BEDA | Vai esfriar no fim desse dia…

 

Acordei com o vazio do lugar… havia marcas de outro corpo — que não o meu — na cama. Agarrei o travesseiro enquanto me acostumava a ideia de vida em mais um dia de sol. Tantas coisas a fazer-pensar-executar. A realidade tem aromas de verão… se agiganta pelos arredores do corpo-alma. Sufoca-esgota… e a manhã chega ao fim antes que eu de fato acorde.

Janela aberta para esse excesso de luz-sol… e ao olhar lá para fora, me lembrei que São Paulo é uma cidade às avessas. Faz tempo que as quatro estações do ano se equilibram dentro de um mesmo dia… e, às vezes, dentro de uma mesma hora. O que me serve como fio condutor para me levar de volta para casa — aquela cidade com o mar na porta de meu corpo. Tudo tão longe… fora se alcance-distante. Hoje, no entanto — estranhamente — perto {do cuore}. 

Ao me arrumar para sair as ruas… apanhei meu velho agasalho, e ao fazê-lo, me lembrei de meus tempos colegiais, em meus dias de menina. C., dizia — ‘leva a blusa que vai esfriar’. Na primeira vez em que ouvi isso… dei de ombros. Era um dia tão azul, com sol quente a beijar o chão que eu pisava — parecia impossível esfriar.

Mas as mães e suas previsões impossíveis! Só não passei frio no final daquela tarde… porque na saída do colégio… lá estava ela, com meu casaco favorito — aberto — pronto para eu me enfiar nele e me aquecer. A essa altura, eu já estava sem cor e tremia de frio — devido ao maldito vento sudoeste — cúmplice de todas as mães.

Nesse dia… eu aprendi a ouvir. E passado tantos anos, ainda ouço sua voz a reverberar forte aqui dentro. E é sempre a mesma frase que se agiganta. E não importa quão azul esteja o dia — o meu casaco favorito vai comigo… o sorriso e o abraço dela também.

Nota de rodapé — e só para constar, ao contrário do que dizem certas línguas, nunca serviu apenas de contrapeso. rá.

 


 

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BEDA | A caderneta vermelha


Depois de concluir a leitura de ‘a caderneta vermelha’ na mesa de um café entre esquinas… com copos brancos abandonados pelas mesas, precisei respirar. E enquanto vivenciava a história do começo a fim, revendo os encontros e desencontros de vida… recordei meus moleskines e pensei nas palavras que deitei neles ao longo dos dias em movimento. Sempre tomo notas das minhas insanidades. É um costume antigo… contar o que penso, sinto, experimento… comecei a fazer terapia aos doze.

C., considerava ideal para alguém, como eu, que temia enlouquecer — não suportava pessoas, amava cães, o silêncio e um quarto escuro. Foi uma boa idéia, reconheço. Existia em mim uma necessidade de encontrar alguém que não fosse uma folha de papel… para dialogar. A estranha que me ouviu pela primeira vez, fazia anotações também e eu achei mágico trocar palavras com alguém que repetia meus gestos. Não confessei a ela as minhas verdades, mas não a brindei com as minhas mentiras. Adoro contar histórias… e no meu caso: mentir sempre foi aconselhável — evitava constrangimentos. Principalmente que meus pais fossem chamados ao colégio por motivos bobos… algo que sempre me aborreceu.

Me acostumei a fingir diários… mais de uma vez os abandonei em lugares cuidadosamente escolhidos para que fossem lidos por determinada figura. Foi uma fase… estava a aprender os ‘personagens’ e a encontrar um meio de ‘inventá-los’ em minhas próprias fôrmas a partir do que a realidade — esse celeiro — me oferecia.

Mas nunca tive  — como a personagem do livro — um diário roubado. E não consigo me desvencilhar dessa possibilidade. O que sentiria no lugar dela?

“A questão que se apresentava agora era quase de ordem moral: levá-la consigo ou deixá-la ali mesmo? Em algum lugar da cidade, com certeza uma mulher tinha sido roubada e, muito provavelmente, perdera a esperança de rever seus pertences.”

No livro, é assim que se desenrola a trama escrita por Antoine Laurain. A bolsa contendo todos os pertences de Laure é levada por um desconhecido  — após um assalto  — que a descarta… sendo encontrada por outro desconhecido  — um livreiro.

E a cada virar de página se torna impossível não torcer que a procura de Laurent resulte num encontro. E para que Laure se encante pelo homem de quarenta e poucos anos, que fez o que poucos homens seriam capazes de fazer: procurar incansavelmente pela dona da bolsa, apenas para lhe devolver os pertences roubados.

