6 on 6 | Miudezas

Gosto imenso de algumas palavras que são pequenos goles de tudo… Com aroma, cor e textura. Não precisa caber numa frase. Bastam-se… Sozinhas e se acomodam entre os lábios umedecidos pela língua em movimento de consoantes e vogais.

Eu que não sou fã de listas… tenho uma apenas com minhas palavras preferidas. Farfalla é a primeira da lista. Cuore… a segunda. Entardecer… a terceira. Envelhecer… Minguar… Darkness… Dépayser… e Miudezas, que é uma palavra líquida e escorre quando eu a pronuncio…

E cabe tantas coisas nessa pequena palavra… uma lembrança da infância, quando eu era uma figura miúda. Cabe o enorme arranha-céu que brota do chão da alameda com seus muitos andares e tudo que me interessa é uma única janela, esquecida acesa na madrugada…

1 – Gosto imenso de olhar para o céu pela manhã e reparar nas nuvens… suas formas de vento e a maneira como se agigantam ou se encolhem atrás dos prédios que brotam do chão da cidade…

2 – Sair para a suas e mudar a direção do passo… pelo prazer de verificar mais uma vez se a velha casinha, espremida por prédios, continua lá, com seu traço-antigo-pequeno e a velha veneziana desbotada fechada…

3 – E ser surpreendida pela beleza das hortênsias azuis — as minhas flores preferidas — semeadas por algum pássaro-jardineiro, num quintal sem cuidados ou afagos…

4 – No mesmo quintal, outra flor semeada por um sábia laranjeira que escapa da minha presença, refugiando-se entre arbustos…

5 – Volto para casa e, ao atravessar a rua… esbarro no rastro deixado pela chuva da manhã…

6 – Interromper o passo para não atrapalhar o pombo que encontrou um migalhas de pão… no meio do caminho…

Mariana GouveiaRoseli PedrosoSuzana Martins

Da cinza as Asas

Chove em mim.
Deixo escorrer por todos os lados
gotas agridoces que imitam lágrimas
e correntezas do sem fim.

Chove, e eu não posso salvar
minhas fases esquecidas em mim.
Não consigo soltar as palavras
que ficam alagadas dentro
dos meus guarda-chuvas.

Nem eu mesma posso ser salva
desses respingos que perfuram
todas as minhas artérias.

Suzana Martins, in:
Nascer pela segunda vez

As horas avançam… É segunda-feira, a última de Janeiro. O meu olhar percorre toda a paisagem urbana em busca de qualquer coisa onde pousar-pairar. Gosto imenso quando o dourado da manhã resvala nas faces envergonhadas dos prédios ao longo da Alameda encenando realidades avulsas.

Escuto uma sonora discussão vinda da janela do prédio à frente. Oitavo andar. São três mulheres vulcânicas que vivem juntas. O desentendimento é rotina por lá. O espaço se amplia quando perdem a paciência e disparam suas frases pontiagudas. O ambiente encolhe e as vozes se propagam pelos ares. Atravessam a rua e alcançam a minha varanda…

Alguém se mudou na semana passada… o apartamento debaixo exibe o cômodo vazio e a janela sem cortina. No outro andar, outra mudança. Deixaram as cortinas… entreabertas, exibindo o vazio em frestas brancas.

São as rotinas de janeiro… A senhora do sétimo andar abriu suas janelas e, por alguns segundos, debruçou-se no parapeito para espiar o pouco movimento da rua. Um avião decolou de Congonhas, com suas rotas a leste… E o olhar dela foi junto, acompanhando o voo. É a segunda vez que penso: quando é que ela vai saltar? — mas o meu pensamento não é para ela. Atrelei a fisionomia-solitária da moradora… à de Ana C.

Escapo para o alto e esbarro numa bandeira verde e amarela, presa na janela do último andar. Admito o incômodo. Na Itália fascista, a bandeira foi substituída pelo Dulce e lamento que os extremistas locais não o tenham imitado.

Escapo para o céu, um pouco mais acima, onde nuvens falam de chuva… ora escurece, ora o sol encontra espaço para tingir de ocre a paisagem. E eu penso no som da chaleira e no livro que eu inventei e que Suzana e outros poetas coloriram…

Sampa, 469

panamérica de Áfricas utópicas…

São Paulo é uma cidade logarítmica… com centenas de portões incumbidos de manter inúmeras pessoas do lado de fora e outras tantas do lado de dentro. Milhares de carros, passos e olhares passam pelas mesmas vias, todos os dias, num atropelo desenfreado de movimentos. Os congestionamentos batem recordes e são uma espécie de nó impossível de desatar mas há quem escape, inventando outro traço-reta-círculo, enquanto o circense equilibra-se entre o vermelho e o verde dos faróis.

