20 | sempre a lápis…

“Se há uma coisa boa de ler, é uma carta” — escreveu Otto Lara Resende em uma de suas crônicas. E se você já teve o prazer de receber um envelope com o seu nome impresso no verso, sabe que é impossível não concordar com o autor.

Mas, eu iria além e diria — ‘se há uma coisa boa de se escrever nesse mundo, definitivamente é uma missiva-carta‘.

Existe todo um ritual… o tipo de papel, o envelope, o momento. Eu tecia a maioria de minhas missivas à lápis. Uma ou outra foram escritas na velha máquina de escrever… que ganhei de mio nono. Gostava imenso de alimentar aquela velha máquina rabugenta com duas folhas de papel sulfite e o carbono. Sempre fiz cópias das missivas escritas-e-enviadas. As colecionei por algum tempo…

Sentava-me em um canto, abria o envelope… e lia — pau.sa.da.men.te a missiva recebida. Imaginava o lugar de origem. Os movimentos da caneta no papel. Respirava fundo! E me inaugurava em diálogo.

Falava de mim… da pessoa que acreditava ser e na qual estava len.ta.men.te me transformando. Do lugar que ocupava… o quarto-cidade-escola. Narrava o que chegava ao meu olhar e as ilusões que brotavam em minha mente.

Sem dúvida era uma troca justa. Mas, o que meus correspondentes não sabiam é que ao escrever à eles, eu aprendia o ritmo da minha escrita. Ainda hoje, quando me sento diante do ecrã… para escrever meus posts — nesse espaço-contemporâneo-moderno — penso em folhas de papel de amarelecidos tons, envelopes vermelhos… e dou ritmo ao diálogo.

Meus posts não deixam de ser uma missiva com destinatário diverso. Sometimes inesperado. Gosto de pensar nessa janela como um selo para o meu envelope vermelho.

Tecer uma missiva é um aprendizado, por isso, sempre que me perguntam: ‘qual curso de escrita eu indico’ (?) — respondo sem titubear: cartas… escreva cartas. Encontre correspondentes. Sinta o lápis-caneta avançar em segurança pela folha de papel. Converse com o seu correspondente. Fale de si… sem amarras. Deixe fluir…

E leia as muitas missivas de outros escritores. Há várias publicações que nos mostram esse exercício que, durante anos, foi bastante comum entre aqueles que escreviam. Percebam o tempo, o momento, a pessoa por trás das linhas e também a frente delas.


beda

Anúncios

28. No interior do silêncio mais silêncio

screenshot_20181226-125551~24253136806547360108..png

.

 

Carissima A.a,

…sento-me aqui nesse ‘meu canto de mundo’ — esse lugar entre esquinas — para onde fujo quase que diariamente, em busca de paz. Aqui sinto minha alma ser povoada com todos os elementos que preciso para existir nesse meu espaço-tempo. Uma espécie de halo se forma na realidade e eu mergulho — a cada gole — nesse abismo que sou! Na pele acontece a simbiose… tudo que me tocou até chegar aqui: emerge.

Ouço Mercedes Sosa — ‘todo cambia’ — enquanto re-visito suas linhas — ainda frescas em minha memória: “acabo por concluir que cada prato, cada música, cada poema, cada livro…  e não seus autores é que contam“…

Fecho os olhos, me afasto de sua escrita e fico dentro da canção… sinto o efeito da música na pele: ‘cambia, todo cambia — cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’…

Volto à realidade… repouso em meus vazios. Passei algum tempo sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse espaço, que é parte da minha anatomia. Meu Lado B., escreve aqui… sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural… sem compromisso algum com a realidade e suas academias. Gosto e preciso desse escrever livre — sem amarras, solto no ar-espaço-tempo. Uma frase escapa e eu refaço meus mapas particulares. Narro minhas vivências-conflitos-dúvidas… ralho com meus desaforos! Afronto vontades-desejos. Dou risada de meus questionamentos e das perguntas que não preciso fazer por não estar interessada em obter respostas. Gosto do impossível… do não saber.

