19 | as receitas da minha rotina!

Sempre que alguém diz não gostar de rotinas me dá vontade de fazer bolos! Não importa onde eu esteja… porque não há nada que se possa alterar ali. A base é previsível como uma rotina. E, eu, ao contrário das pessoas que vivem suas vidas por aí — sem dar pela repetição de seus movimentos articulados — gosto imenso de rotinas, que eu chamo de rituais.
As pessoas falam de rotinas sem muito pensar… repetem-se sem respiração prévia. Dizem e pronto: “não gosto de rotinas”… e pronto, nem pensam no significado da palavra em suas realidades.
Receitas de bolo levam trigo, ovos que precisam ter as gemas separadas das claras, açúcar, óleo e um ingrediente para dar sabor, de acordo com o gosto particular de quem o prepara: chocolate, lascas de baunilha, fubá, coco…
A rotina é tão nós, nossa… e acontece aos poucos.
Eu gosto imenso de acordar pela manhã, observar os cenários, sacar um livro de poesias da prateleira… observar a luz da manhã e ouvir o som rouco da cafeteira. Sentir o aroma do café perfumar a cozinha-sala-quarto-banheiro e bebericar pequenos goles, enquanto degusto de certas pessoas-personagens. Tomar um banho, vestir roupas novas, ir às ruas para caminhar calçadas e chegar ao meu lugar favorito, na cidade — um café entre esquinas, onde me ajeito para os escritos meus ou alheios.
As rotinas tem qualquer coisa de extraordinário… nos permite observar como as coisas acontecem, apreciar seus curiosos processos e notar como os dias se sucedem uns aos outros. O que somos e, principalmente, o que deixamos de ser.
Há dias em que prefiro um bolo de fubá — que me leva de volta para casa quando os quadradinhos eram levados à mesa, no final da tarde. Mio babinno os guardava dentro de uma lata. Preparava-o na noite de domingo para durar até a quarta. Há dias, no entanto, em que prefiro o bolo de laranja — que me leva de encontro aos meus primeiros dias em São Paulo, quando dividia espaço com uma amiga. Comprava laranjas no mercadinho de bairro — que vendia de tudo, inclusive frutas. Mas, as laranjas eram as únicas que me convenciam a levá-las. Preparava o bolo nas noites de quinta — como se colocasse também a minha vida na vasilha e batesse tudo de uma só vez, até acontecer aquela massa bem lisa-uniforme e estufada pelo fermento. Depois, era só levar ao forno e aguardar — quarenta e cinco minutos — para ver acontecer a magia boa de um bolo gostoso que reúne tudo que sou…

Fugir ou quebrar a rotina?
Só se for para mudar o dia de fazer bolo!
…bolo mesclado às segundas, com nuvens no céu e xícara de chá quente! Perfeito… para começar bem a semana, preservar os rituais e mudar a rotina diária por aqui. rs

18 | dos livros que eu coleciono…

Minha paixão por livros começou na infância! — mas nunca fui uma colecionadora de livros. Embora tivesse a casa duas bibliotecas distintas que pertenciam as adultos e não a mim.
Eu tinha uma dúzia de livros — favoritos — lidos e re-lidos um sem-fim de vezes. Estavam sempre ao alcance de minhas mãos. As poesias de Emily Dickinson, Goliarda Sapienza, e Amélia Rosseli tinham seus lugares de destaque em meu criado-mudo. Eu preferia as pequenas pilhas de livros em cima da minha mesa de estudo a vê-los enfileirados em uma estante.
Prateleiras repletas de livros era coisa para a Biblioteca pública — um dos meus lugares favoritos na cidade —, que eu visitava semanalmente e de lá saía com dois livros, com prazo de devolução. E a escolar, para onde eu fugia diariamente — o meu esconderijo quase secreto, onde eu tinha uma cúmplice, que me apresentou a Fiodor Dostoiévski, Charles Baudelaire, Agatha Christie e tantos outros, que eu lia em segredo…

