Beda | meu personagem favorito

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Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy

Abro o livro… e a frase — “é uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar à procura de uma esposa” — me posiciona no século XVII… a famosa era vitoriana. Sou transportada imediatamente para a fictícia Meryton… onde vive Elizabeth Bennet.

Jane Austen foi feliz em suas escolhas… não a descrevendo de imediato, não nos oferecendo muito — o que nos permite ir conhecendo-a aos poucos. Porque essa é a proposta da trama: conhecer-se.

Elizabeth é uma jovem com uma personalidade marcante — algo pouco comum as moças de seu tempo. Ela consegue se impor e ter opinião própria, a ponto de não concordar com as atitudes da mãe, sempre em busca de maridos ricos para as suas cinco filhas.

Gosto, sobretudo, quando diante do erro de julgamento, Elizabeth se encolhe e evita o olhar de Darcy. Tímida, como ainda não havia se mostrado na trama e, já sem a segurança de antes… chega a temer seus próprios passos. E, numa sociedade onde bons casamentos são o desejo de toda e qualquer moça, ao saber-se diante da enorme propriedade, daquele que é, sem dúvida alguma, o personagem mais apaixonante da literatura inglesa, não é de se espantar, que ela tenha engasgado… no que considero ser a melhor cena escrita por Jane Austen para uma de suas personagens.

Gosto de imaginar que nesse momento, Elizabeth Bennet tenha ouvido a própria voz… recusando o pedido de casamento feito por Darcy. E respirou fundo ao recordar toda a perplexidade sentida diante de um homem que lhe confessa admiração e amor, de maneira nada gentil… como se lhe fizesse um imenso favor ao lhe confessar que não é capaz de reprimir os sentimentos contra os quais vem lutando — em vão.

Obviamente que Darcy não esperava ser rejeitado — “ele é um tipo de homem a quem não se deve dizer não” — mas Elizabeth o fez, corajosamente, dirão uns… talvez se não existisse a recusa, a história tivesse outro rumo e acabaria ali mesmo, com o famoso ‘e foram felizes para sempre’. Mas com uma personagem decidida-forte-e-teimosa não poderíamos esperar outra atitude da jovem Bennet.

Darcy é pego de surpresa… e talvez por isso, exija uma explicação de sua pretendente — que não economiza palavras e tem todos os seus motivos enfileirados em mente e os apresenta de maneira incisiva, sem deixar margem para que o cavalheiro a sua frente os questione, restando a ele, apresentar um pedido de desculpas e uma retirada estratégica.

Darcy e Elizabeth são personagens cheios-imensos… oriundos de mundos totalmente diferentes. Ele é um nobre, acostumado as cortesias, deferências e as mulheres com quem convivia estavam sempre a aguardar por sua aprovação… ao contrário de Elizabeth, que era uma criatura rural, que encontrou no pai uma saída para uma realidade limitada: viver a espera de um pretendente.

Os dois são personagens que não dependem um do outro para serem o que são. Mas, em determinado momento dependem-se… porque se permitem olhar nos olhos um do outro e ver além das primeiras impressões — título que Jane Austen chegou a propor para a trama —, e, ao se permitirem conhecer-se, reconhecem seus defeitos e qualidades, e a admiração começa a existir gradativamente — sem pressa.

 

“Tenho a certeza de que é generosa demais para fazer pouco caso dos meus sentimentos. Se os seus são ainda os mesmos que manifestou em abril passado, diga-o imediatamente. Minha afeição permanece inalterada; basta porém uma única palavra sua para fazer com que me cale para sempre.”

Mr. Darcy

 

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Beda | eu sou assim…

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Autora e Editora da Casa Scenarium livros artesanais

Uma pessoa de poucos lugares… que vive em uma cidade que reinventa seus contornos-espaços todos os dias. E, às vezes, o que era lugar-aconchego para o corpo-alma… vira estacionamento sem aviso prévio.

…uma criatura insana, que gosta do novo-moderno-antigo, mas precisa ir com calma. Entrar-espiar-aprender-domar-ocupar o lugar-espaço… antes de encontrar um canto para ficar-esparramar.

…uma figura intrépida que prefere mesas coletivas — porque são como um comboio, a atracar à plataforma, permitindo chegadas e partidas. Diálogos alquebrados e movimentos muitos.

…uma tempestade movida pela pulsação, a seguir a bússola interna, que aponta o Norte — o ponto exato em seu mapa de vivências. Não falha. Quem, às vezes, sou eu… pela teimosia em não ouvir esse bater sonoro. Quebro a cara. Me aborreço. Amarro os lábios.  Cruzo os braços. Me fecho dentro… e respiro fundo — balançando a cabeça de um lado para o outro, enquanto tento aquietar minhas fúrias.

…uma menina cuja religião é o abraço… que não entrega a qualquer pessoa. É preciso encaixe porque todos nós somos peças de um quebra-cabeça! E, juntos… formamos paisagens — conhecidas e pautadas pelas vivências acumuladas ao longo dos dias.

