Beda | mais um ponto final em minhas vivências…

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 | aumenta o som  |

 

trinta e um dias. agosto. último dia. sexta-feira. adormeço no quarto escuro. a vida ensaia um novo hiato. a última hora. o último texto. a água ferve. a xícara espera na mesa. corto pães ao meio. besunto com manteiga. pico cebola-alho-tomates-couve.

…a ansiedade percorreu minhas veias nessa semana. encontrei pessoas. desencontrei lugares. falhei comigo e com minhas idéias. dei passos em direções erradas. dei passos… me desequilibrei. me distrai. insisti…

ouvi o som do cuore a pulsar os dias de ontem-hoje-amanhã. as notas que valem. a canção diz, como um mantra que eu repito com algum prazer — ‘I am here, I am here / I’ve already seen the bottom / So there’s nothing to fear / I know that I’ll be ready when the devil is near”… o sorriso pousa nos lábios. repasso as páginas de borges. relembro a história de vida de plath e penso um punhado de linhas para setembro, o septum que me orienta. não é mais o sétimo mês do calendário, mas a grafia mantêm a relação do número em minha amalgama.

…faço uma prece secreta-silenciosa enquanto os últimos minutos avançam para o fim de agosto. agradeço as luas. o sol. os caminhos. as pessoas. bebo um gole de mate. aproveito para voltar no tempo e ler o que escrevi nessa mesma data um ano antes

 

pausa para o riso.

agosto acabou e o BEDA também… amanhã será setembro. depois primavera e a vida segue. mas no meu caso… posso assegurar que voltarei a escrever…

au revoir

 


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Beda | o tempo das reticências…

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Ao passar pelas ‘ruínas’ dos prédios antigos do centro velho na manhã de hoje, comecei a relembrar o ontem… para onde sou tragada com alguma frequência, geralmente pelo som que ressoa em meus ouvidos e comanda o meu pulsar-caminhar… por cheiros que brotam das superfícies de certos edifícios ou por um movimento involuntário de alguém que passa e, sem querer, fica em mim.

Revisitei os encontros literários… na Biblioteca da cidade — primeira hora, sem relógio-ponteiros, apenas o momento a existir. Era tudo ao acaso — esse ser inexistente — a quem gostamos de oferecer alguns de nossos melhores gestos.

A primeira vez foi entre as prateleiras da literatura francesa. Eu buscava por Simone e ele por Sartre. Nos enroscamos num gostoso e aquecido diálogo que durou até a Bibliotecária nos pedir um pouco menos de euforia… nos obrigando a esconder os risos por trás das mãos.

Ainda sinto o cheiro dos livros abandonados nas mesas, da madeira-lisa-escura dos móveis — mesas-cadeiras-prateleiras, e do chão encerado. Espio a luz pequena-amarela das luminárias nas mesas-vazias, apenas uma ou outra ocupada. E ouço o ressoar do carimbo… a marcar o empréstimo dos livros. E o som latejante dos passos miúdos da bibliotecária atenta ao espaço-leitor-livro.

O olhar malicioso de T., que — nervoso — removia os óculos, mordiscava sutilmente as hastes enquanto espiava seu lugar-favorito-deserto, indagando a si num sem-voz-palavra — onde estão todos? — enquanto o homem alcançava a conclusão de sempre em meio a um pesado suspiro que parecia lamentar as sentidas ausências.

Estava cansado-aborrecido com o mundo dos livros-objetos — feitos para atender-agradar modismos. Sem conteúdos-rasos. Em pouco tempo não teriam lugar nem em Sebos.

Havia alguns anos que ensaiava inserir um ponto final à sua existência-literária. Dizia, no entanto, com um sorriso-cúmplice que, no dia seguinte à sua decisão-nunca-definitiva… surgia alguém novo, com entusiasmo fresco, disposto a ouvir-e-aprender o ofício… renovando sua esperança por míseros — falidos — segundos…

 


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BEDA | meus exercícios diários…

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— eu tinha quase vinte… havia concluído minhas pesquisas-estudos… realizado um considerável número de publicações. Tinha me mudado para um antigo endereço e vestia-me com as roupas de outra pessoa. Eu era uma fraude com diploma em mãos que convencia a todos em meu palco de ilusões primárias.
Mas o universo é ardiloso e tem o estranho hábito de agir contra ou a favor de seus pares — geralmente na contramão dos nossos movimentos…
Era manhã de quarta-feira — e esse rapaz entrou em meu espaço em busca de socorro para sua mente alucinada. Pesquisador de Shakespeare. Diretor teatral. Autor. Ator. Professor de técnicas corporais — denominado ‘mestre’ por muitos.
J. foi a primeira pessoa a não demonstrar espanto ao se deparar com minha figura humana. Não quis saber minha idade. Não pediu para ver meus diplomas. Não se interessou pelo nome da instituição de ensino na qual havia me formado…
Ele trazia no fundo da mortalha apenas uma pergunta: “você pode me ajudar?”… seu desespero era visível… sua aflição e comiseração impressionantes.
Eu disse sem titubear que iria tentar — e foi o bastante. Ele confiou a mim sua longa narrativa impressionista. Anunciou, assim que se sentou… que era um impostor! — e eu me esforcei em conter o sorriso que implodia em meus lábios, enquanto tomava nota de um pensamento particular: não somos todos?
Ele falou de si na primeira pessoa do singular durante os cinquenta minutos seguintes… e para o meu desconforto: me reconheci em cada uma de suas frases-fases.
Seu desespero de momento tinha origem na personagem de um livro — lido dúzias de vezes nas últimas duas semanas — no qual tinha tropeçado e ficado sem conseguir escapar… porque eram uma mesma face.
Disse repetidas vezes que não era uma coisa boa… porque estava a estragar sua vida, atrapalhar o seu trabalho, a azedar sua existência e a deteriorar sua matéria.
O fundo do espelho já não refletia mais suas vertentes. Tinha perdido a capacidade de mutação… deixado de ser um camaleão. Não se sentia mais capaz de se convencer através de suas fraudes… o que o impedia de convencer também aos outros — o seu público. Seu corpo acusava falência.
Em sua profissão era um golpe fatal… estava em crise desde então. E para piorar, se encontrava no meio de uma importante produção. Ou seja, tinha pouco tempo para recuperar-se… reagir e agir!