Pilha de livros

minhas próximas leituras

Ao me mudar para São Paulo, trouxe dois ou três livros comigo — escolhidos com o cuidado de quem tem consciência do vôo… e não do pouso. Na semana seguinte à minha chegada, ao andar pelas ruas do centro velho, esbarrei numa livraria… entrei e ao vasculhar o cenário-lugar, esbarrei no exemplar de Álvaro de Campos — companhia das letras — e o levei comigo. Estamos juntos e felizes desde então.
Nesse mesmo dia, conheci a Biblioteca Mário de Andrade, fiz meu cadastro e passei a ser figura constante no sagrado templo literário paulistano — preservando o ritual de não comprar livros, preferindo tê-los comigo pelo tempo do empréstimo.
Mas, no ano seguinte ao meu pouso… descobri a Livraria Cultura — conjunto nacional — e me deixei seduzir pela proposta indecente: pegar um livro na prateleira e ir me sentar em algum lugar… como se fosse a sala de casa, para ler sem compromisso de compra. Embora, às vezes, saísse de lá com as mãos cheias e os bolsos vazios. Toda a minha coleção de Borges veio de lá…

Coleção de poesias da companhia das letras

Meus livros de poesias… coleção companhia das letras

E, como a quantidade de livros aumentou significativamente… meu menino providenciou uma prateleira de livros, feita com madeira de demolição. Ficou linda… uma dúzia e meia de livros meus-nossos, lidos e re-lidos, enfileirados e organizados em ordem alfabética…
Mas, a mania de espalhar livros pelos cantos da casa  não se perdeu… e vez ou outra, eu precisava sair recolhendo-os para devolvê-los — consciente de que não ficariam lá por muito tempo.

Meus livros favoritos na caixa

Livros lidos e re-lidos incontáveis vezes

Quando nos mudamos para Moema (zona sul de São Paulo) adquirimos caixas de feira envernizadas. Colocamos uma sobre a outra, ao lado de minha mesa de trabalho… apenas para facilitar o acesso porque ao escrever, sempre recorro a algum livro. Ao ler, faço o mesmo. Vou para a cozinha-sala-banheiro e levo um ou outro livro comigo.
Não existe melhor maneira que cumprir um ritual de espera… uma xícara de chá e um livro em mãos faz com que toda e qualquer espera seja apenas um hiato entre um momento e outro…

artesanais na prateleira

minha coleção de livros artesanais, todos editados e costurados (um a um) por mim… #orgulho

Com as caixas de feira, no entanto, adquiri outro hábito… o de descer todos os livros, limpá-los e re-organizá-los… separando os lidos dos não lidos, criando pilhas que serão levadas aos sebos — lugares incríveis que a cidade inventa e reinventa — para venda-troca. Já tenho bem mais que duas dúzias de livros e o número de favoritos aumentou consideravelmente desde a minha chegada. Os de poesias seguem em maior número e, creio, que tal condição é imutável. Mas, o ritual de ir à Biblioteca e tomar emprestado dois livros que serão lidos no tempo do empréstimo — ainda que precise ser renovado — permanece. Certos hábitos — saudáveis — merecem ser preservados.
E eu gosto imenso de pensar nas mãos-olhos-nervos-e-músculos que passaram pelo exemplar que hoje me pertence — por um punhado de dias…

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coletiva

17 | minha lista de aventuras (aos sete)