Pelas caclçadas… centenas de árvores rasgam o chão para respirar, enquanto outras, sem espaço, caem e o prefeito quer fazer do pedaço de chão destinados aos passos, lugar para os carros. E há dúzias de prédios e casas que estão a ruir enquanto os estacionamentos brotam entre vãos para os veículos que embaçam o ar, cada vez menos respirável…

Quando chove… litros de água desmoronam em cortinas de gotas furiosas que levam poucos segundos para inundar as ruas, que nascem sobre rios que, enterrados ou não: transbordam… e muitas pessoas “se afogam” em lamentos repetitivos.

O clima mudou. Há tempos não faz tanto calor — diz a moça do tempo, querendo impressionar, como se não bastasse as altas temperaturas anunciadas por diversos relógios espalhados pelas vias de uma desorientada Paulicéia.

Lembro que alguém pichou o muro da casa do antigo prefeito da cidade. Uma espécie de grito que dizia: sampa não está à venda — com a mesma tinta e caligrafia horrenda que pode ser vista em paredes e muros da cidade, que me faz lembrar a velha Europa, em seus piores dias.

Mais uma soma nessa metrópole matemática.

São Paulo sempre esteve a venda — retruco enquanto escrevo e relembro o trajeto do ônibus, que atravessa a Avenida Paulista… essa reta inventada em terras alheias para ser futuro-promessa. Quem aqui vive desconhece a história que cada construção esconde. E grita asneiras para meia dúzia de tolos… repetir e se engasgar. A maioria nada sabe do lugar onde pisam-moram.

Aqui é terra de quem paga mais… leva. Mas nada é de graça. Caetano cantou “a força da grana que ergue e destrói coisas belas“… É preciso suar para conquistar espaço. E foi assim desde o começo.

Os portugueses ao desembarcarem no ‘planalto paulista’ cuspiram no solo pantanoso. Não havia o que aproveitar: ‘em se plantando nada dá’ –– proclamaram e foram embora, deixando para trás, um lugar com ‘clima ruim’, solo irregular, entrecortado por dezenas de rios com péssima fama.

Acharam melhor explorar outros lugarejos, repletos de riquezas. E o Planalto invadido em 1554 não conseguiu ser traço no mapa do país. Esquecida… Virou abrigo para os jesuítas e pouco depois, alcançou o status de vila de passagem para os Bandeirantes — heróis para uns, vilões para outros. Com o facão em mãos, essa gente matou os herdeiros de Tupã, rasgaou matas e fez os primeiros traços do mapa do ‘futuro’ Estado mais rico do Brasil.

São Paulo nasceu na condição de cidade há pouco mais de cem anos — ironicamente — porque soube seguir o fluxo do Rio. Aproveitou-se do dinheiro verde… quando foi o maior produtor de Café do país. Reinventou-se antes do caos. Foi pioneiro ao compreender os seus ciclos e estaões. Aqui tudo muda muito rápido e se não entende isso, fica pelo caminho: da indústria ao comércio… dos négocios ao entretenimento — tudo isso é parte de uma soma insana, que atraiu para si, os olhares do mundo inteiro…

São Paulo está sempre na contramão… É a que pede para deixar a esquerda livre na escada do metrô. Talvez por isso, soe tão estranho esbarrar em tantas criaturas conservadoras… a reclamar-esbravejar das mudanças que emergem deste solo.

Da Vila de Piratininga — nascida nos arredores do Pátio do Colégio — pouco restou. Mas a profecia de lugar assombrado se concretizou. São Paulo é um monstro urbano, que se reinventa de tempos em tempos  — mastigando e engolindo o próprio passado, cuspido em forma de futuro.

São Paulo não foi pensada para ser uma cidade… Foi o sonho individual de alguns. O delírios de outros… Um belo punhado de milho atirado aos pombos, que dividem espaço com os pardais. Cada bairro da cidade é um pequeno país e os idiomas se multiplicam de uma esquina a outra.

