Beda | gosto imenso…

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…de xícaras de chá, dias curtos e noites longas. Páginas de livros e polaroids. A cama desfeita e meias nos pés. Dos dias de ontem e uma música, no repeat. Cabelos molhados… do espelho embaçado. De um beijo que se demora nos lábios. Mãos sobre a mesa num afago matinal. Riscos brancos no céu azul e da rajada do vento, que passa e tira tudo do lugar. Da chuva que chega pouco depois do trovão no final da tarde. Do som do asfalto molhado e de projetos finalizados na última hora. Da idéia que desperta no corpo-mente-alma… e revigora os músculos-e-nervos. De um cheiro que me surpreende… e me leva de volta a esse lugar secreto-apenas-meu. Do tremular da vela e da fumaça do incenso. Dos olhos fechados e da respiração completa. Das pausas nas coisas da vida-lida… dias de sábado e manhãs de segundas. De ingredientes a mão… e a bola de massa sovada… a crescer. A fornada de pães… e o cheiro que salta do forno pouco depois. A mesa posta para nós dois. Dele… muito-muito-muito mais. De nós dois… do olhar dele atado ao meu. Das mãos encaixadas às minhas. De sentir que ele sabe disso. Dos nossos passos pelas calçadas-combinados, sem espaço para ninguém nada. Dos nossos diálogos a qualquer hora sobre tudo-e-nada. Dos nossos amigos à mesa… em diálogos compridos. De sorrisos que contagiam e abraços que se demoram. De São Paulo e suas premissas-promessas… de suas ruas inquietas e esquinas indiscretas. De Caetano e seu violão. Da última página do livro… e um texto que diz: escreva-me. Da vida. De meus erros e tropeços. Das minhas imperfeições… todas.

 


beda interative-se

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O melhor dos prazeres: combinar ingredientes

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“Esta é uma arte que aprecio. Existe uma espécie de feitiçaria em toda culinária (…). E é parcialmente a transitoriedade disso que me delicia; tanta preparação carinhosa, tanta arte e experiência colocada num prazer que pode durar apenas um momento,  e que só uns poucos apreciarão plenamente.”

Joanne Harris in Chocolate


Eu cresci, no sentido de evolução, dentro de uma cozinha… lugar onde acompanhei as proezas de minha Nona, que misturava ingredientes como quem escreve uma frase perfeita — dessas que se destacam em um livro, nos obrigando a grifa-la.

Mio babo herdou o talento… adorava vê-lo na cozinha, bebericando uma taça de vinho enquanto preparava um jantar de sábado para um combinado de amigos — cuidadosamente selecionados para participar de seu ritual: definir o cardápio, escolher os ingredientes, os talheres-louças-taças-toalhas…

Providenciar os ingredientes era coisa de C. — que com a lista em mãos… ia as compras. Ninguém que eu conheça tem a habilidade daquela mulher para escolher ingredientes. Ela apalpava-agitava-cheirava os ingredientes… pequenos segredos para saber se o legume estava ideal…

Mio babo nunca fez uso de receitas e a nona tampouco… eu nunca pensei em cozinhar até me deparar com uma revista em um hipermercado e salivar ao vislumbrar a fotografia de um prato.

Não dei a mínima para a receita… me ative unicamente ao que era ingrediente. E, como quem repete gestos antigos e conhecidos… combinei em mim o melhor de meus mundos. Desenhei uma lista mental e voila, passei entre gôndolas, escolhendo os ingredientes necessários e ao chegar a casa, repeti o conhecido ritual de sábado — e preparei um  risoto branco!

Atestei o que já desconfiava… cozinhar requer paixão, cuidado e interesse… uma boa música, uma lembrança gostosa que faça despertar cada um dos nossos sentidos — um estado pleno de consciência quanto ao espaço-tempo… e a anatomia de todos que estarão à mesa.

Se por acaso se tratar de um jantar solitário… é preciso se lembrar de que somos nossa melhor companhia e se tem uma coisa que aprendi com os meus foi que é preciso conquistar-se todos os dias. Agradar os outros é muito bom, mas nada melhor que agradar a nós mesmos com bons ingredientes…

Para a noite de hoje: escolhi fazer ‘penne verde’ — couve flôr, alho poró, cebolas e alhos, salsa, couve manteiga e queijo parmesão — para duas pessoas! E enquanto lavava-picada-cortava-filetava e preparava o meu saboroso ritual… comecei a escrever essas linhas.

