6 ON 6 | a pessoa que somos

 Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear…

Álvaro de Campos


Espaços urbanos

1 — sou lugares, que transito-ocupo na cidade…. esse cenário contraditório onde tudo e nada – novo e velho se misturam e se oferecem aos meus pés, meu guia nesse mapa de possibilidades que eu traço de esquina em esquina.

Outono - estação favorito do ano

2 — sou toda estações… as quatro num mesmo minuto. Mas quando respiro fundo e me calo, sou toda outono da alma ao cuore… da pele ao meu avesso — inquieto-arteiro-afoito…

6 on 6 - rascunhos

3 — sou rascunho… que o papel aceita quando a noite se impõe em meus olhos.

6 on 6 - tempestade

4 — sou tempestade… que chega sem avisar e ocupa todos os espaços da pele-alma… com seus múltiplos trovões e relâmpagos…

6 on 6 - personagens

5 — sou personagens… nos quais esbarro pelos caminhos vida que percorro, enquanto ouço a música dita o ritmo de meus passos alquebrados por caminhos reais ou imaginários.

6 on 6 — personagem próprio

6 — sou figura… inteira-metade-imprópria-irregular-muitas-poucas-nenhuma-contrária-avesso-verso-reflexo. eu mesma-outra.

 


 

| Cilene Mansini Maria Vitoria |Mariana Gouveia |
Mari de Castro Obdulio Nuñes Ortega |

 


 

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10. Não sei se irá chover ou não…

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Carissima T.

 

Passa das três horas de uma tarde nublada… bebo uma xícara de chá de camomila, enquanto tropeço nas aflições cotidianas e esparramo as coisas por cima do lençol amarrotado.

Há um mar de sensações em minha pele… coisas antigas, que reverberam feito os sinos da Catedral de Praga… para onde o pensamento voltou depois de esbarrar nos postais que trouxe de lá.

É engraçado que é um dos poucos lugares no mundo para onde sempre disse que voltaria — mas não aconteceu. Estive lá no verão de 98… visitei o famoso relógio astronômico medieval — Orlof — de onde, depois de mais de uma hora na fila, pude ver a cidade toda iluminada. Foi um momento a parte. Sabe quando o cuore simplesmente para e você precisa respirar fundo para fazê-lo voltar a pulsar?

Ainda guardo na memória a imagem da Ponte Charles sutilmente alaranjada e a sensação de pequenez diante da Catedral. Não queria mais sair de lá… fiquei impressionada com cada pequeno detalhe do templo. Admirei a passagem das horas e o efeito da luz do sol na anatomia do prédio, que parecia se deixar moldar pela dourada luz. E quando a noite caiu… vi as sombras agirem como um vírus e contaminar suas paredes, que se iluminaram artificialmente, como se fosse uma vacina a protegê-la da escuridão, que a igreja diz ser a morada do mal.

Nunca entendi essa maldita mania da religião de nos afastar de nós mesmos… esses discursos de fé sempre me fizeram bocejar. Apaixonada que sou pelas trevas, é justamente na noite que encontro conforto para os meus dramas humanos.

A quietude das falas.
A solidão dos corpos.

É tudo tão mais intenso e nítido.
Mas reconheço que não é nada fácil se acostumar ao breu, aguçar os sentidos e entender a limitação da visão, que depende da luz para existir e acaba por fazer todas as coisas ter origem numa mesma fôrma.

A noite me leva para dentro das páginas do livro de Campos, como quem vai para frente de um espelho decorar o próprio rosto — “acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se | seja de que maneira for, é preciso continuar a viver | arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente | estou no caminho de todos e esbarram comigo”.

Ainda é tarde… ‘tarde tardonha-tristonha’ — de Mário… mas a noite não tarda, logo esparramará seu breu em ‘meu quintal’ sem primavera e eu continuarei a navegar por esse passado-presente, que pelo que tudo indica nunca será futuro.

 

A bientot

09. Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,

“Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles…  Domingo…
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo…
Nenhum domingo. —  Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem”.

—  Álvaro de Campos —


Cara Z.

 

…hoje é domingo e, como no poema de Campos, eu fui à horta, digo: à feira. A manhã vestiu raios dourados a cegar-me os olhos e, um vento assanhado causou tumulto em meus cabelos cada-vez-mais-brancos — para desconfortos de uns e outros.

