Sobre a Autora

Olá, eu sou Lunna Guedes…

—  nasci no ano de mil novecentos e oitenta e um… no primeiro minuto do dia vinte e nove de novembro. A lua estava em sagitário e minha matéria — pelo que consta — também.  Chovia forte… até por isso, disseram que eu “nasci entre um trovão e outro” — e concluíram que eu era filha da Tempestade… fadada a ser uma figura “intempestiva”… 
A cidade era Gênova… com seus contornos de mar e seus caminhos de pedras. Minha família ocupava, havia algum tempo a casa 141 da Rua Amélia Maranghoni, na Vila Giuliana — composta por duas ruas paralelas que se uniam através de uma sinuosa curva.    
A velha casa — datada de 1908 — era um desses velhos casarões com seus cômodos bem merecidos: sala branca com sofás de couro, um corredor estreito, quartos com camas sempre desfeitas, cozinha com mesa quadrada ao centro, varanda preguiçosa… quintais de fruta, flores, folhas, mesa para os dias de domingo e bancos para as manhãs douradas de sol. 
Além dos humanos, viviam ali alguns pássaros — que iam e viam de acordo com as estações do ano. Insetos coloridos: abelhas, besouros, farfalles, alguns vagalumes… e um Pastor alemão chamado Lord — um belo rapaz travesso… a quem fui apresentada em meu segundo dia de vida. Obviamente não me lembro disso, mas me disseram que depois de provar do meu cheiro, ganhei uma generosa lambida. O que significa dizer que fui bem recebida por ele, que não abandonou o portão até a volta de C. 

Na casa 141… passei toda a minha infância. O meu quarto ficava à esquerda, no final de um estreito e curto corredor, com suas paredes em vinho e suas máscaras africanas perfiladas, lado a lado. 
Foi na cozinha daquela casa que eu aprendi a ler e a escrever meu nome… com suas cinco letras: duas vogais e três consoantes. Me lembro do movimento do lápis junto à folha de papel… a xícara de chá ao lado, o som da chuva lá fora e do olhar atento da mulher, cujo nome também começava com uma consoante…
Lembro-me também da vontade de saber os fantasmas que viviam naquelas paredes… que eu sentia junto à ponta dos dedos, enquanto atravessava os cenários, tentando ouvi-los. Tudo porque eu queria saber os meus antepassados… que dentro da minha infância se limitavam às pessoas que tinham vivido naquela casa antes de mim. 

Vivi ali até os meus quatorze anos, quando me mudei nos primeiros dias de agosto para outra cidade-estado-país. Fui viver em um quadrado com portas e janelas… que tinha uma curiosa vista: o Cemitério da Consolação. Não decorei o endereço do lugar… mas sabia chegar até a rua de mão única… longe de tudo e perto de nada. Contudo, demorei alguns anos para aprender a sair de lá. 
Migrei — como fazem os pássaros no fim do outono — para o Campus de Coimbra. Escolhi cursar psicologia para depois ir ocupar o lugar de C., perto da Avenida principal — via 20 de settembre.
Exerci a profissão de psicanalista até que as paredes do cenário-lugar me fizeram perceber que a sombra de uma… não cabia na sombra da outra…   

Depois disso… fui e voltei de um sem fim de lugares… vivi centenas de partidas e dúzias de chegadas, como se meu corpo fosse a plataforma de uma estação e os lugares… um comboio a passar por mim.   
Pisei dúzias de cidades-lugares, alguns países… e fui encontrar o meu Norte no lugar mais improvável do meu mapa particular. 

MEUS LIVROS

Alice, uma voz nas pedras

2019

Alice é uma mulher traída por um desejo comum: ser feliz. Sonhava desde a infância, viver um conto de fadas. Quando escutou a história da Cinderela pela primeira vez — se metamorfoseou em Princesa. Passou a sonhar com o seu próprio conto de fadas… o dia do sim, o vestido branco, a igreja cheia, a marcha nupcial, os votos, o par de alianças, a chuva de arroz e o foram felizes para sempre.

Vermelho por dentro

2017

…não é um livro! É um calhamaço de textos escritos ao longo dos últimos anos a partir de um questionamento natural: de quantos fracassos é feita uma vida? Essa pergunta é como um mar em movimento e a palavra flutua através das ondas num curioso percurso de si… sem mapas-bússolas, apenas o passado como ponto de partida-e-chegada.

Meus naufrágios

2018

…traz duas personagens femininas ‘mãe e filha’ e seus dilemas de vida. Duas figuras firmes-fortes-e-sonoras, conscientes de que tudo poderia ser diferente em suas vidas, mas uma vez feitas as escolhas, não é possível olhar para trás e pensar um futuro novo — diferente. É preciso conviver com o resultado das escolhas feitas. O passado de uma determina o futuro da outra, resultando em mágoas-distancias-e-ausência. Mas nem mesmo a mágoa que pauta os gestos das personagens impede que elas se amem, se respeitem e torçam uma pela outra, em seus caminhos inexatos’.

Setpum

2016

esse diário — parte integrante do projeto diário das 4 estações — Lunna alimenta cada uma das páginas — como se fosse seus cadernos de capa vermelha — com notas, esboços, rascunhos, rabiscos… quase que diariamente — com pretéritos… escolhendo o que contar, piorar ou melhorar de suas vivências reais ou imaginárias. É uma verdadeira ode ao seu existir literário…
Sete… Septem… Setembro… Septum, do latim ‘aquilo que contém’ — quem conhece esta artesã das palavras sabe bem que se encontrará lá dentro, em cada linha de cada página, porque a colecionadora age assim… na calada da noite, nos gritos do dia, transformando pessoas em arte”. [Adriana Aneli]

“Desde que voltei para esta cidade, não consigo evitar olhar pela janela. Não consigo evitar a confusão… o sentir desgovernado. São tantas paisagens urbanas para domar, tragar, compreender… que apenas a poesia de Eliot me consola e agrada. Tenho consumido Eliot como café… em demasia”. 

— do texto: vinte e seis de agosto é meu marco zero

%d blogueiros gostam disto: