04 / foco no que realmente importa!

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Preparei uma xícara de chá quente e enquanto o chá deitava no ar o seu rastro de temperatura — impondo-me uma nova espera —, pensava nas promessas não feitas e nos planos não traçados para o ano novo.

Na época da faculdade havia metas… escrever o trabalho de conclusão do curso, artigos, realizar pesquisas e leituras. Não acumular matérias ou assumir compromissos em excesso: as famosas atividades extracurriculares, com as quais me envolvia facilmente. Era o meu maior desafio porque sempre havia algo interessante a me provocar… e era tão fácil ocupar as noites, expulsar o sono e fingir esticar o tempo. O dia parecia ter bem mais que míseras vinte e quatro horas. Não havia cansaço, inquietação e a disposição ia num crescente impressionante. Tudo regado a pesados goles de café…

Para mim… metas são pontos de chegadas, considerando que eu havia partido de algum lugar: o primeiro ano do curso de psicologia. Se bem que, sometimes, eu optava por considerar como ponto de partida o fatídico primeiro dia de aula na escola, porque era o meu limiar nessa seara de objetivos futuros. E eu tinha uma visão perfeita do percurso feito e de quanto ainda teria que caminhar-correr-navegar para cruzar a linha — imaginária — de chegada.

Mas, nessa atual fase da vida — faltam três anos para completar as tão aguardadas quatro décadas de existência e, tenho total consciência que irá demorar o mesmo tempo que os sete anos vividos até aqui —, não tenho mais disposição para metas. Não traço planos. Não faço promessas e não invento metas que vão exigir de mim, muito mais do que estou disposta a dar.

Aprendi a escolher um alvo e arremessar o dardo, observando atentamente o percurso feito. Gosto da sensação que fica enquanto perdura o voo. Acertar já não me interessa mais e aquele fascínio pela linha de chegada ficou no passado. O que gosto mesmo é de aprender a mecânica do arremesso — postura do corpo, braço, mente… todo o sincronismo necessário —, e a trajetória-rota percorrida desde o instante em que deixou a minha mão.

Tenho consciência de que serão inúmeras tentativas até dominar o gesto-objeto para acertar o alvo… e isso me fascina. Não tenho pressa e sei que meu corpo tem seu próprio ritmo e limites.

Gosto imenso de perceber essas alterações — não chamo isso de mudança —, e me lembrar do que me dizia C., lá na infância: “ouça o apito da chaleira, considera o tempo de ebulição e aprecie o gosto do chá”.

Nesse ano ímpar… é exatamente o que pretendo — desatarraxar a realidade dos homens do meu corpo e deixar escoar o imaginário porque se não posso mudar a realidade e o mundo… a minha vida, com certeza eu posso moldar como bem quiser.

Que seja feita a minha vontade!

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