 “Bebeu mais um gole de vinho, com a nítida sensação de que ia cometer um ato proibido. Uma transgressão. Um homem não remexe a bolsa de uma mulher – até os povos mais atrasados deviam obedecer a essa regra ancestral.”

E depois de ultrapassadas cento e poucas páginas, por um instante, você acredita que  o único final feliz da trama é a volta da bolsa as mãos de Laure. No mais… ambos seguirão com suas vidas. Irão conhecer outras pessoas… e em algum momento sentirão falta do que não viveram, porque o destino urde suas teias ao seu bel prazer.

Quantos amores não aconteceram porque você virou uma esquina antes?  — ou se atrasou o suficiente para perder o ônibus? Chegou tarde demais e ficou de fora? A vida é assim… você pode chegar cedo… ou tarde demais.

“Como se podia desaparecer tão facilmente da vida de alguém? Talvez com a mesma facilidade, em suma, que se entrava.”

Mas, para nossa sorte, em alguns casos, o universo conspira a nosso favor  — e alguns autores também.


Companhia das Letras
Gênero: Ficção francesa
Páginas: 135

 

 

 

BEDA | Livro de Artista

A idéia de ‘livro de artista‘ começou  a me seduzir ainda no tempo do colégio, quando eu me divertia na companhia de I., forjando publicações clandestinas… a maioria em formato de Zine, com a ajuda de uma velha máquina de escrever e a cumplicidade de uma copiadora.

Foi paixão a primeira vista pelo ‘modelo artesanal’… que além de ser charmoso e elegante… permitia praticar a essência do verbo: ousar.

Eu nunca gostei de me sentir refém de modelos pré-existentes… era como estar trancada em uma caixa quadrada, com seus lados perfeitamente iguais, de onde não parecia ser possível escapar.

Sempre me pareceu mais interessante os formatos alternativos de publicação…que pareciam dar de ombros à proposta de livro existente no mercado. Mas, os formatos alternativos, denominados underground no quais esbarrei também não agradavam aos meus sentidos de tato. Eu precisava sentir aquela sensação conhecida de café pronto no bule… sabe como é? Você respira fundo e sente aquele aroma conhecido a te invadir e mesmo que não goste de café, o cheiro te pega pela mão e te e leva para algum lugar seguro-seu, fora do tempo e lugar.

Até alcançar um modelo de ‘livro de artista’ que combinasse comigo… foram meses de exercícios, um sem-fim de erros, tropeços e poucos acertos.

Que uma idéia não nasce pronta… eu já sabia. Mas, confesso que em determinado momento tive receio de não alcançar um Porto onde atracar. Um escritor aprende essa lição de vida, desde a primeira frase escrita numa folha de papel. Toda e qualquer idéia requer dedicação-disciplina-e-entrega e pode acontecer de nunca estar pronta.

Eu passeei por vários estilos de encadernação… fui de curso em curso, oficina em oficina. Aprendi a história do papel e do próprio livro. Um sem-fim de descobertas incríveis… até que, numa dessas ironias do destino, me deparei com a costura oriental, em meados de 2012. E, muito embora todo o processo se mostrasse, inicialmente, simples: dobrar folhas, encaixá-las uma dentro da outra, de maneira a compor pequenos blocos, furar e, finalmente, costurar… deu algum trabalho porque mudou toda a idéia de livro que eu trazia em mim. E se tem uma coisa que é bastante complicada é descontruir uma idéia enraizada no fundo de si.

Eu nunca fui uma pessoa prendada… assistia as mulheres de minha família tecer meias, luvas de lã, xales. Transformar roupas velhas em coisas novas… enquanto eu não era capaz de pregar um mísero botão da camisa. Mesmo assim, repeti incansavelmente o entrelaçar de fitas… até aprender e dominar a ‘arte oriental de costurar livros’.

Confeccionar o próprio livro… é reinventar o próprio espaço-lugar-cenário. E dado o primeiro passo… com o livro pronto em mãos… é entregar ao “amigo-leitor” a novidade e esperar (como se espera por uma xícara de chá) para colher as mais diversas reações. Há quem se espante, demonstre surpresa e medo… de manusear, como se fosse algo frágil que pudesse se quebrar. Mas, passado o primeiro momento, um mesmo sentimento os unem: o desejo de compreender o processo, como se fosse um quebra cabeça, com as peças soltas sobre a mesa.

 


BEDA | Uma história… em alguns capítulos!

 

Enquanto a manhã acontecia… eu me movia pelos caminhos da cidade — de ônibus, como tanto gosto —  o que me permite ser completamente indiferente à realidade de sol-ruas-calçadas-e-pessoas.

