O que ando a ler

Tenho em mãos o livro do signore James Wood — com quem travei contato no verão de um ano qualquer — antes de tudo ser o que se é. Nos encontramos no acaso de nossos passos e dividimos uma mesa num desses cafés urbanos, por alguns minutos.

Me lembro de sorrir ao vê-lo tentar descobrir o que eu lia — virava a cabeça para o lado, exatamente como fazem os cães. E entre um gole e outro… um pequeno diálogo se estabeleceu, sem que eu soubesse quem ele era. Soube apenas quando se despediu com um forte aperto de mãos. Apresentou-se e foi embora! Mas sua condição de estranho permaneceu durante um bom tempo. Sabê-lo — um dos mais importantes críticos literários de sua geração — não alterou sua condição de estranho…

Descobri o livro — a coisa mais próxima da vida — ao abrir aspas na realidade enfadonha para ler um artigo publicado na Folha de São Paulo, na semana passada… onde o tema era a condição dos escritores de nosso tempo: que não gostam de ler — o que para o signore Wood é simplesmente inaceitável… impossível discordar!

James Wood — que já tinha escrito como funciona a ficção — afirma, com argumentos interessantes que o romance-ficção precisa ser quase real — a coisa mais próxima da vida — para que o leitor acolha a história e se sinta acolhido por ela. A ficção — pontua Wood — se desloca na sombra da dúvida, sabe que é uma mentira e tem consciência de que, a qualquer momento, os seus argumentos podem falhar.

O leitor precisa acreditar! Não, por acaso, as autoridades religiosas condenavam a leitura de romances, porque a ficção revela o perigo e a liberdade que apenas a imaginação nos dá.

Para quem quer compreender o caminho da ficção… esse é um excelente livro. Mas não espere respostas, nem conclusões definitivas. O que Wood nos oferece é um caminho… a coisa mais próxima da vida.

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“A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. Qualquer outra coisa não vai se parecer muito com uma narração, e pode estar mais perto da poesia ou do poema em prosa”.

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Catarina

Noite alta a queimar substâncias… livros empilhados sobre a mesa de trabalho e uma xícara de chá com um último gole esquecido no fundo. Viro páginas. Me distraio com o brilho do ecrã a iluminar a parede, onde desenhos de ontem me lembram as muitas pessoas que fui-sou.
O ano era dois mil e um… o menino de riso solto me apresentou ao universo dos blogues: essa ferramenta será útil para o seu novo personagem. Sua fala rápida-sonora-certeira me fez sentir uma atriz a decorar um texto, a se deixar de lado para assumir um papel e subir ao palco, onde uma multidão a espera…
Não entendi, no entanto, como uma página em branco… a me pedir um título-texto poderia servir de Norte para os meus novos planos à época — escrever um romance. Ele fez uso de suas melhores frases para me convencer e eu concordei em ter um blogue.
Acompanhei — sem nenhum entusiasmo — todo o processo de criação da página durante dez intermináveis minutos… e pronto: agora é com você! E a página ficou lá… sem que eu a alimentasse — durante dias-semanas-meses. Sempre fui péssima com inícios — páginas em branco, caderno novo, pacotes de sulfite.
Eu já tive vários blogues desde aquele dois mil e um. Fui mudando — saltando de galho em galho — até que aconteceu Catarina. Tinha esvaziado caixas-gavetas e queimado alguns papéis. Estava cansada de acumular rascunhos que não alcançavam outra condição. Minutos depois… me sentei diante do ecrã — uma boca bem aberta-faminta e eu convertida em colher — escrevi de um fôlego só: catarina voltou a escrever… e fiquei a espiar aquela frase solta na tela. O ano era 2013…

Abril, o mais cruel dos meses!

Eu nunca tive para com Abril uma relação próxima… sempre foi uma espécie de caminho do meio… para se chegar a maio — um dos meus favoritos no calendário, desde a infância. Justamente por suas sonoridades peculiares — o mês das trovoadas.
Sempre tentei relacionar os meses do ano a qualquer coisa minha — para facilitar a convivência, mas nem sempre funciona. Um ou outro mês acabava em suspenso, a deriva — o suficiente para eu me perder dos dias e suas estações inquietas.
Abril, por exemplo, passou a pertencer a Eliot… depois da leitura de seu poema The wast land — e só.
Como nasci invertida… Abril era o mês da primavera-flores-cores-aromas. A época favorita de C., que gostava de sentir o cheiro da flor de laranjeira no quintal de casa. Enquanto eu me aborrecia com o prolongar gradativo dos dias e as noites cada vez mais curtas. Desse lado do atlântico, no entanto, é outono… e, por mais que eu goste dessa estação — ela não pertence a Abril… não combina. Simplesmente não acontece em minha matéria.
E mesmo assim, os dias estão mais curtos… ainda quentes. O outono — estranhamente — foi pontual… chegou na data e horário marcados, expulsando sem cerimônia o verão mais chuvoso dos últimos anos. As noites estão mais frias-escuras e o entardecer acelerado… perfeito para ler poemas em páginas.
Eu fui à prateleira e voltei com Al Berto… que me arrancou o fôlego com um de seus poemas — não nos conhecemos nunca — e tamanho foi o desassossego que precisei escrever ao poeta…

