BEDA | em pequenos goles

Outro dia… me perguntaram como eu iria comemorar o dia mundial da poesia. Eu arregalei os olhos — típico de quem leva um susto —, levantei a sobrancelha esquerda e olhei ao redor, feito pássaro em busca de pouso.

Meu calendário pessoal não se ilude com datas. Lembro-me de uma ou outra apenas. Dois ou três dias de junho. Um ou dois dias de novembro. — o resto me escapa. Nem mesmo sei dizer que dia é hoje sem espiar o rodapé do notebook.

E segue a rotina de semanas-meses devidamente numerados, uns com mais — outros com menos. Sempre acontece de eu me esquecer do aniversário de alguém, mesmo com os constantes avisos de redes sociais. Não sei se alguém ainda se surpreende com isso. Não sou o tipo de pessoa que se ocupa em contar os dias-meses-anos alheios-meus. Nunca foi um hábito meu celebrar datas.

Minhas manias são outras… gosto imenso de me lembrar de alguém sem orientações ou obrigações de datas. De estar a andar pelas calçadas da cidade e recordar falas-diálogos-um-copo-de-café.

Comemorar o dia mundial da poesia (?) como eu faria tal coisa? Iria até a prateleira e escolheria um livro? Coisa que faço naturalmente as segundas-terças-quartas… no meio do dia… do passo. Enquanto espero pela xícara de chá ou por alguém.

A poesia me ensinou a ler as paisagens… a enxergar diferentes tons… a ultrapassar anatomias e compreender o que é um olhar verdadeiramente úmido. A poesia que eu leio, também me lê. Me cala e me faz ficar dentro — a suspirar-soluçar —, nesse lugar onde poucos tem acesso. Eu mesma, por muito tempo, vive alheia-ausente… desse Abismo.

Há poetas — homens-mulheres —, que me são caros… eles percorrem minha epiderme e dialogam com minha amalgama. Silenciam o mundo-momento… a minha voz. E eu reaprendo com eles, pequenas coisas-simples: uma manhã de primavera, uma tarde de outono, uma noite de inverno. Passos encaixados por calçadas urbanas. Silhuetas escuras de casas antigas. Uma rua escura com seus fantasmas de ontem. Uma folha em seu último voo de vida-e-morte. A fumaça do último trago. O silêncio que fica quando não há mais o que dizer. Dois olhares, certos do fim, a acenar um adeus.

Ah, a poesia… ela não precisa de datas… precisa de poetas, tanto quanto nós.

 


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BEDA | fim de mais um dia…

Chegar a casa. Passar pela porta. Respirar fundo …vinte e duas-três — quase outro dia. Ainda hoje — noite… e o dia inteiro ainda no encalço, revisitado. As páginas dos livros ainda abertas. Palavras empilhadas na ponta dos dedos para se esparramar no papel e ser missiva com destino certo. A xícara ao alcance da mão. O gosto do café entre os sulcos da boca. O diálogo sobre tudo-e-nada nos lábios-ouvidos…

…figurinhas de um álbum por preencher.
Algumas repetidas.
Outras inéditas.

Pensar na pele em contato com a água-espuma-toalha-roupas-limpas. Descalçar-se. Percorrer todos os caminhos da casa. Reconhecer o momento-lugar. Antecipar as horas — o dia seguinte. Por onde andar (?) Quem encontrar (?) O que fazer (?) O que vestir (?) Quem ser (?) — percorrer uma lista de coisas…

Beber um copo de água… transformar tudo em silêncio. Pensar uma refeição simples-rápida-leve. Observar os espaços. Abrir e fechar portas-gavetas. Escolher os ingredientes. Colocar a tábua de madeira na pia. Afiar a lâmina da faca… descascar-picar-amassar. Escolher a panela. Colher de pau. Dourar a cebola em um fio de azeite com sal e gengibre. Adicionar os legumes em cubos, um punhado de arroz e a água.

Esperar… pelo aroma-madrugada-mesa-posta-colher-sopa…

 


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BEDA | Plural Ciranda…

 

A versão impressa se esgota rapidamente, são apenas trinta exemplares, mas a versão digital não se esgota… e pode ser lida a qualquer momento… nesse link.

 


Na primeira edição do ano… você lê crônicas de Emerson Braga,
Nic Cardeal, Silvana Marcia Schilive e Marcia Tondello
poesias de Maria Florencio, Munique Duarte e Rebecca Navarro
colunas de Virginia Finzetto, Tatiana Kielberman, Maria Vitoria,
e Thais Barbeiro |  contos de Marcelo Moro, Emerson Braga
e Adriana Aneli  e  correspondência de Mariana Gouveia

Com apresentação de Obdulio Nuñes Ortega


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BEDA | Sábado…

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Me perdi dos dias amarrados uns nos outros… tem algum tempo. Antigamente eu sabia quando era sábado-domingo. Eram dias regidos por movimentos conhecidos. Começava cedo… com a casa em silêncio. Cortinas fechadas. Da cozinha vinha o cheiro gostoso de biscoitos de nata e café. Eu chegava de mansinho para não interferir nos rituais da manhã. Papéis espalhados pela mesa: folhas brancas, envelopes coloridos, canetas (de todas as cores) livros de poesias e contos indianos.

As manhãs de sábado eram leves-risonhas — dedicadas à escrita… diários-cartas. Leituras de poemas-contos. Degustação de xícaras de chá.

Assim que ocupava o meu lugar… recebia meu copo e leite caramelado, que desenhava bigodinhos brancos pouco acima dos meus lábios. E aquele biscoito arredondado (ainda quente) de nata e baunilha. Nos primeiros anos, apenas apreciava os gestos de C., que era destra e acomodava a caneta em seus dedos. Gesto que eu sempre tentei repetir.

Aprendi com ela a domar o lápis na mão correta — a esquerda — e escorregar com alguma suavidade o grafite pelo papel. Ela conduziu minha mão nas primeiras letras do meu nome:  três consoantes e duas vogais. Não sei quanto tempo levou. Me faltam lembranças. Sei que ganhei um caderno vermelho para usar como diário e tomar nota da minha realidade nas manhãs de sábados.

Depois do almoço, saímos nós duas — munidas de sacola jeans — pelas ruas. Eu saltitava pelas calçadas. Ela sempre ia elegantemente, com calma e uma tranquilidade invejável. Aprendi com ela a colher folhas-pedras. No Empório pegávamos os ingredientes do sábado. O cardápio era arte do mio babo, que adorava cortar-picar-misturar-dourar. Eu ficava em meu cantinho, com os olhos atentos a cada movimento. Sempre havia pausa para repetir o refrão de alguma música conhecida ou para passos de dança a dois-três pela cozinha.

Hoje, os sábados são dias-comuns, apenas mais um na semana-calendário e eu nem sempre sei o que fazer com eles. Quase sempre escolho por nada fazer… assisto filmes-séries na Tv. Leio poesias-contos-novelas… porque a semana tem seus movimentos insanos e o corpo, quase sempre, quer apenas ir mais devagar…

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