6 ON 6 | a pessoa que somos

 Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

Álvaro de Campos


Espaços urbanos

1 — sou lugares, que transito-ocupo na cidade…. esse cenário contraditório onde tudo e nada – novo e velho se misturam e se oferecem aos meus pés, meu guia nesse mapa de possibilidades que eu traço de esquina em esquina.

Outono - estação favorito do ano

2 — sou toda estações… as quatro num mesmo minuto. Mas quando respiro fundo e me calo, sou toda outono da alma ao cuore… da pele ao meu avesso — inquieto-arteiro-afoito…

6 on 6 - rascunhos

3 — sou rascunho… que o papel aceita quando a noite se impõe em meus olhos.

6 on 6 - tempestade

4 — sou tempestade… que chega sem avisar e ocupa todos os espaços da pele-alma… com seus múltiplos trovões e relâmpagos…

6 on 6 - personagens

5 — sou personagens… nos quais esbarro pelos caminhos vida que percorro, enquanto ouço a música dita o ritmo de meus passos alquebrados por caminhos reais ou imaginários.

6 on 6 — personagem próprio

6 — sou figura… inteira-metade-imprópria-irregular-muitas-poucas-nenhuma-contrária-avesso-verso-reflexo. eu mesma-outra.

 


 

| Cilene Mansini Maria Vitoria |Mariana Gouveia |
Mari de Castro Obdulio Nuñes Ortega |

 


 

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07 | domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,

“Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles…  Domingo…
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo…
Nenhum domingo. —  Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem”.

—  Álvaro de Campos —


Cara Z.

 

…hoje é domingo e, como no poema de Campos, eu fui à horta, digo: à feira. A manhã vestiu raios dourados a cegar-me os olhos e, um vento assanhado causou tumulto em meus cabelos cada-vez-mais-brancos — para desconfortos de uns e outros.

Percebi minha cara, que não haveria chuva nesse dia de novembro. Nada de trovões, tampouco fúrias brancas. Respirei fundo — meu lamento comum — e dei aos pés o sabor dos passos-largos pelas calçadas com seus desenhos de andar.

Gosto  imenso de transitar entre as cores e aromas que as barracas coloridas — armadas na rua dos pássaros — exibem. Provo da textura das frutas bem arrumadas numa —  singular — geografia de cores-formas-tamanho. Não seria capaz de repetir, se me fosse pedido tal artimanha. Não sei dizer como se equilibram uma por cima da outra sem se misturar… sendo laranjas-maçãs-peras-melões-melancias-uvas. Sem falar nas hortaliças com suas cores tão próximas e folhas tão distintas…

A feira que se esparrama ao longo da rua, tropeça na figura do famoso café entre esquinas —  onde comecei e terminei um livro, sentada à mesa ao lado da porta de entrada-saída. Respiro fundo essa saudade e sigo com as compras. Há ingredientes a escolher e o faço sempre nas mesmas barracas, com as pessoas que já sabem do que gosto e escolhem com o cuidado necessário, como se fossem convidados à mesa.

Hoje eu pretendia comprar tomates — vermelhos — para um molho-salsa… o meu preferido. Gosto de pedaços da fruta, que se mistura as lascas de cebola, filetes de alho e punhados de salsinha maceradas entre as mãos. Há um pequeno segredo para deixá-lo cremoso. Mas não lhe posso contar… não é nada impróprio, mas como se trata de um segredo, o impróprio seria revelá-lo, pois deixaria de ser o que se é…

Mas não encontrei tomates — estavam verdes-feios… e sem a textura aveludada que tanto aprecio e gosto de sentir na ponta dos dedos, acariciando-os como se fosse a pele daquele que amo.

Restou-me apenas o poema de Campos e os sabores que se precipitam em minhas falanges quando penso ingredientes. São como as letras, que antes de irem para a tela, se anunciam dentro… eu sou toda precipitações, não há meios!

Bacio cara mia

L.

Ano 02 | Ensaio

heteronimospessoa
Álvaro de Campos

AH, UM SONETO…

Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava… e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?…

 


12-10-1931?

Álvaro de Campos — Fernando Pessoa.
— 148.

 

Enfim, dias de junho…

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Lentidão dos vapores pelo mar…  /  Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila  /  Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila

Álvaro de Campos
pág. 56


 

Junho chegou… com seus dias inteiros, estranhamente quentes. As pessoas pensam nas festividades dos santos — antônio-joão-pedro — enquanto eu penso no maio que se foi sem que eu desse por sua partida…

Os últimos dias de maio me arrancaram da pele… lançando minha matéria dentro de uma espécie de realidade entre mundos.

