About me…

WhatsApp Image 2018-02-03 at 12.00.25

No meu tempo de colégio eu tive um daqueles cadernos de perguntas & respostas. Acho que todo mundo que passou por uma sala de aula teve um. Eu comprei um caderno brochura, encapei com folhas de revistas e colei um recorte de papel branco na capa, se podia ler: about me.  Nunca o entreguei a outras meninas, como era costume.

Todo mês eu respondia as mesmas treze perguntas… para ao final do ciclo apreciar as mudanças-ausências-permanências.

Nesse ano, eu retomei a brincadeira… faço o mesmo, na primeira página do mês de minha agenda.

Ano: 2018
Tempo de vida: 437 dias e algumas horas… e a contar!
Eu faço: arte… com agulha, linha e grafite.
Vivo em: Sampa
Com: ‘meu menino’
Eu gosto de: café e livros
Eu não gosto de: pessoas
Meu livro favorito é:pride and prejudice‘, de Jane Austen.
Meu autor favorito é: Paul Auster
Meu poeta favorito é: Emily Dickinson
Poem: ‘prelúdios’, T.S.Eliot

Um cobertor da cama agitaste,
Caíste de costas, e aguardaste;
Adormeceste, e observaste a noite que revelava
Um milhar de imagens sórdidas
Do que tua alma foi formada;
Contra o teto eram arremessadas.
E quando todo mundo retornou
E entre as venezianas deslizou a claridade,
E você ouviu os pardais nas calhas da cidade,
Tiveste uma visão da rua
Como se frases por ela fossem compreendidas;
Sentado numa parte da cama, onde
Curvastes papéis que teu cabelo esconde,
Ou agarraste dos pés a amarela sola nua
Nas palmas de ambas as mãos encardidas.

Uma frase:escrever é um bonito ato. cria algo que dará prazer a nós e também aos outros” — Susan Sontag.

Meu momento favorito: now!!!

 


beda

Anúncios

…escrito por uma dama…

valentine

 

Que eu tenho dificuldades com datas, isso não é exatamente uma novidade para quem acompanha esse blogue. Eu me enrosco-tropeço-esqueço em datas de nascimento-morte-comemorativas.

Mas eu soube há pouco que comemoraram o dia do café. Viva. E no próximo vinte e três comemora-se por todos os cantos… o dia mundial do livro.

Eu não me entendo com nada disso… mas o que me agrada é que as publicações se voltam para a data em questão e se esquecem por alguns minutos do assuntos cada vez mais enfadonho do futebol-politica e suas briguinhas de esquerda-direita… volver.

E uma notícia que me aguçou os meus sentidos foi a de um projeto tupiniquim que pretende reimprimir autoras que, em outros tempos, tiveram que se esconder atrás de pseudônimos masculinos. No não tão distante século XIX… uma mulher que se dedicasse a uma atividade intelectual estava cometendo uma transgressão gravíssima.

As mulheres deveriam se ocupar em conquistar um bom esposo e lhe dar filhos.  O lar deveria ser impecável-aconchegante-e-saudável. Uma mulher deveria ser capaz de manter as coisas dentro das quatro paredes de acordo com o padrão determinado pela burguesia.

Havia, no entanto, damas que não se contentavam com essa realidade. Escreviam, mas não se entregavam.  Jane Austen é uma da romancistas mais conhecidas do Reino Unido, mas em vida não assinou um único livro.

Na capa de “Orgulho e Preconceito” anunciava-se apenas… “um romance. em três partes. escrito por uma dama”… 

Outro escritor conhecido foi George Sand — pseudônimo utilizado pela francesa Amandine Dupin — autor(a) de Valentine, entre outros tantos. O escritor russo Ivan Turgenev era um de seus mais ardorosos defensores — e embora não fosse único — foi ele quem disse: “que homem corajoso ela foi, e que boa mulher”.

Amandine Dupin era uma transgressora que causava polêmica em Paris não apenas por escrever, mas por usar roupas masculinas, fumar em público e ter casos amorosos frequentes — coisas permitidas apenas aos homens de família, digo… vocês entenderam!


beda

20 | sempre a lápis…

“Se há uma coisa boa de ler, é uma carta” — escreveu Otto Lara Resende em uma de suas crônicas. E se você já teve o prazer de receber um envelope com o seu nome impresso no verso, sabe que é impossível não concordar com o autor.

Mas, eu iria além e diria — ‘se há uma coisa boa de se escrever nesse mundo, definitivamente é uma missiva-carta‘.

Existe todo um ritual… o tipo de papel, o envelope, o momento. Eu tecia a maioria de minhas missivas à lápis. Uma ou outra foram escritas na velha máquina de escrever… que ganhei de mio nono. Gostava imenso de alimentar aquela velha máquina rabugenta com duas folhas de papel sulfite e o carbono. Sempre fiz cópias das missivas escritas-e-enviadas. As colecionei por algum tempo…

Sentava-me em um canto, abria o envelope… e lia — pau.sa.da.men.te a missiva recebida. Imaginava o lugar de origem. Os movimentos da caneta no papel. Respirava fundo! E me inaugurava em diálogo.