ah! o universo…


— In, Septum, projeto diário das 4 estações… scenarim | 2016
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BEDA | Uma crônica urbana…

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Duas mulheres caminham pela manhã da cidade paulistana… e seu centro equivocado de traços inexatos, por onde também ia o meu olhar e de arrasto o meu passo.

De mãos dadas… elas avançavam pelo meio da multidão, que se abriu para dar passagem, muito a contragosto. Os olhares cresceram — incomodados — por sobre elas. Duas mulheres  — mãe-filha-irmas-amigas-vizinhas-amantes… futuras-inimigas?

Por que não? Eram Duas mulheres a mercê dos olhares intrigados… a vigiar atentamente cada movimento, na tentativa de decifrá-lo. À passagem delas cochichavam desaforos numa indústria de preceitos-e-conceitos equivocados.

Um homem chamou a atenção do outro com uma cotovelada —- leve — na altura das costelas. Mostrou a cena… que para sua surpresa e desagravo — não despertou interesse. Era dia de jogo de campeonato. Ainda há quem use rádios portáteis para saber as coisas do mundo — aquele lugar sempre igual, com as mesmas coisas de sempre.

Como em um palco… a platéia acompanhava cada passo das duas Damas… que seguiam — indiferentes ao que é mundo-vida-alheia —, com seus passos ritmados-encaixados um ao outro. Não havia pressa, apenas cuidado com o lugar do passo. É de conhecimento de qualquer paulistano a quantidade de buracos existentes nas calçadas e vias da cidade e são sempre os tornozelos as maiores vítimas.

O que acontecia bem diante de nossos olhos era uma espécie de dança em meio aos sons urbanos… essa caixa de abelhas. Quase ouvi Carlos Gardel a girar na vitrola do nonno…

De repente, sem nenhum aviso… as duas explodiram em uma gargalhada ritmada. Deixando no ar um rastro de felicidade não autorizada. O corpo todo participou do gesto, motivado por um diálogo íntimo que ninguém — nem mesmo eu — alcançou. Se esticaram músculos e nervos. Alguns corpos dobraram de tamanho. Outros entraram em colapso. Imaginou-se tudo-e-nada…

Olhei ao redor — como quem observa uma vitrine em liquidação — e num movimento pequeno… lancei um olhar de soslaio a tempo de compartilhar de um sorriso livre-gostoso-descompromissado-lindo… que se dilui no ar.

Duas mulheres de mãos dadas, vidas atadas e sorrisos compartilhados com uma multidão acostumada ao que é alheio… nunca seu.

 


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Beda | SESC vinte e quatro de maio…

 


 

São Paulo é essa cidade que se reinventa a partir das medidas alheias. Impossível precisa-las. Sabê-las tampouco. Você vai para a cama num dia, com todas as coisas no seu devido lugar… e acorda com desenhos e recortes onde se equilibram tudo e nada.

Um desses espaços reinventados… é o prédio do Sesc 24 de maio, que parece fazer parte de um projeto maior… que visa recuperar o famoso centro velho, entregue — durante muito tempo — as traças.

Poucos meses após a minha chegada à cidade… soube que o frondoso edifício iria se torar mais uma unidade do Sesc e desde então o edifício ficou ‘embrulhado’ por tapumes por bem mais que uma década.

Antes de iniciar as obras, no entanto, o prédio resgatado foi palco de uma mostra inusitada… do que era São Paulo. E causou espanto-susto em quem passou por lá… e presenciou o lixo que somos — escancarado, sem cuidado. A maioria não entendeu a ideia da exposição viva e saiu praguejando a própria sorte. Nada que se assemelhe ao ‘homem nu de Lygia Clark’… recentemente. O tempo era outro… as pessoas estavam dispostas a serem incomodadas e removidas de sua zona de conforto.  Ainda se cultivava o hábito de pensar… e não ofender quem via na arte um pouco de ar. Nesse tempo ainda se esperava que a arte cortasse os fios que nos mantinha atrelados a nossa maldita zona de conforto.

Levou algum tempo para o projeto deixar o papel e o lugar se oferecer a nós — criaturas sedentas por espaços… numa cidade que tanto nos oferece e ainda assim é pouco ou nada — acostumados que estamos-fomos a essa reinvenção constante, que parece acontecer apenas para afrontar aos tolos portugueses… que ao aterrissar em solo paulistano… equivocadamente anunciaram sem cuidado: ‘aqui, em se plantando, nada dá’.

A sensação que tenho é de que São Paulo ouviu o insulto… e decidiu soluçar contrários. Ficou para Caetano — em sua famosa canção, quase um hino para a Paulicéia de todos os Mários — anunciá-la em versos:  ‘e fosse um difícil começo’… para o Sesc vinte e quatro de maio também foi assim.

Mas, nesse ano de dois mil e dezoito, finalmente o status de promessa foi abandonado e virou premissa de mais um lugar para se ocupar, na cidade.