Capítulo 04 | voltar a escrever…

Eu tinha sete anos — talvez um pouco mais — quando decidi escrever um texto — o primeiro — e para isso imitaria — inconscientemente — o mio nonno, que se sentava diante da sua Remington Victor T, estalava os dedos e escrevia — repetindo cada uma das palavras em voz alta. Ele precisava agradar os ouvidos e quando não acontecia… usava um lápis-preto para riscar a frase… e reescrevê-la. (dezenas de vezes)
Gostava do que parecia ser um ritual — folha em branco, carbono, outra folha em branco. Uma pequena batida na mesa e o encaixe no tambor… tomando o devido cuidado para que as folhas ficassem perfeitamente alinhadas na horizontal. Um pesado gole de café e os dedos em movimento no ar… só então começava a sinfonia — uma metralhadora a disparar palavras, a ferir gravemente o papel.
Eu adorava observá-lo, ouví-lo… sabia que ele não era um Escritor — não tinha livros publicados. Era apenas um homem simples, criador de cavalos, cultivador de uvas-oliveiras e um habilidoso contador de causos — que escrevia crônicas nas manhãs de sábado e as publicava no jornal da cidade, que pertencia a um velho amigo.
Quando saia para caminhar seu lugarejo… se divertia com os relatos sobre seus escritos. As pessoas gostavam de se reconhecer em suas linhas. Saber-se personagem de suas narrativas curtas e pareciam felizes por saber o lugar do texto. Sempre havia alguém disposto a lhe pagar um cálice de vinho ou uma caneca de cerveja.
Quando me proponho a começar um texto — revisito esse ontem, incontáveis vezes. Agito os dedos no ar… aceno à memória, as emoções, respiro fundo e escrevo dentro — primeiro. Só então me atrevo a disparar palavras na tela… é sempre bom voltar a escrever.

Anúncios