Beda | o agosto seguinte… ao seu!

dsc_0140

Eu escrevo nesse agosto… o seguinte ao seu. Dois mil e dezoito, escrito por extenso. Exatamente como preferimos. Ainda não aprendi a gostar de números na forma-matemática de equações e cálculos insuportáveis.

…por extenso parece que perdem a forma-idéia-formato, e faz parecer impossível a soma.

E nesse agosto seguinte ao seu… você resolveu ler apenas poemas. Separou os livros e os empilhou em cima da mesa, do seu lado esquerdo, como de costume. Começou a ler Helder… devorando-o sem obediência de páginas. Leu por ler somente. Como gostas e preferes. Pequenos goles de café.

Ah, mas não conseguiu sossegar e ficar apenas nos versos sagrados de Borges, José Luis Peixoto, Plath e Auden.

Seu menino voltou da Biblioteca — após renovar o nosso cadastro — com ‘mar de dentro‘ de Lya Luft… e foi impossível ignorar aquelas sagradas páginas. A menina que fomos, minha cara — estranhamente — parece viver a bordo desse livro.

Ah, antes que eu me esqueça… não somos mais as mesmas. Já sou outra, desde a manhã seguinte ao seu ontem. Eu sei que não está surpresa. Consigo ouvir seu riso daqui…

Sabe a promessa que fez, em voz alta, entre um gole e outro latte… enquanto lidava com os capítulos de ‘vermelho por dentro’? Eu não a cumpri. Estou a escrever um novo livro… de crônicas. E eu já tenho o título…

…uma pausa para você respirar e colocar a água no fogo para uma xícara de chá!

…’meus naufrágios‘ vai narrar nossos fracassos — essa soma de fatos que não deram certos ao longo de nossos ‘quase quarenta anos‘ de existência. Mas, ainda não sei por onde começar. Comecei a tracejar no ar… uma espécie de mapa de escritas futuras. Pretendo tomar notas no caderno que ganhamos de J.

Escolhi a trilha sonora numa tarde que passou, durante a chuva que finalmente voltou a cair. Não houve trovões, apenas o som do asfalto molhado…

Ah, preciso te avisar: outra pessoa se foi de nossa vida… sem avisar. E, você não se importou, de novo. Preparou um jantar para o seu menino e tentou explicar. Você não leva jeito para isso. Ele sabe e não se importa. Ah, e ele também não ficou surpreso. Brindamos ao dia seguinte. Amém.

Bem, o domingo está a chegar ao fim… daqui a pouco será segunda. Dia seguinte ao seu e ao meu também. Quero ir à cozinha. Reunir ingredientes enquanto ainda é hoje.

 

Até qualquer dia seguinte, cara mia.

 


beda interative-se

Anúncios

Beda | O que a memória nos recorda (?)

Relógio da Estação de trem, Jundiaí - SP
Relógio da Estação de trem, Jundiaí – SP

 

…um dos meus primeiros correspondentes foi “M”.,  — um senhor adorável, que vivia em Santa Maria da Feira, Portugal. As missivas escritas por ele… chegavam dentro de um envelope artesanal na primeira — na primeira e última semana do mês, respectivamente…

Suas linhas exibiam uma caligrafia sutilmente desenhada… devido ao uso de uma velha Sheaffer.  Depois de algum tempo de correspondência… passei a reconhecer seu envelope dentre os demais.

Passou a ser o primeiro a ser aberto… me apaixonei pelo diálogo atemporal e pelo fato de ser um relojoeiro aposentado. Me lembro de lhe perguntar: o que faz agora que o tempo parou para sempre? E ele respondeu que estava a ensinar o ofício ao neto, apaixonado por mecanismos e engrenagens desde a infância. O tempo estava novamente em movimento.

Enquanto lia… imaginava-o em movimento pelos cômodos da casa e via tudo com seus olhos. O quintal de frutas onde corriam os netos. A mesa da cozinha repleta de ingredientes do almoço, preparado por sua senhora.

Ele falava de seus dias, suas paixões… as travessuras com os netos. Alegrias, frustrações  e saudades que sentia do filho, que tinha deixado Portugal em busca de melhores oportunidades. Havia qualquer coisa de insatisfação quanto aos ritmos de sua existência, contudo, ele dizia ser um homem feliz na maioria do tempo…

Certa vez, quis saber a minha idade… já nos correspondíamos havia três anos. Mas, quando soube que eu tinha míseros treze anos… nunca mais me escreveu. Esperei por notícias, mas não tive resposta. Eu insisti, duas-três-quatro vezes. Mas, os envelopes artesanais se foram para todo o sempre.