Ser estranheiro nessas ruas é condição sine qua non. E somos todos paulistanos porque a cidade abraça e dá as boas-vindas a quem chega e não se incomoda de mandar embora quem não se adquea. São Paulo não é para uns e é para outros.

E por ser essa soma-subtração-adição-divisão é que a frase do do falecido frasista, cavalheiro e publicitário Carlito Maia ecoa em minha boca: Amo São Paulo com todo o meu ódio

No cais outra vez

Escrevi muitas histórias para te contar…
Depois, desfiz de cada uma
Dividi tudo em cartas que você nunca irá ler
São 70 páginas onde a lua avisa
…que a vida — é feita de fases!

Mariana Gouveia in;
Sete Luas

Hoje é segunda-feira… dia de começar a ler “novos” livros e de sair para pequenas caminhadas, com as mãos afundadas dentro do bolso da calça. De ler poemas antigos — que serão novos em breve. De lembrar que as prateleiras não são mais as mesmas. Não acumulam a poeira dos muitos ontens vividos… Mas ainda há Cecília, Silvia, Emily e tantas outras ali.

É um excelente dia para fazer bolo… antes era coisa para as quintas e domingos. Mas esse ritual era coisa emprestada da outra casa em que vivi os primeiros anos. Ontem — domingo — eu fiz pão e só. Não escrevi textos. Não li… abandonei o corpo no sofá e adormeci entre as cenas dos filmes que escolhemos para assistir.

A segunda — terceira do mês — trovejou… trouxe o vento, a chuva, um pouco de sol e a poesia de Mariana, distribuídas em fascículos, que são anos, estações, dias, horas — momentos: um baú bem cheio… Pensei em escrever uma missiva para ela na próxima hora. Rascunhar notícias do meu futuro, sabendo que irão pousar no seu passado. Vivemos as duas em horas trocadas. Ela está sempre atrasada.

Soou estranho esse estar sempre adiantada… Olhei para a parede branca à minha frente, em paralelo à tela iluminada. O lado de dentro dialogando com o lado de fora onde um mundo inteiro insiste com suas mazelas. Respiro fundo e penso no amarelo do envelope e um rasgo para abrí-lo, parece propício pensar nisso como uma capa para reunir os cadernos todos, como se fosse aquele velho papel de pão da nossa infância.

Hoje é segunda-feira… um excelente dia para se inventar um livro de poesias.

Como será a volta dos nossos encontros literários?

O primeiro evento que realizei em São Paulo foi um Sarau… Acertamos tudo com o Fran´s Café do Alto da Lapa — uma antiga casa convertida em Café… lugar pequeno, aconchegante e agradável. Convidamos meia dúzia de artistas conhecidos. O lugar lotou-transbordou e percebemos que tínhamos vocação para encontros insanos…

Todos ficaram empolgados e satisfeitos… Dos artistas e seus amigos-familiares ao dono do Café que nunca viu tanta gente — quase faltou-lhe louça para tanta bebida servida.

Fizemos outros encontros vários… Um jantar apenas para os mais próximos, que poderiam trazer seus convidados, contanto que estivessem conscientes de que havia regras a serem seguidas. Houve quem não respeitou e acabou desconvidados dos encontros futuros.

O último que fizemos, foi na Starbucks de Moema… para poucos. O lugar não comportava tanta gente e lotou de amigos-leitores-jornalistas-críticos. Não nos surpreendeu. Mas não passou pela nossa cabeça que seria o último… Era para ser o primeiro de uma série que aconteceria naquele ano.

O roteiro é conhecido! Veio a Pandemia e cancelamos o evento seguinte e todos os outros, em meados de fevereiro. Alguns meses depois, migramos para o virtual — dos Saraus as reuniões-oficinas e bate-papos.

Tentamos retomar a rotina dos encontros em 2022… chegamos a agendar local-data para novembro. Mas os números da Pandemia — que segue sendo um fantasma a nos assolar — nos obrigou a recuar para não expor os amigos-autores-e-leitores.

Percebi, contudo, que não será fácil recuperar esse espaço conquistado em meados da primeira década do novo século… Há escritores interessados em encontros, sem dúvida. Mas e o público-leitor? As pessoas parecem ter se acostumado ao recolhimento e não se mostram dispostas as aglomerações literárias. Estive em vários lugares e o que vi foi uma sequência de ausências, com desculpas apresentadas na última hora.

