23 | velhos hábitos

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setembro. outro lugar. realidade. recordei a lista de material escolar. a escola não era o meu lugar preferido-favorito. era apenas um lugar. causa maior de meus cansaços. gostava mesmo era do ritual de papelarias. escolher os cadernos. adquirir os livros. sentir o cheiro de papel intocado. provar do sabor de linhas a preencher. saborear o virar de páginas ainda desconhecidas. encadernar os cadernos com folhas de jornal e plástico transparente.
livro novo de poesias. era nosso ritual de setembro. esperava ansiosamente para saber qual seria o poeta escolhido. pessoa. t.s.eliot. borges. dickinson. cecília. sexton.
a leitura acontecia sempre da mesma maneira. sentava-me na cama à noite. acomodava o corpo entre cobertas-travesseiros. abria o livro sem escolher página. abria por abrir somente. e lia em voz alta para os meus. o que se sorteava ao acaso.
escolhi no dia de ontem. sábado. setembro. retomar um velho hábito. voltar a escrever um diário. comprei um molesquine. capa vermelha. senti o aroma do novo. a textura das folhas. a nudez das páginas.  como antes.
setembro. primavera. aroma de outono. o ontem a arrulhar. e eu a concordar com o velho poeta-eliot. aceitar que, sometimes, é bom percorrer o mesmo caminho de novo e de novo e de novo….

 


maratone-se grupo interative-se

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o verbo para este ano {novo}

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Autora e Editora da Casa Scenarium livros artesanais

…sempre gostei imenso de conjugar os verbos em seus diferentes tempos. Desaparecer sempre foi o meu favorito dentre tantos no idioma local. Outro que me aquece os lábios é desfalecer, acho o fim a coisa mais perturbadora que o universo inventou.

No inglês e no francês há outros tantos verbos que lustro e digo em voz baixa apenas para que eu possa ouvir-sentir aquele reverberar silencioso-ameno, feito outono nas árvores e voos de pássaros sob o mar.

E eu decidi ali na virada do ano, enquanto os fogos espocavam nos céus e eu fingia ouvir as falas ao meu redor… que gostaria que 2018 superasse 2017… nas conquistas, mas, sobretudo nos fracassos.

Foram tantos discursos inflamados, tanta culpa atribuída ao outro e nunca a si. Tanto ódio disseminado em falas equivocadas. Pedras atiradas. Raiva multiplicada… tantos versos conjugados sem cuidado. Tudo isso consumiu um bocado de energia e nos deixou um tanto mais distante desse lugar que somos.

Por tudo isso… quero o verbo SER tatuado na pele ‘por dentro e por fora’… para que no final do ano, após percorrer doze capítulos de vida, no último dia… último estourar de rolhas — eu possa sorrir a certeza de que eu fui capaz de SER mais…

Quero, contudo, que o tempo não seja tão arredio e não se vá tão depressa… em sua marcha de ponteiros e calendários. Quero viver mais devagar e experimentar pausas porque se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos de vida e morte é que o tempo da espera é precioso-essencial-necessário. O chá só fica pronto depois que a infusão se completa, nem antes e nem depois.

Portanto, para SER mais… é preciso um bom livro, uma excelente música, um bom punhado de idéias malucas na cabeça, uma xícara de chá-café, sorrisos, lágrimas, chuva no fim do dia, noites mais longas, dias mais curtos e caderno novo… cada sim e cada não. O abraço que chega e o que fica pelo caminho. A mão que aquece a outra. O olhar que ilumina o outro. O projeto que surpreende e aquele que não foi possível acontecer.

Todas essas pequenas coisas cabem dentro desse verbo… com o qual fiz um pacto: conjugá-lo na primeira pessoa do singular todos os dias, na primeira hora (meus ponteiros são outros, não anunciam manhãs-autoras, apenas crepúsculo-breu-noite…

E desejá-lo na terceira pessoa do plural: ‘que sejamos mais’…

1/365…

‘eu nunca escrevi futuros
sempre escrevi passados’

 

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A agenda com sua capa vermelha exibe — como quem afronta — trezentas e tantas páginas em branco, o único novo que realmente conheço. E volto no tempo… não o ontem-velho — esse eu atravesso… e aterrisso no ontem-caduco.

