O que é um clássico?

Confesso que nunca me ocupei com rótulos — ainda mais na esfera literária -—, então não é surpresa dizer que não tenho uma lista de livros que posso colocar na categoria de: clássicos da literatura. Obviamente eu tenho os meus favoritos lidos e re-lidos um sem-fim de vezes e aqueles que sempre indico por considerar que a leitura seja necessária.
Um livro deve ser bom para o seu leitor… e só.
Mas há quem acredite que você não possa viver a sua vida-realidade sem ler os famosos clássicos. A literatura brasileira tem a sua conhecida lista, que passa por Machado de Assis, José de Alencar e outros outros. A Inglesa vai de Shakespeare a Gilbert Keith Chesterton. E a Russa… de Nabokov a Dostoiévski.
Em compensação, deixam de citar vários nomes — pelas mais diversas razões — e, em alguns casos, acredite, apenas por serem considerados: autores populares. Como se o popular fosse sinônimo de horror.
No Brasil, Paulo Coelho é alvo de narizes torcidos e caretas dos que se dizem leitores da verdadeira literatura. Esse tipo de leitor costuma reclamar de todo livro que cai no gosto popular e seus autores viram motivo de ódio. Maldita seja J.K. Rowling e seu bruxinho querido.
Sempre me diverti com o nível de exigência de certos leitores e me questionei secretamente se, de fato, teriam lido, por exemplo, o famoso — clássico — Ulisses... o livro mais enfadonho que já passou por minhas mãos. Assim como desconfio de quem diz ter lido e adorado Dom Casmurro…  e saca de imediato a famosa pergunta — formulada, certamente, por algum preguiçoso: Capitu traiu ou não Bentinho? Ao ler a trama machadiana, me encantei com os tormentos do personagem e pouco reparei na tal cigana de olhos oblíquos e dissimulados, que tanta impressão causa nos leitores.
Um clássico — diz Eliot em um de seus deliciosos ensaios — é qualquer obra que implica o maior elogio ou o mais desdenhoso insulto, conforme o partido ao qual pertence. Implica certos méritos ou defeitos específicos: ou a perfeição da forma ou o zero absoluto da frieza
A questão, no entanto, é que não são os leitores a determinar tal coisa. O leitor leva cinquenta tons de cinza para casa e se diverte com uma literatura comum, pobre… quase uma não-literatura. E não quer saber se amanhã esse livro não servirá nem para os Sebos, como é o caso da saga crepúsculo — recusada até como moeda de troca ou doação.
É preciso lembrar que Livro é entretenimento… se clássico ou popular, o leitor quer apenas o prazer de se libertar da realidade, afastar-se de seu mundo e mergulhar em qualquer coisa de sonho-ficção.
A literatura pode ser mais pobre ou mais rica… pode nos brincar com orgulho e preconceito escrito no período vitoriano e pertencer a outro tempo, sem, contudo, deixar de pertencer ao momento em que foi concebido. Talvez mereça a alcunha de clássico… ou não! Depende de quem lê e aprecia as linhas que ali estão…
Agatha Christie foi a escritora inglesa que ficou conhecida como a Rainha do Mistério… senhora de um estilo peculiar, espirituoso e refinado.

Se você pudesse pedir um crime, assim como alguém faz o pedido de um jantar” — pergunta o detetive Hercule Poirot, em Os Crimes ABC —, “o que você escolheria?”.

A autora de 55 romances policiais e de mistério não se encontra na famosa lista de clássicos da literatura a serem lidos. Seus livros foram traduzidos para um sem-fim de idiomas. Seus exemplares esgotavam-se rapidamente e atualmente suas histórias estão sendo adaptadas para a televisão pela BBC que escalou John Malkovich para dar vida ao mais conhecido detetive da literatura, Hercule Poirot.  E mesmo assim não há lugar para ela e seus livros dentre a seleta lista organizada por Acadêmicos de plantão, que exigem maturidade na escrita, um estilo preso a forma e a sua época.
Voltando ao ensaio escrito por Eliot — cada literatura tem a sua grandeza não em isolamento, mas em pertencimento a um mundo específico: o do leitor… que é exatamente onde tudo começa e termina e a história se orienta, se explica ou se finda.
Assim sendo… ao leitor o livro e sua história, clássica ou não!