Talvez nesse 2023 tudo seja diferente. Resta-nos aguardar… Abraços para entregar eu tenho vários, guardados para o momento do reencontro.

O poeta portenho Borges

Fui buscar um livro na prateleira nesta manhã em que tudo saiu de controle — as horas principalmente — e tão distraída que estava com o gole de café, um punhado de lembranças e algumas decisões de vida (para ontem, como de costume) que, ao puxar um livro qualquer, uma cena-antiga se repetiu: pela terceira vez. Os livros de Borges despencaram. Salvei o café… e por sorte os livros não sofreram danos, apenas assustaram a dog que dormia em seu novo lugar favorito: debaixo da mesa…

Ao recolher os livros, lembrei que o homem portenho não foi laureado com o Nobel — foi o que li em um desses blogues literários que acompanho. O motivo, desconfio, era o seu comportamento conservador e ávido defensor das ditaduras militares, tão comuns abaixo da linha do Equador. Isso foi um dos motivos que me levou a escanteá-lo em minhas leituras diárias.

Mas é inegável que o poeta-homem-portenho tenha inventado uma forma única de escrever. Sua poesia foi traduzida para diversos idiomas e atravessou gerações inteiras. E eu fui atingida por um de seus versos — na idade escolar — durante uma conversa literária com minha professora de literatura, com que travava pitorescas batalhas literárias.

Aqui no Brasil, a Companhia das Letras se ocupou de publicá-lo… A lista de livros no catálogo da Editora é extensa e eu os adquiri todos na ocasião… dentro de um fim de tarde, quando era hábito fugir para a Livraria Cultura do Conjunto Nacional para escapar do famoso horário do rush

Adorava transitar por entre as prateleiras… a de poesia era a menor de todas e menos visitada. Ao identificar e puxar um livro… caiu outro… o de Borges. Recordei em frações de segundos a conversa com a professora, na Biblioteca da escola — que ficava no final de um extenso corredor, após um generoso lance de escadas. Era um espaço generoso e agradável, cuidado por uma Senhora Bibliotecária, cúmplice de minhas leituras impróprias. Eu passava horas ali, sentada numa mesa de madeira escura, com um enorme janelão as costas, onde chegava o sol, as nuvens e as mudanças que cada hora do dia reserva. Ali, raramente tinha companhia ou era incomodada…

Li Borges pela primeira vez ali e os livros do homem foram se acumulando na mesa, sendo devorados um a um. Minha professora tinha um poema preferido: L’innamorato que ela declamou em voz alta, atraindo atenção da Bibliotecária que não a repreendeu. Embora fosse um lugar silencioso, não havia outras almas e ouvir um poema bem declamado não foi incomodo algum. Mas eu demorei para apontar apenas um numa longa lista de preferências… A cada poema lido, eu afirmava: é esse… Até que fechei com Heráclito, do livro Elogio das Sombras. 


Heráclito

O segundo crepúsculo.
A noite que mergulha no sono.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo.
A manhã que foi a aurora.
O dia que foi a manhã.
O dia numeroso que será a tarde gasta.
O segundo crepúsculo.
Esse outro hábito do tempo, a noite.
A purificação e o esquecimento.
O primeiro crepúsculo…
A aurora sigilosa e na aurora
o soçobro do grego.
Que trama é esta
do será, do é e do foi?
Que rio é este
por onde corre o Ganges?
Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou o rio.
De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra
surjam, fatais e ilusórios, os dias.

Em: “Elogio da Sombra” (1969)

O uso do notebook na escrita

Conversava há pouco com uma colega de profissão e ela reclamava das modernidades que nos atingem. Imaginei como seria a discussão se acontecesse um século antes… com o aparecimento da moderna máquina de escrever e sua poderosa rajada de letras…

Foi em uma dessas máquinas que aprendi a usar o teclado, posicionando todos os dedos das mãos nas enormes teclas, com o dobro do tamanho dos meus dedinhos. Até hoje eu não sou capaz de repetir a sequencia de letras do teclado em voz alta. Sei usá-los e o faço com alguma agilidade. Mas não me peça para ditar a ordem que o teclado exibe… com ou sem regra ABNT.

A minha colega ressaltou que prefere as coisas à moda antiga. E quanto mais toma conhecimentos das decisões modernas, mais apreço sente pelas boas e velhas maneiras. Eu pintei um sorriso no rosto — tradição minha que se repete de tempos em tempos! Algumas pessoas chamam isso de: conservadorismo. E eu chamo de preguiça de se adaptar, de sair da zona de conforto e de se atualizar.

