Abril, o mais cruel dos meses!

Eu nunca tive para com Abril uma relação próxima… sempre foi uma espécie de caminho do meio… para se chegar a maio — um dos meus favoritos no calendário, desde a infância. Justamente por suas sonoridades peculiares — o mês das trovoadas.
Sempre tentei relacionar os meses do ano a qualquer coisa minha — para facilitar a convivência, mas nem sempre funciona. Um ou outro mês acabava em suspenso, a deriva — o suficiente para eu me perder dos dias e suas estações inquietas.
Abril, por exemplo, passou a pertencer a Eliot… depois da leitura de seu poema The wast land — e só.
Como nasci invertida… Abril era o mês da primavera-flores-cores-aromas. A época favorita de C., que gostava de sentir o cheiro da flor de laranjeira no quintal de casa. Enquanto eu me aborrecia com o prolongar gradativo dos dias e as noites cada vez mais curtas. Desse lado do atlântico, no entanto, é outono… e, por mais que eu goste dessa estação — ela não pertence a Abril… não combina. Simplesmente não acontece em minha matéria.
E mesmo assim, os dias estão mais curtos… ainda quentes. O outono — estranhamente — foi pontual… chegou na data e horário marcados, expulsando sem cerimônia o verão mais chuvoso dos últimos anos. As noites estão mais frias-escuras e o entardecer acelerado… perfeito para ler poemas em páginas.
Eu fui à prateleira e voltei com Al Berto… que me arrancou o fôlego com um de seus poemas — não nos conhecemos nunca — e tamanho foi o desassossego que precisei escrever ao poeta…

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De olho em Berlim

Hoje em dia, o mundo olha novamente para Berlim… por ser o lugar onde acontece as coisas importantes do mundo da Arte — principalmente no universo da escrita. Antes da Segunda grande guerra, a Capital alemã já era considerada o centro do mercado Editorial e lançava para artistas dispostos a debochar do cenário mundial… mas, perdeu o posto ao ser invadida e feita metade. O muro levantado foi ao chão e a cidade alemã tratou de se estabelecer como uma Capitais mais eloquentes do mundo.
Atualmente, várias Editoras têm sua sede estabelecida em Berlim… a Editora Hanser, uma das mais literárias e sofisticadas em toda a Europa é uma delas — “em Berlim pensa-se um pouco diferente, e por isso, para a pergunta sobre como serão os livros no futuro, e como serão vendidos, as respostas em Berlim também serão outras” — é o que diz Michael Kruger… poeta-romancista e editor da Hanser… uma figura contraditória, que sempre pontua suas falas com frases de efeito — “a vida de um ser humano é demasiado curta e, por isso, deveríamos ler os bons livros que existem”… reclamação particular — com a qual concordo — sobre o fato de que as livrarias estão lotadas de subliteratura, os leitores têm preferência por livros ruins e as grandes Editoras dão cada vez mais espaço para a chamada literatura de entretenimento…
Em Berlim, no entanto, existe um movimento inverso… um grupo de Editores está a dar espaço a novos escritores, que dificilmente conseguiriam ser publicados pelas grandes casas literárias, que arriscam cada vez menos, preferindo apostar apenas no que vende. Momento perfeito para os pequenos-ousados e promissores livreiros — Matthes & Seitz, Kookbooks ou Secession —, que se estabeleceram na velha Capital Alemã e nos oferece uma espécie de Norte para a Literatura.

6 on 6 | minhas noites

Doze horas /  Pelos caminhos da rua /  Preso em síntese lunar / A sussurrar encantos lunares /  Dissolvem-se os assoalhos da memória /  E suas relações claras /  Divisões e precisões, /  Todo poste que passo /  Bate como um tambor fatalista, /  E pelos espaços do escuro / A meia-noite chacoalha a memória /  Como um louco chacoalha um gerânio morto.

— T.S.Eliot
Tradução  de Adriano Scandolara

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1 — Gosto imenso da noite… principalmente nas primeiras horas, quando a cidade começa a se transformar num grande borrão de tinta no canto da mesa. As sombras igualam as formas… eu preparo uma xícara de chá e espero…

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2 — Passa das seis… a noite se esparrama pelos cantos da casa-pele-alma-cidade e me faz relembrar os aromas antigos… gosto imenso desse cair de pano. Ingredientes escolhidos-lavados-descascados-picados. Panela no fogo. Mesa posta e os sabores se deixam provar…

os caminhos que se apresentam a nós

3 — Passa das nove… há sempre um ângulo novo-diferente-inédito… de luz. Janelas acesas. Portas fechadas. Ruas vazias… há algo de catedral no ar… o silêncio se observa em meio a qualquer coisa de som… os passos, a respiração, o cuore dentro do peito e a imaginação, que é como o tic tac de um carrilhão nervoso, que emerge de meu passado.