Anos depois, quando já vivia em Coimbra, decidi conhecer Santa Maria da Freira — cidade ao Norte de Portugal, perto do Porto. Levei comigo o endereço dele e fui até lá… fiquei do outro lado da rua a apreciar a arquitetura de pedra, da casa 22… estava para ir embora, quando o vi passar pelo portão ao lado de sua senhora…

Acenei com a mão bem aberta no ar… e ele, que gentilmente retribuiu, sem saber-me. Ele era exatamente como eu imaginava. Cabelos grisalhos, magro e, corpo levemente inclinado. Deveria ser mais alto quando jovem, afinal, não é novidade que encolhemos ao longo dos anos…

Acompanhei seus passos em pares, lado a lado com sua signora… ao longo da rua e comecei a escrever no ar uma missiva. Pouco depois, busquei pelo caderno dentro da mochila e deixei um bilhete para ele: ‘uma pena que o nosso tempo parou‘. tic tac.

Ele não foi a primeira, nem a última a me julgar-condenar pela pouca idade.

Ao voltar para casa no final de semana… procurei e ateei as missivas de M., ao fogo. Mas escolhi guardar a primeira, para não me esquecer que foi ele quem primeiro me ensinou, que as pessoas dão atenção demais a essa coisa de “tempo”…

 


Beda | detalhes da minha escrita ficcional…

DSC_0168

Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…

— John Keats —


 

No meio da tarde de hoje, novamente fui questionada sobre: como surgem os meus textos… é uma pergunta comum, que se repete de tempos em tempos. Considero uma curiosidade natural, que eu me mesma alimentei durante algum tempo, por não saber o que era causa-consequência. Sempre considerei que escrevia… por escrever somente. Amém…

Mas, enquanto percorria os trilhos de volta para casa, desenvolvi algumas teorias a esse respeito… pautadas pelas leituras que fiz de artigos que tratavam do estranho hábito dos escritores. Acabou por me oferecer enquanto hamsters para experiências laboratoriais, investigando meus processos pessoais.

Conclui que eu sempre considerei que minha escrita fosse uma espécie de reflexo natural, quase involuntário: “como um soluço-estalo-suspiro. Quando dou por mim já estou a existir dentro das linhas de uma folha de papel“…

Coloquei os fones no ouvido…busquei por uma melodia conhecida na playlist — tão moderno e infeliz dizer isso — e enfrentei o branco da tela do celular, que me oferece um bloco de notas, chamado keep — palavra perfeita para esse processo-insano.

Me ocupei da letra da música — “I’ve got some things to say / ‘Cause there’s a lot that you don’t know” — e os movimentos da realidade — dentro e fora do vagão. Percebi que um efervescer começou a acontecer dentro… uma necessidade de dizer-se sem voz. Um silêncio tão fundo-profundo que me cala, desorganiza.

Na infância… ainda sem consciência de corpo-mente, ainda inocente com as sentimentalidades, pensava ser tristeza. Lembro de dizer, com o olhar cheio, a pele devastada, como no poema ‘the wast land’ de Eliot — ‘eu sou uma pessoa triste‘. E C., me acolheu em seu abraço, que me fez chorar meus poucos anos que, naqueles dias… ainda cabiam dentro de uma única mão, sobrando dedos para depois.

Eu não era triste e compreenderia isso ao ler a poesia de Emily Dickinson anos mais tarde. Era uma menina atenta as coisas da vida — guardando-as em algum lugar de mim para depois.

Eu era uma acumuladora de vivências… uma colecionadora de futuros impossíveis. E quando a escrita dispara… tenho esse ‘mundo inteiro’ a disposição de meus dedos ágeis, que brincam de confeccionar frases-imperfeitas. Meu imaginário esparrama tudo por cima de uma mesa imaginária, e a mente escolhe o que usar-melhorar-piorar…

A minha escrita é um transbordar porque a caixa está cheia e é preciso, vez ou outra, esparramar tudo por cima da cama e reviver o que foi ontem e será sempre.

 

|  escrito ao som de secrets, p!nk  |

 

beda interative-se

BEDA | leia quem eu leio para saber-me…

De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser…
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,

Álvaro de Campos

2017-05-09 11.13.52

Fui até a prateleira e voltei de lá com um velho livro verde em mãos… e enquanto avançava pelas páginas, recordei meu primeiro contato com Walt Whitman, que não era um poeta comum lá por casa.

Eu cheguei à sua poesia-pessoa-poeta — na segunda década de vida, também conhecida como juventude-adolescência. Tinha me apaixonado por Álvaro de Campos e sua poesia metafísica que me devastava — como se eu fosse o próprio poema de Eliot… the wast land — e de repente, esbarro em ‘saudação a Walt Whitman‘… um estranho.

…de um poeta ao outro! Comprei o livro velho-gasto-e-mau-cuidado em um desses cenários empoeirados, que o mundo se ocupou de me apresentar. Um lugar depois de escadas velhas, porta com sino irrequieto e prateleiras prestes a sucumbir ao peso dos livros amontoados em desordem — cumprindo uma espécie de ritual.

Foi um desses encontros que o destino parece ter previsto e tramado nos bastidores da minha vida-realidade para acontecer.

Li “flores de relva”… a caminho de casa, dentro do trem — numa espécie de gole único, que entorpece-atordoa-nocauteia… primeiro o corpo e depois a alma!