Dialoguei com meus escritos e com o prazo ao qual me submeti, que tem me feito queimar por dentro. Falta tanto! Pior é sentir que se trata de uma condição imutável-definitiva.

Estive distraída… ausente do próprio corpo. Fui de zero a cem em poucos segundos… não apenas uma, mas centenas de vezes. Posso afirmar com estranha certeza: não é fácil despertar quando o sonho é bom, mas é impossível quando o que se impõe é um pesadelo.

Acordar é sempre difícil… e, para muitos de nós, a cama tem aquele conforto que nada mais no mundo oferece. O travesseiro é o melhor dos amigos… sempre disposto a reflexões lentas e modorrentas. Parece ser muito bom ficar um pouco mais… Começa com alguns segundos e de repente são horas inteiras. Várias voltas dos ponteiros no relógio. E assim vão se os dias, as semanas e os meses todos.

Talvez por isso, junho seja o mês do depois, mas nisso reside também um problema, já que a vida é sempre agora!

 

Resumindo: acordar é difícil porque ao abrir os olhos vem sempre a pergunta: o que acontece depois?

Quase quarenta…

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“Amo a regra que corrige a emoção.
Amo a emoção que corrige a regra”.

Georges Braque

 

Eu sei dos relógios e das voltas que dão os seus ponteiros — mas não sei absolutamente nada das horas que eles medem. Conheço a melodia e a ouço de tempos em tempos: aqui dentro e lá fora… junto as esquinas que eu dobro como se fosse um pedaço de papel a manusear… para compor um origami.

Há sempre um relógio com seus ponteiros em movimentos alucinados nos lugares por onde eu passo — desde a infância — e mesmo sendo apaixonada por esses mecanismos humanos… confesso que prefiro a ciência grega à essa definição humana-equivocada — onde tudo se mede e se perde.

Os gregos dividiram o tempo em dois… dos homens — Cronos e, dos deuses — Kairos. Eu sempre preferi Kairos… por considerá-lo mais poético… menos humano… mais etéreo… mais elegante… e menos dócil.

Às vezes, me assusto com o tempo e seus movimentos para frente… não sei muito sobre o tempo futuro… o dia seguinte para mim, é essa janela sempre aberta que não agrada ao meu imaginário… que prefere o tempo passado, o dia anterior… o pretérito imperfeito.

Gosto de fechar os olhos e tocar levemente todas essas coisas que, se repetem incansavelmente aqui dentro… um punhado de lembranças a saltar de minha memória que, fazem de mim, o que sou: figura humana alucinada, a ir na contramão das multidões, com as mãos dentro do bolso da calça, a espiar as silhuetas dos prédios e das casas… e os humanos em movimento ao meu redor.

Gosto de esquecer o tempo presente… abandonar as horas e suas insanidades de movimentos circulares. Coloco um disco para girar e vou para o canto do sofá ler Álvaro de Campos… esse simpático Senhor, que parece não saber sorrir. Mas sabe como poucos ralhar com o tempo que urge atitudes. Ele fica no canto, com seus versos elegantes… e de lá espia os contornos das coisas e suas causas. E quando se cansa: escreve…

Do tempo futuro espero apenas a soma que ele me deve desde a infância… nunca gostei de celebrar datas… mas gosto de completar décadas: dez, vinte, trinta… quando no intervalo dos anos… apenas digo quase vinte, quase trinta. Ontem foi a primeira vez que eu disse: “quase quarenta”. A pessoa não entendeu minha emoção, mas pela primeira vez, me dei conta que estou quase lá…

É meu Norte particular… completar “quarenta anos”. Ainda vivia os meus dias de menina quando ouvi uma mulher dizer em alto e bom tom, com a fisionomia cheia, diante do espelho, a espiar a si mesma e todos os seus pretéritos: “tenho quarenta anos”. Foi tão lindo. Uma frase inteira… Como se ela conversasse Kairos e ignorasse Chronos…

Eu ainda tenho muito para caminhar antes de chegar a essa casa… e poder anunciar essa linda idade. Enquanto isso, digo em voz alta, lua nova que sou: quase quarenta… e finjo ser cheia, em pleno eclipse das minhas emoções…