E agora, aguardo pelo aroma… volto no tempo e misturo o meu sorriso ao de mio babo. Bebo um gole de vinho branco e percebo que não é noite de sábado, mas quem se importa?


 

Na vitrolinha — conhecida por youtube —
Andrea Bocelli canta para mim!

Uma dúzia de ovos…

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O que sabemos do tempo, afinal? Eu sei que passa… dizem que é ágil-astuto-ardiloso. Eu olho para trás e nessa soma que me acompanha… há um punhado de lembranças que me seguem. Uma espécie de rastro que eu mesma deixei… uma trilha de migalhas para não me perder… de mim — como se a alma precisasse disso para permanecer atrelada ao corpo.

Me lembro dos lugares por onde passei… das pessoas com quem estive… de coisas que marcaram a pele-alma-passo e outras que, de tão transitórias, se desfizeram no ar — feito grandes chumaços de nuvens com suas promessas (não cumpridas) de chuva.

E no meio de todas essas lembranças… está o meu menino. Me lembro de seu olhar entristecido e de seu sorriso travesso-arteiro. Tudo dentro de um mesmo segundo-cenário. O abraço demorado-gostoso-tranquilo e aquela velha sensação (clichê) de sabê-lo. No entanto, não há rastro algum em meus dias passados.

Vasculhei tudo o que tinha a partir de seu traço, guardado em mim como desenho feito com grafite numa folha branca na última porção de segundo a que se tem direito, para preservar um pouco de tudo-nada.

Revirei toda a minha bagagem, que já era imensa naqueles dias. Nada. Passei horas a vislumbrar seu contorno de homem-menino. O levei comigo por aí — sem sucesso. Mas aconteceu algo inédito… o encontrei em outros olhos-lábios, em movimentos desarticulados de falas… em outros passos pequenos-largos. Figuras inteiras se dissolveram e se misturaram ao que trazia no fundo de mim, esse abismo onde permanecer em queda.

Nos reencontramos dias depois… para um diálogo de minutos. Falas cheias. Frases completas. Não tínhamos perguntas — apenas respostas. E tudo foi se encaixando… olhares, mãos, passos, vontades, sorrisos, lábios, corpos, espaços… como ovos que acomodamos na caixa… um a um. Eu prefiro os brancos-grandes, mas há quem prefira os vermelhos-pequenos.

Parece que não há segredo em escolher uma dúzia de ovos… são parecidos em formatos-cores-tamanhos. Será? Já descobri várias curiosidades sobre como escolher e acomodar os ovos com a moça da feira. E sempre há alguém para anunciar uma ou outra particularidade… para a qual a “dona da banca”, com seu jeito peculiar de vendedora, sorri e diz: “será?” — dividimos o riso e a desconfiança. Sua piscadela de olho diz muito sobre as lendas e mitos que cada um carrega em si…

Mas e se ao invés de ovos, escolhêssemos os anos para ali acomodar? Uma dúzia deles… é o que temos, pois não? O primeiro ingrediente dessa nossa receita… e então, como vais querer os ovos hoje?

11 | minhas confidências…

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A você, meu menino…

…amanheceu junho por aqui, com todo o cuidado possível. Dia cinza, suavemente esbranquiçado, com vento agradavelmente frio a percorrer os hemisférios de nós dois.

Por entre as nuvens — lá no alto, distante — o sol insiste em aparecer, mas o dia não parece se interessar pela sua presença. Coisas do outono/inverno… essa estação que nos embala em seus fios…

Reparou que nós dois nascemos no outono? Cada qual ao seu tempo e lugar… com um oceano inteiro entre nós dois…

Eu me lembro da nossa primeira vez… e lá se vão um punhado de anos, não vou contar. Sabe que não tenho paciência com essas somas humanas. Mas do momento eu sei. Você desceu a ladeira, com as mãos no bolso da calça e veio em minha direção. Enquanto caminhava, com o olhar cabisbaixo e nos lábios um sorriso miúdo, quase inexistente… eu viajava em minhas próprias lembranças, em busca de sua figura — certamente, motivada por aquele pequeno gesto-conhecido.