Encontrei nas linhas do homem ‘que conversava’ com Campos… um dos ‘poemas da minha vida’ e, obviamente, o entendimento não aconteceu imediatamente. Nem seria possível acontecer dentro de uma única e mísera tarde. Foi preciso outros contatos — outras tardes tantas… outras vidas e muitas realidades-impraticáveis. Riscos-rasgos-retalhos… notas esparsas e silêncios definitivos…

Já li inúmeras versões do mesmo livro. A mais recente, adquiri na Livraria Cultura do Conjunto Nacional — numa dessas aventuras entre prateleiras que costumo promover em dias cheios. O olhar reconheceu o objeto em meio a outros tantos e a mão tomou posse do que… ‘sempre lhe pertenceu’.

O livro certo… a cumprir sua sina de ‘barco em busca de cais’… a navegar pelos cantos da casa-cidade-memória… e da minh´alma.

Hoje, preparei uma xícara de chá… me esparramei na mesa da cozinha e abri aleatoriamente o livro… página 159 {os adormecidos} alcançaram meus olhos. Anoiteceu mais cedo do lado de dentro… e fim!

 


beda interative-se

Beda | O quebra-cabeça que sou!

dsc_0090
Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista

Eu gosto de vez ou outra, fazer uma pausa na realidade das coisas e munida de uma xícara de chá… observar as peças do quebra-cabeça que sou para ver quais se encaixam e que figuras formam.

Hoje, me deparei com a imagem lírica de minha nonna. Mulher firme-decidida, de voz forte-grave e atitudes definitivas. Ela enfrentou a família para estudar Filosofia e para trocar de noivo-marido por amar-um-e-des-amar-outro.

Quando a conheci, ela já era nonna de uma dúzia e meia de netos. Adorava ver a casa cheia tanto quanto adorava o esvaziar-se dos cômodos da casa… até o verão seguinte.

Eu tive duas avós… como quase todo mundo. Uma miúda-elegante-sisuda e estranha. Outra enorme, de cabelos bem brancos e bem farta de carnes, como quase toda italiana. Figura intensa-imensa. Confiança nunca lhe faltou, verbos tampouco. Felina e ferina, sempre diz frases inteiras, bem pontuadas.

Ela foi desde sempre uma espécie de Norte para os meus olhos… gostava de ouví-la contar os muitos mitos e lendas nórdicos-gregos-celtas-escandinavos-egípcios. A história do mundo e do homem era sempre mais interessante e empolgante quando saltava de sua boca, através de criaturas incríveis-impossíveis que sua voz desenhava em meu imaginário.

Em sua cozinha, ela inventava os melhores doces e reinventava as receitas da mãe que, pouco antes de morrer, confessou sentir orgulho da filha, que se fez mulher pelas próprias mãos. A nonna sempre foi o Lado B de si mesma. Suas infusões secretas — galhos, raízes, folhas cascas — curavam dores reais e inventadas. Não havia sofrer que não se extinguisse.

Foi ela quem me ensinou a não me limitar a uma só cultura-religião. A não me curvar diante de Chronos e escutar o poderoso eco de Kairos em meu peito. E foi ela quem segurou firme a minha mão e disse num sem-voz: “faça sempre o seu melhor, não pelos outros, por si. Não espere pelo dia seguinte e não perturbe o dia de ontem. Seu relógio marca sempre a mesma hora, todos os dias, mas a gente teima em inventar outros ritmos, só para nos atropelar e permitir arrependimentos que são modernas formas de desperdício. Não se oriente por falsos exemplos. Seja fiel a si e não aceite tudo que te oferecem. Aproveite cada minuto de vida. Mas desperdice um pouco também, para não chamar a atenção do mundo. Não corra. Apenas siga”.

Sempre sábia em suas ponderações, ela se diz feliz pelos anos que coleciona na soleira de seu corpo. Envelhecer? Ela diz que é inevitável, um processo sem volta, que dispara no exato instante da concepção. Viver é isso. Não rima, mas é como um vício — depende-se. E ela afirma, do alto de seus não sei quantos anos e todas as suas lindas rugas que só se incomoda com os desgastes do corpo, quem não deu corda nas emoções e não ouviu cantar o cuore.

Ainda hoje, nesse tempo depois da infância, sinto arrepios na pele-corpo-alma ao ouvi-la. O sorriso percorre os lábios de lado a lado e eu ouço Kairos suspirar os aromas de uma vida inteira: café preto no bule, bolo de fubá no forno, o tapete da porta de entrada, a manta vermelha no sofá da sala, a xícara de chá de hortelã nas tardes frias, o olhar amendoado nos dias tristes e o sorriso branco-imenso nas manhãs à nossa chegada. Eu ainda me lembro dela, sentada na cabeceira da mesa… no último ano em que estivemos todos juntos.

Don´Anna nunca foi de fazer somas. Isso era coisa do nonno. Ela gostava mesmo era de acenar com a mão bem aberta no ar… e fechar a porta. Dizia com um tom ameno: ‘avisem quando chegarem’. A gente sumia em seus braços e só reaparecia quando estávamos longe…

 

| escrito ao som de say |

 


beda interative-se