o verbo para este ano {novo}

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Autora e Editora da Casa Scenarium livros artesanais

…sempre gostei imenso de conjugar os verbos em seus diferentes tempos. Desaparecer sempre foi o meu favorito dentre tantos no idioma local. Outro que me aquece os lábios é desfalecer, acho o fim a coisa mais perturbadora que o universo inventou.

No inglês e no francês há outros tantos verbos que lustro e digo em voz baixa apenas para que eu possa ouvir-sentir aquele reverberar silencioso-ameno, feito outono nas árvores e voos de pássaros sob o mar.

E eu decidi ali na virada do ano, enquanto os fogos espocavam nos céus e eu fingia ouvir as falas ao meu redor… que gostaria que 2018 superasse 2017… nas conquistas, mas, sobretudo nos fracassos.

Foram tantos discursos inflamados, tanta culpa atribuída ao outro e nunca a si. Tanto ódio disseminado em falas equivocadas. Pedras atiradas. Raiva multiplicada… tantos versos conjugados sem cuidado. Tudo isso consumiu um bocado de energia e nos deixou um tanto mais distante desse lugar que somos.

Por tudo isso… quero o verbo SER tatuado na pele ‘por dentro e por fora’… para que no final do ano, após percorrer doze capítulos de vida, no último dia… último estourar de rolhas — eu possa sorrir a certeza de que eu fui capaz de SER mais…

Quero, contudo, que o tempo não seja tão arredio e não se vá tão depressa… em sua marcha de ponteiros e calendários. Quero viver mais devagar e experimentar pausas porque se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos de vida e morte é que o tempo da espera é precioso-essencial-necessário. O chá só fica pronto depois que a infusão se completa, nem antes e nem depois.

Portanto, para SER mais… é preciso um bom livro, uma excelente música, um bom punhado de idéias malucas na cabeça, uma xícara de chá-café, sorrisos, lágrimas, chuva no fim do dia, noites mais longas, dias mais curtos e caderno novo… cada sim e cada não. O abraço que chega e o que fica pelo caminho. A mão que aquece a outra. O olhar que ilumina o outro. O projeto que surpreende e aquele que não foi possível acontecer.

Todas essas pequenas coisas cabem dentro desse verbo… com o qual fiz um pacto: conjugá-lo na primeira pessoa do singular todos os dias, na primeira hora (meus ponteiros são outros, não anunciam manhãs-autoras, apenas crepúsculo-breu-noite…

E desejá-lo na terceira pessoa do plural: ‘que sejamos mais’…

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‘eu nunca escrevi futuros
sempre escrevi passados’

 

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A agenda com sua capa vermelha exibe — como quem afronta — trezentas e tantas páginas em branco, o único novo que realmente conheço. E volto no tempo… não o ontem-velho — esse eu atravesso… e aterrisso no ontem-caduco.

Volto à infância, em mil novecentos e oitenta e oito-quase-nove… e vejo os meus olhos-de-menina, a enfrentar o vermelho da capa e um punhado de páginas em branco. Tremi por dentro, como um trovão no azul.

Passou o tempo, eu cresci (?), mas ainda sinto trovões do lado de dentro, impulsionados pelo vermelho… e pergunto o que escrever à minha alma, como se ainda não tivesse vocabulário o bastante, idioma próprio… e não ousasse dizer em voz alta aquele desejo tolo, considerado inadequado por mim e geografia tão minha… pela mulher que me olhava com suas certezas do outro lado da mesa da cozinha.

Ela sabia o futuro — como se fossem cartas na mesa de uma cartomante —, que eu recusaria no dia seguinte e em todos os outros. E fugiria como se o destino fosse uma folha de rascunho amassada com força, por meus dedos sempre pequenos.

Vou para a cozinha e separo os ingredientes… misturo-os. Faço pão e aguardo pela fornada. Eu sempre adorei o ‘tempo das esperas’... nossas somas secretas. O privilégio de saber o cuore um pêndulo dentro do peito. E, a bordo de tudo que sei sobre mim, misturo os tempos e escrevo… o branco aos poucos cede-se-perde e dois mil e dezoito acontece, enquanto futuro-premissa, figura tão incerta quanto o ontem.

Ano novo… de novo!

Doze horas | Pelos caminho das rua
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras | Divisões e precisões,
Todo poste que passo | Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto

T.S.Eliot
Tradução de Adriano Scandolara

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Novamente janeiro… com seus dias quentes de verão e suas tempestades inesperadas no meio da tarde. Novamente Ano novo e um punhado de promessas — que jamais serão cumpridas. Pula-se ondas, veste-se de branco, mesa pronta, ceia servida e as mesmas velhas gafes de sempre se sucedem.

Gosto mesmo é de sair de casa com as mãos afundadas no bolso da calça… indiferente da hora que o relógio acusa, do dia que o calendário aponta para apreciar as ruas vazias-escuras, ouvir o eco das euforias flutuantes, tropeçar no que é resto-sobra do Ano que envelheceu e caducou. De repente? Acho que não…

Gosto imenso de escrever no ar, sentir as palavras nos olhos-pele-passo. Sou a personagem de Carrol e a noite é o Coelho de colete, com bolso e seu relógio maluco a avisá-lo de que está atrasado.

Corro atrás dele e de repente estou em queda.

— “Caindo, caindo, caindo. A queda nunca chegaria ao fim?”

A noite sempre chega ao fim… e o mesmo acontece com a vida, as histórias vividas-contadas e o ano que, por enquanto: é novo.

Mas, não se iluda… depois de amanhã caduca de novo!

 

Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

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Eu não sei fazer retrospectivas. Não sei pesar os dias — medir as horas —, mas eu sei fechar um livro e pensar uma realidade onde tudo se embaralha. Ficção e realidade. Dois mil e treze foi um ano estranho — não foi bom, mas também não foi ruim. Teve suas coisas e eu tive as minhas… nem tudo deu certo, nem todos os planos vingaram.

Mais uma vez eu fiquei a deriva das minhas emoções, a pensar essa realidade entre páginas. Reli antigos livros. Virei páginas conhecidas, algumas novas e enquanto tomava café ali nesse novo cenário-velho cenário… entre esquinas — solucei esse desejo: alinhavar livros, mas é como um sonho impossível no momento. Afinal, a realidade local é de prateleiras. Os escritores por aqui desejam se ver à mesa, a assinar seus livros e deixá-los aos montes nas livrarias. A grande maioria, no entanto, acaba mesmo é com caixas embaixo da cama.

Dois mil e treze ainda está aqui — talvez porque seja janeiro, esse mês regido por Janus —, o deus que ousa olhar para frente e para trás, assim como eu faço todo os dias…

Ainda ouço os fogos nas praias, nas avenidas e, na maioria das ruas de todas as cidades. Ainda ouço o alvoroço. O estouro da rolha. O tirintintar das taças. Vejo apertos de mãos. Abraços. Percebo sorrisos e ouço as mesmas-velhas-e-gastas promessas sendo feitas. Sei das simpatias… mas nada disso me pertence. O que é meu, está guardado em gavetas, baús, caixas de sapato e eu quero deixar lá por enquanto…