31 — As mentiras que nos esquecemos de contar

Caríssimo P, Sai cedo para uma caminhada pelo bairro… antes de o sol despertar e aquecer a paisagem, caramelizando-a. Enquanto espiava a anatomia dos prédios e algumas casas sobreviventes, lembrei-me de nós dois e da nossa correspondência constante. Há tempos não lhe escrevo e não é por falta de tempo. Algumas frases se organizam emContinuar lendo “31 — As mentiras que nos esquecemos de contar”

23 — Queimávamos madrugadas de fio a pavio

Cara mia, Ainda há pouco… antes de me sentar aqui para escrever-te — abri o meu velho diário e um envelope antigo saltou lá de dentro… Foi ao chão. O recolhi… detendo-o em minhas mãos por alguns segundos — enquanto espiava o passado contido em seu avesso. Recordei tudo que foi e não foi… SentiContinuar lendo “23 — Queimávamos madrugadas de fio a pavio”

21 — Eu me lembrei de você, em mim

“Imaginar não é lembrar-se. Certamente uma lembrança,à medida que se atualiza, tende a viver numa imagem:mas a reciproca não é verdadeira, e a imagem pura e simplesnão me reportará ao passado a menos que sejaefetivamente no passado que eu vá buscá-la,seguindo assim o pregresso contínuo quea trouxe da obscuridade à luz” — Henri Bergson —Continuar lendo “21 — Eu me lembrei de você, em mim”

15 — Caminho… e atrás de mim caminham lugares

Caríssima A.a, Comecei a sentir o verão em meu corpo nessa última semana. Vi o sol com seu dourado gasto tingir a fachada dos prédios da alameda. Soube que seria um longo dia azul, com horas abafadas e promessas não cumpridas de chuvas. Eu não sei como as pessoas conseguem ser felizes no verão. EuContinuar lendo “15 — Caminho… e atrás de mim caminham lugares”

10 — Às vezes, paro a porta, com o olhar perdido e habituado ao silêncio

Pois de tudo fica um pouco. | Fica um pouco de teu queixono queixo de  tua filha.  | De teu áspero silêncioum pouco ficou, um pouco  |  nos muros zangados,nas folhas, mudas, que sobem. Carlos Drummond de Andrade Cara M., Hoje eu vi S. rapidamente… e levei um susto ao reconhecer os contornos dela no sentidoContinuar lendo “10 — Às vezes, paro a porta, com o olhar perdido e habituado ao silêncio”

09 — Reencontrada em lugares inesperados

Caríssima A., Acordei dentro do breu — ainda madrugada — com o silêncio das alamedas. Que vontade de ir lá para fora… apenas com a roupa do corpo — sem proteções e medos. Ainda não consegui me desvencilhar de certos receios: tenho consciência de que não deixarei de usar máscaras tão cedo, por mais queContinuar lendo “09 — Reencontrada em lugares inesperados”

08 — Ocupar o silêncio da casa

Cara mia, Anoiteceu aqui dentro, cara mia… mas não olhe para os ponteiros do relógio — que insistem em dizer outras horas que não as que trago dentro do peito. Mio cuore — convertido em carrilhão — discorda das horas do dia. Acostumado que está a dar de ombros para a teimosia de Cronos — deusContinuar lendo “08 — Ocupar o silêncio da casa”

02 — Não só de café vivem os loucos

E abre-se o mundo por mil portas simultâneas.Quem aparece? E outras mil portas sobre o mundose fecham. Tudo se revela tão pereneque eu é que sou translúcida morta. Cecília Meireles Cara mia, Penso em escrever-te há dias, mas os ponteiros do relógio não sossegam e os dias no calendários avançam impiedosos. Disseram-me que Agosto eraContinuar lendo “02 — Não só de café vivem os loucos”

* Nada é tão líquido assim…

Remexia em coisas antigas no final da tarde de ontem, com a alma afundada em melancolia, e acabei por encontrar uma velha caixa de madeira, que fez abrir o casulo da memória. Relembrei uma viagem, feita na companhia de C, — percorremos as ruas estreitas, de uma pequena cidade alemã — afundada entre montanhas —Continuar lendo “* Nada é tão líquido assim…”

19 | O que a memória nos recorda (?)

Recordei enquanto degustava uma generosa xícara de chá de um correspondente com quem troquei cartas durante anos. M., era um signore muito generoso com as palavras, que vivia em Santa Maria da Feira, em Portugal. As missivas escritas por ele… chegavam dentro de um envelope artesanal, na primeira e última semana do mês, respectivamente… Suas linhasContinuar lendo “19 | O que a memória nos recorda (?)”