Sete anos

Uma tarde de junho descompromissada… qualquer coisa de outono-inverno. Uma xícara de chá e a tela iluminada do notebook com a página do wordpress aberta, a dizer-me: crie um novo blogue. Eu não pretendia ter outro blogue. Estava satisfeita com o ‘menina no sótão’ e sua proposta de ensaio laboratorial.
Observei a tela como se estivesse em um museu… a apreciar a produção de um artista magnifico. A xícara ficou vazia e eu pensei em fazer uma fornada de pães, somando os ingredientes necessários e antecipando os movimentos. Não sai do lugar e o olhar não abandonou o espaço branco onde poderia escrever um novo endereço-virtual. Me lembrei que o ritmo de publicações no sótão havia diminuído. A produção de textos, no entanto, continuava intensa — a pasta de rascunhos estava cheia.
Dei alguns passos pela casa, sai com o cão para um passeio de calçadas e ao voltar… lá estava o convite do wordpress com o cursor a piscar… e eu insistindo em ignorar. Li as notícias do dia: uma crise qualquer assolava o mundo dos homens e seus negócios de meninos mimados.  Me lembrei de conversas antigas regadas a generosas fatias de bolo no meio da tarde… e de frase em frase cheguei a: ‘catarinavoltouaescrever‘ — algo que um personagem-fantasma-ilustre — a vagar por meu corpo-alma-memória — havia dito enquanto rasgava o plástico que protegia um caderno, recém adquirido numa simpática papelaria de Coimbra.
Digitei o título… e fiquei satisfeita por sabê-lo disponível… e eu fui fazer outras coisas. Li Austen e passei por rascunhos meus. Reli posts do sótão e cai rendida no meu favorito livro de Eliot — “the wast land”… que poeta, senhores!
Sete anos depois… ainda me lembro de digitar os versos de Eliot — percorrer muitas estradas / Voltar para casa / E olhar tudo como se fosse a primeira vez”… o poema ficou sozinho por lá durante muitos dias. Não tinha certeza de nada… apenas que eu queria escrever.
E para celebrar esse meu número cabalístico — sete — decide criar uma Fanzine… adequando os textos escritos e publicados aqui dentro de doze edições, publicadas sempre no dia 25 de cada mês — data do primeiro post de Catarina. Um (insano) desafio que eu aceitei e tracei…

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O meu primeiro livro…

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Lembro-me do exato momento em que tomei a decisão. Era outono, mas já se falava em inverno numa contagem de dias-horas… e as ruas do bairro ainda estavam úmidas. Os caminhos estavam desertos de pessoas-cães. Houve uma pausa nas chuvas de maio-junho… e eu caminhava em círculos pelas ruas que se ligavam umas às outras, numa espécie de labirinto. Gostava imenso de me perder no escuro daqueles traços erráticos e de espiar os contornos das casas-pessoas-espaços-praças iluminados pela luz artificial das lâmpadas que se fosse verbo, seria um gerúndio.
Fazia algum tempo que estava a contabilizar silêncios e rascunhos em proporções iguais. Queria um projeto-rumo… um compromisso. Tracei metas… e estabeleci um plano. Tive um bocadito de Sorte… ao ter por perto a melhor das pessoas e suas certezas sem espaços vagos e do olhar sempre pronto para ler um mesmo texto quantas vezes fossem necessárias, ciente de todos os ‘nãos’ que inventaria para dizê-lo inacabado.
Eu me sentei diante do branco-tela e depois de revisitar passados-rituais… agitei os dedos no ar, sorri todas as vidas vividas até aquele dia de junho. Observei o espaço da sala… a acha a crepitar na lareira. Provei do silêncio e vi quando a xícara pousou ao meu lado e foi colo-abraço e também foi junho, primeiro dia-palavra. O meu ponto de partida-recomeço… a partir de mim. Talvez por isso o único título possível foi: reticências! Um diário com seus ciclos completos, divididos em quatro estações!