A reclamação da vez é referente ao uso cada vez mais frequente dos computadores. A filha dela, que está no sétimo ano, pouco usa papel nas aulas. E até a prova está sendo feita no modernoso aparelho, fornecido pela escola — reclamou. Em casa, ela tem um notebook pessoal… presente de aniversário — um pedido da garota, que foi atendido pelo pai. Versão moderna… e atualizada com frequência.

O meu primeiro notebook — um IBM bem pesado — eu ganhei quando ainda estava em idade escolar. Naquele tempo não era comum vê-los em sala de aula. O meu não saia da mesa e usava no aconchego do meu quarto. Mas não demorou para que eu me adaptasse a ele e ao seu programa de edição de textos.

Tornou a minha vida muito mais fácil. Antes, eu recorreria à máquina de escrever para preparar os meus trabalhos. Repetia o nonno na hora de datilografar: duas folhas brancas e um carbono no meio. Ficava imensamente feliz quando conseguia uma folha inteira sem rasura — coisa que raramente acontecia. Lembro-me do dia em que me deram um frasquinho pequeno com uma espécie de tinta branca, que poderia ser usada para remendar o erro. Que maravilha!

A colega acredita que escrever no papel faz toda a diferença na hora de produzir um texto e que a máquina fria e sem humanidade nos rouba alguma coisa. Pensei nos romances que escrevi: todos os três foram escritos no meu modernoso notebook. E nesse exato instante, escrevo no Keep… um App do google que me permite abrir e editar o texto em qualquer lugar, inclusive no celular — que uso com frequencia cada vez maior, por estar sempre no alcance das mãos. Parte de Alice, foi escrito aqui…

Mas não sou totalmente independente do papel… Após finalizar a escrita, não é raro eu precisar imprimir o que escrevi para ler e ler e ler… riscar e riscar e riscar e andar pelos cômodos da casa ao som simpático da lapiseira ao repor o grafite. .

E eu gosto imenso do cheiro do papel. No ano que passou e acabou há poucos dias… escrevi missivas para os leitores deste blogue que aceitaram Catarina impressa, em cadernos costurados com fita de cetim. Reparei na minha dificuldade com o traço. Tanto que optei por digitalizar a carta para o caso de algum leitor não conseguir compreender a minha caligrafia e as publiquei aqui no blogue.

Foi agradável voltar a escrever à mão, usar o papel e o grafite, transbordar emoções à moda antiga. Mas não sou como a cara colega que acha que estamos a perder algo. Os tempos mudam e nós também… O “passadismo” cantado por Mário de Andrade é uma ferrugem que se apega a detalhes.

A conversa acabou! Mas antes de fechar o modernoso comunicador do WhatsApp que ela usa sem reclamar… Recomendei a colega a leitura da crônica “evolução” escrita por Isabel Rupaud, em seu livro “de pato a ganso” em que aborda a sua convivência com as modernidades ao longo dos tempos. Se eu, a bordo dos meus quarenta e uns, lidei com mudanças… Imagina a autora a bordo dos seus entas. Certamente experimentou muito mais que nós duas juntas.

Se eu, a invejo? Com certeza…

Pseudônimo

Quando publiquei o meu primeiro livro — em meados dos anos noventa — assinei com um nome inventado. Não queria ser reconhecida e optei por ficar à sombra da criatura que acabou publicada. Mania italiana… o mistério. Temos uma das maiores autoras contemporâneas que se aproveita desse argumento. Ninguém sabe quem é a pessoa por trás do pseudônimo, que prefere o anonimato. Eu a entendo, mas há quem investigue Elena Ferrante em busca de uma resposta; até aqui serviu apenas para aumentar o interesse dos leitores que leem os livros como se ali fossem encontrar uma pista.

Eu tinha consciência de que não iria viver das letras e estava convencida de que a minha realidade seria a psicologia. E hoje agradeço por ter me protegido. Morning´s gray não representa a minha escrita, que àquela época era imatura e tola no sentido literário. Minha professora de literatura pensava o contrário e foi a responsável por meus escritos terem sido submetidos à apreciação de uma Editora… que o publicou.

