Vida de cão…

Em meados de novembro de dois mil e três — no começo do século — tínhamos uma casa, com um punhado de cômodos, quintal e jardim. Nos faltava apenas o essencial para uma casa ser de fato uma casa: um amigo de quatro patas.

Patrick era parte de uma ninhada de seis, que estava reunida ao redor da mãe. Marco já o tinha escolhido por lembrar seu velho amigo Barão… mas não disse nada, deixou acontecer o encontro. Cai de amores por todas aquelas bolinhas de pelo e, se pudesse, levaria todos comigo. A maioria, no entanto, já estava prometida a outros humanos… e o nosso futuro menino se impôs… ao primeiro contato grudou em mim.

Naquele instante ele ainda não tinha nome… era apenas um menino arteiro a correr de um lado para o outro, a saltar por cima dos irmãos. Enquanto os demais rosnavam e davam latidos curtos, ele apenas baixava a cabeça e espiava — como cobra que se prepara para o bote. Em um minuto mordiscou a ponta do cadarço do meu tênis, puxando-a com força — incansável. Uma peste.

O nome… ele herdou de uma pelúcia… o ‘outro cão da casa’, que ele adorava enfrentar, mesmo sendo maior que ele nos primeiros dias.

E lá se vão dez anos — mas parece que foi ontem que o peguei no colo. Ele era tão pequeno — um ‘pingo de gente’ — que cabia em minhas mãos: uma deliciosa bolinha de pelo, que não aceitou a solidão de sua cama… e só silenciou quando o coloquei entre nós. Descobrimos — na primeira noite — onde ele passaria o resto de sua vida.

Muita coisa mudou desde a sua chegada… deixamos o velho sobrado e fomos viver num velho casarão no Alto da Lapa e por fim nos mudamos para Moema — de longe o seu lugar favorito na cidade.

Ele adora os passeios pelas ruas até a praça. Nós dois descobrimos o lugar em caminhadas demoradas que terminam sempre no mesmo local: Starbucks da Lavandisca, onde ele ganha água-café-mini-muffins-e-carinhos dos amigos que faz.

Patrick é um boxer exigente… não gosta de qualquer humano. Primeiro se aproxima e cheira os pés, as pernas e se gosta abana o rabinho e se rende aos afagos — nunca na cabeça. Se não gosta, se afasta e repete o velho gesto de rebeldia: abaixa a cabeça e espia — feito cobra pronta para o bote. Não ataca, mas exibe uma indiferença tão imensa que reduz qualquer um a nada…

Nesse ano, nosso menino completa dez anos! Ele mais que dobrou de tamanho desde a sua chegada. Mas seu olhar e alegria continuam os mesmos. Dois minutos de ausência faz com que ele me recepcione como se tivesse passado exatos dez anos longe. Mas se a volta demora — como quando viajei a Coimbra — ele se zanga e finge me ignorar. Seu olhar atento o traí… basta alguns minutos de afagos, abraços, beijos que ele dispara veloz por todos os cantos, pulando e descendo do sofá — indo buscar seus brinquedos para uma farra de minutos.

Patrick — nessa década inteira na companhia um do outro — me ensinou a ser menos ‘humana’ e mais ‘canina’. A amar por amar somente, partilhar das presenças e sentir as ausências. E, principalmente, me ensinou que não importa o tempo… importa a vida.

 

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