Mas não havia memória sua em qualquer canto de mim, por motivos óbvios. Não nos conhecíamos. E, mesmo assim, eu procurei por você. Revisitei em poucos segundos, todos os lugares onde estive! Não estava em lugar algum de minha matéria-memória.

Confessei à você… em voz alta — “eu te conheço de algum lugar”… foi exatamente quando vi o seu sorriso dobrar de tamanho. Seu olhar vigiou atentamente cada traço do meu rosto e mergulhou fundo no castanho dos meus olhos. — “de onde seria?” — você quis saber, porque existíamos dentro da mesma certeza.

Ficamos em suspenso… a calcular nossos passos, movimentos, lugares, paisagens!
Eu recordei, as muitas vezes, em que estando sozinha, sentia uma sombra passar por mim, com perfume suave de vento e movimento de nuvem. A pele rasgava-se em arrepios contínuos. O coração acelerava e o ar percorria caminhos outros.

Eu nunca acreditei em destino… mas depois de tropeçar em você e guardar todos os teus traços em minha alma, para sabê-lo mais tarde… pensar em você durante dias inteiros, no silêncio de minhas frases, na solitudine de meus passos, no barulho das multidões, nos cantos onde eu me escondia e nos degraus onde me sentava… reconheci que existe esse lugar, onde tudo é fim e começo ao mesmo tempo. Esse lugar que nos espera, como se tivéssemos partido dali, para correr o mundo, cientes que um dia retornaremos.

Mas, será mesmo destino o nome disso? Talvez o mito grego faça sentido… somos duas partes de um mesmo ser… fatiados por um Deus e (re)unidos por outro. Prefiro essa explicação porque, assim sendo, o reencontro seria um caminhar nas primeiras horas do dia, passando sempre pelos mesmos lugares-paisagens.

Hoje, a sua matéria alcança mais um ano de vida-existência. Setenta anos, você disse porque sabe que não me equilibro nessas somas. Só consigo pensar que, cheguei faz pouco tempo, e parece que estou aqui, há uma vida inteira. Talvez, porque seja essa a nossa vida, nossa soma particular.

Gosto apenas de olhar para você e reconhecê-lo enquanto mar por onde navegar.
Não me lembro quando o amei pela primeira vez… talvez tenha sido quando nos sentamos para festejar seu aniversário na padaria da Bela Vista, com uma fatia de bolo e uma vela que terminou por queimar os seus dedos.

Ou não! Talvez tenha sido quando caminhamos de braços dados, em silêncio, a vigiar nossos pés, o chão, o lugar.

Não sei como aconteceu para você, mas eu… quando dei por mim: o amava, com todas as suas qualidades-defeitos. Não esse amor de corpo-pele… de estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas… que aproxima e distancia, que se satisfaz com o pouco que, também é… muito-tudo-nada e se esvai no fim de mais um dia, para recomeçar de novo e de novo, enquanto for vontade nossa.

Porque sentimento não se esgota, a gente é que deixa de se importar com ele e diz que ‘acabou’ como se fosse um pote vazio, onde deixamos de guardar alguma coisa.

Amanheceu junho, amore mio… e nós dois amanhecemos juntos!
E cá estou eu, a degustar o sabor imutável da primeira vez.

 

Bacio en tuo (mio) cuore

Era uma vez um outono…

…nos encontramos num abraço rápido… um enlace calmo, um encaixe natural de dois corpos estranhos que não se orientam, apenas se atrevem pelos vãos uns dos outros. Nos investigamos em pequenos impulsos contidos… e, assim nos perdemos em meio a premissas sem promessas — nos vemos depois‘ — e deixamos sorrisos como migalhas pelo chão… que nem sabia direito dos nossos passos. Mas ele não se foi completamente… ficou em minha anatomia, preenchendo-me como ninguém antes ousou fazer.

E enquanto caminhava pelas ruas da cidade — indo de um lugar ao outro, sem destino ou mapas que me orientasse — cada novo ser, que tropeçava em minha geografia… me devolvia a ele.

Era uma vez um encontro… um momento, um sorriso fatiado e dois olhares bem acesos a refletir realidades em estado de colisão. Era uma vez uma premissa-promessa, feita ainda em meus tempos de menina: ‘um dia você vai encontrar alguém e saberá imediatamente que encontrou o seu outono‘…