Aproveitando que ontem eu falei dos medos que eu tinha aos treze anos, quero contar uma história secreta… da minha infância. Eu era uma menina aventureira… mas, as minhas aventuras não ultrapassavam o quintal de casa, onde eu era uma versão feminina do Capitão James Tiberius Kirk…
Tudo, no entanto, era diferente, quando eu viajava para a casa dos nonnos... ao contrário de mim, os meus primos tinham medo de uma casinha nos fundos, que era apenas um cômodo-antigo, com fogão a lenha, uma prateleira velha, onde se acumulavam tralhas, coisas feitas de ferro: panelas, escovão, ferro de passar. E havia uma mesa quadrada de madeira, ao centro com suas quatro cadeiras capengas e uma janela que para se manter fechada, precisava de um calço de madeira.
Era a primeira casa deles, feita para ‘guardar a família’… quando eram apenas duas pessoas. O enorme cômodo era sala-cozinha-quarto. Dias difíceis… de luta. O casarão foi construído tempos depois, com o dinheiro da segunda colheita. Um punhado de braços trabalharam duro — dia e noite —, para tudo estar pronto antes do inverno.
Quando eu cheguei a esse mundo… ali já era o conhecido cômodo das bagunças e dos jogos de cartas — nas noites de sexta. Eu gostava imenso de ficar na varanda… de onde dava para ouvir os gritos eufóricos dos homens-amigos do nonno e outras euforias que me faziam rir.
Certa vez, espiei o jogo pela fresta da janela… e me diverti ao ver quatro homens se comportando feio garotos. Um deles tinha uma carta colada na testa… outro tinha arriado as calças e mostrado a bunda. Arregalei os olhos, cobri a boca com a mão esquerda e corri para longe, onde pudesse deixar o riso se esparramar pelo ar.
O lugar era cheio de lendas… um dos meus primos repetia que se a meia-noite, espiasse o lugar pelo buraco da fechadura e rezasse o pai-nosso de trás para frente… enxergaria o Diabo, em pessoa. Eu cai na gargalhada… para desgosto de meu primo — que passou a descrever a figura da besta, com seus chifres enormes e cauda animalesca, com o intuito de me assustar. E como não deu resultado, fui desafiada a ir até lá… sozinha, no meio da noite..
Aceitei o desafio com um aparto de mãos bem forte — e lá fui eu… cheia de disposição, munida de uma lanterna. A parte mais difícil foi abrir a porta, que era pesada e precisava ser sutilmente levantada e arrastada. Ultrapassado esse “pequeno” obstáculo, me deparei com um cômodo às escuras e ao acender a lanterna, vi as paredes cobertas de fuligem e teias de aranha, nos cantos. O chão era feito de tijolo de construção… e soltava uma poeira avermelhada, imprimindo ao resto do lugar pegadas alaranjadas.
Me lembrei imediatamente dos contos de Edgar Alan Poe — lidos durante o verão anterior —, e minha imaginação se divertiu ao inventar uma realidade falsa, imersa em alegorias, típicas de um filme de terror.
Encontrei dentro da gaveta da mesa… o meu troféu: uma caixa, onde mio nonno guardava seus baralhos e um punhado de sementes de feijão branco, que eu entreguei nas mãos de meus incrédulos-primos-boquiabertos, que nunca tiveram coragem o bastante para entrar lá… além do medo que regia cada músculo do corpo deles, havia ainda a crença de que existia uma força oculta que os impediria a qualquer custo. A força dos anjos, que velavam para que suas almas não fossem dominadas pelo Vingador, também conhecido por Satanás…

16  |  Minha lista de medo (aos treze)

Encontrei no acaso do próprio acaso… a minha antiga agenda colegial — ferramenta habilidosa para se organizar e adquirir disciplina na lida com os afazeres, que se multiplicavam de um dia para o outro em meu tempo colegial.

Eu tinha — em meus dias de estudante — o estranho hábito de fazer listas… coisa que hoje é impensável-impraticável. Talvez por isso tenha me espantado ao me deparar com a tal ‘novidade’ imediatamente na primeira página.

 

Tenho medo {aos treze anos}

  1. Do som das multidões
  2. Do sol do meio dia
  3. De pessoas enfurecidas
  4. Do menino bobo do segundo ano (o mais bonito, o mais forte, o mais seguro de si, o mais desejado pelas meninas… o mais, nunca menos) urgh
  5. De não ter tempo de chegar a última página do Romance do dia. (estou a ler orlando de Virginia Woolf)
  6. De ser reconhecida nos lugares onde passo.
  7. De ficar igual a minha tia (física e mentalmente)
  8. De formigas vermelhas
  9. Do som do telefone na madrugada
  10. De não conseguir calar a minha voz e dizer tudo que penso e sinto a alguém.