Insanidades à parte! Ao decidir pelo universo literário comecei a pensar a respeito do nome que usaria na condição de pessoa que escreve. Gosto imenso do que me foi dado: três consoantes e duas vogais. Num primeiro momento o descartei e tentei outros.

Pensei em usar o sobrenome de minha mãe… Mas seria facilmente identificado por urubus… E segui listando possibilidades. Usei várias combinações — como se fossem peças de roupas escolhidas de acordo com o meu estilo. Ao me posicionar diante do espelho, percebi que não combinavam…

Optei por usar as duas vogais e as cinco consoantes do meu nome próprio. E testei vários sobrenomes que não o meu… Até que numa brincadeira; repeti a colega de colégio que escrevia o nome num pedaço de papel ao lado do sobrenome do rapaz do segundo ciclo, incontáveis vezes. Tomei emprestado o sobrenome do Marco… e a sonoridade funcionou bem.

Fernando Pessoa não usou pseudônimos… foi além. Inventou heterônimos. O que serviu para classificar o homem-poeta-lisboeta como louco.

Loucuras a parte! Cada um de nós tem a sua preferência quando o assunto é Pessoa. Eu prefiro Campos, o único a não ter um fim determinado pelo poeta português, que certamente vestiu-se da metafísica e misturou-se ao personagem. Mas não faço idéia — e nem me lembro se já li algo a respeito — como se deu a escolha dos nomes dessas pessoas todas.

Existem histórias bem pitorescas no universo literário, como a de George Orwell, autor de 1984 — um dos meus livros preferidos. Eric Arthur Blair optou por usar um pseudônimo para evitar que sua família fosse humilhada por seu relato — sobre viver em condições de extrema pobreza — no livro: Na pior em Paris e Londres (1933).

Saint George é o padroeiro da Inglaterra e o rio Orwell era um dos destinos favoritos para velejar.

O que me fez pensar: terei que inventar uma história interessante até para o meu nome-pseudônimo?

retirante

chegando?
indo 
para onde?
longe
quando volta?
nunca 
e por que parte?
saudade
de mim?
de mim.

Adriana Aneli,
in; Tempestade Urbana

As horas avançam! É segunda-feira… e o meu olhar varre a paisagem em busca de qualquer coisa de euforia. Gosto imenso quando o dourado resvala nas faces envergonhadas dos prédios esparramados ao longo da Alameda encenando o fim.

Mais uma tarde que se esvai pelos cantos do bairro que nos últimos dias é território inimigo. Outra noite que chega igualando as paisagens a minha volta… Espio as janelas entreabertas, tentando entrar onde não sou convidada.

Percebo personagens que não acenam… E ao menor movimento equivocado de minha parte, fecham-se as cortinas na minha cara. Uma espécie revolta — totalmente desnecessária — que me faz pedir desculpas silenciosas.

Respiro fundo numa nítida tentativa vã de resignação… Do lado de dentro a memória sorri porque guardou para si qualquer coisa alheia. Ouço o baladar do carrilhão e penso nos grãos de café que o nonno mantinha nos bolsos da calça para despejar no moedor.

Para conhecer a poeta desta segunda, clique aqui

A guerra de todos contra todos

Cara leitora de Direita,

Escrevo-te porque o meu silêncio parece chegar a você — em ondas — como se eu concordasse com suas falas ao vento. Eu nada tenho contra conservadores e pessoas que escolhem a Direita como caminho para os seus pés. Ainda que considere uma estupidez — ignorância talvez — o passo apressado por vias esburacadas, enquanto o galardão é carregado por um bem cuidado tapete cinza em sua liteira dourada… sem olhar o que atropela-mata-descarta.

Eu me lembro que ao estudar história, fui apresentada ao conceito de Direita e Esquerda… E lá fui eu o navegar pelas páginas da velha enciclopédia. Descobri que o parlamento francês era dividido em dois grupos: os Girondinos que eram contrários às mudanças, favoráveis aos privilégios de certos grupos, dentre eles, a igreja e a burguesia e se sentavam à direita. E à esquerda estavam os Jacobinos, simpatizantes da revolução, das mudanças e defensores dos direitos trabalhistas…

Ao final de minhas leituras… me posicionei à esquerda. Tive um nonno atuante na resistência italiana e que esbravejava contra as idéias da Direita, que ele afirmava ser hábil em repetir o mesmo discurso, como se fosse um jargão: “somos contra a corrupção“… para arregimentar asseclas. E funcionou… disse, ele.