Lia alguns blogues no reader e, curiosamente, os assuntos — em sua maioria — se repetiam, mudando apenas o ritmo e as palavras… numa narrativa que visava dividir com os leitores a experiência de ter um blogue… algo que me fez viajar no tempo e espaço.

Comecei a fazer uso dessa ferramenta no ano de dois mil e dois, motivada por um amigo-parceiro-de-vida-e-crime… uma dessas pessoas que a vida nos apresenta e você leva consigo por aí… E como minhas escolhas —  naqueles dias —  me levou para longe dele… passei a usar o blogue como caixa de correspondência. Nós dois tínhamos o hábito de trocar missivas desde a juventude, mas como vivia dias de pássaros… a migrar de um país para o outro — tornou-se impossível fazer uso de envelopes.

Os assuntos não se esgotavam… se renovando numa frequência incomum e isso fez o “menina no sótão” —  meu primeiro blogue —  ir de zero a cem em pouco tempo.

Contudo, um problema no bom e velho blogger deletou todo o conteúdo que, só não se perdeu porque recebi  uma enorme ajuda de alguns blogueiros-leitores-que-se-tornaram-amigos… na época. Mas, eu quase desisti desse universo, tamanho vazio que eu senti ao visitar o meu endereço e me deparar como a frase: ‘endereço não encontrado‘.

Acontece que, existem alguns verbos que eu não sei conjugar: desistir, bagunçar… porque eu simplesmente não consigo existir dentro deles.

Abri uma conta aqui no wordpress… e dei início a um novo blogue, depois outro e outro até que me desanimei com os excessos de blogues existentes e resolvi fazer uma pausa… que durou dois anos.

Em dois mil e treze surgiu Catarina — essa personagem insana — meu alterego… que voltou a escrever, entre pausas e mais pausas… 


BEDA | Minha lista de medos {aos treze}

Sempre a lápis

Encontrei no acaso do próprio acaso… o meu antigo ‘booklet journal’ — ferramenta habilidosa para se organizar e adquirir disciplina na lida com os afazeres, que se multiplicavam de um dia para o outro em meu tempo colegial.

Eu tinha — em meus dias de estudante — o estranho hábito de fazer listas… coisa que hoje é impensável-impraticável. Talvez por isso tenha me espantado ao me deparar com a tal ‘novidade’ imediatamente na primeira página do velho companheiro de estudos.

 


 

Tenho medo {aos treze anos}

  1. Do som das multidões
  2. Do sol do meio dia
  3. De pessoas enfurecidas
  4. Do menino bobo do segundo ano (o mais bonito, o mais forte, o mais seguro de si, o mais desejado pelas meninas… o mais, nunca menos) urgh
  5. De não ter tempo de chegar a última página do Romance do dia. (estou a ler MrsDalloway de Virginia Woolf)
  6. De ser reconhecida nos lugares onde passo.
  7. De ficar igual a minha tia (física e mentalmente)
  8. De formigas vermelhas
  9. Do som do telefone na madrugada
  10. De não conseguir calar a minha voz e dizer tudo que penso e sinto a alguém.

 

 …e lá se vão mais de vinte anos! — e eu confesso que senti uma enorme paz em me deparar com todos esses medos menores. Do menino do segundo ano — do qual não me lembro. Nem mesmo com grande esforço. Das formigas vermelhas, que viviam em nosso jardim… e que na infância ‘devoraram’ o meu pé. Era o espaço delas entre as margaridas {minhas flores favoritas até então}. Gostava de me enfiar entre elas e sentir aquele aroma sutilmente adocicado. Não havia aviso que ali era o ‘lar doce lar’ das benditas formigas vermelhas. Eu pisei, sem saber, num monte fofo de terra e depois disso só me lembro da forte dor que cresceu perna acima e me paralisou completamente. Voltei a mim apenas no dia seguinte… na cama de hospital. Tinha entrado em choque. Ganhei uma pulseira de identificação onde se podia ler: ‘alérgica’ com a minha cor favorita: o vermelho. E o conselho do simpático ‘doutor’: ‘fique longe de formigas e abelhas, bambina‘. Uma picada poderia me matar.

Ainda tendo medo de formigas e abelhas… e de multidões também. Do sol do meio dia… e acrescento, do verão tropical — porque meu corpo não se acostuma a essa brasa que faz arder o chão, o ar, a vida, a realidade e tudo que toca.

Mas, eu removeria alguns itens ali. Sinal de que algo mudou — em mim… ou no mundo.

Mas e você, tem medo de que?

 


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