Gosto imenso de escrever-me, sabendo que se trata de um diálogo com alguém, feito uma garrafa atirada no mar, com um bilhete dentro. Alguém há de encontrar e percorrer o caminho de volta.  Se a onde chegar até você, hei de saber!

Au revoir

 

.

| MISSIVAS DE PRIMAVERA |

27. Nessa manhã de outubro, respiro!

DSC_0121

.

“Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna”

— Wislawa Szymborska —

.

Caríssima A.a.,

…o dia amanheceu cinza-nublado por aqui, mas não há previsão de chuva… ao menos é o que diz a moça da previsão do tempo — tão confiável quanto os horóscopos diários.

Passei um punhado de dias em branco, minha cara. Completamente desalojada do corpo. A deriva, com o imaginário a naufragar e com o pensamento em total desordem e fui em busca de conforto para a alma, na poesia de Wislawa… um amor feliz (cia das letras) — e enquanto saboreava seus poderosos versos, comecei a tracejar esse nosso diálogo…

lemos as cartas dos mortos como deuses impotentes, 
mas deuses assim mesmo, porque conhecemos as datas posteriores
sabemos quais dívidas não foram pagas
com quem as viúvas rapidamente se casaram

Me distrai da realidade a combinar os escritos (os seus e de Wislawa) e me lembrei das muitas linhas lidas nos últimos dias — escrita contemporânea, que me levou a suspirar meu desconforto antes de afirmar em voz alta: o atual momento da literatura vai mal.

E a turba se repete, like always! — as grandes livrarias do ramo já conhecem o movimento dessas ondas e se anteciparam. As melhores histórias ainda são as mais antigas: os nossos bons e velhos clássicos… a quem recorremos quando o momento atual não nos oferece conteúdo. Ainda somos Macunaíma. Orgulho e Preconceito. Dom Casmurro. Crime e Castigo. Vidas Secas. Orlando e tantos outros.

Ainda somos e não sei se algum dia… deixaremos de ser! Certos momentos se esgotam… mas, como antidoto para os possíveis efeitos, inventaram a frase clichê: “tudo que havia para ser feito, já foi feito“. Será que existe algum conforto nisso?

Não! Mas como ainda somos os mesmos… avessos as mudanças e ao novo, que fingimos celebrar e bendizer depois do amém — tudo bem! Até por isso, os velhos clássicos ganham de tempos em tempos uma nova capa… satisfaz os desejos e as vontades de velho e novo.

Nós já nos acostumamos a essa realidade falsamente mutável… usamos maquiagem para esconder as rugas, disfarçar os anos e enganar o espelho. Mas ainda somos os mesmos, do lado de dentro… com nosso velho discurso conhecido e gasto.

Ah, minha cara… eu ando com algum receio dessa ‘onda’ nada discreta que começa a varrer o país. Eu conheço esse roteiro e já vi esse filme. Acho que estamos a transitar por uma espécie de areia movediça — que está pela cintura. Afundamos cada vez mais rápido e eu lhe pergunto: por que ninguém repara?

Começou a chover, minha cara… a moça da previsão se equivocou de novo, como muitos de nós em nossas ações nada românticas. Eu sirvo o chá… você serve a poesia?

au revoir

.

.

| MISSIVAS DE PRIMAVERA |

‘novos’ contos de Mário de Andrade…

contos novos mario de andrade

 

Dia demasiadamente quente… é janeiro! Tudo me frustra-incomoda-aborrece. A paz se dissolve em cada gota de suor que escorre pelo meu rosto quente. Há luz demais… e o sol não cede — faz arder o asfalto, minha pele, as paredes dos prédios. A paciência é carregada pela chuva que cai a cântaros depois das três.

E a moça do tempo anuncia —, no Jornal do meio-dia — com suas frases prontas-risonhas, que: ‘é o verão mais quente dos últimos quarenta anos’. Como se saber dessa fatídica novidade, me ajudasse a sobreviver a esses trinta e seis graus… que os relógios empalhados no meio da Avenida Paulista… anunciam, como se soubesse se tratar de um desaforo.