E quando há encaixe, me deixo ficar mais… e mais… e mais. Abraço forte-demorado-apertado… e não largo-solto — fácil! Porque gosto de me enroscar e me recompor. Chego uma e saio sendo outra… sem nunca saber o que deixo e o que levo comigo.


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Beda | o agosto seguinte… ao seu!

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Eu escrevo nesse agosto… o seguinte ao seu. Dois mil e dezoito, escrito por extenso. Exatamente como preferimos. Ainda não aprendi a gostar de números na forma-matemática de equações e cálculos insuportáveis.

…por extenso parece que perdem a forma-idéia-formato, e faz parecer impossível a soma.

E nesse agosto seguinte ao seu… você resolveu ler apenas poemas. Separou os livros e os empilhou em cima da mesa, do seu lado esquerdo, como de costume. Começou a ler Helder… devorando-o sem obediência de páginas. Leu por ler somente. Como gostas e preferes. Pequenos goles de café.

Ah, mas não conseguiu sossegar e ficar apenas nos versos sagrados de Borges, José Luis Peixoto, Plath e Auden.

Seu menino voltou da Biblioteca — após renovar o nosso cadastro — com ‘mar de dentro‘ de Lya Luft… e foi impossível ignorar aquelas sagradas páginas. A menina que fomos, minha cara — estranhamente — parece viver a bordo desse livro.

Ah, antes que eu me esqueça… não somos mais as mesmas. Já sou outra, desde a manhã seguinte ao seu ontem. Eu sei que não está surpresa. Consigo ouvir seu riso daqui…

Sabe a promessa que fez, em voz alta, entre um gole e outro latte… enquanto lidava com os capítulos de ‘vermelho por dentro’? Eu não a cumpri. Estou a escrever um novo livro… de crônicas. E eu já tenho o título…

…uma pausa para você respirar e colocar a água no fogo para uma xícara de chá!

…’meus naufrágios‘ vai narrar nossos fracassos — essa soma de fatos que não deram certos ao longo de nossos ‘quase quarenta anos‘ de existência. Mas, ainda não sei por onde começar. Comecei a tracejar no ar… uma espécie de mapa de escritas futuras. Pretendo tomar notas no caderno que ganhamos de J.

Escolhi a trilha sonora numa tarde que passou, durante a chuva que finalmente voltou a cair. Não houve trovões, apenas o som do asfalto molhado…

Ah, preciso te avisar: outra pessoa se foi de nossa vida… sem avisar. E, você não se importou, de novo. Preparou um jantar para o seu menino e tentou explicar. Você não leva jeito para isso. Ele sabe e não se importa. Ah, e ele também não ficou surpreso. Brindamos ao dia seguinte. Amém.

Bem, o domingo está a chegar ao fim… daqui a pouco será segunda. Dia seguinte ao seu e ao meu também. Quero ir à cozinha. Reunir ingredientes enquanto ainda é hoje.

 

Até qualquer dia seguinte, cara mia.

 


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Beda | detalhes da minha escrita ficcional…

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Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…

— John Keats —


 

No meio da tarde de hoje, novamente fui questionada sobre: como surgem os meus textos… é uma pergunta comum, que se repete de tempos em tempos. Considero uma curiosidade natural, que eu me mesma alimentei durante algum tempo, por não saber o que era causa-consequência. Sempre considerei que escrevia… por escrever somente. Amém…

Mas, enquanto percorria os trilhos de volta para casa, desenvolvi algumas teorias a esse respeito… pautadas pelas leituras que fiz de artigos que tratavam do estranho hábito dos escritores. Acabou por me oferecer enquanto hamsters para experiências laboratoriais, investigando meus processos pessoais.

Conclui que eu sempre considerei que minha escrita fosse uma espécie de reflexo natural, quase involuntário: “como um soluço-estalo-suspiro. Quando dou por mim já estou a existir dentro das linhas de uma folha de papel“…

Coloquei os fones no ouvido…busquei por uma melodia conhecida na playlist — tão moderno e infeliz dizer isso — e enfrentei o branco da tela do celular, que me oferece um bloco de notas, chamado keep — palavra perfeita para esse processo-insano.

Me ocupei da letra da música — “I’ve got some things to say / ‘Cause there’s a lot that you don’t know” — e os movimentos da realidade — dentro e fora do vagão. Percebi que um efervescer começou a acontecer dentro… uma necessidade de dizer-se sem voz. Um silêncio tão fundo-profundo que me cala, desorganiza.

Na infância… ainda sem consciência de corpo-mente, ainda inocente com as sentimentalidades, pensava ser tristeza. Lembro de dizer, com o olhar cheio, a pele devastada, como no poema ‘the wast land’ de Eliot — ‘eu sou uma pessoa triste‘. E C., me acolheu em seu abraço, que me fez chorar meus poucos anos que, naqueles dias… ainda cabiam dentro de uma única mão, sobrando dedos para depois.