Volto à infância, em mil novecentos e oitenta e oito-quase-nove… e vejo os meus olhos-de-menina, a enfrentar o vermelho da capa e um punhado de páginas em branco. Tremi por dentro, como um trovão no azul.

Passou o tempo, eu cresci (?), mas ainda sinto trovões do lado de dentro, impulsionados pelo vermelho… e pergunto o que escrever à minha alma, como se ainda não tivesse vocabulário o bastante, idioma próprio… e não ousasse dizer em voz alta aquele desejo tolo, considerado inadequado por mim e geografia tão minha… pela mulher que me olhava com suas certezas do outro lado da mesa da cozinha.

Ela sabia o futuro — como se fossem cartas na mesa de uma cartomante —, que eu recusaria no dia seguinte e em todos os outros. E fugiria como se o destino fosse uma folha de rascunho amassada com força, por meus dedos sempre pequenos.

Vou para a cozinha e separo os ingredientes… misturo-os. Faço pão e aguardo pela fornada. Eu sempre adorei o ‘tempo das esperas’... nossas somas secretas. O privilégio de saber o cuore um pêndulo dentro do peito. E, a bordo de tudo que sei sobre mim, misturo os tempos e escrevo… o branco aos poucos cede-se-perde e dois mil e dezoito acontece, enquanto futuro-premissa, figura tão incerta quanto o ontem.

Ano novo… de novo!

Doze horas | Pelos caminho das rua
A sussurrar encantos lunares
Dissolvem-se os assoalhos da memória
E suas relações claras | Divisões e precisões,
Todo poste que passo | Bate como um tambor fatalista,
E pelos espaços do escuro
A meia-noite chacoalha a memória
Como um louco chacoalha um gerânio morto

T.S.Eliot
Tradução de Adriano Scandolara

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Novamente janeiro… com seus dias quentes de verão e suas tempestades inesperadas no meio da tarde. Novamente Ano novo e um punhado de promessas — que jamais serão cumpridas. Pula-se ondas, veste-se de branco, mesa pronta, ceia servida e as mesmas velhas gafes de sempre se sucedem.

Gosto mesmo é de sair de casa com as mãos afundadas no bolso da calça… indiferente da hora que o relógio acusa, do dia que o calendário aponta para apreciar as ruas vazias-escuras, ouvir o eco das euforias flutuantes, tropeçar no que é resto-sobra do Ano que envelheceu e caducou. De repente? Acho que não…

Gosto imenso de escrever no ar, sentir as palavras nos olhos-pele-passo. Sou a personagem de Carrol e a noite é o Coelho de colete, com bolso e seu relógio maluco a avisá-lo de que está atrasado.

Corro atrás dele e de repente estou em queda.

— “Caindo, caindo, caindo. A queda nunca chegaria ao fim?”

A noite sempre chega ao fim… e o mesmo acontece com a vida, as histórias vividas-contadas e o ano que, por enquanto: é novo.

Mas, não se iluda… depois de amanhã caduca de novo!

 

01 | Sarà Novembre

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O tempo é a qualidade dos tempos porque nos foi dito:
“Fazei isto em memória de mim”.

Maria Gabriela Llansol


 

Faz algum tempo que não dependo de calendário, tampouco de relógio. Não me importa o que dizem os dias-horas. Se segunda-terça — setembro-outubro. Eu nem sempre sei o que dizem os dias e seus ponteiros. Às vezes me perco… me afasto. Mas, na maior parte do tempo estou indiferente à realidade das coisas e suas muitas causas.

Sou movida pelo som oco que emana de dentro da caixa-peito… e determina os meus rituais de existir…

Consequentemente… não sei se passo tempo demais dentro dos livros que leio ou a bordo de lembranças que se orientam nesse meu passado… que durante algum tempo ficaram à deriva.

Decidi nesse novembro que é novo e acontece em minha epiderme aos poucos, de gole em gole de chá de hortelã  — voltar à terapia, ler mais poesias e voltar a escrever diários, mas não vou seguir o curso natural das coisas. Vou no meu ritmo de linhas… aos sábados, pela manhã, entre goles-incensos-velas.

…porque é novembro e o ano é dois mil e catorze e eu faço minhas regras!