 

…e lá se vão mais de vinte anos! — e eu confesso que senti uma enorme paz em me deparar com todos esses medos menores. Do menino do segundo ano — do qual não me lembro. Nem mesmo com grande esforço. Das formigas vermelhas, que viviam em nosso jardim… e que na infância ‘devoraram’ o meu pé. Era o espaço delas entre as margaridas {minhas flores favoritas até então}. Gostava de me enfiar entre elas e sentir aquele aroma sutilmente adocicado. Não havia aviso que ali era o ‘lar doce lar’ das benditas formigas vermelhas. Eu pisei, sem saber, num monte fofo de terra e depois disso só me lembro da forte dor que cresceu perna acima e me paralisou completamente. Voltei a mim apenas no dia seguinte… na cama de hospital. Tinha entrado em choque. Ganhei uma pulseira de identificação onde se podia ler: ‘alérgica’… com a minha cor favorita: o vermelho. E o conselho do simpático ‘doutor’ que me acompanhava desde que eu conseguia me lembrar: ‘fique longe de formigas e abelhas, bambina‘. Uma simples picada poderia me matar. Desde então, fujo-evito, as não escondo a admiração que sinto por esses seres incríveis em suas sociedades organizadas, ao contrário da nossa…
Não tenho medo de formigas e abelha, apenas a consciência de minha insignificância e precariedade diante da sutileza de seus ferrões. Tenho medo é de multidões, do sol do meio dia… e acrescento, do verão tropical — porque meu corpo não se acostuma a essa brasa que faz arder o chão, o ar, a vida, a realidade e tudo que toca.
Mas, eu removeria alguns itens ali. Sinal de que algo mudou — em mim… ou no mundo.

 

Mas e você, tem medo de que?

15 | o agosto seguinte… ao seu!

 

Eu escrevo nesse agosto… o seguinte ao seu. Dois mil e dezenove, escrito por extenso porque é assim que preferimos e eu ainda não aprendi a gostar de números na forma-matemática de equações e cálculos insuportáveis… algo que dificilmente acontecerá. Por extenso parece que perdem a forma-idéia-formato, e faz parecer impossível a soma.
E nesse agosto seguinte ao seu, minha cara… você não fechou os olhos. Atravessou a noite como tanto gosta. A ansiedade galopava em sua pele, povoada por tantas coisas-mundos-insanidades. O elemento plural, sem dúvida, é o nosso regente.
A madrugada estava perfeita para leituras e goles de chá-café… você foi a prateleira (após ler o rascunho de uma proposta que lhe foi entregue, na tarde de ontem) e voltou de lá com um de seus livros favoritos: viagens ao scriptorium, de Paul Auster… devorado entre pequenos goles para melhor sentir o aroma em meio a lentidão dos gestos, que tanto aprecias.
Depois disso, voltou a sua nova aventura… o romance a voz das pedras, que tem lhe feito ouvir a mesma música incontáveis vezes — é a trilha sonora de Alice, a nossa personagem. Tomei a liberdade de alterar o nome que tinha dado a ela. Sei o que motivou sua escolha, e reconheço que seu olhar foi certeiro (mais uma vez) ao reconhecer a fôrma-forma.
Enquanto lhe escrevo, o som repete-se em notas — stuck in emotions and I don’t know what they mean / Keep thinking about us and how things get in between / But if it is love, it doesn’t matter, you don’t belong to me — você faz pequenas pausas para repetir trechos da canção e sorri paisagens inteiras, visitadas por dentro. São lugares apenas seus, onde nem você-ninguém esteve. São cenários inexistentes — peças de um quebra cabeças que a sua escrita monta.
Bem, o dia começa a acontecer na janela da cozinha, com suas cores de sol. É inverno por aqui — sometimes — mas, é também verão-primavera-outono. Rumores de tudo e nada, minha cara. Daqui a pouco será manhã. Esse dia seguinte ao seu e ao meu também. Quero ir à cozinha para fazer uma fornada de pães enquanto ainda é hoje.

Até qualquer dia seguinte, cara mia.