Eu não era triste e compreenderia isso ao ler a poesia de Emily Dickinson anos mais tarde. Era uma menina atenta as coisas da vida — guardando-as em algum lugar de mim para depois.

Eu era uma acumuladora de vivências… uma colecionadora de futuros impossíveis. E quando a escrita dispara… tenho esse ‘mundo inteiro’ a disposição de meus dedos ágeis, que brincam de confeccionar frases-imperfeitas. Meu imaginário esparrama tudo por cima de uma mesa imaginária, e a mente escolhe o que usar-melhorar-piorar…

A minha escrita é um transbordar porque a caixa está cheia e é preciso, vez ou outra, esparramar tudo por cima da cama e reviver o que foi ontem e será sempre.

 

|  escrito ao som de secrets, p!nk  |

 

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Beda | O quebra-cabeça que sou!

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Livraria Martins Fontes, Avenida Paulista

Eu gosto de vez ou outra, fazer uma pausa na realidade das coisas e munida de uma xícara de chá… observar as peças do quebra-cabeça que sou para ver quais se encaixam e que figuras formam.

Hoje, me deparei com a imagem lírica de minha nonna. Mulher firme-decidida, de voz forte-grave e atitudes definitivas. Ela enfrentou a família para estudar Filosofia e para trocar de noivo-marido por amar-um-e-des-amar-outro.

Quando a conheci, ela já era nonna de uma dúzia e meia de netos. Adorava ver a casa cheia tanto quanto adorava o esvaziar-se dos cômodos da casa… até o verão seguinte.

Eu tive duas avós… como quase todo mundo. Uma miúda-elegante-sisuda e estranha. Outra enorme, de cabelos bem brancos e bem farta de carnes, como quase toda italiana. Figura intensa-imensa. Confiança nunca lhe faltou, verbos tampouco. Felina e ferina, sempre diz frases inteiras, bem pontuadas.

Ela foi desde sempre uma espécie de Norte para os meus olhos… gostava de ouví-la contar os muitos mitos e lendas nórdicos-gregos-celtas-escandinavos-egípcios. A história do mundo e do homem era sempre mais interessante e empolgante quando saltava de sua boca, através de criaturas incríveis-impossíveis que sua voz desenhava em meu imaginário.

Em sua cozinha, ela inventava os melhores doces e reinventava as receitas da mãe que, pouco antes de morrer, confessou sentir orgulho da filha, que se fez mulher pelas próprias mãos. A nonna sempre foi o Lado B de si mesma. Suas infusões secretas — galhos, raízes, folhas cascas — curavam dores reais e inventadas. Não havia sofrer que não se extinguisse.

Foi ela quem me ensinou a não me limitar a uma só cultura-religião. A não me curvar diante de Chronos e escutar o poderoso eco de Kairos em meu peito. E foi ela quem segurou firme a minha mão e disse num sem-voz: “faça sempre o seu melhor, não pelos outros, por si. Não espere pelo dia seguinte e não perturbe o dia de ontem. Seu relógio marca sempre a mesma hora, todos os dias, mas a gente teima em inventar outros ritmos, só para nos atropelar e permitir arrependimentos que são modernas formas de desperdício. Não se oriente por falsos exemplos. Seja fiel a si e não aceite tudo que te oferecem. Aproveite cada minuto de vida. Mas desperdice um pouco também, para não chamar a atenção do mundo. Não corra. Apenas siga”.

Sempre sábia em suas ponderações, ela se diz feliz pelos anos que coleciona na soleira de seu corpo. Envelhecer? Ela diz que é inevitável, um processo sem volta, que dispara no exato instante da concepção. Viver é isso. Não rima, mas é como um vício — depende-se. E ela afirma, do alto de seus não sei quantos anos e todas as suas lindas rugas que só se incomoda com os desgastes do corpo, quem não deu corda nas emoções e não ouviu cantar o cuore.

Ainda hoje, nesse tempo depois da infância, sinto arrepios na pele-corpo-alma ao ouvi-la. O sorriso percorre os lábios de lado a lado e eu ouço Kairos suspirar os aromas de uma vida inteira: café preto no bule, bolo de fubá no forno, o tapete da porta de entrada, a manta vermelha no sofá da sala, a xícara de chá de hortelã nas tardes frias, o olhar amendoado nos dias tristes e o sorriso branco-imenso nas manhãs à nossa chegada. Eu ainda me lembro dela, sentada na cabeceira da mesa… no último ano em que estivemos todos juntos.

Don´Anna nunca foi de fazer somas. Isso era coisa do nonno. Ela gostava mesmo era de acenar com a mão bem aberta no ar… e fechar a porta. Dizia com um tom ameno: ‘avisem quando chegarem’. A gente sumia em seus braços e só reaparecia quando estávamos longe…

 

| escrito ao som de say |

 


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