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De olho em Berlim

Hoje em dia, o mundo olha novamente para Berlim… por ser o lugar onde acontece as coisas importantes do mundo da Arte — principalmente no universo da escrita. Antes da Segunda grande guerra, a Capital alemã já era considerada o centro do mercado Editorial e lançava para artistas dispostos a debochar do cenário mundial… mas, perdeu o posto ao ser invadida e feita metade. O muro levantado foi ao chão e a cidade alemã tratou de se estabelecer como uma Capitais mais eloquentes do mundo.
Atualmente, várias Editoras têm sua sede estabelecida em Berlim… a Editora Hanser, uma das mais literárias e sofisticadas em toda a Europa é uma delas — “em Berlim pensa-se um pouco diferente, e por isso, para a pergunta sobre como serão os livros no futuro, e como serão vendidos, as respostas em Berlim também serão outras” — é o que diz Michael Kruger… poeta-romancista e editor da Hanser… uma figura contraditória, que sempre pontua suas falas com frases de efeito — “a vida de um ser humano é demasiado curta e, por isso, deveríamos ler os bons livros que existem”… reclamação particular — com a qual concordo — sobre o fato de que as livrarias estão lotadas de subliteratura, os leitores têm preferência por livros ruins e as grandes Editoras dão cada vez mais espaço para a chamada literatura de entretenimento…
Em Berlim, no entanto, existe um movimento inverso… um grupo de Editores está a dar espaço a novos escritores, que dificilmente conseguiriam ser publicados pelas grandes casas literárias, que arriscam cada vez menos, preferindo apostar apenas no que vende. Momento perfeito para os pequenos-ousados e promissores livreiros — Matthes & Seitz, Kookbooks ou Secession —, que se estabeleceram na velha Capital Alemã e nos oferece uma espécie de Norte para a Literatura.

6 on 6 | minhas noites

Doze horas /  Pelos caminhos da rua /  Preso em síntese lunar / A sussurrar encantos lunares /  Dissolvem-se os assoalhos da memória /  E suas relações claras /  Divisões e precisões, /  Todo poste que passo /  Bate como um tambor fatalista, /  E pelos espaços do escuro / A meia-noite chacoalha a memória /  Como um louco chacoalha um gerânio morto.

— T.S.Eliot
Tradução  de Adriano Scandolara

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1 — Gosto imenso da noite… principalmente nas primeiras horas, quando a cidade começa a se transformar num grande borrão de tinta no canto da mesa. As sombras igualam as formas… eu preparo uma xícara de chá e espero…

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2 — Passa das seis… a noite se esparrama pelos cantos da casa-pele-alma-cidade e me faz relembrar os aromas antigos… gosto imenso desse cair de pano. Ingredientes escolhidos-lavados-descascados-picados. Panela no fogo. Mesa posta e os sabores se deixam provar…

os caminhos que se apresentam a nós

3 — Passa das nove… há sempre um ângulo novo-diferente-inédito… de luz. Janelas acesas. Portas fechadas. Ruas vazias… há algo de catedral no ar… o silêncio se observa em meio a qualquer coisa de som… os passos, a respiração, o cuore dentro do peito e a imaginação, que é como o tic tac de um carrilhão nervoso, que emerge de meu passado.

dsc_0061-14 — Quase meia noite... metade-pedaço. A noite faz com que a vida fique em suspenso… o tempo não passa, mas as horas avançam rapidamente dentro do sono-sonho de alguns ou dentro dos vazios de outros. Eu viro as minhas páginas…

dsc_00665 — Quase duas… me apetece sempre ficar-estar… verbos facilmente conjugados dentro das noites, que nessa época do ano, começam a acontecer um bocadito mais cedo. As paredes do lugar vão esmaecendo gradativamente e o corpo começa a ter a função de casa para a alma. Função de aconchego modo on

DSC_01816 — Quatro e dez… o melhor da noite é o verbo que eu conjugo na minha própria pele: anoitecer… entre livros, cadernos, chopin, uma xícara de café e todos as terríveis formas de silêncios que eu bebo em pequenos goles…

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Participaram também

 Cilene Bonfim | Isabele Brum | Mariana Gouveia | Obdulio Nuñes Ortega 
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