Percebi minha cara, que não haveria chuva nesse dia de novembro. Nada de trovões, tampouco fúrias brancas. Respirei fundo — meu lamento comum — e dei aos pés o sabor dos passos-largos pelas calçadas com seus desenhos de andar.

Gosto  imenso de transitar entre as cores e aromas que as barracas coloridas — armadas na rua dos pássaros — exibem. Provo da textura das frutas bem arrumadas numa —  singular — geografia de cores-formas-tamanho. Não seria capaz de repetir, se me fosse pedido tal artimanha. Não sei dizer como se equilibram uma por cima da outra sem se misturar… sendo laranjas-maçãs-peras-melões-melancias-uvas. Sem falar nas hortaliças com suas cores tão próximas e folhas tão distintas…

A feira que se esparrama ao longo da rua, tropeça na figura do famoso café entre esquinas —  onde comecei e terminei um livro, sentada à mesa ao lado da porta de entrada-saída. Respiro fundo essa saudade e sigo com as compras. Há ingredientes a escolher e o faço sempre nas mesmas barracas, com as pessoas que já sabem do que gosto e escolhem com o cuidado necessário, como se fossem convidados à mesa.

Hoje eu pretendia comprar tomates — vermelhos — para um molho-salsa… o meu preferido. Gosto de pedaços da fruta, que se mistura as lascas de cebola, filetes de alho e punhados de salsinha maceradas entre as mãos. Há um pequeno segredo para deixá-lo cremoso. Mas não lhe posso contar… não é nada impróprio, mas como se trata de um segredo, o impróprio seria revelá-lo, pois deixaria de ser o que se é…

Mas não encontrei tomates — estavam verdes-feios… e sem a textura aveludada que tanto aprecio e gosto de sentir na ponta dos dedos, acariciando-os como se fosse a pele daquele que amo.

Restou-me apenas o poema de Campos e os sabores que se precipitam em minhas falanges quando penso ingredientes. São como as letras, que antes de irem para a tela, se anunciam dentro… eu sou toda precipitações, não há meios!

Bacio cara mia

 

Ano 02 | Ensaio

heteronimospessoa
Álvaro de Campos

AH, UM SONETO…

Meu coração é um almirante louco
Que abandonou a profissão do mar
E que a vai relembrando pouco a pouco
Em casa a passear a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco
Nesta cadeira, só de o imaginar)
O mar abandonado fica em foco
Nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
Que eu falava… e onde diabo estou eu agora
Com almirante em vez de sensação?…

 


12-10-1931?

Álvaro de Campos — Fernando Pessoa.
— 148.

 

Enfim, dias de junho…

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Lentidão dos vapores pelo mar…  /  Tanto que ver, tanto que abarcar.
No eterno presente da pupila  /  Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila

Álvaro de Campos
pág. 56


 

Junho chegou… com seus dias inteiros, estranhamente quentes. As pessoas pensam nas festividades dos santos — antônio-joão-pedro — enquanto eu penso no maio que se foi sem que eu desse por sua partida…

Os últimos dias de maio me arrancaram da pele… lançando minha matéria dentro de uma espécie de realidade entre mundos.

Dialoguei com meus escritos e com o prazo ao qual me submeti, que tem me feito queimar por dentro. Falta tanto! Pior é sentir que se trata de uma condição imutável-definitiva.

Estive distraída… ausente do próprio corpo. Fui de zero a cem em poucos segundos… não apenas uma, mas centenas de vezes. Posso afirmar com estranha certeza: não é fácil despertar quando o sonho é bom, mas é impossível quando o que se impõe é um pesadelo.

Acordar é sempre difícil… e, para muitos de nós, a cama tem aquele conforto que nada mais no mundo oferece. O travesseiro é o melhor dos amigos… sempre disposto a reflexões lentas e modorrentas. Parece ser muito bom ficar um pouco mais… Começa com alguns segundos e de repente são horas inteiras. Várias voltas dos ponteiros no relógio. E assim vão se os dias, as semanas e os meses todos.

Talvez por isso, junho seja o mês do depois, mas nisso reside também um problema, já que a vida é sempre agora!

 

Resumindo: acordar é difícil porque ao abrir os olhos vem sempre a pergunta: o que acontece depois?