Falava de mim… da pessoa que acreditava ser e na qual estava len.ta.men.te me transformando. Do lugar que ocupava… o quarto-cidade-escola. Narrava o que chegava ao meu olhar e as ilusões que brotavam em minha mente.

Sem dúvida era uma troca justa. Mas, o que meus correspondentes não sabiam é que ao escrever à eles, eu aprendia o ritmo da minha escrita. Ainda hoje, quando me sento diante do ecrã… para escrever meus posts — nesse espaço-contemporâneo-moderno — penso em folhas de papel de amarelecidos tons, envelopes vermelhos… e dou ritmo ao diálogo.

Meus posts não deixam de ser uma missiva com destinatário diverso. Sometimes inesperado. Gosto de pensar nessa janela como um selo para o meu envelope vermelho.

Tecer uma missiva é um aprendizado, por isso, sempre que me perguntam: ‘qual curso de escrita eu indico’ (?) — respondo sem titubear: cartas… escreva cartas. Encontre correspondentes. Sinta o lápis-caneta avançar em segurança pela folha de papel. Converse com o seu correspondente. Fale de si… sem amarras. Deixe fluir…

E leia as muitas missivas de outros escritores. Há várias publicações que nos mostram esse exercício que, durante anos, foi bastante comum entre aqueles que escreviam. Percebam o tempo, o momento, a pessoa por trás das linhas e também a frente delas.


beda

… das listas que não faço…

Poderia fazer uma dessas listas — aborrecidas — de livros lidos, que circulam por aí… e de livros não lidos — que ninguém menciona para não atestar fracassos. Mas acho essas listas — todas —, enfadonhas. Me lembra porta de geladeira com recados bobos mantidos ali por imãs estúpidos.

Eu tenho uma relação pouco comum com livros. Desde que aprendi a decifrar palavras que os devoro. Faz pouco tempo, no entanto, que aceitei que não preciso e não devo ler tudo que chega aos meus olhos.

Tenho as minhas preferências e posso-devo respeitá-las… não nego que isso facilitou um bocado a minha existência literária. Me permitindo — entre outras coisas — abrir mão de alguns exemplares, como Ulisses — um dos meus desafetos. Nunca consegui avançar em suas páginas, por mais que tentasse. Me livrei dele recentemente…

Os que ficaram comigo são como dizem por aí: meus livros de cabeceira. Volto a eles sempre que posso. Virginia Woolf se tornou minha leitura de verão. Jane Austen de outono e Dostoievski de inverno. Na primavera leio Mia Couto e Paul Auster… porque assim me parece propício!

De tempos em tempos, vou até a prateleira e volto de lá com esses livros todos… envelhecidos e gastos, com folhas onde se sobrepõem anotações e que ajudam a contar a minha própria compreensão de tempo e espaço. Uma nova nota surge, uma nova marca… e assim, amanheço outra.

E, vez ou outra… sou surpreendida com um livro novo, que chega com acenos festivos. Foi assim como ‘a elegância do ouriço‘, ‘olhos de menina‘, ‘os olhos amarelo do crocodilo‘, ‘silêncio‘ ‘diário de inverno‘ e ‘o caderno de maya‘ — encontrados nas prateleiras da livraria Cultura do conjunto nacional em uma de minhas andanças — descompromissadas — por entre prateleiras

 


beda

18 | que tal um café?

Meio da tarde. O vento. Qualquer coisa de sol. Folhas avulsas-alheias. O futuro acena. Espero pela noite… para ver as sombras escorrerem pela parede. A xícara sobre a mesa. O último gole. Sempre café… preto-forte-denso. Observo o desenho de Mário preso a parede e me lembro que há um projeto sobre ele na gaveta.  Respiro fundo… ligo o com. Andrea Bocelli me devolve a paz por alguns instantes. Volto para casa. Viro páginas de livros.  Escrevo um texto pequeno sobre o movimento desse dia. Caderno vermelho. Folhas amarelas. Pés descalços. Vou até a janela. Fecho cortinas. Água na chaleira. Fogo aceso. Pó de café. Xícara. Passos pequenos por cômodos de ontem. Certos diálogos que trago na memória emergem. Me devolvem à realidade das coisas-horas-dias. Penso em Whitman. Mas o calendário me lembra que é abril… dias de Eliot. Releio ‘manhã à janela’. Tic tac. Ainda é dia-tarde-pelo-meio. Tenho uma última missiva a escrever. Já se foram três! São quatro. Os autores com quem trabalho já estão acostumados aos convites que faço — cartas para abril — foi um chamado, mas eles chamam de provocações. É sonoro… eu gosto. Me faz rir, como se alguém me fizesse cócegas. Escrevemos à Baudelaire, Ana C., Borges… falta escrever à Sophia… qual escritor recusaria esse convite? Escolher o lugar, a hora, a cidade, o poeta… chegar antes, esperar. Que tal um café?


 

Manhã à janela
T.S.Eliot

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

Tradução: Ivan Junqueira


beda