Eu evito as ruas, mas nem sempre é possível ficar a salvo — diante do ventilador. Às vezes, é preciso sair, principalmente quando se anuncia o lançamento do ‘novo’ livro de Mário de Andrade — contos novos — na Livraria Cultura, do Conjunto Nacional.

Os contos escritos por Mário de Andrade em vida e publicados após sua morte… trazem personagens extraídos da realidade, através de suas observações do cotidiano ou de si mesmo. E, no prefácio, um trecho da missiva escrita ao amigo Fernando Sabino nos faz conhecer melhor o autor-homem-mário — figura intensamente insatisfeita com sua escrita… sempre inacabada, nunca pronta.

 

“Quando me lembro os milhares de páginas que escrevi, versos, meditações, contos, romances, quase sempre ficados por acabar “mais tarde”. As coisas iam se acumulando, passavam dois anos, três. Um dia era preciso desentulhar as gavetas e eu ficava uns quinze dias lendo um autor esquisito que não era meu conhecido, mas que eu não reconhecia bem mais, porque já tinha mudado. E era aquela devastação. Quase tudo ia pra cesta, e bem rasgadinho, rasgadíssimo pela preciosa vaidade de que ninguém, uma criada,  lixeiro pegasse aquilo pra ler, rindo de mim. E principiava entulhando gaveta outra vez, livre! gratuito? no meio reino sem fadiga de criar! Era bom e foi tantas vezes sublime!”

Carta a Fernando Sabino, escrita em 08 de junho de 1942

1. Nada é tão líquido assim…

pr

Meu Caro P.,

 

…remexia coisas antigas nesse fim de tarde, com a alma afundada em melancolia, quando encontrei uma velha caixa, que fez abrir o casulo da memória, em meu corpo.

Relembrei uma viagem, feita na companhia de C… percorremos as ruas estreitas, de uma pequena cidade alemã, com suas casinhas iguais e algumas lojinhas. Numa delas, encontrei essa caixa de madeira-artesanal… que anos mais tarde, usei para guardar a nossa correspondência.

Quando foi que nos perdemos? Foi o que me perguntei ao espalhar os envelopes, por cima da mesa da cozinha. Nos escrevíamos, com frequência voraz e as datas do carimbo postal estão ali a marcar a passagem do tempo através das nossas narrativas incansáveis.

Na primeira missiva… um poema de Eliot, seguidas por um punhado de frases eufóricas, de um menino-homem que achou melhor se apresentar: “creio que seja melhor dizer-me, já que somos apenas verão, sol quente e dias imensamente azuis. Não parece justo que não saiba que sou outono na maior parte do tempo e que vivo a tentar compreender que as manhãs se fizeram prisões e os dias sementes que nunca nasceram. Não sou triste, embora seja essa a impressão deixo nos olhos de quem ousa me olhar, mas a verdade é que não-sou, mas sonho Ser” (…)

Li tantas e tantas vezes aquelas linhas… recordei seus olhos. Nunca me pareceram tristes. Acanhados. Você nos mantinha baixos, rentes ao chão, como se quisesse evitar que enxergássemos dentro.

Mas ao transcrever-se para o papel, atracou em meus olhos e iniciamos a nossa troca, que durou até que o silêncio se impôs entre nós dois. Você não me escreveu mais… nem eu à você.

Mas, eu guardei todas as nossas missivas… e, agora que não está mais por aqui… volto a elas, como se fosse um de nossos verões e realizo todo o ritual de fazer malas, embarcar, apreciar a paisagem, conhecer figuras inéditas, mentir a elas sobre nome-realidade e te encontrar de braços abertos na estação.

Ao folhear a nós dois, no fim dessa tarde-cansada-de-novembro-outono… você se cansou de sua eternidade e veio bebericar essa xícara de chá de hibiscos e juntos, com as mãos encaixadas por cima da mesa, voltamos aos nossos versos de Eliot — ‘A meia-noite chacoalha a memória / Como um louco chacoalha um gerânio morto’…

Au revoir,