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O tempo joga um xadrez sem peças

Eu tinha oito anos quando entrei no templo sagrado da cozinha da nonna, pela primeira vez. Era o lugar das mulheres mais velhas da família — as donas do sabor, que cortavam, picavam, descascavam e se divertiam com suas falas secretas, em idiomas particulares.
Na cozinha falavam de tudo — aprendiam-se.
Eu gostava do som das gargalhadas sonoras — que se espalhavam pela casa toda —, quando diziam bobagens de adulto — em dialeto —, para que eu não entendesse.
Eu as espiava sem muito entender… consciente de que, queria fazer parte do grupo-bando. Pôr a mão na massa… e compreender aquelas falas, capazes de atiçar a curiosidade de quem as ouvia.
Foi o que fiz naquela manhã de sábado… era o primeiro final de semana das minhas férias de verão. Fui a primeira a chegar. A casa ainda estava vazia… e era toda minha. Percorria os cômodos. Entrava e saída dos quartos, imaginando-os cheios-povoados-ocupados por aquelas pessoas-estranhas — integrantes de uma mesma família — que começariam a chegar em breve. Ali era o nosso ponto de encontro, durante o verão.
A nonna me colocou em cima de uma cadeira mais alta, própria para a minha idade e tamanho. Vi os ovos serem quebrados na tigela — separando gema e clara. A ajudante da nonna — uma mocinha quase muda, em fase de aprendizado — batia a clara com o fouet até virar nuvem-neve e atingir uma brancura de algodão. A outra — um pouco mais velha, quase tão muda quanto — misturava leite, as gemas e o açúcar… e batia ferozmente até obter uma mistura lisa-perfeita, cujo segredo era a sua cor.
A nonna era responsável pelo buchamel… preparado com uma deliciosa delicadeza. Vez ou outra, levantava a colher no ar… e deixava correr aquele fino fio líquido amarelado.
Eu gostava de apreciar a sincronia dos movimentos, a velocidade, o ritmo de cada uma, as formas dos gestos. Tudo acontecia de forma coordenada-organizada.
Depois que todos os ingredientes se misturavam, era hora de sovar até obter nova textura e densidade. A bola de massa era coberta com um pano branco e ficava ali no centro da mesa farinhada, até dobrar de tamanho.
Dividida em porções iguais… cada um recebia a sua, para modelar. Eu também ganhei minha porção. Uma pequena bolinha de massa. Olhei os movimentos e os repeti. Esticando a massa com a ponta dos dedos, em cima da mesa. Fiz meu primeiro pequeno pão, que foi ao forno, ao lado dos demais. Quarenta minutos depois, a casa inteira cheirava pão assado e eu estava ansiosa para ver o resultado.
Comi com todo cuidado… pedaço por pedaço, partindo-o com as mãos. A nonna — consciente da minha satisfação —, sentou-se ao meu lado… e disse: ‘o principal ingrediente você tem aí dentro. O resto, aprende com o tempo. Cada cozinheiro tem seus próprios segredos: panelas, colheres, uma boa faca e o melhor jeito para escolher os ingredientes. Misturá-los é a parte mais fácil, depois que a gente entende a nossa própria alquimia. Agora vá ler seus livros, porque cozinha não é lugar de criança‘.
Respirei fundo e arrastei minha tristeza para outro canto da casa… foi apenas a primeira vez em que lamentei a pouca idade e calculei nos dedos das mãos, quanto faltava para deixar a infância…

22 | reflexões sobre o verso livre

Depois de ler uma resenha no blogue Café com leitura… fiquei a pensar na questão do vers libre — verso livre — e na maneira como é defendido por muitos poetas e críticos, enquanto é atacado por outros tantos.

Não sou poeta e nem tenho a pretensão de ser… muito embora tenha flertado com o gênero, em outros tempos-vida. Aprendi a compreender as muitas possibilidades que vogais e consoantes — quando combinadas — ofereciam ao devorar com a dificuldade todos os livros de poesias que encontrei a casa.

Rabisquei alguns versos livres, sem me preocupar com as regras ensinadas durante as aulas de literatura, na escola, que falavam em sonetos — um poema de forma fixa, composto por quatro estrofes, divididos em dois quartetos e dois tercetos e a tal da métrica com a qual se podia ‘fazer’ rimas — mas, nunca entendi como fabricar rimas pudesse dar voz à poesia. Tivesse eu compreendido isso aos seis anos de idade… odiaria a poesia para todo o sempre, e fim!

Mas, foi ao ler um Ensaio escrito por T.S.Eliot que percebi que um de meus poetas favoritos não era favorável ao verso livre por considerar — “impossível o verso ser livre por nascer-surgir dentro de uma estrutura previamente pensada, ainda que não se use a rima e os recursos conhecidos da métrica”.

E eu que sempre tive imenso apreço pelo que conhecia-sabia do verso livre, me vi em apuros. Recorri ao Google… e descobri outro ensaio A lecture on Modern Poetry — escrito por Hulme que foi enfático ao dizer que — “a nova técnica consiste na negação de um número regular de sílabas como a base da versificação. O comprimento do verso é longo e curto, oscilando com as imagens usadas pelo poeta; segue o contorno de seu pensamento e é livre, não regular”.

Com uma xícara de chá em mãos… fui de encontro a prateleira para observar meus poetas. Senti cada um dos meus livros na ponta dos dedos. Não sou uma leitora que faz grandes descobertas na poesia. Não vasculho livrarias em busca de uma nova voz. Vez ou outra, um novo poeta tropeça em minha figura-humana e fica… entre os meus livros. O último a chegar foi José Luis Peixoto.