Foi a Direita que impôs ao mundo suas teorias nazi-fascistas que seguem dando frutos. O nonno dizia à mesa que precisavamos dormir com um dos olhos abertos. O fascismo não havia desaparecido. Estava adormecido — se fingindo de morto.

O fascismo — ao contrário do que dizem por aí — não é uma invenção de Bento Mussolini. É uma arquitetura nossa — minha-sua e todos os seres humanos. A palavra foi cunhada apenas para facilitar o discurso contra a corrupção, a favor da família e dos valores… Tudo isso para evitar a palavra que nos desgraça: preconceito, que é a base de tudo isso.

Em pleno século XXI ainda nos ocupamos da vida alheia. Você disse: se trata do que é certo e errado… Ou seja, é a necessidade de estar sempre certo e gritar para o mundo que o outro está errado. A minha opinião prevalecer sobre a sua e vice-versa.

Disse há pouco para uma amiga-escritora que sinto preguiça de ter opinião… E acuso cansaço de apresentar o que penso a respeito do mundo-atual para pessoas como você — de Direita e conservadoras porque é perda de tempo. Os argumentos são rasos e mentirosos.

Sim, eu sou de esquerda e escolho o que apoiar-acreditar. Não digo amém para todas as coisas e não tenho heróis que possa aplaudir. Gosto imenso de revoluções e das pessoas que insurgem com discursos contrários. Sou feminista e defendo o aborto; a mulher ter ou não filhos, ser esposa de um homem ou de uma mulher. Sou a favor dos direitos humanos e de grupos como o MST.

Você prefere defender latifundiários e empresários por considerá-los os grandes arquitetos desse país. É preciso fechar os olhos para não perceber que esses senhores invadiram terras, derrubaram árvores, sujaram águas e tiraram proveito da mão-de-obra barata…

Posso ouvir o seu pensamento esbravejando daqui a sua cisma-picuinha: comunista… Eu costumava rir quando essa palavra era atribuída a mim. Parei ao perceber que quem a proferia, desconhecia a história do mundo e do próprio país que optou pela escravidão desde a chegada do primeiro português em solo tupiniquim.

São Paulo, a mais importante cidade do país, ergueu-se… pisando em povos africanos-europeus-asiáticos — enganados com falsas promessas. Eram meros substitutos. Mais tarde vieram os nordestinos e outros povos locais para dar continuidade a construção de suas torres. Hoje, se estendeu os limites para os povos latinos…

É disso que se trata a Direita… e é isso que se pretende manter-alimentar. O caminho cinza-liso sem desvios ou buracos para meia dúzia, conduzida em literias. Quantos ricos existem no país? Dá pra contá-los e apontá-los numa lista. Quantos sobrevivem das esmolas dadas por esses senhores? Esse é o sistema pelo qual luta com garras afiadas… 

E se eu lhe escrevo, não é para convencê-la a mudar de lado. Eu não tenho ânimo para isso. Há coisas que ocupam lugares no mundo para que pessoas como eu, possam entender o sentido da marcha.

Escrevo-te apenas para afirmar o que já sabe: estamos em lados opostos, na história. A minha luta é outra… Não é contra a corrupção — esse fantasma que o nazi-fascismo prometeu combater num discurso velho e gasto que ainda convence em 2023…

Eu luto por pessoas — uma causa que considero justa. E faço o que posso… não tenho ilusões ou planos-projetos. Alinho-me com pequenos grupos e suas batalhas. Nada grandioso porque eu tenho a disposição de uma formiga. Os que me conhecem, sabem que eu preciso de resultado. Eu gosto imenso de caminhar e encontrar uma pequena folha no meio do caminho esburacado que, às vezes, alaga, sofre com deslizamentos e perdas… É difícil, cansativo e, vez ou outra, o desanimo surge quando pequenas conquistas nos são subtraídas. Mas sempre acontece alguma coisa: ninguém solta a mão de ninguém.

Eu nunca tive a intensão de chegar a algum lugar — gosto mesmo é do trajeto… E não se engane, eu tenho consciência de que somos imperfeitos e cometemos erros. Mas só não erra, quem não tenta e se mantêm à Direita.

Por isso, a minha marcha é a sua Esquerda! 
Sem mais, 

Comunia est tumor peblis timor regni, tepor sacedotti