dsc_0061-14 — Quase meia noite... metade-pedaço. A noite faz com que a vida fique em suspenso… o tempo não passa, mas as horas avançam rapidamente dentro do sono-sonho de alguns ou dentro dos vazios de outros. Eu viro as minhas páginas…

dsc_00665 — Quase duas… me apetece sempre ficar-estar… verbos facilmente conjugados dentro das noites, que nessa época do ano, começam a acontecer um bocadito mais cedo. As paredes do lugar vão esmaecendo gradativamente e o corpo começa a ter a função de casa para a alma. Função de aconchego modo on

DSC_01816 — Quatro e dez… o melhor da noite é o verbo que eu conjugo na minha própria pele: anoitecer… entre livros, cadernos, chopin, uma xícara de café e todos as terríveis formas de silêncios que eu bebo em pequenos goles…

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Participaram também

 Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega 
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Obrigatório não ver…

Estava em Coimbra, no ano de 2016 para dias de re-encontros… e fui levada pela mão — conduzida feito criança — à exposição da Poeta Ana Hatherly… um convite à poesia experimental de vanguarda na Rua Castro Matoso…
Ao vagar pelos espaços da casa me deparei com a escrita-mural — pouco conhecida no Brasil, embora amplamente praticada pelos muros da cidade paulistana. Cartazes perfilados com recortes, pinturas em cartão, colagens e desenhos em grafitti inéditos, além dos objetos pessoais — a máquina de escrever na entrada e seu avental assinado, usado na fase spray de Ana.
Trabalhos de uma vida inteira que a poeta-mulher-ana teceu-reagiu-destruiu-agiu segundo as suas próprias coordenadas de vida-realidade-morte… o que me obrigou a navegar-viajar por tudo que sabia e não sabia da poeta… o primeiro livro lido mapas da Imaginação e da Memória e as linhas que tomei nota em agendas-diários para ler depois e depois e depois: os construtores demolem. No lugar onde estava o sopro, pomos pedras ou palavras: sinônimo de construção. Ou destruição. Ou acção.
Recordei essa exposição ao pensar-planejar um evento para a poesia… em São Paulo — no meio dessa tarde, após uma conversa com uma amiga que delira-pulsa-vibra e me provoca. O cenário-lugar. Os objetos escolhidos pelo curador Jorge Pais de Sousa. A disposição das peças. A interferência da luz através das janelas e portas deixadas abertas ou fechadas… e os espaços em branco — uma espécie de livro-casa que se oferece ao toque.

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Das polêmicas que surgem e eu coleciono…

Há sempre algumas pilhas de livros sobre a minha mesa de trabalho porque sou dessas leitoras inquietas que, salta de livro em livro — romances, poesias, novelas, crônicas, contos — tudo depende do momento que a pele atravessa.
Há também os livros que chegam — inacabados-rasos-rarefeitos, raramente prontos — através do correio eletrônico… e os que são entregues em mãos por algum humano atrevido-abusado que quer a minha opinião. A maioria espera uma análise positiva… que afirme sua condição de escritor.
O curioso é que na infância, quando questionada — o que vai ser quando crescer? — uma criança dificilmente diz: escritor. Escolhe-se as engenharias, as medicinas ou o Direito. Algumas pensam em ser astronauta, outras cientistas malucas. Raramente dizem: escritor. Eu mesma, não me lembro de ter ouvido essa resposta na turma da qual fiz parte, aos sete anos, quando o questionamento foi feito. Eu disse sem pestanejar: quero ser marinheira… e ouvi o riso crescer solto-alto pelo espaço da sala de aula.
Pois bem, segue-se a vida e uma vez Advogado, a pessoa se senta diante do notebook e escreve o seu livro porque escrever não é profissão… é um hobby para horas vagas.
Li certa vez que não se é escritor porque se quer, mas porque se pode. Eu respirei fundo para não dizer meia dúzia de impropérios. Do lado de dentro, no entanto, conjuguei todos os verbos no futuro do subjuntivo…
Há muitos livros nas prateleiras das livrarias de pessoas que decidiram que a pele de escritor… lhes servia. E até vendem porque, infelizmente, nem toda pessoa é um leitor. Todos nós aprendemos a juntar as letras, mas isso não quer dizer que sabemos ler.