Dos contemporâneos, gosto de Mariana Gouveia, Marcelo Moro, Maria Florêncio e Adriana Aneli — todos publicados por mim nesse ontem que é quase-agora. Leio-os e sei apontar as sutis diferenças que suas linhas conclamam.

Não sou o tipo de leitora que aprecia sonetos ou rimas… gosto e prefiro o corte fino na superfície da pele. A sensação de espelho que alguns versos propiciam. A forma que não se obriga a fôrma.

Aprendi a sentir os versos… com Eliot. A degustar pequenos goles… com Campos. A buscar por uma generosa porção de ar… com Emily. A me entorpecer… com Sexton. E, a engasgar com o que não tive voz para dizer… e eles o fizeram por mim.

Borges me faz em pedaços um sem-fim de vezes. Baudelaire e Mário me ensinaram a enxergar realidades. Eliot — ainda que não aprecie o verso livre — me mostrou que estamos presos ao estilo e a forma e, o nosso maior desafio é libertar-se.

Poesia, como me disseram certa vez é navalha pronta para o corte, contanto que a lâmina esteja afiada.

Um episódio…

Gosto imenso de sair para caminhar antes do dia devolver todas as coisas aos seus devidos lugares porque a noite faz isso: transforma tudo em um borrão de tinta — difícil de limpar — no canto da mesa.
Antes de se acender a manhã é possível apreciar os contornos suaves de ruas e avenidas, praças… e as silhuetas das casas e prédios — é  como ir ao Museu e apreciar telas antigas, quando os pintores utilizavam cores quentes, tons pastéis.
E tudo acontece num estalar de dedos. Os primeiros sons-aromas-passos-falas-motores. A cidade é mesmo um grande cemitério — tudo figuras mortas que voltam a vida depois de um intermezzo.
Durante a caminha de hoje… fui surpreendida por uma personagem que — antes das seis da manhã — varria a calçada com uma daquelas vassouras de palha caipira. Parecia feliz e assim que avistou meu parceiro de caminhada, veio ao seu encontro de braços abertos. Deu-lhe um demorado abraço, como se ele fosse o outro — o que ficou no dia de ontem, esse passado para qual voltamos em viagens nossas. O Patrick se comportou bem… deixando-a viver suas saudades.
A tal senhora, cujo nome foi dito num segundo e esquecido no outro, falou de seu menino com o entusiasmo de quem viveu muitos anos em excelente companhia. Nos mostrou sua casa — a uma casa da esquina —, um sobrado antigo, algumas vezes remodelado. A pintura é recente… encomendada pelo filho, que se mudou com a esposa e netos para preencher vazios inexistentes.
Ela viajou ao observar a vida-casa-lugar… uma vida inteira: “sabe, menina. Eu sou tão velha quanto essa árvore, de tal maneira que é impossível dizer quem chegou primeiro a essa rua“. Não havia tristeza em sua fala, pelo contrário, mas era uma despedida narrada com a satisfação de quem sabe que fez o seu melhor.

Você está bem?

…sou uma pessoa endogenamente melancólica desde miúda. Olhos baixos, pesados suspiros, tragos pesados de ar e o olhar a visitar paisagens distantes. Não sou assim na maior parte do tempo… porque nem sempre posso ficar quieta, do lado que tanto gosto e aprecio: o de dentro — onde vivo perdida em ilusões, qualquer coisa de sonho, a virar páginas conhecidas, onde histórias se repetem. As minhas e a de outros autores que se misturam a mim.
As pessoas se incomodam, algumas dizem sentir medo, outras (corajosas que são) se aproximam para perguntar: você está bem? E não importa a resposta que eu ofereça… nunca ficam satisfeitas. Consideram que estou brava, sozinha, triste, a sofrer dissabores — não passa por suas mentes que estou a existir no melhor dos mundos.
Eu perdi algumas pessoas ao longo dessas quase quatro décadas de vida, mas antes disso eu já vivia dentro… fechada. Preferia os dias de chuva, nublados-cinza. Gostava imenso de fechar os olhos e escutar o som dos trovões.
Certa vez uma alma que atravessou o meu caminho, tomou minha mão e tal qual uma cigana, desandou a ler as linhas de vida-coração… falou em desilusões-agruras-frustrações. Listou tudo como se fosse ao mercado providenciar ingredientes para uma dessas receitas que a gente encontra num livro de culinária.
Ouvi pacientemente enquanto um sorriso percorria o meu íntimo. Tomei minha mão de volta e disse “não há nada de errado comigo. Não vivi nada que não pudesse suportar e não estou triste-doente ou em fase de sofrimento. Apenas estou quieta, como sempre fui, a apreciar a realidade das coisas e suas causas do melhor ângulo que existe“.
A pessoa não se convenceu e me recomendou sua igreja… dei de ombros. Saquei um livro de poesias da mochila, traguei de minha generosa porção de ar. Pedi um latte e degustei o momento, como tanto gosto e aprecio… sem pressa e em silêncio, sem me importar com os sons humanos do lado de fora. Gosto assim…