A crise dos gigantes

conjunto nacional livraria cultura

 

Pedimos um café e aguardamos… eu tinha em mãos um livro de poesia, que recebi do autor, que me enviou o exemplar autografado pelos correios. Poesia de Franck Santos. Z., tinha em mãos o seu Andy Warhol de estimação e parecia (ainda) insatisfeito com a profecia do artista plástico, que com um requinte de crueldade, enfatizou: “no futuro, as pessoas vão ser famosas por 15 minutos não porque as coisas estão acontecendo rápidas demais, mas porque isso é tudo que elas querem“.

Respirei fundo enquanto relembrava sua crônica, sobre a morte do desconhecido que chocou o país. Z., ainda lê jornais e gosta imenso do som das páginas em movimento. Das sessões de esporte-política-economia e a melhor parte — sempre lida por último —, o caderno de cultura, que trazia em suas páginas, nesse domingo, um artigo sobre a “crise dos gigantes” — assunto que ocupa as redes sociais e boa parte dos leitores do Brasil.

Acho interessante que os dois gigantes insistem em culpar a Amazon pela crise e parecem repetir os brasileiros ao culpar a Globo ou o PT pelos problemas socioeconômicos que o país enfrenta. Mas, não ressaltam que o modelo de gestão adotado… transformando seus espaços em meras vitrines, para um público sempre igual, foi um dos principais responsáveis.

Até porque… não existe leitor igual. Cada um tem o seu estilo e autor favorito. E de nada adianta recorrer aos clássicos quando os livros de capas coloridas se acumulam nas prateleiras.

Z., e eu fazemos parte da geração que comprou muitos livros na Cultura, que ocupou os espaços do Conjunto Nacional durante os fins de tarde para evitar os intermináveis congestionamentos provocados pelo horário de pico. Quantas vezes não fomos ao cinema, depois a livraria e ao café. Diálogos longos. Debates atuais e os livros empilhados, ao lado para compra….

Eu me divertia em ser reconhecida como leitora de Sontag, Borges e outros autores pelos vendedores. E ele por ter uma sessão inteira de música no terceiro andar — ao lado do teatro, onde assistimos várias peças.

Conheci muitas pessoas que sonhavam fazer o mesmo que nós e nos invejava por ter a nossa disposição as aconchegantes livrarias Cultura para frequentar.

Em uma dessas visitas, no entanto, acabamos surpreendidos com livros coloridos e rasos — todos Best Sellers. Percebemos que não éramos mais o público alvo do lugar, que preferia prestigiar os famosos “ninguéns”. Maldito seja Warhol!

Saímos de lá aos soluços e com as mãos vazias. Foi assunto para vários dias. Eu tinha adquirido ali os meus primeiros exemplares de Borges, publicados pela Companhia das Letras. Os diários de Susan Sontag e tantos outros. O cuore falhou dentro do peito. Não comprei um único livro naquela tarde… era o princípio do fim.

As pequenas livrarias e as editoras independentes também foram vítimas desses dois gigantes… algumas fecharam suas portas. Uma ou outra sobreviveu por ter um público cativo e ser capaz de se reinventar. A livraria da Vila soube atender as carências de leitores de poesia, romances, como nós. Comprei ali o meu Helder e tantos Mias Coutos e muitos outros.

Z., me lembrou — entre goles de café — que até os famosos Sebos da Paulicéia …sofreram com a transformação do livro em produto — algo que o senhor Herz, sempre negou — e seus preços únicos, praticados pelo Gigante e acatado pelas Editoras (as mesmas que hoje nos imploram para comprar livros em dezembro-natal).

A idéia cultural das livrarias foi sendo deixada de lado, gradativamente… e “o lucro acima de tudo” passou a ser o Norte. Começava assim a derrocada atribuída ao Amazon, que nem mesmo pensava no Brasil, quando o problema se equacionava por aqui.

Mas, enquanto houve lucro, não existia preocupação. No Brasil é sempre assim… espera-se dar errado para se negar a esperança.

A outra gigante ainda é pior, porque a Saraiva nunca foi uma livraria… e sim uma loja que vende livros. A maioria de seus vendedores nem sabiam que o produto de suas vitrines era o livro. Eram apenas vendedores aptos a localizar o código de barras e nos encaminhar ao caixa. Algumas vezes fomos surpreendidos com comentários: “vai ler esse livro?” — em referência a quantidade de páginas. Ou então, ao mencionar o nome do autor, éramos obrigados a soletrar duas-três vezes.

Essa crise que aqui chegou — também atingiu em cheio os EUA, que inventou o conceito-modelo de mega Store — surpreso? Claro que não…

Lembram-se do filme ‘mensagem para você‘, com Tom Hanks e Meg Ryan, em que a livraria da esquina fecha as portas por causa da gigante “Foxbooks”? — esse filme lançamento em 1999, já apontava o caminho da crise… e, naquele tempo Amazon nem existia…

Por lá, no entanto, a crise das mega Stores fez ressurgir as pequenas livrarias independentes. Talvez seja esse o caminho para São Paulo… porque o paulistano gosta da idéia de livraria como espaço de encontro, livros, cafés e diálogos. Basta passear pelos Cafés — que brotam pelos quatro cantos da cidade — para perceber que sempre há leitores a virar páginas e bebericar pesados goles de café.

E concluímos, ao nos preparar para a nossa leitura de domingo que, Leitores — ainda —, existem…

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