato. Providenciar os ingredientes. Preparar a casa, a mesa. Cortar. Picar. Triturar. Aquecer panelas. Combinar tudo… e abrir a porta da casa-corpo-alma-memória. É preciso estar disposto a abrir-se para o outro…

Eu não acredito que seja possível preparar um jantar sem unir o que há de melhor em si. Sentar-se à mesa para uma refeição é partilhar intimidade… avessos-contrários. Desnudar-se… oferecer sensações antigas e novas. Oferecer-se… ao outro(s) a si….

Mas nem sempre estou interessada em presenças e prefiro que seja apenas eu, o sofá, a dog, mio amore e um filme na televisão e uma travessa de madeleines… que é feita com ovos, açúcar, manteiga derretida, farinha, fermento e aromas.

As mulheres que eu leio

É uma necessidade que me acompanha desde menina… contar histórias de mulheres que atravessam o meu caminho ou que observo de longe, em seus caminhos de vida.

Mulheres são figuras múltiplas e não há nada de misterioso nelas, como a literatura escrita por homens fez questão de adjetivar durante muito tempo.

As mulheres que conheci… eram figuras simples e a maioria tinha um mesmo propósito: ser feliz. Durante pesquisa feita em meus anos de estudos… ouvi dúzias de vezes essa resposta e percebi haver um medo em suas vozes, muitas vezes, opacas e fracas… quase uma não-voz.

Algumas se encolhiam tanto… outras escondiam segredos na pele — desejos soterrados. Outras se aventuravam por personagens de ocasião… eu gostava das que esbravejavam e era causa de estranheza as que se calavam, sepultando-se em seus corpos já mortos de cansaço.

Cada mulher é um mundo inteiro… e é justamente o que me fascina. Há qualquer coisa de sedutor nelas… um gesto, uma palavra. A maneira como se sentam-caminham. A forma como se vestem e observam umas às outras… e o próprio reflexo no espelho. Como pintam os olhos, as bocas, o rosto. Escolhem o brinco e o sapato combinando com a bolsa, onde cabe tudo e nada. Como recusam rótulos ou se adequam a eles. Como se transformam e se reinventam. Como se ferem e sangram… como morrem duas-três-quatro vezes… e renascem, feito a lendária Fênix.

Gosto imenso da maneira como se apresentam através do meu reflexo. É para onde olho quando escrevo. Respiro fundo e reparo nos meus traços. Levei uma vida inteira para compreender as minhas formas. Aceitar-se é um trabalho árduo e lento. Você precisa se reconhecer naquela figura que o espelho devolve. Saber exatamente de que matéria é feita e entender que enquanto o mundo dos homens aponta apenas o que é certo e errado… há muito mais a ser considerado.

Gosto imenso de ir até a pia do banheiro e com as mãos cheias de água, molhar o rosto. Faço isso uma-duas-três vezes — para baixar a temperatura da pele porque dentro é esse vermelho intenso-rubro, que ferve e nomeia o meu segundo livro-romance: ‘vermelho por dentro’. E não é por acaso… essa fatia estranha de nada.

Eu sempre reclamei dos personagens femininos escrito por homens. Raramente algum autor conseguia me oferecer algo real, no qual me apoiar. Era tudo tão falho e, sometimes, espalhafatoso. Sempre achei curioso o livro Anna Karenina… uma mulher que dá título ao livro e só. A personagem está lá. Mas a história é sobre Levin… e como essa leitura me aborreceu. Respirava fundo a cada virar de página… É um clássico da literatura, lido e fim… Esbravejei pesado com as paredes do meu quarto e nunca mais regressei a página-personagem-autor.

Tenho uma lista de personagens que me aborreceram. Por sorte, tenho outra… cheia de figuras nos quais aconcheguei o meu existir. Sou grata as autoras que debruçaram-se no papel para dar vida a algumas de minhas heroínas literárias. É preciso enxergar o outro para enxergar a si.

Por isso a palavra representatividade — que tanto incomodo causa por aí — é importante… permite a identificação, a ocupação e a transformação de um espaço. Faz saber que é possível ser diferente… e que as regras existentes podem ser adaptadas para um coletivo. Que o mundo é imenso e colorido e não é apenas para alguns-poucos… por mais que tentem nos convencer disso.

Dá muito trabalho mudar todo esse conceito estabelecido como Norte, uma coisa definitiva que nos é oferecido como modelo-pronto-único que não pode, não deve ser alterada. Mas houve quem antes de nós fizeram a sua parte… para que soubéssemos que tudo é coisa outra no dia seguinte.

Eu leio mulheres… e ouço suas vozes em diálogos que de tão-meus… inspiram-me a ouvir e dar voz a outras de nós.

13 — A flor escura da realidade

Daqui de dentro, sem prazo para emergir…

Caríssima M.,

…sua missiva chegou até mim como uma forte rajada de vento, daquelas que tiram tudo do lugar e causa algum tumulto na mesa que ocupo essa semana.

Não saí de casa — não vi pessoas e me espalhei pelos cantos desse lugar ao qual não pertenço. Sou hóspede temporária desse cenário, como fui de tantos outros, desde que cheguei à São Paulo. Sou hóspede em meu próprio corpo e o único lugar que reconheço como lar é a Noite — e os dias de chuva! Os relâmpagos e trovões… são parte de minha anatomia.

A noite é, com certeza, o meu lugar… é aquela roupa gostosa que o corpo veste e nela se esquece — uma espécie de segunda pele. É o meu inverno. Minha xícara de chá de raízes-folhas-e-cascas. O livro que sempre volta as mãos para uma última leitura.

Passei os últimos em mim, naquela porção mais funda, onde a realidade tenta, mas não consegue penetrar. Não é um refúgio onde me escondo — é apenas um lugar inventado durante minha estadia no templo da infância, por mim apelidado de: noite imensa…

Eu nunca gostei dos dias — que são causa de fadiga, indisposição. Respiro fundo — como quem morre — um sem-fim de vezes e o verbo aborrecer… se conjuga em minha pele feito tatuagem. O sol a tingir tudo com suas luzes me aborrecem… e eu me lembro de achar engraçado descobrir durante as aulas no colégio, que só enxergamos por causa da luz, que é codificada por células.

E eu passei a piscar mais depois que o professor comparou a pupila com o diafragma de uma máquina fotográfica e a ouvir um clique imaginário. Anotei em um dos meus cadernos-vermelhos: quantos cliques os olhos registram por segundo de vida? E quando é que folheamos esse nosso álbum?

Eu não sei se em algum momento parei de pensar nisso… porque continuo a piscar e a fechar os olhos para nada registrar-ouvir-sentir e ficar do lado de dentro… imersa em qualquer coisa de paz.

A realidade minha cara, sempre foi um ingrediente para os meus experimentos…
Eu flutuo por cima das coisas, atravesso cenários. Mas não sei se eu me misturo as coisas-pessoas-lugares. Passo por eles e levo comigo alguma coisa e, tento acreditar, que deixo qualquer coisa minha… numa espécie de troca-justa. — como diz a canção de Marisa Monte — ‘isso me acalma, me acolhe a alma‘.

Os abismos são assim… apenas queda  — mas há quem prefira a realidade que curiosamente oferece a sensação de pés no chão. Eu prefiro apreciar minha porção de Alice… cair e cair e cair!

Au revoir